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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Marlin e Eu

Recebi uma "queixa" de uma leitora, que reclamou da interrupção dos posts sobre a animação "Procurando Nemo". Vou ressuscitar a personagem da Vovó e de sua netinha para dar uma panorâmica num tema que eu gosto muito, da Jornada de Transformação. Mais um recado para a moça que está querendo marcar consulta e não consegue: por que você não vem ao nosso evento e conversa direto comigo? Eu posso "inventar" um horário, a minha secretária, Yrá, não. Pegue o meu e-mail no blog que conversamos. Bom, agora com vocês, a Vovó:

Entrou na sala correndo. Pegou a velha senhora de surpresa, com uma lágrima de canto. Ela se empertigou, rapidamente.
- Você está chorando, Vó?
- Eu?
- Não, eu.
- Um pouquinho, querida, um pouquinho.
Olhou para a TV.
- Você está vendo "Nemo" de novo?
Assentiu, com um suspiro.
- Por que você gosta tanto desse filme?
- Você não gosta?
- Adoro, mas não tanto como você.
- Esse filme fala de um assunto que eu gosto muito.
- A "Jornada de Transformação" ! ( falou de um jeito espalhafatoso, abrindo os braços).
- (Risos) Se você já sabe, por que pergunta?
- Porque eu SEMPRE pergunto.
- É verdade.
Silêncio, obviamente quebrado pela menina.
- Você pode me contar de novo.
- Contar o que?
- Contar da Jornada de Transformação. A Jornada do Nemo.
- A jornada não é do Nemo. Quem faz a jornada é o Marlin, o pai do Nemo.
- Quais são as fases, mesmo?
- As fases? isso é uma invenção minha...
- E daí? E se eu gostar da sua invenção?
- É mesmo... É mesmo. Eu brinco de dividir essas fases em quatro.
- Quais são, mesmo?
- A Perda, A Pedra, A Letra e o Perdão.
- É mesmo. Quais são essas fases, mesmo?
- Na Perda, o Marlin tem duas perdas devastadoras: primeiro ele perde Coral, a sua esposa e os filhotes. Depois ele perde o seu único filhote, Nemo, que ele superprotegia. Essa parte é dura.
- Todo mundo passa por isso?
- Acho que sim. Quase todo mundo sente essa perda na vida. Tem gente que passa muito tempo escondida na Anêmona, como o Marlin, quando sofre A Perda, com letra maiúscula.
- E depois?
- Depois vem a travessia, A Pedra.
- Por que você chama essa fase de "A Pedra"?
- É uma coisa que eu tirei da Alquimia. Da Pedra Filosofal.
Olhou com aquela cara de "estou boiando".
- Imagina que temos, junto à nossa Psique, ou Alma, uma base. Quanto mais enfrentamos a vida, as dúvidas, os medos, mais forte fica a sua Pedra.
- E se não enfrentamos?
- Mais ficamos imóveis, assustados, sem entrar na Jornada. Sacou?
- Saquei (falou, rindo. "Sacou" é o auge de gíria que a avó sabe falar). E depois?
- Depois? A Letra.
- O que é A Letra?
- É o aprendizado com o caminho. É a necessidade de continuar aprendendo, errando, procurando pelo caminho.
- É a Dory?
- Isso! Continue a nadar, continue a nadar. É o Crush, também.
- Como assim?
- É o Crush, claro: encontre o fluxo, cara, e deixe o fluxo te levar.
- E a última fase?
- O Perdão é quando você começa a entender a jornada: todo o sofrimento, toda a travessia para encontrar o que estava perdido.
- O Nemo?
- Também ... Também.
- Como também?
- O Marlin encontra o seu tesouro, que é o seu filho. Mas encontra com ele mesmo, também. Encontra com o peixe que ele realmente é, não aquele obsessivo medroso.
A neta sorriu.
- E isso não é para qualquer um.
Sorriram, reconfortadas. Mas a neta queria mais:
- Fala mais sobre isso?
A Vovó arregalou os olhos num sorriso.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pelo amor ou pela dor

Ontem escrevi sobre uma personagem querida da saga de "Procurando Nemo": Dory. Para quem está pegando o bonde agora, já estou escrevendo há alguns posts sobre a metáfora da Jornada, em "junguianês", A Jornada Arquetípica ou de Transformação, metáfora muita cara aos junguianos e à nossa cultura.
Agora cedo eu estava fazendo a minha bike, com um truque que uso, que é começar a ver um filme e só continuar na próxima pedalada ( a bicicleta é ergométrica, diga-se). A vantagem é que não vou contar o fim do filme, já que eu não o conheço. O filme é sobre um velho oftalmologista viúvo que recebe a notícia devastadora da morte de seu único filho, acidentado logo no início do seu caminho de Santiago de Compostela. Para quem não sabe, o Caminho de Santiago é uma jornada de 800 km que atravessa Espanha e França, por um lendária trilha onde estariam os despojos de São Tiago. Durante todo o ano milhares de peregrinos percorrem esse caminho em busca de aprendizado e iluminação. No filme, o homem pega as cinzas de seu filho e vai fazer, com a sua mochila e seus instrumentos, o caminho que seu filho não conseguiu completar, deixando um pouquinho dele e de suas cinzas em cada parada. O filme vai mostrar esse homem solitário, acomodado em seu consultório e sua vidinha, tentando se reencontrar com o seu filho e consigo próprio nesse caminho.
No "Nemo" quem vai fazer a jornada é Marlin, peixe-palhaço que passa, no começo do filme, por uma perda profunda e atróz: a sua companheira, Coral, e todos os seus ovinhos são devorados por um barracuda (ou será uma barracuda? Não sei). Resta um ovinho, um filhote, Nemo. Marlin torna-se um peixe medroso e superprotetor. Com todo o amor pelo seu filhote, a figura central de sua vida, Marlin é um pai/mãe sufocante, sempre vigiando e incutindo medo em seu filho. Parece familiar? Bastante familiar, não é mesmo?
Como costuma acontecer, a vida vai dar uma bicuda em Marlin para ele enfrentar os seus medos: o seu filho vai ser capturado por um mergulhador e ele, o covarde de carteirinha, vai ter que se lançar ao mar aberto, para fazer uma jornada às cegas, uma Jornada Improvável. Isso é exatamente o contrário de tudo o que ele vivera: lançar-se aos mares cheios de perigos, sem mapas, sem pistas, procurando o seu filho às cegas. Qualquer um diria que a sua busca é em vão. Não é improvável, é impossível. Quantas vezes ouvimos essa advertência? Nem tente, você não vai conseguir. Marlin não tem opção.
Diz um ditado popular que na vida nos movemos pelo amor ou pela dor. Normalmente pela dor. Marlin vai se mover pelas duas. Mas a principal força motriz é seu amor. É ele que pode remover montanhas. Ou distâncias.