Jung escreveu em algum lugar de sua imensa obra que a imagem de Cristo na cruz representa de maneira única a experiência humana. A tensão de opostos, o claro e o escuro, a santidade e o pecado, a pressão da vida invisível e a nossa necessidade de sobreviver, criar, viver no mundo material. A parte vertical da Cruz representa nossa pulsão de desenvolvimento espiritual, para cima ou para baixo. A parte horizontal é nossa vida material, como a flecha do Tempo.
A Tensão dos Opostos está em todos nossos sintomas, nossos impasses e medos. Uma forma particularmente dura onde essa tensão se manifesta é na Dúvida. Uma dúvida com D maiúsculo por conta do seu efeito em quem está preso dentro dela. Sempre penso que os exorcistas gritando com as meninas possuídas por demônios estão tentando o que se tenta quando estamos atolados na Dúvida e na Treva: a sensação de duvidar de tudo e de nada poder desatolar o que está atolado. Saia dessa Dúvida, encontre o Caminho. Esse deve ser o grito dos exorcistas.
No filme que serviu de base aos últimos posts desse blog, “O Mínimo para Viver”, disponível no Netflix, a personagem principal, Ellen, padece de uma doença gravíssima, a Anorexia Nervosa e pula de internação em internação sem conseguir ganhar peso. A Anorexia Nervosa talvez seja o transtorno psiquiátrico mais letal, seja por suicídio ou por complicações relacionadas à inanição. Eu vi uma paciente com esse quadro morrer com uma esquisitíssima infecção fúngica generalizada. A moça via com ódio e depois indiferença a nossa tentativa desesperada de alimentá-la, sem sucesso. Lembrei dela ao ver a saga da personagem. Ellen sabe que precisa comer, mas não consegue se mexer. Está paralisada no meio da Grande Dúvida. Paralisada com medo da comida. Comer significa algo pior do que morrer, que é enfrentar o Medo paralisante.
O filme mostra Ellen internada numa clínica, com pacientes anoréxicos e uma obesa. A grande Dúvida se manifesta em todas as tentativas de burlar o tratamento que todas as pacientes cometem: a vizinha de quarto vomita na sacola; Ellen faz flexões na cama e corre pela escada. O Cérebro Racional entende as tentativas da equipe e do psiquiatra panaca de ajudá-la, mas algo está bloqueado na Cruz. Ela não consegue se mover na direção da melhora. Só consegue resistir e, resistindo, emagrece ainda mais. Seu psiquiatra diz que ela precisa se mover, ela simplesmente não consegue.
“ Baby, baby/ Não adianta chamar/Quando alguém está perdido/ Procurando se encontrar”. É a segunda vez que eu cito essa música de Rita Lee. Esse é um ponto em que todo mundo, todo mundo pergunta ao médico e se pergunta: como posso ajudar? As tentativas de ajuda muitas vezes pioram a situação.
Eu chamo essa fase de A Letra porque me lembra a cena de Indiana Jones andando sobre as letras que compõem o Caminho. As letras são do nome de Deus, Iaveh, e ele cai no precipício se pisar na letra errada. Esse é o caminho delicado para sair da crise, ou da situação difícil. Pisar nas letras, sem poder dar um passo em falso. Tentar apressar não funciona, tentar resolver na porrada, menos ainda. Como ajudar? Não arredando pé de estar ao lado de quem está perdido, procurando se encontrar. Essa é uma dádiva, ter alguém que não tira os olhos de você. No caso de Ellen, um interno é apaixonado por ela, Luke. Ele é o anjo que não tira os olhos dela e tenta guiá-la ao caminho de volta. Numa sessão de terapia familiar, Ellen fala: “Lamento ter deixado de ser uma pessoa e ter virado uma doença”. Essa é uma batalha de todo dia: fazer o paciente deixar de ser uma doença e voltar a ser humano. Deixar de ser um paciente e passar a ser um agente da própria cura. Para isso, ela precisa acreditar. Até Jesus quando curava dizia: “A sua fé te curou”. A fé é o salto sobre a Grande Dúvida. Pode ser uma dádiva, mas é no mais das vezes uma Prática. Uma prática e uma conquista, que vem através da experiência. Ou através da caminhada no escuro. Campbell a chamou de Jornada Noturna. É um terrível e preciso nome para essa fase do processo. Na Jornada Noturna, só se sabe que temos que prosseguir, mesmo sem saber porquê. Ou para onde. Diria o poeta: “Navegar é preciso/Viver não é preciso”. Acho que sei do que ele estava falando.
