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domingo, 1 de julho de 2012

Hormese ou Normose?

Estou lendo mais um trabalho em que aprendemos com os ratinhos a cuidar de humanos. O estudo demonstra que populações de ratos mais idosos começam a ter um degeneração cerebral semelhante à Doença de Alzheimer quando passam por um estresse infeccioso, como uma diarreia por E. Coli. Uma das características do ratinho mais idoso em relação ao jovem é que ele vai se movimentar menos nos labirintos e correr naquelas rodinhas (sempre penso que os camundongos correndo naquelas rodinhas uma metáfora inquietante de nossa vida capitalista). Os ratos, como os humanos, que interagem e se exercitam menos, degeneram mais rápido. Quando esses espécimes mais velhos foram estimulados a correr mais tempo, esse processo tipo Alzheimer foi interrompido, mesmo após a infecção bacterIana.
Foucalt, um filósofo francês que eu gostaria de ter mais tempo para ler, escreveu na “História da Sexualidade” que a suprema moralidade de nosso tempo é moralidade do corpo e de suas demandas. Nessa nova moralidade, o supremo pecado é adoecer, envelhecer, morrer. Dentro dessa moralidade, somos prisioneiros de uma nova e coletiva doença, a Normose. Quando alguém morre, todos se apressam em procurar quais “pecados” do morto o levaram ao desfecho fatal: era porque ele fumava, ou se estressava demais, ou comia muita porcaria, ou tinha uma circunferência abdominal inadequada. Medimos os índices de Massa Corpórea, as modelos citam o seu teor de massa magra e assim frequentamos os templos dessa nova religião. Toda gordura será castigada. Cometer excessos hoje é atividade de rebeldes, fumar é coisa de marginais, um ato de desobediência civil. Ou, pior, coisa de largados, os párias que não se submetem à Normose.
As pessoas tem o direito universal à preguiça e a rebeldia. Não é incomum ver a expressão de sutil desespero quando peço para os pacientes se exercitarem. Exercícios e restrição dietética são exatamente o antípoda da Revolução Industrial, que nos proveu de meios de deslocamento e de vida sedentária. Podemos passar décadas na frente das TVs devorando pacotes de salgadinhos e sorvetes deliciosos. Temos um suprimento de energia como nunca antes na História humana e vem esses chatos dizerem que temos que comer e nos exercitar como um Homem de Neandhertal. Vamos devorar os churrascos e tomar as estatinas para reduzir o Colesterol e pronto.
O desafio para fugir tanto da Normose como da Civilização Inflamatória é criar um campo de prazer em torno das atividades anti estresse. Prazer em comer mais vegetais e menos farinhas, prazer em manter o contato com a vida, que é o que está em jogo na maior parte dos casos, através de exercícios para o corpo e a mente. Temos a chance de vivermos mais e melhor do que qualquer geração do Homo sapiens. Mas isso tem que ser um desejo, não uma Moral.