Durante os anos oitenta esteve em voga uma classificação ou tipologia humana que ainda hoje reverbera em nossos conceitos e que, aqui entre nós, eu gosto muito: são os tipos A, B e C. Os tipos A são os Durões, pessoas que são autoexigentes, perfeccionistas e que tendem a se sobrecarregar de tarefas e de obrigações. São competitivas e buscam a excelência em tudo o que fazem. As pessoas tipos C são exatamente o seu oposto: são mais frágeis e dependentes, tendem a interiorizar a tensão e acumular mágoas que se tornam eternas, remoídas dia a dia na lista de dores e sofrimentos intermináveis. Tem dificuldades em tomar iniciativas própria e preferem que lhe digam o que fazer. As pessoas tipos B, as mais comuns, tem características dos dois tipos anteriores, funcionando hora em um polo, hora no outro. A Psicossomática correlacionava os pacientes tipo A como de maior risco de doenças cardiovasculares. Os tipos C teriam maior chance de ter Doenças Oncológicas. Como tendemos a colocar a culpa da doença encima dos doentes, então censuramos o tipo A como muito estressado e o tipo C como muito passivo e ressentido. Podemos imaginar que o tipo A é Coxinha e o tipo C é Mortadela.
Hoje sabemos que as pessoas adoecem independentemente de sua tipologia, então vemos Coxinhas com doenças graves e crônicas e Mortadelas tendo doenças do coração, muitas vezes por fatores genéticos e ambientais que não estavam na classificação. Mas eu continuo achando e constatando na prática clínica que há estressores adrenérgicos e cortisólicos. Tudo hoje em Psiquiatria estuda e dá ênfase ao Cortisol, hormônio diretamente vinculado ao Estresse e aos estressores. Mas as curvas de reação ao estresse incluem uma resposta inicial Adrenérgica e uma resposta crônica mediada pelo Cortisol. Quase sempre estamos acostumados a relacionar esses hormônios a doenças e a situações negativas, mas não duramos minutos sem eles.
Outra desinformação é aquela que imagina que o contrário do estresse é o relaxamento. Muitas crises de Pânico são justamente desencadeadas por momentos de relaxamento. Usando técnicas de relaxamento em algumas situações de consultório, já tropecei em crises de ansiedade na hora do relaxamento. O contrário da ansiedade é a Resiliência. Não estou chamando os ansiosos de covardes. O medo provoca uma reação de contração existencial, de inibição de exploração do ambiente e de necessidade absoluta de controle e defesa.O medo gera medo.
A ansiedade provoca essa sensação de medo do Devir, de esperar pelo futuro com armas em punho, ou com a alma encolhida de dor. O medo afeta os tipos A, B e C. Os tipos A tem medo de perder o movimento e a vontade de potência, diria Nietzsche (aliás, ele muito falou desses tipos, décadas antes de serem descritos). O tipo C tem medo de perder o apoio. Não acredita ter força para dar conta da própria vida. Talvez o pior dos mundos seja o tipo B, que carrega em si esses dois medos.
Sempre tenho birra dos termos da moda, um deles é o Empoderamento, tradução literal do Inglês, “Empowerment”. Eu preferiria o In-Powerment. Aumentar o poder interior, a capacidade de viver internamente o medo e a coragem, sem sair berrando de ódio ou se agarrando na barra da saia de alguém. In-Powerment ou Impoderamento é a essência do trabalho terapêutico, para reforçar a capacidade de interiorização e resolução de problemas como uma capacidade de diálogo interior antes da passagem ao ato. Há uma diferença entre ter vontade de bater no chefe e dar uma paulada em sua cabeça. Vivemos tempos de linchamento virtual em que muita gente se sente autorizada a externar seus desaforos antes de qualquer reflexão, então vivemos num mundo de surtados e histéricas, ou de surtadas e histéricos. O contrário do medo é a capacidade de reflexão. Reflexão demanda coragem e força interior. É mais fácil surtar.
O tipo A pode ser alguém com coragem de arriscar e procurar novos caminhos. O tipo C pode ser a pessoa generosa que se sacrifica para os outros brilharem. O tipo B pode ser o polivalente, que tem repertório para tomar a frente ou cuidar da retaguarda, dependendo da situação. Seja qual for o tipo predominante, viver hoje é um ato de coragem e resiliência.
