No documentário de quatro horas sobre a vida do ex beatle George Harrison, que já citei em alguns posts anteriores desse blog, há uma cena particularmente bonita, em que a sua última esposa e companheira descreve a sensação de plenitude e absoluta paz que desceu sobre o quarto de hospital no momento em que George estava morrendo. Uma sensação profunda de beatitude, como se tudo estivesse certo no mundo, inclusive a sua morte.
O cinegrafista da Bandeirantes do Rio de Janeiro, Santiago Andrade, estava fazendo o seu trabalho, procurando o melhor ângulo para filmar as passeatas na Cidade Maravilhosa, quando um rojão explodiu perto de sua cabeça, causando uma Contusão Cerebral que ceifou a sua vida, alguns dias depois do incidente. Santiago tinha uma filha jornalista, que passou os últimos momentos perto do corpo de seu pai, na UTI, antes do diagnóstico da Morte Cerebral que ratificou a sua morte. Ela deu declaração no dia seguinte, que teve uma despedida linda de seu pai, muito provavelmente sentindo a mesma sensação de paz e de descolamento das aflições e das dores de nossa vida consciente.
Não faz muito tempo assisti uma aula de um Neurobiólogo, em que ele levantava a hipótese de que a ideia de vida depois da morte nasceu já com os primeiros hominídeos que enterravam os seus entes queridos com os seus pertences, para poder usar em sua vida no outro mundo. A própria concepção de um Deus todo poderoso seria, segundo ele, uma fábula que visava proteger os homens do horror da extinção de sua existência e de todas as vivências tidas durante essa vida. Não era possível que tudo isso iria apenas virar poeira. Tinha que haver um lugar para passar a eternidade e separar os bons, de minha tribo, dos maus, da tribo adversária. Esse neurobiólogo provavelmente diria que a vivência de paz e transcendência que essas pessoas experimentaram perto de entes queridos que estavam à beira da morte, não passa de uma projeção de esperança, de que aquela pessoa era muito especial e que seria recebida no outro plano por um coro de anjos.
O fato é que, a despeito de todas essas explicações mais científicas e concretas, acredito que as pessoas que experimentam essa sensação de transcendência, de ultrapassagem de todas as aflições e as obsessões de nosso estado normal de consciência. Uma das situações em que isso pode acontecer é na presença da morte. Acredito que fica um registro de nossa Psique e da amplitude de consciência que conseguimos, ou não, atingir. E que isso sobrevive à extinção de nosso corpo.
Algumas pessoas conseguem, à custa de muita contemplação ou de meditação, atingir em vida essa sensação de ausência de dor e de preocupação, como se houvesse naturalmente uma harmonia profunda em meio ao caos em que vivemos. Acredito que o quarto ficou todo cheio de energia na hora que o espírito de George se desprendeu do corpo. E que a filha de Santiago sentiu a energia do seu pai sendo acolhido em seu leito de glórias. Acredito e não faço questão de convencer ninguém. Só medito e visualizo essas imagens e a luz que elas desprendem para cultivar, com mais ou menos sucesso, essa sensação de paz intensa e de glória em nosso mundo maluco.
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domingo, 23 de fevereiro de 2014
sábado, 19 de janeiro de 2013
Jung para Crianças: Bob e o Self
De repente, uma questão atravessou os seus olhos. Ficou matutando essa ideia e a velha senhora quase interrompeu o processo perguntando o que se passava em sua cabeça.
- Posso te perguntar uma coisa?
- Claro que pode.
- Por que essas coisas que você estuda estão fora de moda?
Sorriu com um traço quase imperceptível de tristeza nos olhos.
- Você está vendo essa parte aqui do programa?
- Esse é o evento?
- É. Pelo menos é uma parte dele. Essa parte está cheia de pessoas falando de doenças.
- Doenças?
- Doenças. Doenças difíceis de tratar, como alguns tipos de doença oncológica. Você sabe o que é uma doença oncológica?
- Não.
- As doenças oncológicas são também chamadas de Câncer. Você já ouviu falar em Câncer?
Assentiu com a cabeça.
- As pessoas estão tentando entender essas doenças há séculos. Tentam arrancar, irradiar, bombardear essas doenças para deixá-las sob controle, para não deixar que essas células matem as boas células de nosso corpo.
- O que isso tem a ver com o que você estuda?
- Tem tudo a ver com o que eu estudo. Mas muita gente aqui nesse simpósio não acredita nisso. Muita gente não quer nem ouvir falar nisso, para dizer a verdade. Elas só querem saber qual é a última novidade para tratar as doenças, como fabricar nanorrobôs, anticorpos monoclonais, manipulação de genes, para combater essas doenças. Elas só esquecem de uma coisa.
