Estava cantarolando uma música do Charlie Brown : “Ela achou meu cabelo engraçado/ proibida pra mim, no way/ Disse que não ia ficar/Mas levou a sério o que eu falei...”. O meu filho, que era um bebê quando a banda estourou, imediatamente começou a cantar comigo a música do líder da banda, Chorão, morto provavelmente com um coquetel de cocaína, álcool e analgésicos nesta semana. Talvez não exista uma homenagem maior ao artista e quase poeta do que essa, ficar cantarolando algumas músicas que ele deixou em nossa memória.
Um colega, psiquiatra, escreveu na Folha um texto sobre o aspecto psiquiátrico dessa perda: o uso progressivo e abusivo de substâncias tóxicas, a espiral de mudanças de humor e o sofrimento profundo e solitário do homem que ninguém conseguiu impedir de acelerar em direção do abismo. No final do texto, que tem aquele tom moralista e caga regras da Medicina que praticamos, mencionou a hipótese, para ele quase um fato, que Chorão tivesse uma doença, um Transtorno de Humor Bipolar não tratado, e que as flutuações de humor da doença teriam provocado o sofrimento e a morte do roqueiro.
A Bipolaridade virou uma espécie de diagnóstico onipresente na Psiquiatria. Durante algumas décadas, todos eram esquizofrênicos, hoje são todos bipolares. Isso reflete a nossa época de Cérebros hiperestimulados por mídia, imagens, sons, desejos e substâncias. Vivemos numa era de excessos. Todos estão sob pressão e correndo contra o tempo. O tempo virou o grande inimigo. Precisamos viver tudo com intensidade, aproveitar muito o nosso tempo, pois ele vai passar e o pior pecado será envelhecer.
Chorão cantou uma geração de moleques com o skate debaixo do braço que demorou e demora a amadurecer. Estourou com um CD bacana e durante algum tempo levou nas costas o finado rock brasileiro. Nos anos zero zero até agora, viu o rock ser tomado por uma geração de Emos e a unificação melosa do pop: podemos ouvir sertanejos, roqueiros e sambistas todos entoando versos melosos e simples, gemendo versos pobres para um público que só lê no computador e não decifra textos maiores que um twitt. Quem diria, mas Chorão virou um tiozinho quase intelectual nesse cenário. Mas o sucesso não fez bem nem para o homem, nem para o quase poeta. As suas letras, espertas e irônicas de moleque meio maloqueiro tentando chegar nas patricinhas proibidas para ele, viraram uma ode ao próprio umbigo, à sua luta para chegar onde chegou e a tentativa de recuperar a mulher que ia embora porque “Minha mente nem sempre tão lúcida/Fez ela se afastar/Mas ela vai voltar”.
Acho que o texto do colega foi bem intencionado e tenta aproveitar a tragédia de uma morte que, se não foi um suicídio, tem muitos componentes de um parassuicídio, isto é, uma procura inconsciente e constante pelo comportamento de risco até se encontrar com a morte cortejada . Será que todos esses ícones pop que tem acesso ilimitado a dinheiro, sexo, poder e qualquer tipo de droga lícita e ilícita são portadores da Doença Bipolar? Ou será que a Psiquiatria, como o colega, faz uma confusão dos diabos entre uma doença de forte herança genética e base biológica com a alteração de humor de uma pessoa que adota um estilo de vida de excessos e desrespeito de seus limites humanos? É mais fácil, bem mais fácil, explicar tudo como um Transtorno Bipolar não tratado que causou todo o problema. Venham a nós, psiquiatras, tomem seus Estabilizadores de Humor e nada de mal acontecerá.
Hoje eu dei uma carona para meu filho e ouvimos na rádio o lançamento do último álbum do Charlie Brown. A indústria fonográfica costuma lucrar com a morte trágica dos seus ídolos. Prestando a atenção na letra, Chorão cantava para a mulher que mais uma vez tinha lhe deixado que “em seu novo mundo não haveria mais distância”. Foi uma antevisão de sua morte? Um plano suicida? Uma manifestação de bipolaridade? Tenho uma resposta muito simples: sei lá. Só sei que a vida, e a morte de uma pessoa está muito além das interpretações e dos diagnósticos. E que não somos todos bipolares, só humanos.
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sábado, 9 de março de 2013
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