Um filme recente, "Amor e Outras Drogas", aborda a relação de propagandistas da Indústria Farmacêutica com os prescritores, antigamente chamados de médicos. O médico tem o poder da caneta e do carimbo, empresta seus muitos anos de estudo e experiência, quem sabe a sua credibilidade, para determinados medicamentos. O filme mostra essa relação, nem sempre ética, com os vendedores e os médicos de maior ou menor destaque. Em paralelo, a trama mostra o personagem principal, que inicia a sua carreira como propagandista de um grande laboratório, com uma moça belíssima, mas marcada já aos vinte e pouco anos pela Doença de Parkinson. Como o seu namorado não é propriamente um leigo, sabe muito bem que ficar com ela significa cuidar de sua doença num futuro não tão distante. A partir daí que a história se desenrola.
Estou falando sobre esse filme porque estou nesse momento no Guarujá, patrocinado por um laboratório, que gentilmente nos trouxe aqui para assistir a aulas também bacanas sobre o mais novo antidepressivo, em nosso mercado há dois anos. A parte realmente agradável foi o palestrante mostrar os dados e adotar um tom de médico falando para médicos: vejam os dados, o remédio é bom para esse tipo de quadro, não funciona naqueles tipos, e, como a maioria dos medicamentos, às vezes faz exatamente o contrário do que visamos na hora de assinar a receita. Um tom franco que não subestimou a inteligência dos ouvintes.
O mundo do Marketing não é estranho para mim. Na década de 90 eu cheguei a trabalhar um par de anos como diretor de marketing de uma pequena editora, que vendia livros sobre assuntos médicos, para leigos, após uma palestra gratuita. Eu montava as palestras e ensinava aos palestrantes a importância do momento da virada, que é a hora em que, depois de uma boa e honesta apresentação, o vendedor vai pedir o dinheiro dos participantes. Um treinamento que hoje dão a muitos pastores de igrejas lucrativas. Eu sempre tive a impressão que o bom vendedor é aquele que estuda, entende e acredita no produto que está divulgando. Gostar de gente e não acreditar que a venda se faz com "uma boa lábia" também é um valor. O bom vendedor é aquele que consegue casar o seu produto com a necessidade e, mais profundamente, com o desejo do cliente. Um bom médico vende o seu conhecimento e experiência para trazer alívio ao sofrimento de seu paciente. O custo/benefício dos medicamentos sempre devem e serão colocados na balança. Esse novo medicamento trouxe novas questões no tratamento da depressão. O palestrante falou sobre essas novas questões com habilidade. Daqui da sacada, teclo esse blog vendo o mar. Mas a parte que realmente importa é que eu vou sair daqui sabendo para quem NÂO prescrever esse medicamento e quais são as drogas com ação diferente, mas que podem dar um conforto semelhante, com um custo mais acessível para os pacientes.
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domingo, 19 de junho de 2011
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Sobre homens e sofás
Esse blog comemora, depois de 19 postagens, o seu primeiro seguidor: Oi, Rutinha, benvinda. Prometo ser mais assíduo. Vou falar hoje de um assunto que temo não seja muito de seu interesse, que é a relação perigosa entre médicos e indústria farmacêutica. Diariamente ouço o Mundo Corporativo na rádio CBN, e nessas semanas que passaram um interessante debate se estabeleceu:a questão dos profissionais que estabelecem um vínculo empregatício de PJ, ou seja, Pessoa Jurídica, optando por receber um salário melhor para abrir mão de alguns direitos trabalhistas. A Justiça Trabalhista tende a julgar que esse tipo de contrato lesa o trabalhador, mesmo quando é o próprio que opta por essa modalidade de contrato. Um dos ouvintes escreveu para o programa indagando se a Justiça Brasileira julga os trabalhadores criancinhas que não sabem pesar os prós e os contras desse tipo de vínculo.
Por falar em prós e contras, a nossa querida agência reguladora, a ANVISA, tem criado barreiras cada vez mais detalhadas e prevalentes para a relação entre propagandista farmacêutico e médico. Isso na prática tem inibido o clientelismo, a troca de favores e as relações algo incestuosas entre indústria e médicos, mas também na prática, o efeito imediato é que os meus pacientes assinam o cheque com a caneta Bic, já que a ANVISA proibiu aquela canetinhas promocionais. Não pode caneta, pen drive, blocos de notas e outros pequenos agrados estão proibidos, porque podem influenciar a nossa prescrição. Esse fato me lembra a história do português que pegou a esposa traindo-o no sofá e vendeu o sofá. O poder de formação de opinião e de fomento de pesquisa da parte da Indústria Farmacêutica é descomunal. Há uma pressão muito grande da Literatura para tratarmos mais tempo, com doses maiores e mais opções medicamentosas os nossos pacientes. Como no debate da CBN, nossos queridos colegas da ANVISA acreditam que somos criancinhas manipuláveis que vamos trocar nossa reputação e consciência por canetinhas e psssagens para o Congresso. Sou muito grato aos laboratórios que me levaram ao Congresso de Neurociência em Gramado ou ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria nos últimos anos, mas isso não mudou uma gota de tinta em minhas prescrições que visam o interesse, inclusive econômico, de meus pacientes com medicamentos de melhor custo/benefício para cada caso. Isso vale muito mais do que algumas canetinhas. O verdadeiro lobby na formação das opiniões, nos diagnósticos e nas condutas estão em outro lugar, bem longe dos consultórios, tem uma força de pressão maciça e necessita de médicos com espírito crítico e boa formação científica para separar, sempre, o joio do trigo. E isso se consegue formando e informando bem a classe médica, coisa que as agências não tem estrutura para bancar.
Por falar em prós e contras, a nossa querida agência reguladora, a ANVISA, tem criado barreiras cada vez mais detalhadas e prevalentes para a relação entre propagandista farmacêutico e médico. Isso na prática tem inibido o clientelismo, a troca de favores e as relações algo incestuosas entre indústria e médicos, mas também na prática, o efeito imediato é que os meus pacientes assinam o cheque com a caneta Bic, já que a ANVISA proibiu aquela canetinhas promocionais. Não pode caneta, pen drive, blocos de notas e outros pequenos agrados estão proibidos, porque podem influenciar a nossa prescrição. Esse fato me lembra a história do português que pegou a esposa traindo-o no sofá e vendeu o sofá. O poder de formação de opinião e de fomento de pesquisa da parte da Indústria Farmacêutica é descomunal. Há uma pressão muito grande da Literatura para tratarmos mais tempo, com doses maiores e mais opções medicamentosas os nossos pacientes. Como no debate da CBN, nossos queridos colegas da ANVISA acreditam que somos criancinhas manipuláveis que vamos trocar nossa reputação e consciência por canetinhas e psssagens para o Congresso. Sou muito grato aos laboratórios que me levaram ao Congresso de Neurociência em Gramado ou ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria nos últimos anos, mas isso não mudou uma gota de tinta em minhas prescrições que visam o interesse, inclusive econômico, de meus pacientes com medicamentos de melhor custo/benefício para cada caso. Isso vale muito mais do que algumas canetinhas. O verdadeiro lobby na formação das opiniões, nos diagnósticos e nas condutas estão em outro lugar, bem longe dos consultórios, tem uma força de pressão maciça e necessita de médicos com espírito crítico e boa formação científica para separar, sempre, o joio do trigo. E isso se consegue formando e informando bem a classe médica, coisa que as agências não tem estrutura para bancar.
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