Ana (nome fictício), veio para consulta depois de um período em que começou a apresentar crises ansiosas dentro do ambiente de trabalho. Tinha uma sensação profunda de desconforto na boca do Estômago, a boca ficava seca, as mãos suadas e tinha uma espécie de mau pressentimento, como se algo muito ruim estivesse para acontecer. A princípio achou que aquilo fosse cansaço, bebia café, chá, água com açúcar. A situação com sua chefe não estava nada bem, e sua ansiedade a deixava mais distraída e com dificuldade em concluir suas tarefas. Ela passou a evitar contato com a chefe e chegou a chorar no meio de uma reunião onde seus resultados ruins foram expostos diante de seus pares. Foi sugerido a ela que “não estava tolerando a pressão” e que “estava espanando”. Ela já tinha ouvido essa expressão e sabia muito bem que ser taxada dessa forma era o caminho mais curto para a demissão. Felizmente o tratamento reduziu seus sintomas e ela conseguiu retomar suas funções por alguns meses. Mas sua chefe continuou cismada e caçando seus erros, até que teve outra crise de choro em outra reunião. Corremos com a medicação, mas ela acabou sendo desligada da empresa no final do mês. Está cogitando acionar a empresa, embora seja difícil caracterizar o ambiente de trabalho como causador de sua doença.
Foi na Primeira Grande Guerra, talvez a mais brutal da história, que foi descrita a Neurose de Guerra, uma doença que acometia os soldados nas trincheiras ouvindo as bombas e os morteiros zunindo sobre suas cabeças até entrarem numa espécie de colapso, com tremores, paralisias, pesadelos e explosões emocionais que os impediam de combater. Steve Stahl, famoso psiquiatra americano, escreveu um livro, de ficção, “Shell Shock”, com o relato de que nessa Guerra, alguns soldados que receberam o diagnóstico de Neurose de Guerra eram fuzilados como covardes e desertores pelo Exército Inglês. Como os arquivos da Primeira Guerra Mundial foram abertos após setenta e cinco anos da mesma, foi só muito recentemente que essas execuções tornaram-se públicas e que as famílias pediram que esses soldados fossem reabilitados como doentes, não covardes.
O Transtorno de Estresse Pós Traumático é uma condição psiquiátrica conhecida, estudada e tratada há cerca de três décadas, embora seja uma condição muito comum na história humana. É o corresponde moderno da Neurose de Guerra. A exposição repetida a experiências estressantes ou de ameaça podem gerar lesões em áreas Cerebrais como o Hipocampo e predisporem a Depressão, Alcoolismo e uso de Drogas, além de se correlacionar com risco aumentado de Suicídio. Apesar de tudo isso, lamento dizer que em variados locais de trabalho ou de exposição a situações estressantes, como abusos verbais, físicos e sexuais, o aparecimento desses tipo de quadro clínico é ainda entendido como sinais de preguiça, frescura ou falta de resiliência. Com mais de treze milhões de desempregados, ser taxado assim pode significar uma espécie de morte profissional. E algumas pessoas entendem isso de maneira literal. O modelo de gestão de pessoas baseado em criação de monitoramento de resultados sob pressão gera uma tensão semelhante a dos soldados nas trincheiras. Quando o funcionário “espana”, seus sintomas são vistos como sinais de fraqueza ou de inaptidão ao serviço. Ambientes de trabalho de maior apoio e redes sustentadas de comunicação são mais protetores, geram melhores resultados e maior produtividade. Não sou eu quem diz, são todos os estudos e a Neurociência. Curiosamente, o sistema darwinista de pressão Top-Down nas organizações criam a cultura de que o melhor gestor é o que consegue extrair o máximo de produtividade com o mínimo de gastos e investimentos. Como os capatazes dos navios negreiros. Isso ainda persiste.
Chegam cada vez mais vítimas desse sistema nos consultórios. A gestão por bullying cria cada vez mais vítimas de ambos os lados das trincheiras corporativas. Vejo pacientes terem crises ansiosas e sensação de Pânico quando se sugere que possam voltar ao trabalho. O rombo da Previdência aumenta a pressão dos peritos para devolver as pessoas ao seu trabalho. Muitos deles sequer ouviram falar em TEPT, o Transtorno de Estresse Pós Traumático, assim como muita gente vai continuar achando que isso é desculpa de quem quer fugir de suas responsabilidades.
As empresas e as políticas públicas só vão mudar quando essa Guerra silenciosa gerar mais e mais prejuÍzos, não humanos, mas econômicos. Isso deve gerar programas de gestão de comunicação e criação de ambientes mais colaborativos de trabalho. Para o bem de todos.
Até lá, vamos evitar que nossos soldados sejam fuzilados pelos gestores, com bons tratamentos e terapias. Os psiquiatras que devem estar de plantão nas trincheiras.
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domingo, 2 de julho de 2017
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