Desde criança ela ouvia a sua mãe dizer que ela tinha nascido para brilhar. Nas peças da escola isso se confirmava, pois era a mais jeitosa e desinibida com os papéis, além de ser uma menina bonita. Quando as coisas não corriam como queria, ou naqueles dias em que o desânimo parece engolir toda a nossa vida, sua mãe aparecia com um sorriso e perguntava: Quem nasceu para brilhar? Ela acabava se animando. Quando foi procurar ajuda já não se sentia tão brilhante: casou com um homem crítico que gostava de atacar, sempre, a sua vontade de fazer coisas e ter destaque. Junto com a vontade de brilhar havia o medo, principalmente o medo de não ser assim tão brilhante, nem tão nascida para brilhar. O marido insistia em frisar que nada havia nela de brilhante, mas apenas que ela era uma mulher mimada e pouco prática, vivendo a vida de selfie em selfie. Na verdade a sua maior dúvida, a mais profunda, era essa: deveria se livrar do marido e dar expressão à sua necessidade de atenção, ou de expressão artística, ou, no limite, deveria abrir mão da projeção de sua mãe e levar uma vida comum, com trabalho, marido e filhos e cheiro de alho na mão depois de fazer o macarrão no Domingo?
Talvez nosso mundo infestado com imagens e informações acabe criando essa indisposição contra a vida Real. E isso hoje começa na infância, com a infantolatria, a transformação de bebês e crianças em estrelas de filmes, montagens e álbuns intermináveis no Instagram. Andy Warhol falou que no futuro todos teriam direito a 15 minutos de fama. Os Snapchat tornaram esse tempo próximo a segundos. Fotos, vídeos, exposição das crianças em todas as mídias criam essa necessidade de brilhar. Já posso ver claramente as crianças entrando em processos de luto quando crescem e perdem a fofice que chamava tanto a atenção. Ficam perdidas sem os olhares encantados da infância. Algumas procuram por esse olhar a vida toda.
O mercado de trabalho reclama dessas crianças “nascidas para brilhar” no ambiente de trabalho, querendo atenção, reconhecimento e um cuidado particular com sua autoestima. Imagine o que encontram em nossos tempos de crise econômica devastadora. Não é à toa que muitos ficam presos no meio do caminho entre a adolescência e a vida adulta, recusando-se a entrar no jogo ou assumir responsabilidades. As responsabilidades são a porta de entrada para o Real.
A moça que segundo a mãe, tinha nascido para o brilho e o glamour continuou vivendo a vida com a sensação que ela lhe pregou uma peça. Talvez seja candidata a um divórcio ou cair na lábia de algum colega de trabalho que toque naquele ponto que o marido sufoca: que ela é linda, é maravilhosa, é especial. Ela evita impor aos filhos a fantasia de que nasceram para brilhar. Prefere dizer que nasceram para viver e viver é uma construção. Mas ela deixou o tratamento antes do maior entendimento: que ela é bem mais feliz deixando as pessoas brilharem do que querendo toda a atenção para si. Oferecer a sua atenção é muito melhor do que disputar, em desespero, quem brilha mais, quem recebe mais admiração. Fazer o macarrão de Domingo pode ser um jeito de colocar seu brilho no mundo, e isso deixa a sua marca, a sua impressão. O que não deu tempo de perceber, mas talvez um dia ainda aconteça, é que vivemos num tempo de zumbis narcísicos se arrastando pela energia que pensam, está no Outro ou na superfície, no número de curtidas de uma foto.
Viver a vida no presente permite uma impressão profunda. Isso é o que brilha, em cada minuto que se segue. Vivemos o grande dilema de uma vida que não se sustenta na correria e na disputa dos espelhos.
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segunda-feira, 20 de março de 2017
sábado, 9 de junho de 2012
Infernos (Im) Pessoais
A fiel leitora desse blog, Lúcia, fez uma sugestão de que eu comentasse o artigo do filósofo Luis Felipe Pondé, publicado na Folha de São Paulo de 04 de Junho, “O Meu Inferno Mais Íntimo”. Imagino que ela se lembrou de mim nos parágrafos finais do texto de Pondé, quando ele afirma que, ao contrário de Sartre, o Inferno não são “Os Outros”, mas, antes, o Inferno somos Nós, sendo o verdadeiro confronto, o confronto com os Demônios que nos habitam. No final do texto, ele mencionou um conto hassídico, quando foi possível a um homem justo visitar o Inferno, onde todos gritavam “Eu, eu, eu...”
