Bem, conforme o prometido ontem, vou aproveitar o último post do ano para publicar um texto do meu amigo imaginário Jorge Luis Borges. Para quem não conhece, Borges foi um espetacular escritor argentino, nascido nos subúrbios de Buenos Aires, em 1899 e falecido em 1986. Borges procurou em toda a sua vida por sua própria voz como criador e encontrou uma Literatura profundamente gaúcha e universal, ao mesmo tempo. Nesse texto, ele vai fazer uma releitura do Sermão da Montanha e de outras falas de Jesus, quase criando um Evangelho pessoal, que ele chamou de Apócrifo. Eu já havia colocado esse texto no último post de 2011 e acho que vou colocá-lo em 2013, também. Felizes os felizes, em 2013. Amen.
FRAGMENTOS DE UM EVANGELHO APÓCRIFO
(Jorge Luis Borges, do livro “Elogio da Sombra”)
3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que hoje é na terra.
4. Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.
6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.
7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a têm.
8. Feliz o que perdoa aos outros e o que perdoa a si mesmo.
9. Bem aventurados os mansos, porque não condescendem com a discórdia.
10. Bem aventurados os que não tem fome de justiça,porque sabem que a nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.
11. Bem aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não da esperança de um prêmio.
12. Bem aventurados os de limpo coração, porque vêem a Deus.
13. Bem aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça do que seu destino humano.
14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum homem a veja. Deus a verá.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que eu digo e os que os profetas disseram.
17. O que mata pela causa da justiça, ou pela causa que crê justa, não tem culpa.
18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.
19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que a tua paz.
20. Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide...
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
25. Não jures, porque todo juramento é uma ênfase.
26. Resiste ao mal, mas sem espanto e sem ira. A quem te ferir na face direita, podes oferecer-lhe a outra, sempre que não te mova o temor.
27. Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra da justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de comprazer tua vaidade.
30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é o pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu erro.
32. Deus é mais generoso que os homens e os medira com outra medida.
33. Dá o santo aos cães, deita tuas pérolas aos porcos;o que importa é dar.
34. Busca pelo agrado de buscar, não pelo de encontrar...
39. A porta é que escolhe, não o homem.
40. Não julgues a árvore por seus frutos nem ao homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia...
47. Feliz o pobre sem amargura e o rico sem soberba.
48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas.
49. Felizes os que guardam na memória as palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes.
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
domingo, 30 de dezembro de 2012
Borges, Amigo Imaginário
Amanhã vou escrever o último post do ano, repetindo o último de 2011. Vou colocar o texto de um velho mestre e amigo imaginário, Jorge Luís Borges. O meus filhos quando ganharam algum senso crítico perceberam a índole solitária e introvertida de seu pai e criaram para mim um amigo imaginário, chamado Bob. Quando sentávamos na padoca, depois de atravessarmos a intransponível Raposo Tavares, eles puxavam uma cadeira para o Bob e ofereciam um pedaço de pão na chapa. Se eu fosse consultado, chamaria meu amigo imaginário de Borges, ou de Campbell, ou de Nelson Rodrigues. Meus “amigos” tem algo em comum: passaram a sua infância e adolescência mais ou menos na mesma época, tinham, sobretudo Borges e Nelson, uma imensa fragilidade física e uma timidez insuportável que os obrigava a uma vida solitária e no meio dos livros. Eu não era tão fisicamente frágil, mas era um moleque míope e quase sempre enfiado nos livros. Todos eles construíram obras gigantescas em relação a seu meio cultural pouco privilegiado: Campbell no estudo da Mitologia e Religiões comparadas; Borges na Literatura e Nelson no teatro.
Borges construiu e eu diria que inventou a literatura argentina. Hoje assistimos a filmes argentinos produzidos com baixo orçamento que são mais reflexivos e literários que os brasileiros. Acho que é uma herança evidente de Borges, mas sou suspeito para falar. O texto que vou republicar amanhã, "Fragmentos de Um Evangelho Apócrifo", é uma reflexão devastadora sobre o que seria hoje uma leitura moderna do Sermão da Montanha, do Novo Testamento. Só para dar água na boca, vou fazer um paralelo. Onde está no Novo Testamento a frase: “Bem aventurados os que choram, pois serão consolados”, Borges escreve no aforisma 4: “Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto”. Chorar é uma coisa séria, não deve ser uma defesa e muito menos um ato de autopiedade, a droga mais usada no planeta. E por aí vai o texto, amanhã publico na íntegra.
