Uma característica de vários filmes que disputaram o Oscar, seja como melhor filme ou nas outras categorias, foi a ênfase em histórias “baseadas em fatos reais”. Obviamente romanceadas e mitificadas, as histórias retiradas de personagens reais, muitas vezes que aparecem nas fotos e cenas aos lados dos créditos finais, parecem ser uma tendência da indústria de entretenimento. Eu diria que nos rendemos definitivamente a um mundo Reality Show, em que espiamos os dramas dos outros em várias telas, com mais ou menos veracidade. Vi um filme adorável hoje, o melhor da safra do Oscar, na minha nem sempre modesta opinião: “Philomena”, com a diva Judi Dench fazendo um o papel de uma senhora que resolve, depois de cinquenta anos de silêncio, sair em busca de um filho dado contra a sua vontade para adoção. Não vou entrar em detalhes nem esbravejar por não terem dado o Oscar para Judi Dench. No ritmo que as coisas vão nesse mundo, a entrega do Oscar parece uma coisa que aconteceu há meses. A parte engraçada é um comentário ácido do jornalista que descobre a história e a transforma em uma Jornada Arquetípica: esse jornalismo Reality Show é feito para gente apática e sem conteúdo ficar vendo histórias para gente apática e sem conteúdo. Felizmente para nós, o jornalista estava desempregado e em desgraça em seu meio e foi meio que obrigado a embarcar e se encantar com a saga de Philomena, o que deu um belo livro e um delicioso filme. Mas não era sobre isso que eu queria comentar.
O mundo consome em doses maciças essa sobrecarga de literalidade. Histórias reais, câmeras escondidas, pegadinhas, teste de fidelidade, há uma demanda impressionante de gente disposta a espiar a vida dos outros pela fechadura. O efeito colateral mais visível e imediato é a perda, também progressiva, de nossa capacidade de simbolização. Nelson Rodrigues dizia, no século passado, que o vídeo tape, o replay era burro, pois tirava a nossa capacidade de contar a história de uma partida de futebol em termos míticos. O Brasil perdeu uma Copa do Mundo onde tinha o melhor time, derrotado diante de duzentas mil pessoas emudecidas. O lateral esquerdo do Brasil, chamado Bigode, teve durante o jogo um atrito com o adversário e supostamente levou uma bofetada. Essa história, contada por algumas testemunhas ou pseudotestemunhas oculares, virou o símbolo máximo de um time que se acovardou em sua própria casa, coisa que até hoje é comemorada no Uruguai, até porque foi a última Copa que eles ganharam, há sessenta e quatro anos atrás. Hoje o lance seria dissecado em vinte ângulos diferentes para se concluir se o infeliz afinou ou não para o bravo uruguaio. Bigode passou o resto da vida tentando desmentir a bofetada, mas ninguém lhe deu ouvidos. O mito já havia sido criado e as pessoas tinham fome de mitos. Hoje os mitos tem que ser literais, portanto, deixam de ser mitos.
Tenho vontade de escrever um livro sobre uma velha terapeuta num asilo e uma criança que vem puxar assunto com ela. A recorrência da dupla velha senhora/criança curiosa é um sinal, claro, de pouco recurso literário desse autor aqui, mas tudo bem. Tenho um diálogo já escrito mentalmente em que a criança pergunta para a senhora o que ela fazia da vida. Ela vai responder, sorrindo, que era uma “apanhadora de histórias”. A criança pergunta o que seria isso, a velha senhora responde que ela ficava numa sala onde as pessoas entravam e começavam a contar as suas histórias e histórias que se fundiam e derivavam dessas histórias originais, até montar um painel em suas mentes onde as coisas começavam a ter significado, como um quebra cabeça que vai se juntando, com peças que não pareciam ter nenhuma ligação entre si. A criança pergunta por que ela não apanha mais histórias, ela vai dizer que com os anos as pessoas pararam de tecer narrativas e não conseguiam mais construir frases, ou histórias, com mais de 140 caracteres. Nem tinham paciência para ouvir ou ver nenhum filme com mais de 4 minutos. A velha senhora conta que, a partir daí, as pessoas iriam aos consultórios para poder ficar alguns minutos em silêncio. Ter o próprio silêncio testemunhado por alguém era a última fronteira dos divãs. Sem mencionar que era um dos últimos lugares em que duas pessoas podiam estar juntas sem a presença de uma webcam. A criança insiste, e pergunta por que ela parou de fazer isso. A senhora responde: e quem falou que eu parei?
Mostrando postagens com marcador Filme "Philomena". Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filme "Philomena". Mostrar todas as postagens
domingo, 23 de março de 2014
Assinar:
Postagens (Atom)
