Peço desculpas por mais um título em Inglês. Alguns termos não encontram bons equivalentes em Português. Caetano dizia que só é possível filosofar em Alemão. Não conheço a língua germânica para poder avaliar a afirmação\brincadeira de Caetano, que perdeu muita força como provocador cultural nos anos zero zero, mas esse é outro assunto. Estava lendo uma notícia no portal UOL, que estudos com um cogumelo alucinógeno, muito familiar aos feiticeiros mexicanos, o psylocibe, produz mudanças na personalidade das pessoas que o experimentam, pessoas sem histórico de uso de drogas ou de dependências. As pessoas, após a experiência psicodélica passam a ter uma mente mais aberta, uma atenção mais difusa e uma abertura a o que chamamos de um mundo espiritual, pode-se assim dizer. Não tomei contato com o estudo e já posso imaginar uma ampla maioria de colegas da comunidade científica torcendo o nariz imediatamente e pensando que isso é uma bobagem riponga deslocada no século vinte e um.
Para quem não sabe, na década se sessenta houve o florescimento de uma tendência, o do estudo dos estados alterados de consciência. Os estudos foram muito baseados no LSD, uma dietilamida sintetizada artificialmente que hoje circula em nossas raves e baladas. Aliás, ontem mais um moleque saiu da balada em um carro possante e saiu dando batidas a 200 km por hora na cidade. Não parece uma coisa alcoólica, apenas, como a mídia e a polícia insinua. Lembra mais uma balinha de Ecstasy, ou várias. Mas não estou falando de balas, estou falando de doces, na linguagem dos baladeiros. Os estudos com LSD demonstravam visões e períodos imensos em outro espaço-tempo que produziam experiências de transformação profunda nas pessoas. Como uma experiência espiritual que muda o rumo e a visão de vida de uma pessoa. É lógico que algumas pessoas não voltavam tão bem da experiência, os estudos foram proibidos e desacreditados em todas essas décadas. Esse estudo com o cogumelo dá uma cutucada nessa ferida.
Já escrevi muito sobre isso no mês passado, com os títulos de Mudança. Todos os dias tentamos mudar, melhorar algo em nós e no mundo. Acabamos nos deparando com a repetição boçal de nossos velhos esquemas e neuroses. Nesse fim de semana, vamos desperdiçar a dieta dos dias "úteis" em alguma churrascaria rodízio ou festa de criança. Na Segunda Feira vamos prometer que dessa vez a dieta vai ultrapassar o próximo final de semana. Vamos pagar a matrícula em uma academia que não vamos frequentar ou tentar, mais uma vez, parar de fumar. Sem sucesso. Temos os nossos esquemas, nossas redes neurais espalhadas em hábitos que somos impotentes em mudar. Os "Shifters" são situações ou vivências que realmente mudam a nossa situação. Um choque emocional ou cognitivo que realmente chacoalha o coreto e nos coloca em contato com outras formas de pensar ou perceber o mundo. A psicoterapia busca, sem dúvida, criar uma situação psíquica propícia ao "shifter", à mudança de nossos velhos esquemas e dependências em outros esquemas, mais amplos, mais autõnomos, mais maduros. É o mesmo efeito que as pesquisas com os tais cogumelos estão visando. Isso significa que vou plantar cogumelos no jardim de casa e usar em psicoterapia? Não. Não é isso. Isso significa que um bom terapeuta deve estar atento a toda oportunidade em que os velhos esquemas mentais são chacoalhados por um shifter, para libertar os pacientes de seus velhíssimos medos e suas velhíssimas dependências.
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sábado, 1 de outubro de 2011
domingo, 18 de setembro de 2011
Game Changer
Hoje, em linguagem corporativa, temos vários termos derivados dos jogos. Todos em bom Português. Os negociadores são os Players. As mudanças de rumo de uma negociação ou de um mercado são os "Game Changers". Eu particularmente gosto dessas metáforas de jogo. Prefiro muito às metáforas bélicas,como Marketing de Guerrilha ou Guerra às Drogas.
No processo de transformação, é muito importante os Game Changers. Não é muito incomum as pessoas falarem em uma sessão: "Coitado de você, ouvindo essa ladainha mais uma vez. Ouvindo o problema das pessoas". Uma das grandes descobertas de Freud foi a descoberta da Lei de Repetição. Tendemos à repetição de hábitos, rituais, interpretações da realidade, até que alguma coisa provoca uma mudança. O terapeuta fica à espreita, em cada repetição, esperando pelo momento de mudar o jogo.
