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domingo, 3 de maio de 2015

Sobre Ratos e Homens

Voltei hoje do meu Congresso preferido em território nacional, que é o Brain, Behavior and Emotions. Apesar do nome bem brasileiro, o Congresso nasceu como uma jornada de Psiquiatria gaúcha que foi crescendo no decorrer de anos, ganhando ares de Congresso Mundial. Ano passado foi no Canadá. Este ano, para minha alegria, foi em Porto Alegre. Fiquei “internado” lá nesses últimos dias, não parava nem para almoçar. Algumas aulas ruins, o que é inevitável, mas no mais das vezes, divertimento de melhor qualidade.
Uma conferência particularmente divertida foi de uma jovem e simpática professora americana, B.J. Casey, que fez uma palestra sobre as características únicas do Cérebro e da Mente dos adolescentes. Só esse tema em si já seria um babado, mas ela mostrou um experimento que, por si só, abre muitas janelas de entendimento.
Dr Sigmund Freud formulou uma série impressionante de insights sobre a mente humana. Algumas de suas leis foram validadas pela Neurociência, outras não. O fato da moderna psiquiatria e os congressos (inclusive esse) ignorá-lo como um autor irrelevante diante de nossas máquinas maravilhosas de Ressonância Magnética Funcional, não tornam menos importantes suas contribuições. Ele acertou no atacado e errou no varejo.
O experimento que a professora Casey descreveu foi de condicionamento de ratos pelo medo. Colocados diante de estímulos desagradáveis de barulhos e confinamento, quase todos os ratos, sobretudo os mais velhos e os mais novos, não demoravam a desenvolver medo do barulho e se esconder, diminuindo seu comportamento exploratório. Apenas um grupo enfrentou a situação e particularmente ignorou o medo, que foi o grupo de ratos adolescentes. Nada podia afetá-los. Continuaram procurando comida e explorando os ambientes. Isso por si só já era um belo de um achado. Evolutivamente, a adolescência é um período para deixar o conforto da ninhada e explorar o ambiente, crescer, construir sua própria ninhada, se você for, ou não, um rato. Os junguianos chamam essa estrutura psíquica e fase, de um período regido pelo Arquétipo do Herói. Ele que permite a nossa jornada na direção da autonomia, da busca de novos caminhos. Talvez nossa espécie tivesse perecido sem esse instinto. Os ratos adolescentes tem a exata característica do Arquétipo do Herói: são destemidos, temerários e ignoram completamente o perigo na sua busca por alimento e abrigo. Isso que torna esse grupo (me refiro aos adolescentes, não aos ratos) tão difícil de atender, sobretudo por essa atitude de “nada vai acontecer comigo”. Acelerador demais e breque de menos, o que algumas vezes termina em desastre. Os ratinhos demonstraram o que estamos carecas de saber. Mas essa não é a melhor parte.
Quando os ratos Indiana Jones viraram adultos, o medo voltou com tudo. Toda a coragem foi embora e eles viraram os ratos mais medrosos do experimento. Como se todo o medo que fora ignorado voltasse com o dobro da força e intensidade e a coragem virasse medo. Isso também não é difícil de se explicar: uma espécie precisa do destemor dos jovens e da prudência dos mais velhos. Se todos forem covardes ou destemidos, todo mundo morre. A natureza precisa de balanço. E de equilíbrio. Mas onde entra o tio Sigmund nesse debate?
Uma das leis freudianas mais citadas é a que diz que o “Recalcado sempre retorna”. Tudo o que escolhemos, ou não, ignorar ou deletar de nossa consciência durante a vida fica armazenado em alguma rede neural lá no fundo de nosso Inconsciente para voltar em algum momento com grande intensidade, ou escondido atrás de um sintoma. Tudo o que hoje se acha desacreditado e arquivado em algum livro empoeirado, foi validado no experimento descrito pela Dra Casey. Todo o medo que os roedores foram obrigados pela mãe Natureza a ignorar e a continuar de qualquer maneira, voltou com grande intensidade na sua fase adulta, deixando alguns deles congelados.
Como é frequente em nossos consultórios observações sobre esse fenômeno. Gente que fala, entre lágrimas: “Mas eu era tão corajoso, agora virei um covarde!”. Outro procedimento fora de moda é reviver o que causou o medo, colocá-lo em outro contexto e, finalmente, aprender a lidar com ele e, dentro do possível, superá-lo. Isso resume um século de escuta delicada dentro dos processos terapêuticos. Aproxima a Neurociência sagrada de nossa escuta analítica. Quase molhei as calças pensando nisso, enquanto muitos colegas pregavam os olhos nas tabelas e nos gráficos.