Para quem não teve a oportunidade de ler, o último post desse blog abordou mais uma vez o discurso de Steve Jobs em Stanford, que virou um clássico na Internet e já fora comentado aqui em postagens antigas. Neste discurso para uma turma de formandos, Steve Jobs fez algo muito esperto para um palestrante: esvaziou as expectativas e a auto importância logo de cara, dizendo que a sua apresentação teria apenas três pequenas histórias. A primeira, “Ligando os Pontos”, foi comentada no post anterior.
A segunda história foi sobre a tijolada que levou na cabeça, atirada pela vida. Também é uma história conhecida que Steve Jobs foi um dos criadores da Apple, que hoje é uma das maiores companias do planeta. Quando a empresa saía de sua infância e tentava atingir a adolescência, ele próprio contratou um grande executivo da Coca Cola para dirigí-la, o que se revelou catastrófico. Depois de uma guerra corporativa pelo poder e qual visão seria dominante sobre o futuro da Apple, Steve Jobs foi mandado embora da empresa que ele próprio havia criado. A decepção para si e toda a sua geração foi imensa, sua vida mergulhou num período de dúvida e silêncio. Ele tinha alguns milhões de dólares na conta para não precisar pensar com pressa. Isso pode parecer uma grande vantagem e de fato, é, Steve não precisou procurar emprego nem passar por entrevistas com head hunters para pagar o aluguel. Ele podia sentar encima do dinheiro e gozar de uma boa aposentadoria antes dos 30 anos. Mas continuou fazendo o que gostava, criando uma empresa para desenvolver um sistema operacional menos instável e mais inteligente que o Windows. A empresa ia mal das pernas, mas outro investimento, em uma empresa de animação chamada Pixar deixou-o bastante confortável. Alguns anos depois de ter sido chutado de sua empresa, Steve Jobs voltou para salvá-la e transformá-la no que hoje vemos e tocamos em quase tudo.
Em seu discurso, Steve alertou os formandos para o fato que a vida, um dia, iria dar uma tijolada na cabeça deles também. Alertou-os para não se acomodarem, continuando a fazer o que mais amam. Recomendou enfaticamente não deitar sobre as dificuldades e seguir atentamente a própria intuição (para quem acha que eu sou apenas uma fanzoca louca de carteirinha de Steve Jobs, em outro post eu comento a sua trajetória de herói ferido e trágico, como Édipo. Ele também tinha seus problemas com a própria ferida, como todos nós).
Esse discurso me é particularmente caro porque ele toca em pontos bem importantes do pensamento junguiano, muito provavelmente sem nunca ter sido apreciador da obra de Jung. Não é impressionante um patrono dizer para uma turma de formandos que, “em algum momento, a vida vai te dar uma tijolada”? Dante Aliguieri abre a sua Divina Comédia com o comentário que chegou à metade de sua vida e se descobriu perdido em uma noite escura. Jung tem um nome feio para isso, Metanóia.
Metanóia é a mudança profunda e muitas vezes desagradável que nossa Psique experimenta na metade da vida. A mesma sensação do poeta, de estar perdido no escuro, sem caminho e sem saída diante de um profundo silêncio de Deus, costuma aparecer nesse período da jornada. Quem está lendo pode localizar em sua vida várias pedradas, mas se examinar mais a fundo vai achar uma boa tijolada, daquelas que deixam tudo de cabeça para o ar em nossa vida. Procurar e reconstruir algum caminho e algum sentido após a tijolada não é para qualquer um. Conheço e atendo muita gente que nunca mais encontrou o caminho depois da tijolada. Sobretudo os que não param de falar sobre ela nem um minuto. A recomendação
de não se acomodar é a mais difícil, pois significa deixar a mágoa para traz e seguir caminho. Deixar o leite derramado como derramado e procurar por outras estradas. Seguindo a intuição e sua Voz Interior. Pode demorar muito tempo. E não é nada fácil, ao contrário do que falam os livros de autoajuda.
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domingo, 1 de fevereiro de 2015
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