Estava vendo um vídeo que um cara contava a sua história, estava enfiado em drogas, a sua carreira artística indo de mal a pior, drogado e sentado numa lixeira, ele falou em voz alta: "Cara, daqui você sobe ou você desce de vez". No dia seguinte, entrou em um grupo de reabilitação, onde conheceu pessoas e a sua vida começou a se abrir. Todo mundo, se procurar, vai ter uma história de Transformação que começa em um insight, um choque, uma situação em que toda a sua vida ficou de pernas para o ar. Normalmente um evento desagradável: um diagnóstico, uma violência, uma separação, uma demissão. Após o impacto, o luto, a dor, os eventos transformadores nos obrigam a uma coisa muito fora de moda hoje em dia, que é a interiorização. Até escrever essa palavra já é difícil. Somos convidados pela vida pósmoderna a viver sempre para fora, sempre para os objetivos macro, a busca do macrosucesso ou da macrofelicidade. Quando tomamos as cacetadas do game changers, vamos buscar em nosso mundo interno a elaboração e os recursos para lidar com o problema. Depois percebemos que estamos mudados, com menos pressa, com menos impaciência, dando aos problemas a sua verdadeira dimensão.
Não sei se acredito na Indústria da Felicidade e diariamente acompanho pessoas infelizes imaginando que deveriam estar sendo mais felizes do que são. Acredito em jornada, acredito em realização, acredito em descoberta de potenciais verdaeiros debaixo de nossas máscaras de patinho feio.
O ideograma chinês para Crise é o mesmo que o da Oportunidade. Esse é o verdadeiro significado dos Game Changers.
No processo de transformação, é muito importante os Game Changers. Não é muito incomum as pessoas falarem em uma sessão: "Coitado de você, ouvindo essa ladainha mais uma vez. Ouvindo o problema das pessoas". Uma das grandes descobertas de Freud foi a descoberta da Lei de Repetição. Tendemos à repetição de hábitos, rituais, interpretações da realidade, até que alguma coisa provoca uma mudança. O terapeuta fica à espreita, em cada repetição, esperando pelo momento de mudar o jogo.
Estava vendo um vídeo que um cara contava a sua história, estava enfiado em drogas, a sua carreira artística indo de mal a pior, drogado e sentado numa lixeira, ele falou em voz alta: "Cara, daqui você sobe ou você desce de vez". No dia seguinte, entrou em um grupo de reabilitação, onde conheceu pessoas e a sua vida começou a se abrir. Todo mundo, se procurar, vai ter uma história de Transformação que começa em um insight, um choque, uma situação em que toda a sua vida ficou de pernas para o ar. Normalmente um evento desagradável: um diagnóstico, uma violência, uma separação, uma demissão. Após o impacto, o luto, a dor, os eventos transformadores nos obrigam a uma coisa muito fora de moda hoje em dia, que é a interiorização. Até escrever essa palavra já é difícil. Somos convidados pela vida pósmoderna a viver sempre para fora, sempre para os objetivos macro, a busca do macrosucesso ou da macrofelicidade. Quando tomamos as cacetadas do game changers, vamos buscar em nosso mundo interno a elaboração e os recursos para lidar com o problema. Depois percebemos que estamos mudados, com menos pressa, com menos impaciência, dando aos problemas a sua verdadeira dimensão.
Não sei se acredito na Indústria da Felicidade e diariamente acompanho pessoas infelizes imaginando que deveriam estar sendo mais felizes do que são. Acredito em jornada, acredito em realização, acredito em descoberta de potenciais verdaeiros debaixo de nossas máscaras de patinho feio.
O ideograma chinês para Crise é o mesmo que o da Oportunidade. Esse é o verdadeiro significado dos Game Changers.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Mudança II
Obrigado, Sônia, pelo retorno nos comentários. Foram valiosos. A leitora assídua dessas mal traçadas fez comentário sobre a necessidade de um mergulho profundo para mudarmos velhos esquemas cognitivos, que formam nossos sistemas de crenças. Não foi com essas palavras, mas foi isso.
