Esse Blog chegou na semana passada ao post de número 610. Como já anunciado em Julho deste ano, ele vai ser encerrado agora em Outubro, e o autor dessas mal tecladas linhas vai se dedicar a outros projetos. Vamos encerrá-lo então com 615 posts, número que soma 12, o mesmo de seguidores do Blog. Apesar das manifestações de desespero e inconformismo de ao menos 2 dos seguidores, vamos dar cabo desse projeto. O projeto de dar cabo do Blog. Bem, vocês me entenderam. Vamos ao post de hoje. O 611 :
Um amigo foi a um churrasco onde dois “inteligentinhos” (termo cunhado/explorado por Luiz Felipe Pondé) diziam do futuro do planeta ser de um Paraíso Terrestre onde todos serão Socialistas e Vegetarianos. Uma visão anterior ao Neolítico, onde os proto humanos eram caçadores e coletores e não havia hierarquia, chefias ou curtidas em Facebooks pré históricos. A carne era um artigo de luxo e aparecia muito raramente em meio à exploração de frutas, raízes e grãos. De fato, todos eram “socialistas” antes do termo ser imaginado, e a Raça Humana sobreviveu muito mais pela sua capacidade de colaboração do que de genes egoístas competindo entre si. Com a Revolução do Neolítico, a terra passou a ser cultivada, nasceu a Agricultura, e, com ela, o trabalho, os papéis sociais e as hierarquias foram se complexificando. Homens passaram a explorar outros homens e os perdedores da disputa eram feitos de escravos, enquanto que uma casta de Homens Deus exigiam e faziam sacrifícios de jovens e de animais para que a terra continuasse frutificando em boas colheitas (hoje em dia eles guardam milhões em apartamentos, mas essa é outra história). O sonho igualitário acabou, com a estratificação de funções e responsabilidades. Acabou o paraíso sem hierarquia, que não existe nem nos mosteiros budistas, mas resiste na cabeça de marxistas e professores de Sociologia. As crianças não passam fome em Cuba, dizem, mas se quiserem se desenvolver e pertencer ao mundo, vão ter que subir no bote e atravessar o mar quando crescerem. Mas não é esse o assunto do post.
Junto com a Agricultura, veio a Mitologia fundada em deuses agrícolas. Não é à toa que Jesus é morto e desmembrado simbolicamente, desce às profundezas da terra e ressuscita no Terceiro Dia. A Morte e a Ressurreição são as forças intrínsecas da Vida, em seu Eterno Ciclo de Transformação. Sempre que o homem tenta dominar essa força da vida, grandes tragédias ocorrem, como podemos ver nos noticiários. O fato é que a Morte como condição geradora da Vida chegou à Mitologia através do salto tecnológico que foi dominar o Grão, de onde surgiam novos frutos e alimento. A vida se dá na morte do Grão.
Talvez dessa mudança cultural do Neolítico e o domínio de tecnologias ainda mais avançadas, da Fala e da Escrita, que surgiu o que Jung chamou de Arquétipos: o Céu, a Terra, o Dia, a Noite, a Mãe, o Pai, o Herói, a Criança Divina. Tudo o que o homem via e em seu assombro pintava nas paredes foi fundando uma Mitologia, em que as forças inerentes à Vida e à Morte foram virando Deuses que protegiam ou se enfureciam com os humanos. As trapaças da sorte e do azar passaram a ser regidos por deuses de formato e afetos muito parecidos com os dramas de nosso desenvolvimento. Os Mitos hoje viraram as celebridades e suas histórias glamurosas e tragicamente humanas. Marte e Afrodite se deitam nas páginas dos tablóides ou nos sites de fofocas.
