Outro dia dei uma entrevista para umas moças que estavam completando seu curso de Pós Graduação em Psicologia Organizacional. Queriam falar sobre o Transtorno de Humor Bipolar. Ontem recebi a versão editada da entrevista, gravada com celulares apoiados em livros e uma escada, no consultório. Elas deram preferência à parte mais técnica e menos provocativa de nossa conversa, e, estranhamente, não colocaram uma parte divertida do debate: as empresas devem tentar selecionar seus funcionários bipolares?
Temple Grandin é uma senhora estudiosa de técnicas mais humanas de abate de bovinos, e chegou a completar o seu doutorado na área. Ela é portadora de uma doença do Espectro do Autismo, a Doença de Asperger. Oliver Sacks tornou-a uma celebridade no livro “Um Antropólogo em Marte” quando dedicou um capítulo à sua vida. Temple Grandin tem uma emocionante aula no TED talks em que defende e descreve a importância para o mundo de pessoas com as suas características. Quem assistiu ao filme “O Jogo da Adivinhação” pode perceber no gênio matemático AlanTuring as mesmas características de Asperger de Temple Grandin: uma capacidade ilimitada de atenção aos pequenos detalhes e de foco em questões que geralmente passam despercebidas das pessoas “normais”, dificuldade de entendimento de ironias e ambiguidades, deficits importantes de inteligência social e ressonância afetiva levando a isolamento e, em alguns casos, depressão. Alan Turing provavelmente ganhou a Segunda Guerra Mundial quando decifrou os códigos criptografados dos nazistas. Também inventou a máquina que hoje é o nosso computador. Morreu sozinho, deprimido e suicidou-se após anos de perseguição por ser homossexual e não ter a malícia de outros que souberam ocultar essa condição, no tempo em que a mesma era entendida como um crime e uma doença.
As meninas me perguntaram como detectar numa entrevista o traço bipolar e isso levantou uma questão se é do interesse de uma empresa selecionar pessoas sem traços vistos como “patológicos”. Eliminar os psicopatas afetaria a Governança Corporativa (além de esvaziar o Congresso Nacional), assim como impedir os Bipolares deixaria as corporações nas mãos de gente morna e pouco criativa. Elas não colocaram também a parte em que eu mencionei que os Bipolares vão procurar mais as carreiras artísticas e criativas do que as funções de controle. É mais fácil achar um bipolar nas áreas de inovação do que entre os contadores, embora o nosso governo demonstra todo dia como a Contabilidade se torna uma arte cada vez mais criativa (e fantasiosa). Há alguns estudos mostrando que os CEOs das empresas tem maior chance de diagnóstico de Bipolaridade do que as pessoas do chão de fábrica. Extroversão, criatividade, atração pela tomada de risco e busca de novidades são algumas das características observadas na bipolaridade que são muito preciosas nas empresas, em alguns casos vitais para a sua sobrevivência. Basta observar as mudanças de Humor e as expansões e depressões de Steve Jobs para notar como isso foi devastador em uma fase de sua carreira para depois se transformar numa força que transformou o próprio mundo. Ele era Bipolar? Ou Ciclotímico? Não sei. Muita gente diz que sim. A Apple, a maior empresa do mundo, teria falido sem ele.
A Psiquiatria provavelmente pode estar criando para o mundo uma nova e poderosa doença, que é a Normose. A sua principal manifestação seja a necessidade absoluta de controle de si e do Outro. Geoge Orwell antecipou este controle em “1984”. Todos temos que ser adequados, corretos, auto regulados. Basta olhar envolta para ver que a Normose é um estímulo para o seu contrário, que é a sociedade de compulsivos que estamos criando. Mas este é outro assunto. A pergunta das meninas enseja a Normose no mercado de trabalho.
Temple Grandin alerta para o risco, com nosso atual conhecimento de genética, de eliminar do mundo os traços da doença de Asperger. Sem esses traços, hoje o mundo poderia estar falando alemão e extinguindo as pessoas fracas e doentes da raça humana. A resposta da pergunta é: não selecione ninguém por suas características genéticas. A Psicologia Organizacional deve focar em aproveitar melhor os traços genéticos e colocar as pessoas nos lugares onde possam render mais. Selecionar os melancólicos, os expansivos, os esquisitos, nas entrevistas pode transformar o mundo numa gigantesca fila de bovinos caminhando para o abate.