Mostrando postagens com marcador Resiliência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resiliência. Mostrar todas as postagens
domingo, 26 de fevereiro de 2017
domingo, 29 de maio de 2016
O Tal do Ego
Um leitor assíduo desse blog, Caio, levantou mais uma vez uma questão nos comentários que eu vou me encher de coragem e entrar nela. Quais seriam as características de um Ego saudável e por que os místicos falam tão mal do Ego? Eu mesmo já escrevi nessas mal tecladas linhas que levamos metade da vida para ter um Ego e a outra metade tentando nos livrar dele. Os místicos e iluminados diriam que essa é uma das tantas bobagens escritas nessas páginas: o Ego nem sequer existe, para que tentar se livrar de uma coisa inexistente? Me desculpe, rapazes, mas a vossa percepção não nos serve de nada. Nós mortais temos um centro ou uma ilha de comando que organiza as informações e os afetos on line em nosso Cérebro, percebe, processa as informações, estabelece objetivos e consegue atingí-los vez ou outra. Essa central é o tal do Ego.
Meu Ego sabe mais ou menos qual o tema desse post e quais as estratégias para desenvolver os parágrafos. Não sabe como vai ser a conclusão, nem o título que vai ser dado ao final da sua revisão. Como o texto e as ideias vão se encaixar e encadear, não temos, meu Ego e eu, muita certeza do que vai ser. Algumas ideias vão surgir, outras serão deletadas, outras são becos sem saída que não vão levar o texto muito longe. Se o Ego tentar controlar e escrever cada palavra, o texto perde a sua fluidez e fica um porre. É importante que as frases comecem a se construir e esse gestor que vai escolher o tom, o ritmo e as tiradas vai ser, se tudo der certo, o diretor da peça, não seu ator.
A Neurociência concorda com os místicos: o Ego não existe, é um constructo obsoleto da Psicanálise. Freud dividiu a Psique em Ego, Superego e Id. O Superego é o que permite a nossa existência social. Ele controla, avalia e reprime nossos instintos de paleo primatas, e permite a vida civilizada. Os deputados de Brasília, em sua maioria, podem ser classificados como donos de um Superego disfuncional, pouco dado a reprimir impulsos ou coibir algumas taras e comportamentos impróprios. Do Id viriam as pulsões primitivas que governam a nossa vida: a voracidade das pulsões orais, das necessidades de controle ou de possuir o outro, de tomar conta e ter o mundo a seus pés. E as pulsões sexuais, claro. Comer tudo, engolir tudo e gozar sem limites é o que vem do tal Id. Toda publicidade consiste em seduzir, afagar, cutucar o Id. Os vilões do cinema e da Disney são engraçados e interessantes porque vivem governados por suas pulsões primitivas e não medem esforços nem maldades para satisfazê-las. O Ego deveria estar entre essas forças antagônicas, tentando um impossível equilíbrio. Se vencer o Superego, a vida fica metódica e chata. Se o Id ficar solto, temos os comportamentos bestiais e incontroláveis, como esses primatas que participaram do estupro coletivo de uma adolescente na comunidade carioca.
Um Ego forte significa qualidades fundamentais para a vida, como Resiliência e Estofo. Um Ego fraco se desmancha diante de qualquer dificuldade. O Ego parece muito com o nosso Hemisfério Esquerdo: é ele que percebe o mundo e sente, dentro do nosso corpo que “Eu sou”. Esse “Eu sou” cria toda a divisão do mundo. Se eu sou, estou separado de ti, estou separado do mundo e, sobretudo, estou só. O Ego nos dá uma experiência primária de separação. Não podemos viver sem ela, mas não podemos mergulhar na separação, pois isso pode nos custar a vida. Suicídio tem a ver com a sensação infinita de separação e de falta de futuro ou saída. O Hemisfério Direito pensa por imagens, sente o mundo mais amplo e pensa em “Nós” antes de se afundar no “Eu”. Sem a ilusão da Separatividade, somos todos irmãos e gentis. A sensação se isolamento que cria seus fantasmas e demônios, alguns deles fatais.
