Ontem o Portal UOL publicou uma entrevista com o único amigo que Wellington Menezes, o assassino da escola em Realengo, teve em sua vida. O sujeito frequentava a Igreja Evangélica com Wellington e saíram de lá atritados com os dirigentes e o conselho de anciãos. O sujeito fez associações e interpretações suficientes para levá-lo a uma boa avaliação psiquiátrica: Wellington teria frequentado uma seita chamada "Os Treze Iluminados", daí a intenção de fazer treze vítimas. Era um fã do atentado de Onze de Setembro, daí a intenção de fazer o seu atentado no dia 07/04, pois sete mais quatro soma onze. Segundo o rapaz, que uma vizinha classificou como tão esquisito como o assassino de Realengo (se você quer uma boa fofoca, entreviste os vizinhos), Wellington destruiu o seu computador para apagar o seu laço com a seita misteriosa. O rapaz era vítima de perseguições e abusos junto com Wellington em seus tempos de Ensino Médio. Uma das razões do ato terrorista ter sido perpretado na escola foi o suposto bullyng que teria sofrido em sua passagem por lá.
A matéria, com esse rapaz pirado de dar com um cachorro morto na cabeça, mostra o desespero da mídia em tentar achar um culpado, um bode expiatório que nos devolva a paz. A possibilidade de um louco invadir a escola de nossos filhos e descarregar dois revólveres mais de 60 vezes é por demais aterrorizante. Tem que haver uma explicação. Encontramos na mídia toda uma gama de informações desencontradas, mexericos de vizinhos e palpiteiros de diversas áreas desfilando os seus achismos.
Wellington cujo corpo deve estar sendo constantemente manipulado por mãos impuras e vai ser sepultado sem o lençol branco imaculado que solicitou, apagou realmente todos os vestígios de motivo para o seu ato monstruoso. Nada de computador, diários ou de memória. É como se ele nunca tivesse existido. Esse é um dos horrores de nossa pós modernidade: a violência é um ato em si, não precisa de ideologia, não precisa de justificativa. Até a Al Qaeda tem uma ideologia que dá fundamento aos seus atentados. Talvez o mais assustador do ato psicótico de Wellington seja que aquilo foi apenas um ato em si de ódio contra o mundo, contra a inocência perdida, sem nenhuma justificativa, sem nenhuma ideologia. Na era da hipermídia, aparecer na televisão, ser objeto de atenção é uma febre mundial. Antigamente as pessoas eram famosas porque eram especiais, hoje são especiais porque são famosas. Ser um exBBB é o auge da fama.
O rapaz perturbado do Realengo, que destroçou a vida de muitas famílias, nos deu o arrepio na espinha da violência como um ato em si, que não necessita de um motivo.
Lembro de um filme de psicopata que eu gostava muito: "Seven", onde Morgan Freeman perseguia um assassino em série que matava pessoas inspirado nos sete pecados capitais: ira, inveja, preguiça, cobiça, gula, o assassino pegava pessoa que ao seu ver representavam esses pecados e os matava, com paciência e crueldade. Esse velho policial era acompanhado pelo jovem colega, interpretado por Brad Pitt. Todos vão ficando mexidos com a investigação. A cena que eu lembro o personagem do velho policial conversa com a jovem esposa do parceiro, que lhe segreda que está grávida mas não conseguia contar para o marido, obscecado por perseguir o tal psicopata. Ela não sabe se vai colocar uma nova vida nesse mundo em que vivemos. O velho tira olha para ela e diz: "Mime muito essa criança. Nunca deixe de estar atenta a ela." Parece que num mundo dominado pelos sete e vários outro tipos de pecado capital, a nossa única proteção é dar a nossa atenção aos mínimos detalhes da vida e do outro que está na nossa frente. Wellington atirou nos seus fantasmas. Acertou na nossa indiferença.
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domingo, 10 de abril de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Realengo, 07 de Abril de 2011
Ontem o Brasil teve, pela primeira vez, um massacre escolar, com um atirador sociopata invadindo e matando adolescentes indefesos na escola onde cursou o seu Ensino Médio. A presidente Dilma observou que não tínhamos essa "tradição" por aqui, e várias pessoas mais ou menos ilustres falaram sobre esse tipo de tragédia não acontecer em terras brasileiras.
O inesperado e o absurdo do espetáculo de violência gratuita fez a mídia buscar freneticamente todo tipo de profissional ligado ou não a esse tipo de evento para desfilar os seus palpites: uma educadora alertava para os vídeo games violentos; um filósofo para as falhas da comunicação humana; um psiquiatra chamava Wellington Menezes, o perpretador, o assassino em série, de psicótico; outro psiquiatra afirmava que o discurso do rapaz em seu bilhete suicida continha frases fundamentalistas islâmicas entremeadas de outras de conteúdo místico. O seu conteúdo seria "desconexo". Resumidamente, o chutômetro levado a status de esporte nacional. Todos se acotovelando diante das câmeras para dar o seu pitaco.
Durante essa Quinta Feira tive um dia cheio no consultório, estava sem internet e a história veio me chegando em pedaços, até se condensar em seu horror. Quando cheguei em casa, fiquei zapeando de canal em canal procurando pelo o que todos procuram diante de uma tragédia como essa: O que aconteceu? Por que aconteceu?
Uma tragédia como essa está sempre além de nossa compreensão. Cada um faz uma leitura pelo buraco de fechadura de seu sistema de crenças. Eu vou dar o meu pitaco, pelo buraco da fechadura da Psiquiatria.