A vida humana nasce na Primavera, onde o grão finalmente floresce ou se manifesta. Os primeiros setênios de nossa vida são dedicados a formar a nossa estrutura como planta psíquica. Erros de formação e feridas nesta fase vão nos acompanhar em toda a vida como virtude ou doença. A fase Heróica ou de maturidade, que coincide com os anos de adulto jovem até a meia idade, seria o Verão: chuva, reprodução e calor interno e externo. Na meia idade e maturescência seria o Outono, onde se perde o vigor e o calor da juventude, mas, se tudo der certo, vem o ganho da serenidade e das temperaturas amenas. Em alguns casos, a Sabedoria que pode conduzir os jovens e proteger as crianças. O Inverno vem com a perda de algumas funções e do calor de outras fases. Jung dizia que às perdas do Corpo corresponde uma grande expansão energética da Psique. Como cantou Caetano, o homem velho deixa a vida e morte para trás. O Inverno é um período de interiorização e contemplação da vida e do mundo. Ou de dor e infortúnio, como vemos em muita gente.
Um bom trabalho terapêutico é seguir e traduzir para as pessoas as diversas fases da vida, onde, como o Grão, morremos e ressuscitamos muitas vezes. Nos próximos quatro posts vou falar sobre essas fases, que se repetem em nossas vidas e estações: A Perda, a Pedra, a Letra e o Perdão. Vou usar um filme que está no Netflix, que muito curti: “To the Bone” ou “O Mínimo Para Viver” como base para as diferentes fases de nossa vida e do processo de Transformação. Isso pode dar origem a outros Blogs e outras falas no Futuro.
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sábado, 9 de setembro de 2017
domingo, 22 de maio de 2016
O Pai, o Filho e o Invisível
Uma vez eu fiz uma entrevista que, acho eu, nunca foi publicada. Falava sobre Trindades, sua função mitológica e psíquica. Acho que ficou densa demais, e esse é um defeito de minhas locuções: muitas ideias condensadas, o que acaba empanturrando o ouvinte ou o leitor. Paciência. Estou relendo um livro que o autor divide a nossa relação com a Trindade Cristã em 3 grandes períodos: a Era do Pai, e, naturalmente, do Filho e do Espírito Santo. Uma trindade bastante familiar.
A Era do Pai é a do Deus do Velho Testamento, que escolhe seu povo e se encoleriza sempre que tem que admitir alguns escorregões no Paganismo. Elohim, ou Jeová, tem algumas alterações de Humor e manda Dilúvios ou destrói Sodoma e Gomorra com uma tempestade nuclear (o que Ele faria hoje em dia com Brasília, heim?). O Pai protegia e ungia seu povo escolhido para vencer inimigos e pestes, atravessar desertos ou engolir os perseguidores com as águas do Mar Vermelho.
Um rabino com profundo conhecimento da Torá veio trazer o Segundo Período, o do Filho. Deus não estava mais interessado em sacrifícios de filhos ou animais para ser aplacado. Seu nome era Jesus, e causava escândalo ao chamar Deus de Pai, e, mais escandalosamente, afirmar que ele próprio era o Caminho, a Verdade e a Vida. A relação do Filho com o Pai era de união, não de distância suplicante. Esse Deus é mais próximo e sabe de cada fio do cabelo de seu filho. Não é preciso temer um Pai que se derrama de amor por Seu Filho.
Se não me engano no Ato dos Apóstolos, Jesus afirma que é preciso que ele desapareça para que venha o Paráclito. O Paráclito é o Espírito Santo, que aparece como uma Pomba branca ou como o Fogo de Pentecostes. Confesso que fico pensando nessa imagem muitas vezes. Pego estrada para ir e voltar do trabalho e tenho bastante tempo para este tipo de pensamento. Fico pensando na retirada do Ego para que o Espírito se manifeste. Quando o Ego esgota os seus recursos, algo misterioso se manifesta. Um poeta escreveu: “É quando há o maior perigo que vem a salvação”. Ela se manifesta como inspiração, coincidência ou uma intervenção salvadora quando tudo parecia perdido. É a manifestação da maior das divindades, que é o Invisível.