Uma fórmula infalível de sofrimento é a fixação no Ego. Só há uma desgraça maior do que se fixar no Ego: é não ter Ego nenhum. Os neodarwinianos gastam muito latim dizendo que temos genes e patrimônios genéticos egoístas, que querem mais a reprodução e a predominância. Nossa cultura valoriza essa postura de predomínio, a glória do macho dominante. Grupos de neoprimatas, que chamamos de humanos, em situação de perigo, produzem dois tipos de reação adaptativa: o enfrentamento e a colaboração. Os machos, em situação de perigo, ficam nervosos, irritadiços e prontos para atacar ou fugir. As fêmeas reagem de outra forma: estabelecem alianças, protegem as crias, estabelecem e multiplicam os canais de comunicação. Homens brigam, mulheres falam, por isso que os machos da espécie fazem qualquer coisa para fugir de uma Discussão de Relacionamento.
Nossa civilização macha e darwiniana valoriza o sucesso, a dominância, o Poder. O pior é que as mulheres se contaminaram com esse sistema falocêntrico e também disputam os tronos de “Poderosa”, “Maravilhosa”, “Absoluta”. Mulheres turbinadas e homens em carros turbinados, são as imagens da Civilização Autoestima.
No Sábado passado eu falei sobre a Memória Celular e as estruturas em rede que determinam a comunicação entre as células e a resposta imune. Não há uma célula macha nem outra turbinada e gostosa para comandar o espetáculo. As células atuam numa rede infinita de comunicação e reação orquestrada, quase simultânea e em cadeia. O novo paradigma, inaugurado com com as novas tecnologias digitais, é o das estruturas em rede, em que prevalecer e colaborar tem a mesma importância. Não adianta glorificar o talento de um Messi se ele não tiver os gênios Iniesta e Xavi se multiplicando em campo, atuando de forma coordenada, múltipla, orgânica.
Poderia responder ao Pondé que o Inferno, hoje em dia, não são Os Outros, nem Nós mesmos. O Inferno é perder o contato. O Inferno é o Isolamento. Não adianta mais ajudar as pessoas a enfrentarem os seus demônios internos. Temos que ajudá-las a fazer contato com o mundo Interno e Externo, sem perder a capacidade de comunicação e Integração. As pessoas isoladas em seus medos e visões estanques são candidatas ao Inferno Íntimo.
Uma fórmula infalível de sofrimento é a fixação no Ego. Só há uma desgraça maior do que se fixar no Ego: é não ter Ego nenhum. Os neodarwinianos gastam muito latim dizendo que temos genes e patrimônios genéticos egoístas, que querem mais a reprodução e a predominância. Nossa cultura valoriza essa postura de predomínio, a glória do macho dominante. Grupos de neoprimatas, que chamamos de humanos, em situação de perigo, produzem dois tipos de reação adaptativa: o enfrentamento e a colaboração. Os machos, em situação de perigo, ficam nervosos, irritadiços e prontos para atacar ou fugir. As fêmeas reagem de outra forma: estabelecem alianças, protegem as crias, estabelecem e multiplicam os canais de comunicação. Homens brigam, mulheres falam, por isso que os machos da espécie fazem qualquer coisa para fugir de uma Discussão de Relacionamento.
Nossa civilização macha e darwiniana valoriza o sucesso, a dominância, o Poder. O pior é que as mulheres se contaminaram com esse sistema falocêntrico e também disputam os tronos de “Poderosa”, “Maravilhosa”, “Absoluta”. Mulheres turbinadas e homens em carros turbinados, são as imagens da Civilização Autoestima.
No Sábado passado eu falei sobre a Memória Celular e as estruturas em rede que determinam a comunicação entre as células e a resposta imune. Não há uma célula macha nem outra turbinada e gostosa para comandar o espetáculo. As células atuam numa rede infinita de comunicação e reação orquestrada, quase simultânea e em cadeia. O novo paradigma, inaugurado com com as novas tecnologias digitais, é o das estruturas em rede, em que prevalecer e colaborar tem a mesma importância. Não adianta glorificar o talento de um Messi se ele não tiver os gênios Iniesta e Xavi se multiplicando em campo, atuando de forma coordenada, múltipla, orgânica.
Poderia responder ao Pondé que o Inferno, hoje em dia, não são Os Outros, nem Nós mesmos. O Inferno é perder o contato. O Inferno é o Isolamento. Não adianta mais ajudar as pessoas a enfrentarem os seus demônios internos. Temos que ajudá-las a fazer contato com o mundo Interno e Externo, sem perder a capacidade de comunicação e Integração. As pessoas isoladas em seus medos e visões estanques são candidatas ao Inferno Íntimo.
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