O psiquiatra fala para Ellen: “As coisas ruins vão acontecer e não há nada que você possa fazer para evitá-las. Mas você vai precisar prosseguir e construir a sua vida. Não adianta tentar controlar tudo”. Ela entende (e muita gente entende assim) que ele não está nem aí para seu sofrimento é um louco tentando levá-la para lugar algum. Isso não é uma experiência incomum para um curador, ser entendido como um louco indiferente e sádico. Já passei por isso um par de vezes, pode-se assim dizer. O curador quer curar. Precisa que o paciente acredite e deixe de ser paciente, mas agente da própria cura.
A Jornada é longa e pior, não sabemos quando acaba. Só sabemos que navegar é preciso.
Mostrando postagens com marcador Ananké. Jornada de Transformação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ananké. Jornada de Transformação. Mostrar todas as postagens
domingo, 8 de outubro de 2017
sábado, 23 de setembro de 2017
Até o Osso - A Pedra
Para quem não leu o último post, uma rápida atualização: 1 - Faltam mais três posts para esse blog terminar; 2 - Estamos falando das fases de uma Transformação Psíquica, usando como base o filme do Netflix - “To the Bone” , traduzido (?) como “O Mínimo para Viver”. As fases da Transformação foram chamados por esse escriba de : 1 - A Perda; 2 - A Pedra; 3 - A Letra; 4 - O Perdão. Na verdade, gostei dos Pês que iniciam e da sonoridade das palavras. Os sons e os trocadilhos. Mas não é disso que vou falar.
A Perda inicia a jornada. Pode ser uma perda boa. Quando nasce um filho, você perde tudo o que foi a sua vida antes disso. Nada será como antes. É uma ótima perda. Existe uma porcentagem de pais tendo Depressão Pós Parto. Será que somos uma geração pilhada demais? Depois de 612 posts desse blog, podemos concluir que sim. Somos. O fato que a Perda seria melhor chamada de “Ponto de Mutação”, “Ponto de Virada”. Algo assim. No caso do filme “To the Bone”, Ellen faz um blog ou posta nas redes sociais seus desenhos e sua cultura anoréxica. Sim, existem grupos de Cultura Anoréxica, onde se partilha qual o melhor caminho para a morte por inanição. Ellen posta seus desenhos e fala sobre o que sabe, que é o Desespero e o mergulho na Dor. Vivemos uma civilização tão Apolínea em sua obsessão pelo correto, o simétrico, o design perfeito para a sua vida e o Photoshop magnífico para seu perfil no Instagram, não é? Ellen mostra o seu caminho de dor e de visceralidade, na mutilação do próprio corpo que não consegue evitar. Ellen é Dioniso despedaçado. É o espelho invertido de nossa sociedade obesa. Uma de suas fãs se suicida, e deixa o bilhete dedicando o ato a ela, sua musa. Ellen descamba na Anorexia, entra e sai de clínicas e fica pulando entre as casas dos pais separados. Ela não sabe, mas esse é o Ponto de Virada.
Uma família despedaçada, se engalfinhando na terapia familiar. Um pai ocupado demais correndo atrás de dinheiro. Ananké berrando entre as refeições (se o leitor quiser saber sobre Ananké, favor ler o post anterior). Descer ao Inferno é mais fácil que voltar. Para voltar, a Pedra. Ela vai achar o caminho ou se perder de vez.
No treinamento dos feiticeiros e xamãs mexicanos, uma das passagens da iniciação era viver ou trabalhar com o Tirano. Chefes, cônjuges, figuras parentais, tudo serve para treinar esse núcleo indestrutível que precisamos criar internamente, quando vivemos sob pressão. Os xamãs passam por provas inacreditáveis e vibram quando encontram um bom Tirano para treinar a resistência ao sofrimento. Ficariam felizes hoje com a vida no Mundo Corporativo. Temos muito tiranos por lá.