Ela continuava muito atenta.
- Todo dia essas células malucas são produzidas. Como se saíssem com defeito. Esse defeito pode crescer e virar uma doença.
- Essas células doentes podem virar um Câncer – falou com um ar de enfado, como quem pergunta: “Tá pensando que eu sou uma criancinha?”.
- Muito bem, querida.
- A minha mãe já me explicou.
- Que legal.
- A minha mãe é uma das pessoas que deve achar o que você fala uma bobagem.
Não pôde conter o riso. A menina também.
- Agora me fala uma coisa.
A senhora enxugou algumas lágrimas de riso.
- Pois não.
- O que tem a ver a tal da Alquimia com o tratamento de Câncer?
Caiu na risada, de novo.
- Pois é, essa é a pergunta que todos me fazem. A menina que digitou o programa também deve ter pensado a mesma coisa, tanto que não colocou a aula no curso... Deixe-me ver...Como eu posso te explicar?
Coçou a cabeça.
- Você já viu um formigueiro?
Uma pergunta cabível diante de uma menina criada em apartamento.
- Já vi, sim. (Respondeu com aquela cara de “Tá pensando o que?”).
- Então... Você já se perguntou como que uma cidade tão complexa quanto um formigueiro mantém sempre aquele nível de organização?
- Elas são programadas geneticamente para cada função.
Olhou com uma expressão de espanto.
- É só assistir os desenhos, ok? O que tem a ver Alquimia e Formigueiros?
- As formigas se mantém organizadas. Complexamente organizadas. Elas tem um sistema de sinalização e comunicação para se orientarem, mas isso não dá para explicar esse nível de organização. Tem que haver algumas coisa a mais.
A menina não desgrudava os olhos.
- Tem que haver uma forma invisível de organização. Como um centro. Como um maestro invisível dizendo quando e como cada peça tem que se encaixar e cada folha vai ser guardada. Eu chamo essa ordem invisível de Bob.
- Como é que é?
- Na falta de outro nome, eu chamo essa ordem de Bob. Bob está sempre lá organizando tudo.
- Estou ouvindo.
- Imagine que Bob pode ser uma ordem que faz as células de seu corpo funcionarem. Como no caso do formigueiro, cada célula é programada geneticamente para desempenhar as sua funções, uma faz uma enzima, a outra absorve água, a outra percebe a cor vermelha.
Assentiu.
- Imagina que a célula doente sai do controle de Bob. Tudo vira uma bagunça. Bob chama a polícia, as células brancas, programadas geneticamente para colocar ordem na casa. Era disso que eu queria te falar: para tratar essas doenças, é preciso fazer a orquestra funcionar de novo. É importante fazer a energia circular de novo. Era isso que os Alquimistas faziam.
- Quê?
- Os alquimistas faziam a energia circular na matéria. A energia que estava parada.
- (Deu um pulo na cadeira). Peraí, peraí...O que isso tem a ver com o Bob?
Sorriu, triunfante.
- Agora você está começando a entender. A sua mãe tem uma filha muito esperta.
- Obrigada. Eu acho...
- Os alquimistas tentavam, mesmo sem perceber, fazer contato com o Bob. Fazendo contato com o Bob, poderiam achar a Pedra e curar as doenças.
- Não estou entendendo nada.
- Calma, eu explico: a doença acontece quando Bob não consegue mais organizar o formigueiro, digo, as células. Elas param de se entender e um grupo de bagunceiras saem pelo corpo comendo tudo e destruindo tudo.
- Esse é o Câncer.
- Isso. Os tratamentos tentam dar um pau nessas bagunceiras para que o corpo consiga se reorganizar e controlar a bagunça.
- O tratamento serve para dar um tempo para Bob reassumir o controle.
- Exatamente.
- Esse é um trabalho alquímico?
- Caramba. Você entendeu perfeitamente.
- E o tal do Bob é invisível.
- O tal do Bob é invisível.
- Sendo invisível, ninguém acredita nele.
- Muita gente não acredita nele.
- Estou começando a entender por que te deixaram fora do curso.
(Risos).
- Posso te perguntar uma coisa?
- Claro que pode.
- Por que essas coisas que você estuda estão fora de moda?
Sorriu com um traço quase imperceptível de tristeza nos olhos.
- Você está vendo essa parte aqui do programa?
- Esse é o evento?
- É. Pelo menos é uma parte dele. Essa parte está cheia de pessoas falando de doenças.
- Doenças?
- Doenças. Doenças difíceis de tratar, como alguns tipos de doença oncológica. Você sabe o que é uma doença oncológica?
- Não.
- As doenças oncológicas são também chamadas de Câncer. Você já ouviu falar em Câncer?
Assentiu com a cabeça.