Depois desses posts vou dar umas férias para esse blog e seus bravos 9 seguidores. Não vou parar de escrever em Janeiro, mas não vai ser nessa forma de ensaio/crônica que ele tem apresentado. Vou escrever aqueles diálogos, ou metadiálogos, que são bom método para se produzir conhecimento e reflexão desde os tempos Socráticos. O tema, que pode ser mudado a qualquer momento, será a princípio um “Jung para Crianças”, o que não será puro Jung nem será para crianças, mas os meus leitores já estão se acostumando com essas esquisitices.
De qualquer forma, agradeço muito os page views, os comentários, o incentivo e as questões que eu procurei responder de forma não direta no decorrer dos posts. Esse é o post de número 335 ou 336, e esse blog continua sem temática específica e sem a definição de um público específico, o que, nesses tempos de hipersegmentação, é uma tragédia de marketing e uma delícia de se escrever. Obrigado a quem teve paciência de saborear essa salada.
Borges construiu e eu diria que inventou a literatura argentina. Hoje assistimos a filmes argentinos produzidos com baixo orçamento que são mais reflexivos e literários que os brasileiros. Acho que é uma herança evidente de Borges, mas sou suspeito para falar. O texto que vou republicar amanhã, "Fragmentos de Um Evangelho Apócrifo", é uma reflexão devastadora sobre o que seria hoje uma leitura moderna do Sermão da Montanha, do Novo Testamento. Só para dar água na boca, vou fazer um paralelo. Onde está no Novo Testamento a frase: “Bem aventurados os que choram, pois serão consolados”, Borges escreve no aforisma 4: “Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto”. Chorar é uma coisa séria, não deve ser uma defesa e muito menos um ato de autopiedade, a droga mais usada no planeta. E por aí vai o texto, amanhã publico na íntegra.
Depois desses posts vou dar umas férias para esse blog e seus bravos 9 seguidores. Não vou parar de escrever em Janeiro, mas não vai ser nessa forma de ensaio/crônica que ele tem apresentado. Vou escrever aqueles diálogos, ou metadiálogos, que são bom método para se produzir conhecimento e reflexão desde os tempos Socráticos. O tema, que pode ser mudado a qualquer momento, será a princípio um “Jung para Crianças”, o que não será puro Jung nem será para crianças, mas os meus leitores já estão se acostumando com essas esquisitices.
De qualquer forma, agradeço muito os page views, os comentários, o incentivo e as questões que eu procurei responder de forma não direta no decorrer dos posts. Esse é o post de número 335 ou 336, e esse blog continua sem temática específica e sem a definição de um público específico, o que, nesses tempos de hipersegmentação, é uma tragédia de marketing e uma delícia de se escrever. Obrigado a quem teve paciência de saborear essa salada.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Fragmentos de Borges e Felizes os felizes
Lá se vai 2011. Engraçado, esse ano parece que as pessoas passaram ainda mais batidas pelo Natal e pelo Ano Novo. Os votos de Boas Festas são dados na internet em spams de editoras ou de sites com produtos para aumentar o pênis. As pessoas estão se cumprimentando menos, ou muito cansadas para comemorar?
De minha parte, envio o último post de 2011 poupando os visitantes de mais assuntos relacionados à Neurociência, à Psicologia Analítica ou ao Futebol Brasileiro. Vou encerrar o ano com um texto de um escritor que muito amo, Jorge Luis Borges. Vai ser uma espécie de presente de Natal atrasado, já que passamos tão batidos pelo Natal. O texto se chama: “Fragmentos de um Evangelho Apócrifo”, ou seja, um Evangelho cujo autor desconhecemos e nem queremos conhecer. É uma paráfrase do Sermão da Montanha, que nos atinge na boca do Estômago, por sua força de vida. Lá vai:
“ 3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
4. Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glórias.
6. Não basta ser o último para alguma vez ser o primeiro.
7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a têm.