Enquanto a Pedra não se forma, estamos sempre dilacerados pelas dúvidas, os medos, os fracassos. A Internação de Ellen na Clínica Limiar tem essa característica de trabalhar, a todo custo, a Pedra. Ellen tem horror de engordar. Se comer, imagina que vai ficar gorda, e mais gorda e mais gorda até explodir. Ela tem pavor de comer. Pavor das calorias. Para tomar as decisões, para enfrentar o medo aterrorizante, ela precisa tolerar a frustração, o medo, as inevitáveis decepções que todo dia a vida joga em sua cara. Para passar o limiar, é preciso ter um núcleo forte. Resiliente. Essa é a Matéria Prima da Pedra Filosofal. Quem não cria a Pedra Interior, passa a vida escorregando em um Ego de gelatina. Por isso é importante passar pelo crivo da vida. E muitos se perdem no caminho.
Na Perda e na Pedra, Ellen sente a dureza da caminhada. O calor da prova, e vai ser provada quase todo dia. Ela e as outras meninas internadas tentam a todo custo fugir da Comida, que significa Engordar. Engordar significa crescer. Todas sabem que Ananké, a deusa da Necessidade, manda que comam, que voltem para a Vida, que enfrente o Medo terrível de perder o controle.
Terapeutas passam o dia moldando as pedras, ou vendo as pedras se fortalecerem muito, muito devagar. São muitas tentativas e muitos erros para se ganhar consistência. E consciência. Vivemos numa época em que ninguém mais quer bater o creme de leite até ele virar manteiga.
O filme mostra o papel da equipe, mostrando os nervos expostos do Real: a balança, as refeições, a necessidade de encontrar a vida onde ela se perdeu, em meio aos vômitos e os laxantes. Acho que perdemos, como sociedade, a capacidade de dar esperança para essas crianças durante a jornada. Não tem nada mais cruel nesse filme do que o retrato dos pais, egoístas, autocentrados e, acima de tudo, autocomplacentes. Talvez esse narcisismo primário que deixe os jovens à deriva.
A Perda inicia a jornada. Pode ser uma perda boa. Quando nasce um filho, você perde tudo o que foi a sua vida antes disso. Nada será como antes. É uma ótima perda. Existe uma porcentagem de pais tendo Depressão Pós Parto. Será que somos uma geração pilhada demais? Depois de 612 posts desse blog, podemos concluir que sim. Somos. O fato que a Perda seria melhor chamada de “Ponto de Mutação”, “Ponto de Virada”. Algo assim. No caso do filme “To the Bone”, Ellen faz um blog ou posta nas redes sociais seus desenhos e sua cultura anoréxica. Sim, existem grupos de Cultura Anoréxica, onde se partilha qual o melhor caminho para a morte por inanição. Ellen posta seus desenhos e fala sobre o que sabe, que é o Desespero e o mergulho na Dor. Vivemos uma civilização tão Apolínea em sua obsessão pelo correto, o simétrico, o design perfeito para a sua vida e o Photoshop magnífico para seu perfil no Instagram, não é? Ellen mostra o seu caminho de dor e de visceralidade, na mutilação do próprio corpo que não consegue evitar. Ellen é Dioniso despedaçado. É o espelho invertido de nossa sociedade obesa. Uma de suas fãs se suicida, e deixa o bilhete dedicando o ato a ela, sua musa. Ellen descamba na Anorexia, entra e sai de clínicas e fica pulando entre as casas dos pais separados. Ela não sabe, mas esse é o Ponto de Virada.
Uma família despedaçada, se engalfinhando na terapia familiar. Um pai ocupado demais correndo atrás de dinheiro. Ananké berrando entre as refeições (se o leitor quiser saber sobre Ananké, favor ler o post anterior). Descer ao Inferno é mais fácil que voltar. Para voltar, a Pedra. Ela vai achar o caminho ou se perder de vez.
No treinamento dos feiticeiros e xamãs mexicanos, uma das passagens da iniciação era viver ou trabalhar com o Tirano. Chefes, cônjuges, figuras parentais, tudo serve para treinar esse núcleo indestrutível que precisamos criar internamente, quando vivemos sob pressão. Os xamãs passam por provas inacreditáveis e vibram quando encontram um bom Tirano para treinar a resistência ao sofrimento. Ficariam felizes hoje com a vida no Mundo Corporativo. Temos muito tiranos por lá.