O psiquiatra suiço Carl Jung dizia que não chegamos ao Paraíso sem passar pelo Inferno, antes. O que ele provavelmente quiz dizer é que a ampliação da Consciência, objetivo da maioria das psicoterapias, é possível depois que descemos às profundezas e fazemos uma limpeza em nossos porões. É lá que se escondem alguns monstros, mas é lá também que ficam guardados alguns tesouros. Uma coisa engraçada a respeito das psicologias, pois caso os leitores não saibam, há tantas psicologias quantos autores e grupos querendo criar a sua própria igrejinha, mas retomando, uma coisa engraçada das psicologias é que as primeiras a serem descobertas foram as profundas e as analíticas, como as escolas Freudianas e Junguianas, por exemplo. Depois foram descobertas as psicologias que abordam zonas mais superficiais da psique, como as Psicologias Behavoristas ou as Comportamentais. Se a psique fosse camadas de uma cebola, foi como descobrir o miolo para depois chegar até a casca. Mais recentemente, temos os fenômenos do Coaching e da literatura (?) de Autoajuda, que trabalham em esquemas mais simples de trabalho e abordagem. Todas as mais novas prometem sepultar as psicologias profundas como um erro do passado.
O fato é que a Autoajuda só se refere aos autores dos livros. Eles se autoajudam escrevendo coisas bonitas, adocicadas e esperançosas, cheias de lugares comuns que alimentam as esperanças das leitoras, mas com resultados que não ultrapassam os próximos títulos da moda. É claro que todo mundo gostaria de se amar, ter uma alimentação perfeita, um corpo maravilhoso e fazer parte de nossa sociedade de espetáculo. Seria bom que isso fosse atingido com algumas peças de autosugestão. Mas não é asim que funciona.
Agora há pouco conversei com uma pessoa, clinicamente deprimida depois de uma decepção amorosa virtual. Não foram poucas as revistas femininas que ela leu para encontrar um corpo mais magro, uma autoestima mais burilada e uma disposição para tentar encontrar alguém. Aliás, diga-se de passagem, não há nicho cultural mais contaminado com a ideologia da autoajuda do que as revistas femininas. Cuidado, meninas. A realidade está um pouco longe das fórmulas de "Programe-se e seja feliz". Essa moça tem em seus porões velhas e dolorosas cenas de um casamento infeliz de seus pais, cenas de violência incluídas. Essa imagem masculina danificada gera a expectativa de um Príncipe Encantado mais que perfeito, que virá com a força da paixão redimir todos os medos, as mágoas e as dúvidas sobre a possibilidade de ser feliz à dois. Não demora para o candidato a Príncipe fugir em seu cavalo de ferro, deixando um monte de sonhos despedaçados e a necessidade de alguns medicamentos para juntar os cacos. Ela vai precisar olhar melhor para as feridas, ter expectativas mais realistas, tentar outras vezes. Isso não está nas revistas.
Mudar é um assunto muito sério. Leva tempo e cansaço, demanda paciência. Não adianta comprar um bolo de microondas. As mudanças são gestadas longamente, como uma massa que a gente tem que bater com muita paciência. E profundidade.
O psiquiatra suiço Carl Jung dizia que não chegamos ao Paraíso sem passar pelo Inferno, antes. O que ele provavelmente quiz dizer é que a ampliação da Consciência, objetivo da maioria das psicoterapias, é possível depois que descemos às profundezas e fazemos uma limpeza em nossos porões. É lá que se escondem alguns monstros, mas é lá também que ficam guardados alguns tesouros. Uma coisa engraçada a respeito das psicologias, pois caso os leitores não saibam, há tantas psicologias quantos autores e grupos querendo criar a sua própria igrejinha, mas retomando, uma coisa engraçada das psicologias é que as primeiras a serem descobertas foram as profundas e as analíticas, como as escolas Freudianas e Junguianas, por exemplo. Depois foram descobertas as psicologias que abordam zonas mais superficiais da psique, como as Psicologias Behavoristas ou as Comportamentais. Se a psique fosse camadas de uma cebola, foi como descobrir o miolo para depois chegar até a casca. Mais recentemente, temos os fenômenos do Coaching e da literatura (?) de Autoajuda, que trabalham em esquemas mais simples de trabalho e abordagem. Todas as mais novas prometem sepultar as psicologias profundas como um erro do passado.
O fato é que a Autoajuda só se refere aos autores dos livros. Eles se autoajudam escrevendo coisas bonitas, adocicadas e esperançosas, cheias de lugares comuns que alimentam as esperanças das leitoras, mas com resultados que não ultrapassam os próximos títulos da moda. É claro que todo mundo gostaria de se amar, ter uma alimentação perfeita, um corpo maravilhoso e fazer parte de nossa sociedade de espetáculo. Seria bom que isso fosse atingido com algumas peças de autosugestão. Mas não é asim que funciona.
