Há alguns anos atrás, um paciente me relatou um sonho desses que ficam guardados numa galeria terapêutica de sonhos inesquecíveis. Ele sonhou com o seu sogro, já falecido, um homem que sempre fora muito sério. Como toda pessoa séria demais, era muito triste. O seu sogro, visitando-o em sonho, não parecia mais tão triste. Aparentava mesmo uma paz muito grande, como acontece tão frequentemente quando sonhamos com pessoas já falecidas. Parece que, em algum momento do sonho, quando estavam para se despedir, o sogro, que quase nada ou nada falara, olhou para ele e disse: "Não se esqueça da alegria". Ele parou a terapia algum tempo depois e até onde eu sei, não deixou ele mesmo de ser um homem muito sério e um pouco triste. Acho que o sonho falou mais a mim do que a ele.
Somos seres desejantes. Máquinas desejantes, segundo um autor que admiro. Pulamos de um desejo a outro, de uma insatisfação a outra. A percepção do tempo, a capacidade de entender e planejar o futuro é uma capacidade ímpar que acompanhou a evolução do Homo sapiens. Não é à toa que o cérebro desse hominídeo é o maior da espécie, com um Lobo Frontal avantajado. Andar em dois pés e usar as mãos ajudaram esse Cérebro a se desenvolver. Entretanto, o fato de antever o futuro e manejar o próprio alimento, as estações do ano, os instrumentos manuais, não tornaram o Homem mais feliz. Antes, viramos uma espécie de prisioneiros do Futuro. Outro dia ouvi um comentário no rádio, onde um comentarista proferiu a supersimplificação de que a diferença entre Psicoterapia e Coaching é que a primeira promove uma viagem ao passado, enquanto o Coaching pensa e prepara mais o futuro. Talvez a melhor terapia seja aquela que ajude o Sujeito a ser dono de seu tempo Presente, sem olhar o Passado com amargura nem o Futuro com angústia. Em vez de questões do tipo: "Onde você se enxerga daqui a cinco anos?", talvez seja melhor levar o seu filho para o estádio que ele vai lembrar disso daqui a vinte anos.
De tanto preocupados com o futuro, com a carreira, com os sonhos de consumo, subtraímos de nossa vida a sensação da alegria, que aparecia no sonho de meu expaciente. Alegria das coisas realizadas, dos objetivos conquistados, do trabalho honesto que nem sempre rende tanto como outros trabalhos, não tão honestos, mas que tornam nosso travesseiro leve. Talvez fosse essa a alegria que o sogro tentava transmitir a seu genro, perdido nas angústias que diminuem nossos dias e nos afastam dessas microalegrias que acontecem toda hora.
A Psicoterapia não é uma escavação arqueológica, assim como o Coaching não é exercício de futurismo. Talvez sejam apenas formas de ajuda, de construção de pensamentos e estrutura para uma vida. Essa construção pode ser muito dura, e quase sempre é, porque somos Homos sapiens e ficamos caraminholando o que será do amanhã. Mas dá para, de vez em quando, só de vez em quando, olhar para todo o caminho percorrido e sorrir para ele. Com a mais profunda das alegrias.
Mostrando postagens com marcador Devir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Devir. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 16 de junho de 2011
sábado, 26 de março de 2011
O Micro e o Macro
Não é incomum ouvir as pessoas falando no consultório que não invejam a posição do terapeuta ou do médico, pela carga emocional que recebe diariamente, como uma radiação de um reator de Fukushima. São ossos do ofício que aprendemos a lidar, embora os profissionais de ajuda em geral acabem sofrendo com várias doenças ligadas ao estresse, e não é incomum ouvirmos histórias de doenças oncológicas e mortes prematuras de terapeutas. Como no caso de muitos pacientes, os profissionais de ajuda devem fazer a lição de casa: gerenciamento de estressores, boa alimentação, exercícios físicos e supervisão dos pares.Sem mencionar o principal, a dedicação ao próprio processo e à própria ferida. Mas esse não é o tema desse post. A grande questão é a angústia inerente à existência humana, que aparece em todos os locais de ajuda, consultórios incluídos. Nós, pós modernos, temos exacerbados motivos de angústia.