Enquanto a Pedra não se forma, estamos sempre dilacerados pelas dúvidas, os medos, os fracassos. A Internação de Ellen na Clínica Limiar tem essa característica de trabalhar, a todo custo, a Pedra. Ellen tem horror de engordar. Se comer, imagina que vai ficar gorda, e mais gorda e mais gorda até explodir. Ela tem pavor de comer. Pavor das calorias. Para tomar as decisões, para enfrentar o medo aterrorizante, ela precisa tolerar a frustração, o medo, as inevitáveis decepções que todo dia a vida joga em sua cara. Para passar o limiar, é preciso ter um núcleo forte. Resiliente. Essa é a Matéria Prima da Pedra Filosofal. Quem não cria a Pedra Interior, passa a vida escorregando em um Ego de gelatina. Por isso é importante passar pelo crivo da vida. E muitos se perdem no caminho.
Na Perda e na Pedra, Ellen sente a dureza da caminhada. O calor da prova, e vai ser provada quase todo dia. Ela e as outras meninas internadas tentam a todo custo fugir da Comida, que significa Engordar. Engordar significa crescer. Todas sabem que Ananké, a deusa da Necessidade, manda que comam, que voltem para a Vida, que enfrente o Medo terrível de perder o controle.
Terapeutas passam o dia moldando as pedras, ou vendo as pedras se fortalecerem muito, muito devagar. São muitas tentativas e muitos erros para se ganhar consistência. E consciência. Vivemos numa época em que ninguém mais quer bater o creme de leite até ele virar manteiga.
O filme mostra o papel da equipe, mostrando os nervos expostos do Real: a balança, as refeições, a necessidade de encontrar a vida onde ela se perdeu, em meio aos vômitos e os laxantes. Acho que perdemos, como sociedade, a capacidade de dar esperança para essas crianças durante a jornada. Não tem nada mais cruel nesse filme do que o retrato dos pais, egoístas, autocentrados e, acima de tudo, autocomplacentes. Talvez esse narcisismo primário que deixe os jovens à deriva.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Até o Osso
Numa das cenas iniciais do filme do Netflix “To the Bone” (“traduzido” lamentavelmente em “O Mínimo para Viver”) a madrasta de Ellen, a personagem principal desse filme novamente polêmico, mostra o corpo desnutrido e caquético de sua enteada com o celular e pergunta: você acha isso realmente bonito?
Desta vez, a polêmica do Netflix é com a Anorexia Nervosa, Em Thirteen Reasons Why, a polêmica era sobre suicídio em adolescentes. Podemos reunir todo o material do gênero e criar um grupo, sobre Relatos de um Amadurecimento Difícil. Álcool, Drogas, Bullying, Skin-Cutting, Violência e Suicídio, são muitos os Mata Burros que obstruem o caminho do jovens, que há tempos espelham nossos tempos revoltos.
A madrasta de Ellen é um personagem bem interessante, pelo estereótipo de madrasta perua e sem noção, que parece estar empurrando a enteada para a morte. Com o decorrer do filme dá para perceber que ela é a única figura parental que persiste no tratamento e enfrentamento do inferno pessoal que Ellen está passando. Ela que trás um bolo inacreditável. com hamburguer de açúcar escrito : “Coma Ellen”. Dois erros brutais. Na Anorexia, o objetivo nunca é a beleza em si, a magreza é um valor absoluto. Uma pessoa portadora desse Transtorno Alimentar não consegue enxergar como está o seu corpo, muito menos atribuir alguma beleza àquele corpo de prisioneiro do Holocausto.O que está em questão é o medo, o horror de ganhar peso. O medo carregado de terror de ver o corpo mudando e ganhando forma. Portanto, mostrar o espelho e perguntar se acha aquilo bonito é duplamente errado na Anorexia Nervosa: a pessoa não enxerga a magreza e não quer ser bela ou desejável, apenas quer evitar o ganho de peso mesmo que à custa da própria vida. Um bolo escrito (“Coma Ellen”) vai apenas criando um nojo e uma repulsa progressiva por qualquer tipo de comida. Num trecho do filme, Ellen menciona que morre de fome e sonha com comida a maior parte de tempo. Mas morre de medo do ato de comer.