O texto de Wellington não é desconexo. De forma alguma. O seu texto contém uma série de instruções detalhadas sobre o que e como fazer os preparativos e sepultamento de seu corpo. Quase uma erotização de sua própria morte. O conteúdo não é fundamentalista islâmico. Wellington passou a sua infância indo de porta em porta com a sua mãe, distribuindo folhetos de uma Igreja Protestante que ela frequentava. O texto tem uma influência evidente da linguagem do Velho Testamento. Ele determina, como um semi deus poderoso, todos os cuidados e proibições com relação a seu cadáver: ele deveria ser tocado por mãos puras, de pessoas que não pecavam contra a castidade. Se manuseado por pessoas impuras, as mesmas deveriam estrar cobertas com uma luva. O seu corpo deveria ser lavado, purificado e envolvido sem roupas por um lençol branco, que já levara para a escola e estava numa bolsa. Os mesmo cuidados que recebeu o corpo de Jesus após a crucificação. O bilhete não é desconexo. É assustador pela falta de necessidade de justificar de qualquer maneira o porque daqueles atos.
Wellington era filho de uma moça com problemas psiquiátricos, prima da senhora a quem chamou de mãe toda a sua vida. Foi adotado e criado como uma espécie de acompanhante dessa senhora. Era estranho e teve desde sempre sérios problemas de socialização. Os seus pais adotivos morreram nos últimos cinco anos. Com o seu suicídio ritualizado, pretendia se reunir à sua mãe morta, o único vínculo que ele formou em sua vida (pede expessamente para ser sepultado ao lado da cova em que sua mãe "dorme"). Matando as meninas bonitas que estavam deitadas, inermes, ele explodiu a muralha de silêncio que o separava do mundo. A morte foi a sua forma de fusão, a chance de chamar a atenção sobre a sua existência insignificante. Como muitos adolescentes ou adultos jovens que perpretam esse tipo de violência, Wellington passou uma boa parte de sua vida apartado socialmente, acumulando desejos e frustrações que gradativamente se transformaram em ódio e numa ação organizada e gélida de vingança. Ele sabia que só Deus poderia lhe oferecer algum perdão. Nós, humanos, não.
O inesperado e o absurdo do espetáculo de violência gratuita fez a mídia buscar freneticamente todo tipo de profissional ligado ou não a esse tipo de evento para desfilar os seus palpites: uma educadora alertava para os vídeo games violentos; um filósofo para as falhas da comunicação humana; um psiquiatra chamava Wellington Menezes, o perpretador, o assassino em série, de psicótico; outro psiquiatra afirmava que o discurso do rapaz em seu bilhete suicida continha frases fundamentalistas islâmicas entremeadas de outras de conteúdo místico. O seu conteúdo seria "desconexo". Resumidamente, o chutômetro levado a status de esporte nacional. Todos se acotovelando diante das câmeras para dar o seu pitaco.
Durante essa Quinta Feira tive um dia cheio no consultório, estava sem internet e a história veio me chegando em pedaços, até se condensar em seu horror. Quando cheguei em casa, fiquei zapeando de canal em canal procurando pelo o que todos procuram diante de uma tragédia como essa: O que aconteceu? Por que aconteceu?
Uma tragédia como essa está sempre além de nossa compreensão. Cada um faz uma leitura pelo buraco de fechadura de seu sistema de crenças. Eu vou dar o meu pitaco, pelo buraco da fechadura da Psiquiatria.
O texto de Wellington não é desconexo. De forma alguma. O seu texto contém uma série de instruções detalhadas sobre o que e como fazer os preparativos e sepultamento de seu corpo. Quase uma erotização de sua própria morte. O conteúdo não é fundamentalista islâmico. Wellington passou a sua infância indo de porta em porta com a sua mãe, distribuindo folhetos de uma Igreja Protestante que ela frequentava. O texto tem uma influência evidente da linguagem do Velho Testamento. Ele determina, como um semi deus poderoso, todos os cuidados e proibições com relação a seu cadáver: ele deveria ser tocado por mãos puras, de pessoas que não pecavam contra a castidade. Se manuseado por pessoas impuras, as mesmas deveriam estrar cobertas com uma luva. O seu corpo deveria ser lavado, purificado e envolvido sem roupas por um lençol branco, que já levara para a escola e estava numa bolsa. Os mesmo cuidados que recebeu o corpo de Jesus após a crucificação. O bilhete não é desconexo. É assustador pela falta de necessidade de justificar de qualquer maneira o porque daqueles atos.
Wellington era filho de uma moça com problemas psiquiátricos, prima da senhora a quem chamou de mãe toda a sua vida. Foi adotado e criado como uma espécie de acompanhante dessa senhora. Era estranho e teve desde sempre sérios problemas de socialização. Os seus pais adotivos morreram nos últimos cinco anos. Com o seu suicídio ritualizado, pretendia se reunir à sua mãe morta, o único vínculo que ele formou em sua vida (pede expessamente para ser sepultado ao lado da cova em que sua mãe "dorme"). Matando as meninas bonitas que estavam deitadas, inermes, ele explodiu a muralha de silêncio que o separava do mundo. A morte foi a sua forma de fusão, a chance de chamar a atenção sobre a sua existência insignificante. Como muitos adolescentes ou adultos jovens que perpretam esse tipo de violência, Wellington passou uma boa parte de sua vida apartado socialmente, acumulando desejos e frustrações que gradativamente se transformaram em ódio e numa ação organizada e gélida de vingança. Ele sabia que só Deus poderia lhe oferecer algum perdão. Nós, humanos, não.
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