8. Feliz o que perdoa aos outros e perdoa a si mesmo.
9. Bem aventurados os mansos, porque não condescendem com a discórdia.
10. Bem aventurados os que não têm fome de justiça, porque sabem que a nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.
11. Bem aventurados os misericordiosos, porque a sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.
12. Bem aventurados os de limpo coração, porque vêem a Deus.
13. Bem aventurados os que padecem perseguição em nome da justiça, porque lhes importa mais a justiça do que seu destino humano.
14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum homem a veja. Deus a verá.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que eu digo e os profetas disseram.
17. O que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.
18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo, nem os céus.
19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que a tua paz.
20. Se te ofender a tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide.
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim do dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
25. Não jures, porque todo juramento é uma ênfase.
26. Resiste ao mal, mas sem espanto e sem ira. A quem te ferir a face direita, podes oferecer-lhe a outra, sempre que não te mova o temor.
27. Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
28. Fazer bem a teu inimigo pode ser obra da justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29. Fazer bem a teu inimigo é o melhor é o melhor modo de comprazer a tua vaidade.
30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é o pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim não é , não é teu erro.
32. Deus é mais generoso que os homens e os medira com outra medida.
33. Dá o santo aos cães, deita tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.
34. Busca pelo agrado de buscar, não pelo de encontrar...
39. A porta é a que escolhe, não o homem.
40. Não julgues a árvore por seus frutos nem ao homem por suas obras;podem ser piores ou melhores.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora a pedra a areia...
47. Feliz o pobre sem amargura e o rico sem soberba.
48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas.
49. Felizes os que guardam na memória as palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes.”
Esse é na verdade, o meu mandamento preferido. Felizes os felizes. Sejamos felizes em 2012. Em 2013. Em 2014...
De minha parte, envio o último post de 2011 poupando os visitantes de mais assuntos relacionados à Neurociência, à Psicologia Analítica ou ao Futebol Brasileiro. Vou encerrar o ano com um texto de um escritor que muito amo, Jorge Luis Borges. Vai ser uma espécie de presente de Natal atrasado, já que passamos tão batidos pelo Natal. O texto se chama: “Fragmentos de um Evangelho Apócrifo”, ou seja, um Evangelho cujo autor desconhecemos e nem queremos conhecer. É uma paráfrase do Sermão da Montanha, que nos atinge na boca do Estômago, por sua força de vida. Lá vai:
“ 3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
4. Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glórias.
6. Não basta ser o último para alguma vez ser o primeiro.
7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a têm.
8. Feliz o que perdoa aos outros e perdoa a si mesmo.
9. Bem aventurados os mansos, porque não condescendem com a discórdia.
10. Bem aventurados os que não têm fome de justiça, porque sabem que a nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.
11. Bem aventurados os misericordiosos, porque a sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.
12. Bem aventurados os de limpo coração, porque vêem a Deus.
13. Bem aventurados os que padecem perseguição em nome da justiça, porque lhes importa mais a justiça do que seu destino humano.
14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum homem a veja. Deus a verá.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que eu digo e os profetas disseram.
17. O que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.
18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo, nem os céus.
19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que a tua paz.
20. Se te ofender a tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide.
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim do dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
25. Não jures, porque todo juramento é uma ênfase.
26. Resiste ao mal, mas sem espanto e sem ira. A quem te ferir a face direita, podes oferecer-lhe a outra, sempre que não te mova o temor.
27. Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
28. Fazer bem a teu inimigo pode ser obra da justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29. Fazer bem a teu inimigo é o melhor é o melhor modo de comprazer a tua vaidade.
30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é o pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim não é , não é teu erro.
32. Deus é mais generoso que os homens e os medira com outra medida.
33. Dá o santo aos cães, deita tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.
34. Busca pelo agrado de buscar, não pelo de encontrar...
39. A porta é a que escolhe, não o homem.
40. Não julgues a árvore por seus frutos nem ao homem por suas obras;podem ser piores ou melhores.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora a pedra a areia...
47. Feliz o pobre sem amargura e o rico sem soberba.
48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas.
49. Felizes os que guardam na memória as palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes.”
Esse é na verdade, o meu mandamento preferido. Felizes os felizes. Sejamos felizes em 2012. Em 2013. Em 2014...
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