Podemos dividir a nossa vida psíquica nessas três fases. A fase do Pai/Mãe, em que recebemos do mundo abrigo, alimento e cuidado para terminar o desenvolvimento que começou na fecundação. Vivemos em estado de encantamento e aceitação de tudo o que as figuras parentais nos dizem. Vivemos em estado de infância permanente, repetindo, imitando o que é imposto pela autoridade do Pai/Mãe. Uma imensa parte da humanidade e do nosso país vive psiquicamente nessa eterna infância, aceitando incondicionalmente o que a autoridade proclama, geralmente na TV.
Na fase do Filho, ocorre a diferenciação da Lei parental. O filho se descola procurando as próprias verdades e o próprio caminho. Psiquicamente o Ego ainda depende do Consciência Coletiva, mas começa a se preparar para adquirir a própria visão e assumir as escolhas. Eu pego muito no pé desses movimentos sociais que fazem manifestações contra o Papai/Mamãe Estado e querem que esse ser infinito pague sempre a conta. O Filho tem que se diferenciar do Pai e aprender a pagar as suas contas, senão fica preso numa eterna adolescência. Estamos num mundo em que muita gente fica presa nessa Adolescência, esperando tudo do Papai e oferecendo pouco em troca. Tem gente que até chega à Presidência da República pensando assim.
A Fase do Espírito Santo inclui um Ego desenvolvido, que lida com as dificuldades da vida com autonomia e trabalha internamente as próprias dificuldades, em vez de responsabilizar infinitamente o Outro por seus erros. Uma das contribuições de Jung para a Psique Moderna foi de colocar que a tarefa da Encarnação passa a ser uma tarefa pessoal de cada um. É dentro de nossa Psique que brigam o Bem e o Mal, a santidade e o pecado. Somos o receptáculo da Vida e dos dilemas do mundo. Não adianta seguir bovinamente um líder ou esperar as respostas em passeatas, mas na busca pessoal de um caminho que tenha Significado. Muito eu falo nesse blog sobre a época de profundo vazio de significado que vivemos, nessa época em que tudo é Coisificado, até o Amor. É tarefa de cada um procurar e cultivar em si a busca de significado. No encontro com o Outro, essas faíscas de Significado podem aparecer.
Nossa tarefa é equilibrar as três instâncias em nosso mundo interno: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse é o significado psíquico da Trindade. Moleza, não?
A Era do Pai é a do Deus do Velho Testamento, que escolhe seu povo e se encoleriza sempre que tem que admitir alguns escorregões no Paganismo. Elohim, ou Jeová, tem algumas alterações de Humor e manda Dilúvios ou destrói Sodoma e Gomorra com uma tempestade nuclear (o que Ele faria hoje em dia com Brasília, heim?). O Pai protegia e ungia seu povo escolhido para vencer inimigos e pestes, atravessar desertos ou engolir os perseguidores com as águas do Mar Vermelho.
Um rabino com profundo conhecimento da Torá veio trazer o Segundo Período, o do Filho. Deus não estava mais interessado em sacrifícios de filhos ou animais para ser aplacado. Seu nome era Jesus, e causava escândalo ao chamar Deus de Pai, e, mais escandalosamente, afirmar que ele próprio era o Caminho, a Verdade e a Vida. A relação do Filho com o Pai era de união, não de distância suplicante. Esse Deus é mais próximo e sabe de cada fio do cabelo de seu filho. Não é preciso temer um Pai que se derrama de amor por Seu Filho.