Na Internet e na blogosfera existem grupos de apoio para Anorexia Nervosa. A questão é os Pro Anas, grupos que defendem e estimulam o comportamento de restrição alimentar, magreza extrema e uso de medicamentos para reduzir o peso. Ellen tem um desses blogs, o que acaba criando um problema. Uma de suas “seguidoras” morre, e seus pais enviam e publicam as fotos do que restou de seu corpo. A dificuldade de inserção de Ellen, sua tendência autodestrutiva se exacerbam depois desse evento. Não ganha mais peso e vive sendo expulsa das clínicas e dos tratamentos.
Ananké é a deusa grega da Necessidade. Não sei se alguém percebe, mas ela aparece na Bíblia bem cedo. E eu sei que Bíblia não é um tratado de Mitologia Grega. Pois logo no Genesis, quando Elohim expulsa Adão e Eva dos Jardins do Eden, ele profere as tarefas, ou os castigos: “Eva, parirás em dor”; “Adão, ganharás o pão com o suor de teu rosto”. Aí está Ananké. Ou a boa e velha Realidade. Toda a criação da vida envolve a dor. E ganhar o pão é uma tarefa bem complexa desde que deixamos o Eden. Trabalhar, se formar, produzir, consumir. Nasça, estude, cresça, consuma, morra. Essas são as leis da deusa Ananké. Elas pareciam mais simples no tempo de meus pais. Parecem mais difíceis no tempo de meus filhos. Eu sei que Ananké anda fazendo a festa nesse tempo de transição de Economia, de mundo, de Consciência. Muita gente está sentindo o descolamento e a falta de encaixe nas leis de Mercado. Sim, as leis de mercado são o lugar de Ananké.
Ellen parou a faculdade, não tem amigos e seu blog foi encerrado pela morte horrível de uma seguidora. A sua mãe é uma Bipolar em constante enfrentamento de quadros depressivos e seu pai trabalha o tempo todo e não aparece no filme. Mas é sempre um personagem das conversas. “Seu pai queria ter vindo, mas teve uma reunião importante”; “houve um imprevisto e seu pai não vai voltar”; “Você sabe, alguém tem que pagar as contas”.
A mãe destroçada e o pai obcecado pelo trabalho deixam Ellen nas mãos de Susan, moderna madrasta dos contos de fada. Susan não para de falar. Não entende nada do que está acontecendo e lembra a Ellen que ela não tem para onde ir. Ananké? Sim, ela mesma.
Ananké é a deusa da passagem estreita. Angústia e a sensação de aperto na garganta deriva de Ananké. Como escrevi no último post, nossa vida é como uma sequência de estações e transições. As transições estão cada vez mais difíceis e muitos jovens estão morrendo para fugir da passagem apertada do Real. Os terapeutas trabalham freneticamente nessas transições. Como o psiquiatra de Ellen, que vai receber as chicotadas de sua língua irônica.
Acho que o filme começa com a Perda: Ellen perde seu único contato com o mundo. Como diria Rita Lee: “Não adianta chamar/ Quando alguém está perdido, procurando se encontrar”. Ellen está perdida. O filme vai descrever a sua jornada em meio à Escuridão. Vamos falar sobre isso nos próximos e derradeiros posts.
Desta vez, a polêmica do Netflix é com a Anorexia Nervosa, Em Thirteen Reasons Why, a polêmica era sobre suicídio em adolescentes. Podemos reunir todo o material do gênero e criar um grupo, sobre Relatos de um Amadurecimento Difícil. Álcool, Drogas, Bullying, Skin-Cutting, Violência e Suicídio, são muitos os Mata Burros que obstruem o caminho do jovens, que há tempos espelham nossos tempos revoltos.