Outro dia estava vendo o Animal Planet ou outro canal relacionado, uma fila de filhotes de Leão Marinho, atrás da mãezona em fila indiana, andando com uma ordem e disciplina incomum em humanos. De repente, um dos bebês fica preso em um congestionamento no cenário glacial e se vê perdido do resto da galera. Impressionante o jeito que ele bota a boca no trombone. Chora e grita furiosamente, até a mãe ouvir e responder, localizando o retardatário. Parecia uma dessas cenas que a gente vê de relance e já passa para a próxima zapeada nos canais. Mas dessa vez eu parei por algum tempo. Aquela cena é o próprio mecanismo de uma crise de Pânico: a sensação de absoluto desamparo e de não sentido. A sensação de se estar em um mundo solitário, onde ninguém vai conseguir resgatá-lo. Essa é uma grande angústia de espécies onde os filhotes precisam de muitos cuidados até atingirem a independência. Na espécie humana, muitos nunca atingem a tal independência. Somos uma espécie gregária que desde sempre andou em bandos e precisou muito do apoio do grupo. Nos últimos séculos nos tornamos mais individualistas, os núcleos familiares diminuíram e a busca de autorealização nos tornou mais solitários e livres. Essa angústia frequenta os nossos consultórios. Tem sempre um gurú de autoajuda ou um pastor engravatado gritando na TV que temos que sonhar e realizar os nossos sonhos. Tem sempre fotos de Revista Caras sugerindo que a Felicidade se encontra em algum lugar das colunas sociais e das Ferraris último tipo. Como o bebê de Leão Marinho, as pessoas choram a sensação de estarem desgarradas dessa fileira de pessoas felizes e realizadas. Onde estão os casamentos perfeitos, as carreiras brilhantes, o sucesso que eu posso atingir apenas visualizando e mantendo uma atitude positiva? As pessoas choram pelos sonhos Macro que não se realizam. Perdem a dimensão microscópica, das rotinas e dos cotidianos, das felicidades invisíveis, do heroísmo anônimo que é construir um dia depois do outro. Mas não. Alguém ainda vai te provar que felicidade está em algum lugar do futuro em que finalmente você vai sentir que está livre da insegurança. Ou na próxima cinta emagrecedora do canal de compras.
Outro dia estava vendo o Animal Planet ou outro canal relacionado, uma fila de filhotes de Leão Marinho, atrás da mãezona em fila indiana, andando com uma ordem e disciplina incomum em humanos. De repente, um dos bebês fica preso em um congestionamento no cenário glacial e se vê perdido do resto da galera. Impressionante o jeito que ele bota a boca no trombone. Chora e grita furiosamente, até a mãe ouvir e responder, localizando o retardatário. Parecia uma dessas cenas que a gente vê de relance e já passa para a próxima zapeada nos canais. Mas dessa vez eu parei por algum tempo. Aquela cena é o próprio mecanismo de uma crise de Pânico: a sensação de absoluto desamparo e de não sentido. A sensação de se estar em um mundo solitário, onde ninguém vai conseguir resgatá-lo. Essa é uma grande angústia de espécies onde os filhotes precisam de muitos cuidados até atingirem a independência. Na espécie humana, muitos nunca atingem a tal independência. Somos uma espécie gregária que desde sempre andou em bandos e precisou muito do apoio do grupo. Nos últimos séculos nos tornamos mais individualistas, os núcleos familiares diminuíram e a busca de autorealização nos tornou mais solitários e livres. Essa angústia frequenta os nossos consultórios. Tem sempre um gurú de autoajuda ou um pastor engravatado gritando na TV que temos que sonhar e realizar os nossos sonhos. Tem sempre fotos de Revista Caras sugerindo que a Felicidade se encontra em algum lugar das colunas sociais e das Ferraris último tipo. Como o bebê de Leão Marinho, as pessoas choram a sensação de estarem desgarradas dessa fileira de pessoas felizes e realizadas. Onde estão os casamentos perfeitos, as carreiras brilhantes, o sucesso que eu posso atingir apenas visualizando e mantendo uma atitude positiva? As pessoas choram pelos sonhos Macro que não se realizam. Perdem a dimensão microscópica, das rotinas e dos cotidianos, das felicidades invisíveis, do heroísmo anônimo que é construir um dia depois do outro. Mas não. Alguém ainda vai te provar que felicidade está em algum lugar do futuro em que finalmente você vai sentir que está livre da insegurança. Ou na próxima cinta emagrecedora do canal de compras.
Assinar:
Comentários (Atom)