Agora há pouco conversei com uma pessoa, clinicamente deprimida depois de uma decepção amorosa virtual. Não foram poucas as revistas femininas que ela leu para encontrar um corpo mais magro, uma autoestima mais burilada e uma disposição para tentar encontrar alguém. Aliás, diga-se de passagem, não há nicho cultural mais contaminado com a ideologia da autoajuda do que as revistas femininas. Cuidado, meninas. A realidade está um pouco longe das fórmulas de "Programe-se e seja feliz". Essa moça tem em seus porões velhas e dolorosas cenas de um casamento infeliz de seus pais, cenas de violência incluídas. Essa imagem masculina danificada gera a expectativa de um Príncipe Encantado mais que perfeito, que virá com a força da paixão redimir todos os medos, as mágoas e as dúvidas sobre a possibilidade de ser feliz à dois. Não demora para o candidato a Príncipe fugir em seu cavalo de ferro, deixando um monte de sonhos despedaçados e a necessidade de alguns medicamentos para juntar os cacos. Ela vai precisar olhar melhor para as feridas, ter expectativas mais realistas, tentar outras vezes. Isso não está nas revistas.
Mudar é um assunto muito sério. Leva tempo e cansaço, demanda paciência. Não adianta comprar um bolo de microondas. As mudanças são gestadas longamente, como uma massa que a gente tem que bater com muita paciência. E profundidade.
domingo, 28 de agosto de 2011
Mudança
Estava escrevendo esse post, quase na metade dele, quando perdi a conexão e tive que reconectar esse netbook. Péssima notícia,tudo o que eu escrevi tinha se perdido e lá vamos começar de novo. Não dá para tentar reescrever o mesmo texto, aquele está perdido. Pode aparecer de novo em outros posts, mas tudo que tentar repetí-lo vai parecer um café requentado.
Estava falando da dificuldade de mudar. Qualquer coisa, mas principalmente, mudar nossos hábitos mentais. Podemos lutar todo dia para mudar o mundo, mas mudar nosso jeito de pensar ou agir, parece sempre um projeto fadado ao fracasso.
Temos hoje curso para quase tudo nessa vida. Os mais na moda começam com a palavra Gestão: "Gestão de Pessoas"; "Gestão de Projetos"; "Gestão da Indigestão"; Sempre procuramos pela Pedra Filosofal da capacidade de equilibrar e gerir processos para atingir objetivos. Há uma infinidade de MBAs que ensinam essas técnicas e cursos. Muitas palavras em inglês e muitas planilhas depois, as pessoas e as coisas continuam agarradas a seus velhos hábitos como à própria vida.
As psicoterapias sofrem também desse mal. Já ensinei em alguns cursos de formação o conceito spinelliano de Terapia Penico, uma modalidade muito comum em vários divãs. A terapia consiste em uma visita ao terapeuta (a sessão é presencial, ainda), o paciente se põe a vomitar toda a tensão de sua semana dentro do ouvido-penico do terapeuta, sem precisar ouvir nada. A sessão termina, o paciente sai aliviado de suas obstipações psíquicas e o terapeuta fica feliz com a qualidade de sua escuta, para tudo se repetir, ipsis literis, na outra semana. A terapia penico é uma embromação, como clamam vários cientistas? Não, não é. Muita gente vai cicatrizando velhíssimas feridas nessas sessões purgativas, depois de algum tempo passam a ter uma estrutura psíquica bem melhor. Mas mudar, ou mais do que isso, transformar essa ferida, deixar o Narcisismo primário por uma verdadeira capacidade de empatia pelo Outro, bem isso já são outros quinhentos.
Freud descobriu que as mudanças eram lentas e longamente trabalhadas. A Psique Humana e mesmo o Cérebro humano não gostam de mudanças rápidas. Mas isso não é desculpa.
Eu prometi que iria pelo menos passar um tempo sem falar no filme "A Origem". Isso está virando um Transtorno Obsessivo Cinematográfico desse autor. Mas vá lá, uma das coisas legais do filme é a noção, salvadora para as psicoterapias profundas, que uma mudança verdadeira de nossas programações neurais demanda um mergulho longo nas camadas mais profundas de um Inconsciente, onde uma nova programação vai ser inserida.