A madrasta de Ellen é um personagem bem interessante, pelo estereótipo de madrasta perua e sem noção, que parece estar empurrando a enteada para a morte. Com o decorrer do filme dá para perceber que ela é a única figura parental que persiste no tratamento e enfrentamento do inferno pessoal que Ellen está passando. Ela que trás um bolo inacreditável. com hamburguer de açúcar escrito : “Coma Ellen”. Dois erros brutais. Na Anorexia, o objetivo nunca é a beleza em si, a magreza é um valor absoluto. Uma pessoa portadora desse Transtorno Alimentar não consegue enxergar como está o seu corpo, muito menos atribuir alguma beleza àquele corpo de prisioneiro do Holocausto.O que está em questão é o medo, o horror de ganhar peso. O medo carregado de terror de ver o corpo mudando e ganhando forma. Portanto, mostrar o espelho e perguntar se acha aquilo bonito é duplamente errado na Anorexia Nervosa: a pessoa não enxerga a magreza e não quer ser bela ou desejável, apenas quer evitar o ganho de peso mesmo que à custa da própria vida. Um bolo escrito (“Coma Ellen”) vai apenas criando um nojo e uma repulsa progressiva por qualquer tipo de comida. Num trecho do filme, Ellen menciona que morre de fome e sonha com comida a maior parte de tempo. Mas morre de medo do ato de comer.
Na Internet e na blogosfera existem grupos de apoio para Anorexia Nervosa. A questão é os Pro Anas, grupos que defendem e estimulam o comportamento de restrição alimentar, magreza extrema e uso de medicamentos para reduzir o peso. Ellen tem um desses blogs, o que acaba criando um problema. Uma de suas “seguidoras” morre, e seus pais enviam e publicam as fotos do que restou de seu corpo. A dificuldade de inserção de Ellen, sua tendência autodestrutiva se exacerbam depois desse evento. Não ganha mais peso e vive sendo expulsa das clínicas e dos tratamentos.
Ananké é a deusa grega da Necessidade. Não sei se alguém percebe, mas ela aparece na Bíblia bem cedo. E eu sei que Bíblia não é um tratado de Mitologia Grega. Pois logo no Genesis, quando Elohim expulsa Adão e Eva dos Jardins do Eden, ele profere as tarefas, ou os castigos: “Eva, parirás em dor”; “Adão, ganharás o pão com o suor de teu rosto”. Aí está Ananké. Ou a boa e velha Realidade. Toda a criação da vida envolve a dor. E ganhar o pão é uma tarefa bem complexa desde que deixamos o Eden. Trabalhar, se formar, produzir, consumir. Nasça, estude, cresça, consuma, morra. Essas são as leis da deusa Ananké. Elas pareciam mais simples no tempo de meus pais. Parecem mais difíceis no tempo de meus filhos. Eu sei que Ananké anda fazendo a festa nesse tempo de transição de Economia, de mundo, de Consciência. Muita gente está sentindo o descolamento e a falta de encaixe nas leis de Mercado. Sim, as leis de mercado são o lugar de Ananké.
Ellen parou a faculdade, não tem amigos e seu blog foi encerrado pela morte horrível de uma seguidora. A sua mãe é uma Bipolar em constante enfrentamento de quadros depressivos e seu pai trabalha o tempo todo e não aparece no filme. Mas é sempre um personagem das conversas. “Seu pai queria ter vindo, mas teve uma reunião importante”; “houve um imprevisto e seu pai não vai voltar”; “Você sabe, alguém tem que pagar as contas”.
A mãe destroçada e o pai obcecado pelo trabalho deixam Ellen nas mãos de Susan, moderna madrasta dos contos de fada. Susan não para de falar. Não entende nada do que está acontecendo e lembra a Ellen que ela não tem para onde ir. Ananké? Sim, ela mesma.
Ananké é a deusa da passagem estreita. Angústia e a sensação de aperto na garganta deriva de Ananké. Como escrevi no último post, nossa vida é como uma sequência de estações e transições. As transições estão cada vez mais difíceis e muitos jovens estão morrendo para fugir da passagem apertada do Real. Os terapeutas trabalham freneticamente nessas transições. Como o psiquiatra de Ellen, que vai receber as chicotadas de sua língua irônica.
Acho que o filme começa com a Perda: Ellen perde seu único contato com o mundo. Como diria Rita Lee: “Não adianta chamar/ Quando alguém está perdido, procurando se encontrar”. Ellen está perdida. O filme vai descrever a sua jornada em meio à Escuridão. Vamos falar sobre isso nos próximos e derradeiros posts.
Assinar:
Postagens (Atom)