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domingo, 18 de outubro de 2015
sábado, 27 de abril de 2013
Bipolaridade e Base Egóica
Hoje temos a Doença Bipolar no poder. É um diagnóstico que, como o Universo, está em expansão. Lembro de um caso de uma paciente antiga, senhora muito elegante e contida, que sempre me segredou um certo desconforto com a vida de Revista Caras que vivia, com uma depressão bem controlada pelos medicamentos. Quando algo quebra essa camada de civilização, como um estressor a mais, um esquecimento do remédio no final de semana em algum resort da moda, ela se transformava numa louca descabelada, furiosa com as dívidas, vociferando contra aquela vida fútil, logo ganhou o diagnóstico de Bipolar e foi entupida de medicamentos sedativos que lhe custaram meses de apatia e dezenas de quilos na balança. Chegou no consultório enlouquecida com a médica e com histórico muito pobre de variações de humor para justificar o diagnóstico. Há algumas formas de Doença Bipolar que se manifestam tardiamente mas não parecia ser o caso. Começamos a retirada da medicação de forma gradativa e o que restou foi uma senhora deprimida e bastante infeliz com a vida que escolheu. Dedicou-se a desenvolver seus talentos artísticos, sob o olhar algo torto de maridão aristocrata. Não teve mais nenhum episódio de bancar a louca no meio de um jantar a rigor. A propósito, ela nunca foi Bipolar.
Descrita pelos franceses em meados do século XIX e chamada pelo alemão Emil Kraepelin no final do mesmo século de Psicose Maníaco Depressiva, o hoje chamado de Transtorno de Humor Bipolar de caracteriza por episódios de sintomas depressivos ou de quadros claros de Depressão que se intercalam com episódios de agitação e euforia que foram chamadas pelos clássicos de Mania. Há um dito popular que uma pessoa é muito “Oito ou oitenta”, o Transtorno Bipolar é a manifestação clínica do oito ou oitenta; há pacientes que no mesmo dia podem alternar períodos da mais aguda e dramática euforia com depressões terríveis, com risco suicida. É como se o termostato de nosso Cérebro Emocional nunca se ajustasse, tendendo para o calor e para o frio sem nunca encontrar seu ponto de equilíbrio.
A Doença Bipolar é crônica e seus episódios recorrentes mais ou menos de acordo com a carga genética e capacidade do paciente lidar com as suas variações de humor. Essa capacidade é estranhamente ignorada pela Psiquiatria, que está fascinada com populações de genes e seus sistemas de ativação e desativação. Comecei esse post falando que a doença Bipolar está no poder porque, como no caso de minha paciente antiga, o diagnóstico desse transtorno está sendo cada vez mais frequente
Descrita pelos franceses em meados do século XIX e chamada pelo alemão Emil Kraepelin no final do mesmo século de Psicose Maníaco Depressiva, o hoje chamado de Transtorno de Humor Bipolar de caracteriza por episódios de sintomas depressivos ou de quadros claros de Depressão que se intercalam com episódios de agitação e euforia que foram chamadas pelos clássicos de Mania. Há um dito popular que uma pessoa é muito “Oito ou oitenta”, o Transtorno Bipolar é a manifestação clínica do oito ou oitenta; há pacientes que no mesmo dia podem alternar períodos da mais aguda e dramática euforia com depressões terríveis, com risco suicida. É como se o termostato de nosso Cérebro Emocional nunca se ajustasse, tendendo para o calor e para o frio sem nunca encontrar seu ponto de equilíbrio.
A Doença Bipolar é crônica e seus episódios recorrentes mais ou menos de acordo com a carga genética e capacidade do paciente lidar com as suas variações de humor. Essa capacidade é estranhamente ignorada pela Psiquiatria, que está fascinada com populações de genes e seus sistemas de ativação e desativação. Comecei esse post falando que a doença Bipolar está no poder porque, como no caso de minha paciente antiga, o diagnóstico desse transtorno está sendo cada vez mais frequente
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