Se não me engano no Ato dos Apóstolos, Jesus afirma que é preciso que ele desapareça para que venha o Paráclito. O Paráclito é o Espírito Santo, que aparece como uma Pomba branca ou como o Fogo de Pentecostes. Confesso que fico pensando nessa imagem muitas vezes. Pego estrada para ir e voltar do trabalho e tenho bastante tempo para este tipo de pensamento. Fico pensando na retirada do Ego para que o Espírito se manifeste. Quando o Ego esgota os seus recursos, algo misterioso se manifesta. Um poeta escreveu: “É quando há o maior perigo que vem a salvação”. Ela se manifesta como inspiração, coincidência ou uma intervenção salvadora quando tudo parecia perdido. É a manifestação da maior das divindades, que é o Invisível.
Podemos dividir a nossa vida psíquica nessas três fases. A fase do Pai/Mãe, em que recebemos do mundo abrigo, alimento e cuidado para terminar o desenvolvimento que começou na fecundação. Vivemos em estado de encantamento e aceitação de tudo o que as figuras parentais nos dizem. Vivemos em estado de infância permanente, repetindo, imitando o que é imposto pela autoridade do Pai/Mãe. Uma imensa parte da humanidade e do nosso país vive psiquicamente nessa eterna infância, aceitando incondicionalmente o que a autoridade proclama, geralmente na TV.
Na fase do Filho, ocorre a diferenciação da Lei parental. O filho se descola procurando as próprias verdades e o próprio caminho. Psiquicamente o Ego ainda depende do Consciência Coletiva, mas começa a se preparar para adquirir a própria visão e assumir as escolhas. Eu pego muito no pé desses movimentos sociais que fazem manifestações contra o Papai/Mamãe Estado e querem que esse ser infinito pague sempre a conta. O Filho tem que se diferenciar do Pai e aprender a pagar as suas contas, senão fica preso numa eterna adolescência. Estamos num mundo em que muita gente fica presa nessa Adolescência, esperando tudo do Papai e oferecendo pouco em troca. Tem gente que até chega à Presidência da República pensando assim.
A Fase do Espírito Santo inclui um Ego desenvolvido, que lida com as dificuldades da vida com autonomia e trabalha internamente as próprias dificuldades, em vez de responsabilizar infinitamente o Outro por seus erros. Uma das contribuições de Jung para a Psique Moderna foi de colocar que a tarefa da Encarnação passa a ser uma tarefa pessoal de cada um. É dentro de nossa Psique que brigam o Bem e o Mal, a santidade e o pecado. Somos o receptáculo da Vida e dos dilemas do mundo. Não adianta seguir bovinamente um líder ou esperar as respostas em passeatas, mas na busca pessoal de um caminho que tenha Significado. Muito eu falo nesse blog sobre a época de profundo vazio de significado que vivemos, nessa época em que tudo é Coisificado, até o Amor. É tarefa de cada um procurar e cultivar em si a busca de significado. No encontro com o Outro, essas faíscas de Significado podem aparecer.
Nossa tarefa é equilibrar as três instâncias em nosso mundo interno: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse é o significado psíquico da Trindade. Moleza, não?
domingo, 27 de setembro de 2015
Duração
Já contei essa pequena história Budista, mas vale a pena repetí-la: “Um homem caminhava por uma ravina, apreciando a beleza da manhã, quando ouviu um rugido terrível, e logo percebeu que seria devorado por tigres selvagens. Correndo desesperadamente, acabou caindo de um despenhadeiro, e sabia que a queda seria a sua morte, mas acabou se agarrando numa planta, um arbusto. Olhando para baixo, viu que a queda seria fatal e, se não fosse, mais dois tigres esperavam por ele. Olhando para cima, também era observado pelos tigres. No arbusto, que estava começando a ceder, havia um morango. Ele comeu o morango. Lentamente.”