Dr Sócrates, grande ídolo do futebol de minha adolescência, foi internado nessa última semana na UTI por Hemorragia Digestiva, derivada de processo de Cirrose Hepática. O Dr jurou que já estava mudando a sua atitude e que agora superará de vez o abuso alcoólico. Isso vai depender da profundidade e do impacto psíquico que esse evento lhe trouxe. Se o impacto ficar na primeira ou segunda camada do Inconsciente, a chance de recaída será alta. Faço votos que o Dr tenha descido aos infernos para voltar renovado. Como dizia Cazuza: "Eu vi a cara da morte e ela estava viva". As mudanças, para poderem ocorrer, precisam vir de nossas camadas mais profundas, o que provoca um rearranjo em nossos softwares psíquicos. Podemos conseguir isso em nossas vidas e em nossos divãs, mas as técnicas de gestão de psicoterapia ou de mudanças pessoais, aqui, só servem para vender livros, apostilas e DVDs. As mudanças verdadeiras começam e terminam em nosso coração, e não vem pelo domínio de nenhuma técnica.
PS: não repeti o outro texto, mas esse também ficou legal. Vou postá-lo depressa.
Estava falando da dificuldade de mudar. Qualquer coisa, mas principalmente, mudar nossos hábitos mentais. Podemos lutar todo dia para mudar o mundo, mas mudar nosso jeito de pensar ou agir, parece sempre um projeto fadado ao fracasso.
Temos hoje curso para quase tudo nessa vida. Os mais na moda começam com a palavra Gestão: "Gestão de Pessoas"; "Gestão de Projetos"; "Gestão da Indigestão"; Sempre procuramos pela Pedra Filosofal da capacidade de equilibrar e gerir processos para atingir objetivos. Há uma infinidade de MBAs que ensinam essas técnicas e cursos. Muitas palavras em inglês e muitas planilhas depois, as pessoas e as coisas continuam agarradas a seus velhos hábitos como à própria vida.
As psicoterapias sofrem também desse mal. Já ensinei em alguns cursos de formação o conceito spinelliano de Terapia Penico, uma modalidade muito comum em vários divãs. A terapia consiste em uma visita ao terapeuta (a sessão é presencial, ainda), o paciente se põe a vomitar toda a tensão de sua semana dentro do ouvido-penico do terapeuta, sem precisar ouvir nada. A sessão termina, o paciente sai aliviado de suas obstipações psíquicas e o terapeuta fica feliz com a qualidade de sua escuta, para tudo se repetir, ipsis literis, na outra semana. A terapia penico é uma embromação, como clamam vários cientistas? Não, não é. Muita gente vai cicatrizando velhíssimas feridas nessas sessões purgativas, depois de algum tempo passam a ter uma estrutura psíquica bem melhor. Mas mudar, ou mais do que isso, transformar essa ferida, deixar o Narcisismo primário por uma verdadeira capacidade de empatia pelo Outro, bem isso já são outros quinhentos.
Freud descobriu que as mudanças eram lentas e longamente trabalhadas. A Psique Humana e mesmo o Cérebro humano não gostam de mudanças rápidas. Mas isso não é desculpa.
Eu prometi que iria pelo menos passar um tempo sem falar no filme "A Origem". Isso está virando um Transtorno Obsessivo Cinematográfico desse autor. Mas vá lá, uma das coisas legais do filme é a noção, salvadora para as psicoterapias profundas, que uma mudança verdadeira de nossas programações neurais demanda um mergulho longo nas camadas mais profundas de um Inconsciente, onde uma nova programação vai ser inserida.
Dr Sócrates, grande ídolo do futebol de minha adolescência, foi internado nessa última semana na UTI por Hemorragia Digestiva, derivada de processo de Cirrose Hepática. O Dr jurou que já estava mudando a sua atitude e que agora superará de vez o abuso alcoólico. Isso vai depender da profundidade e do impacto psíquico que esse evento lhe trouxe. Se o impacto ficar na primeira ou segunda camada do Inconsciente, a chance de recaída será alta. Faço votos que o Dr tenha descido aos infernos para voltar renovado. Como dizia Cazuza: "Eu vi a cara da morte e ela estava viva". As mudanças, para poderem ocorrer, precisam vir de nossas camadas mais profundas, o que provoca um rearranjo em nossos softwares psíquicos. Podemos conseguir isso em nossas vidas e em nossos divãs, mas as técnicas de gestão de psicoterapia ou de mudanças pessoais, aqui, só servem para vender livros, apostilas e DVDs. As mudanças verdadeiras começam e terminam em nosso coração, e não vem pelo domínio de nenhuma técnica.
PS: não repeti o outro texto, mas esse também ficou legal. Vou postá-lo depressa.
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