- As pessoas estão tentando entender essas doenças há séculos. Tentam arrancar, irradiar, bombardear essas doenças para deixá-las sob controle, para não deixar que essas células matem as boas células de nosso corpo.
- O que isso tem a ver com o que você estuda?
- Tem tudo a ver com o que eu estudo. Mas muita gente aqui nesse simpósio não acredita nisso. Muita gente não quer nem ouvir falar nisso, para dizer a verdade. Elas só querem saber qual é a última novidade para tratar as doenças, como fabricar nanorrobôs, anticorpos monoclonais, manipulação de genes, para combater essas doenças. Elas só esquecem de uma coisa.
Ela continuava muito atenta.
- Todo dia essas células malucas são produzidas. Como se saíssem com defeito. Esse defeito pode crescer e virar uma doença.
- Essas células doentes podem virar um Câncer – falou com um ar de enfado, como quem pergunta: “Tá pensando que eu sou uma criancinha?”.
- Muito bem, querida.
- A minha mãe já me explicou.
- Que legal.
- A minha mãe é uma das pessoas que deve achar o que você fala uma bobagem.
Não pôde conter o riso. A menina também.
- Agora me fala uma coisa.
A senhora enxugou algumas lágrimas de riso.
- Pois não.
- O que tem a ver a tal da Alquimia com o tratamento de Câncer?
Caiu na risada, de novo.
- Pois é, essa é a pergunta que todos me fazem. A menina que digitou o programa também deve ter pensado a mesma coisa, tanto que não colocou a aula no curso... Deixe-me ver...Como eu posso te explicar?
Coçou a cabeça.
- Você já viu um formigueiro?
Uma pergunta cabível diante de uma menina criada em apartamento.
- Já vi, sim. (Respondeu com aquela cara de “Tá pensando o que?”).
- Então... Você já se perguntou como que uma cidade tão complexa quanto um formigueiro mantém sempre aquele nível de organização?
- Elas são programadas geneticamente para cada função.
Olhou com uma expressão de espanto.
- É só assistir os desenhos, ok? O que tem a ver Alquimia e Formigueiros?
- As formigas se mantém organizadas. Complexamente organizadas. Elas tem um sistema de sinalização e comunicação para se orientarem, mas isso não dá para explicar esse nível de organização. Tem que haver algumas coisa a mais.
A menina não desgrudava os olhos.
- Tem que haver uma forma invisível de organização. Como um centro. Como um maestro invisível dizendo quando e como cada peça tem que se encaixar e cada folha vai ser guardada. Eu chamo essa ordem invisível de Bob.
- Como é que é?
- Na falta de outro nome, eu chamo essa ordem de Bob. Bob está sempre lá organizando tudo.
- Estou ouvindo.
- Imagine que Bob pode ser uma ordem que faz as células de seu corpo funcionarem. Como no caso do formigueiro, cada célula é programada geneticamente para desempenhar as sua funções, uma faz uma enzima, a outra absorve água, a outra percebe a cor vermelha.
Assentiu.
- Imagina que a célula doente sai do controle de Bob. Tudo vira uma bagunça. Bob chama a polícia, as células brancas, programadas geneticamente para colocar ordem na casa. Era disso que eu queria te falar: para tratar essas doenças, é preciso fazer a orquestra funcionar de novo. É importante fazer a energia circular de novo. Era isso que os Alquimistas faziam.
- Quê?
- Os alquimistas faziam a energia circular na matéria. A energia que estava parada.
- (Deu um pulo na cadeira). Peraí, peraí...O que isso tem a ver com o Bob?
Sorriu, triunfante.
- Agora você está começando a entender. A sua mãe tem uma filha muito esperta.
- Obrigada. Eu acho...
- Os alquimistas tentavam, mesmo sem perceber, fazer contato com o Bob. Fazendo contato com o Bob, poderiam achar a Pedra e curar as doenças.
- Não estou entendendo nada.
- Calma, eu explico: a doença acontece quando Bob não consegue mais organizar o formigueiro, digo, as células. Elas param de se entender e um grupo de bagunceiras saem pelo corpo comendo tudo e destruindo tudo.
- Esse é o Câncer.
- Isso. Os tratamentos tentam dar um pau nessas bagunceiras para que o corpo consiga se reorganizar e controlar a bagunça.
- O tratamento serve para dar um tempo para Bob reassumir o controle.
- Exatamente.
- Esse é um trabalho alquímico?
- Caramba. Você entendeu perfeitamente.
- E o tal do Bob é invisível.
- O tal do Bob é invisível.
- Sendo invisível, ninguém acredita nele.
- Muita gente não acredita nele.
- Estou começando a entender por que te deixaram fora do curso.
(Risos).
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