Como toda parábola, esta pode ter muitas leituras. Para mim, que sou psiquiatra e psicoterapeuta junguiano, ela representa o nosso estado habitual de medo da vida e da morte. Na primeira metade da vida, fugimos do sentimento profundo de insegurança, normalmente da insegurança do Ego: “Eu sou amado?”; “Eu realmente existo?”; “Vou conseguir sobreviver?”; “Vou conseguir construir a minha vida?”. Fala-se muito mal do Ego: ele é a causa de nossos medos, de nossa insegurança, de nossa necessidade de controle. Ele enche os consultórios de psiquiatras e terapeutas com as suas infinitas demandas. É o causador do Aquecimento Global, da Crise Hídrica e do governo Dilma, não necessariamente nessa ordem. Mas posso dizer uma coisa, com toda certeza: há uma coisa pior do que ter um Ego; é não ter nenhum Ego. Ou um Ego malformado. Nosso complexo do Ego foi desenhado pela Mãe Natureza para cuidar de nossa sobrevivência e perpetuação da espécie. Este é o significado, para mim, dos primeiros tigres: na manhã de nossa vida, no meio de uma passeio pelo caminho da Inocência, de repente levamos um pontapé da vida para defender a sobrevivência, nosso sucesso, nosso senso de pertencer ou valer alguma coisa. Acho que na verdade não deveriam ser apenas dois, as três tigres: o Fazer, o Ter e o Ser. Nosso mundo define bastante o que se É pelo o que você Faz e, mais do que tudo, pelo o que Tem. Isso ocupa uma boa parte de nossa vida. Para muita gente, ocupa a vida inteira e é uma fonte importante de medo e infelicidade. Mas causa também imensa infelicidade não ter ideia do que Fazer, achar q ue os outros devem te dar de graça para Ter ou não ter nenhuma noção de Ser, ou não, alguém. Daí vem a Lei de Spinelli: “É preciso ter um Ego antes, para depois me livrar dele.”
A queda da ribanceira representa as tijoladas que a vida impõe, sobretudo após a segunda metade da vida: sonhos não realizados, divórcios dolorosos, limitações físicas, perdas de status ou de posição profissional, tudo massacra o pobre Ego que percebe, ou não, que não pode comandar a vida nem o próprio destino, não importa o que dizem os livros de autoajuda. Para piorar a situação, olhando no fim da ribanceira, tem mais tigres esperando. Esses são mais fáceis de entender: a Velhice e a Morte (de preferência, nessa ordem). Já vi gente dançando com a velhice e com o arquétipo da Morte, numa abertura pacífica e larga, mas sabemos que, no mais das vezes, não é assim que acontece. Os tigres representam, em última instância, o que seria uma dádiva para nós, humanos: nosso Córtex Pré Frontal e sua capacidade de fazer antecipações do futuro. Vamos à escola para construir o futuro, adiamos os sonhos para garantir o futuro e seguramos no arbusto o quanto podemos, pois lá embaixo está o futuro. Mas, pergunta o (a) visitante desse blog: e o morango?
Se a Física diz que a flecha do tempo é uma construção de nossa Consciência, temos dois eventos bastante visíveis para a nossa construção: o Nascimento e a Morte. O resto é Duração e Participação. O medo costuma roubar as duas coisas. O morango, para mim, representa o que está entre esses eventos importantes. Tudo o que é Real, segurando um arbusto que vai ceder, é a duração do mastigar e a participação na experiência. O medo tenta sempre encurtar a duração, já que coloca a todos no meio da pressa. Também aparta da experiência, já que a ênfase é no reforço do arbusto, para que ele dure o máximo de tempo possível. E ninguém repara que vive pendurado, mesmo.
Viver da duração é arredondar o tempo. Vou voltar a esse assunto no futuro, mas depois de sentir o gosto do morango.
Como toda parábola, esta pode ter muitas leituras. Para mim, que sou psiquiatra e psicoterapeuta junguiano, ela representa o nosso estado habitual de medo da vida e da morte. Na primeira metade da vida, fugimos do sentimento profundo de insegurança, normalmente da insegurança do Ego: “Eu sou amado?”; “Eu realmente existo?”; “Vou conseguir sobreviver?”; “Vou conseguir construir a minha vida?”. Fala-se muito mal do Ego: ele é a causa de nossos medos, de nossa insegurança, de nossa necessidade de controle. Ele enche os consultórios de psiquiatras e terapeutas com as suas infinitas demandas. É o causador do Aquecimento Global, da Crise Hídrica e do governo Dilma, não necessariamente nessa ordem. Mas posso dizer uma coisa, com toda certeza: há uma coisa pior do que ter um Ego; é não ter nenhum Ego. Ou um Ego malformado. Nosso complexo do Ego foi desenhado pela Mãe Natureza para cuidar de nossa sobrevivência e perpetuação da espécie. Este é o significado, para mim, dos primeiros tigres: na manhã de nossa vida, no meio de uma passeio pelo caminho da Inocência, de repente levamos um pontapé da vida para defender a sobrevivência, nosso sucesso, nosso senso de pertencer ou valer alguma coisa. Acho que na verdade não deveriam ser apenas dois, as três tigres: o Fazer, o Ter e o Ser. Nosso mundo define bastante o que se É pelo o que você Faz e, mais do que tudo, pelo o que Tem. Isso ocupa uma boa parte de nossa vida. Para muita gente, ocupa a vida inteira e é uma fonte importante de medo e infelicidade. Mas causa também imensa infelicidade não ter ideia do que Fazer, achar q ue os outros devem te dar de graça para Ter ou não ter nenhuma noção de Ser, ou não, alguém. Daí vem a Lei de Spinelli: “É preciso ter um Ego antes, para depois me livrar dele.”
A queda da ribanceira representa as tijoladas que a vida impõe, sobretudo após a segunda metade da vida: sonhos não realizados, divórcios dolorosos, limitações físicas, perdas de status ou de posição profissional, tudo massacra o pobre Ego que percebe, ou não, que não pode comandar a vida nem o próprio destino, não importa o que dizem os livros de autoajuda. Para piorar a situação, olhando no fim da ribanceira, tem mais tigres esperando. Esses são mais fáceis de entender: a Velhice e a Morte (de preferência, nessa ordem). Já vi gente dançando com a velhice e com o arquétipo da Morte, numa abertura pacífica e larga, mas sabemos que, no mais das vezes, não é assim que acontece. Os tigres representam, em última instância, o que seria uma dádiva para nós, humanos: nosso Córtex Pré Frontal e sua capacidade de fazer antecipações do futuro. Vamos à escola para construir o futuro, adiamos os sonhos para garantir o futuro e seguramos no arbusto o quanto podemos, pois lá embaixo está o futuro. Mas, pergunta o (a) visitante desse blog: e o morango?
Se a Física diz que a flecha do tempo é uma construção de nossa Consciência, temos dois eventos bastante visíveis para a nossa construção: o Nascimento e a Morte. O resto é Duração e Participação. O medo costuma roubar as duas coisas. O morango, para mim, representa o que está entre esses eventos importantes. Tudo o que é Real, segurando um arbusto que vai ceder, é a duração do mastigar e a participação na experiência. O medo tenta sempre encurtar a duração, já que coloca a todos no meio da pressa. Também aparta da experiência, já que a ênfase é no reforço do arbusto, para que ele dure o máximo de tempo possível. E ninguém repara que vive pendurado, mesmo.
Viver da duração é arredondar o tempo. Vou voltar a esse assunto no futuro, mas depois de sentir o gosto do morango.
domingo, 16 de agosto de 2015
Ciclos Arquetípicos
Já mencionei essa pequena história em outro post. Depois de 500 textos, é difícil não repetir ideias ou histórias. Junguianos comparam o desenvolvimento psíquico a uma escada em espiral, onde passamos infinitamente pelas mesmas questões, mas em níveis diferentes. Vamos imaginar que retomamos esta história alguns degraus acima.
Um artista plástico ensina sua aprendiz. Explica que um artista tem três grandes fases em sua vida: na primeira fase ele desenha, pinta, molda a sua arte para mostrar à sua família. Mostra para a sua mãe, sua babá, seus avós e depois de alguns anos para a professora, para as exposições da escola onde todos fingem examinar aqueles borrões em busca de algum indício de futuro. Na segunda fase, o artista mostra seu trabalho para os seus pares: entra em escolas de arte, encontra as suas referências, deixa o seu bairro, a sua cidade, o seu país e vai se filiando a uma imensa família de artistas, em que seu trabalho vai se inserir, ou não. Nesta fase, o artista quer mostrar a sua criação para todos, quer ser amado, admirado e, sobretudo, captar a atenção das pessoas. Talvez o artigo mais raro que dispomos na Era Digital seja a atenção das pessoas. Tudo e todos se dissipam numa fração de segundos, sem deixar muito rastro. As pessoas se queixam de falta de Memória, mas o que lhes falta é a Atenção.
O artista termina o seu ensinamento chegando à terceira fase, a maturidade da sua arte. Ele já mostrou sua produção aos pais, aos parentes, aos professores, aos seus pares e ao mundo. Recebeu, ou não, sua Atenção. Na última fase, ele não precisa mais desse olhar. Ele passa a ser visto pela sua Obra. Esse é o olhar que interessa. O artista se vê refletido em sua Obra e passa a ser visto por ela.
Acho essa história encantadora porque ela resume três grandes ciclos da vida de um ser humano. Talvez os mais importantes ciclos arquetípicos: o Ciclo Parental, o Ciclo Heróico, o Ciclo da Individuação. Jung dedicou sua vida a intuí-los e descrevê-los, sem essa sistematização, que deixou para nós, seus sucessores.
O Ciclo Parental é o mais explorado pela Psicologia. A primeira formação de identidade vai se formar, bem ou mal, nessa fase. A sensação de ser alguém, de ter um valor intrínseco, de ter um lugar na vida, vai ser formada nessa fase em que a criança mostra seus garranchos e espera por Atenção e Aprovação. A falta ou o excesso dessa Atenção e dessa Aprovação vai determinar muitas feridas psíquicas e um longo trabalho de cicatrização. Isso também vai permitir, ou impedir, a entrada no segundo Ciclo, que é o Heróico. Como o artista que vai procurar a sua tribo, a pessoa vai buscar seu lugar no seu grupo, inicialmente de amigos, depois de colegas e competidores. Vai ser a sua jornada dentro da sua profissão, na formação de sua família e construção de um legado. Muita gente tropeça, ou nem entra, nessa fase heróica. Muitos se perdem no caminho, como dizia a velha música.
A fase seguinte é a mais difícil de descrever, e entrar. O diálogo passa a ser com níveis mais profundos de Silêncio. O artista passa a se reconhecer, ou ser reconhecido, em seu mundo interno, independente da vaia ou do aplauso que vem de fora. O seu diálogo é com a eternidade, onde a sua obra vai ficar de alguma forma registrada. Ele precisa menos de atenção e aprovação que eram tão importantes nas outras fases. Na verdade, ele precisa de cada vez menos coisas do mundo exterior.
Essas fases descrevem a formação, a consolidação e a relativização do Ego como veículo de nossa consciência.
No recente filme “Lucy”, com Scarlett Johansson, uma moça comum e com péssimo gosto para homens se envolve com traficantes e acidentalmente se expõe a uma droga que vai progressivamente expandindo sua capacidade cognitiva. Ela primeiro domina toda a informação disponível, chega ao profundo entendimento da natureza do Tempo e da Vida para no final virar pura Consciência. Jung teria gostado bastante desse filme, eu imagino. O filme descreve, imagino também, a nossa jornada em atingir o máximo de Conhecimento para virarmos, no fim, Consciência. Essa é a tarefa da Individuação, nos três grandes ciclos da Vida.
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