Eu diria, Caio, que a única coisa pior do que ter um Ego é não ter Ego nenhum. Ou ter um Ego que não se sustenta nas tarefas da vida.
O tal do Ego vai se tornar sábio quando souber que é limitado, que não consegue controlar quase nada e que seu objetivo é colocar um calção confortável para mergulhar no rio da vida. E se deixar levar. Mas vou falar mais sobre isso no próximo post.
Meu Ego sabe mais ou menos qual o tema desse post e quais as estratégias para desenvolver os parágrafos. Não sabe como vai ser a conclusão, nem o título que vai ser dado ao final da sua revisão. Como o texto e as ideias vão se encaixar e encadear, não temos, meu Ego e eu, muita certeza do que vai ser. Algumas ideias vão surgir, outras serão deletadas, outras são becos sem saída que não vão levar o texto muito longe. Se o Ego tentar controlar e escrever cada palavra, o texto perde a sua fluidez e fica um porre. É importante que as frases comecem a se construir e esse gestor que vai escolher o tom, o ritmo e as tiradas vai ser, se tudo der certo, o diretor da peça, não seu ator.
A Neurociência concorda com os místicos: o Ego não existe, é um constructo obsoleto da Psicanálise. Freud dividiu a Psique em Ego, Superego e Id. O Superego é o que permite a nossa existência social. Ele controla, avalia e reprime nossos instintos de paleo primatas, e permite a vida civilizada. Os deputados de Brasília, em sua maioria, podem ser classificados como donos de um Superego disfuncional, pouco dado a reprimir impulsos ou coibir algumas taras e comportamentos impróprios. Do Id viriam as pulsões primitivas que governam a nossa vida: a voracidade das pulsões orais, das necessidades de controle ou de possuir o outro, de tomar conta e ter o mundo a seus pés. E as pulsões sexuais, claro. Comer tudo, engolir tudo e gozar sem limites é o que vem do tal Id. Toda publicidade consiste em seduzir, afagar, cutucar o Id. Os vilões do cinema e da Disney são engraçados e interessantes porque vivem governados por suas pulsões primitivas e não medem esforços nem maldades para satisfazê-las. O Ego deveria estar entre essas forças antagônicas, tentando um impossível equilíbrio. Se vencer o Superego, a vida fica metódica e chata. Se o Id ficar solto, temos os comportamentos bestiais e incontroláveis, como esses primatas que participaram do estupro coletivo de uma adolescente na comunidade carioca.
Um Ego forte significa qualidades fundamentais para a vida, como Resiliência e Estofo. Um Ego fraco se desmancha diante de qualquer dificuldade. O Ego parece muito com o nosso Hemisfério Esquerdo: é ele que percebe o mundo e sente, dentro do nosso corpo que “Eu sou”. Esse “Eu sou” cria toda a divisão do mundo. Se eu sou, estou separado de ti, estou separado do mundo e, sobretudo, estou só. O Ego nos dá uma experiência primária de separação. Não podemos viver sem ela, mas não podemos mergulhar na separação, pois isso pode nos custar a vida. Suicídio tem a ver com a sensação infinita de separação e de falta de futuro ou saída. O Hemisfério Direito pensa por imagens, sente o mundo mais amplo e pensa em “Nós” antes de se afundar no “Eu”. Sem a ilusão da Separatividade, somos todos irmãos e gentis. A sensação se isolamento que cria seus fantasmas e demônios, alguns deles fatais.
Eu diria, Caio, que a única coisa pior do que ter um Ego é não ter Ego nenhum. Ou ter um Ego que não se sustenta nas tarefas da vida.
O tal do Ego vai se tornar sábio quando souber que é limitado, que não consegue controlar quase nada e que seu objetivo é colocar um calção confortável para mergulhar no rio da vida. E se deixar levar. Mas vou falar mais sobre isso no próximo post.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Motivação: Estofo
Estava comentando hoje um seriado americano de alguns anos atrás, "Taken", ainda hoje bastante reprisado em canais da TV paga. O seriado é narrado em off por uma menina cujo personagem vai se definindo no decorrer da saga, uma híbrida entre humanos e alienígenas, batizada pela mãe - Allie (não é o oitavo passageiro). Dakota Fanning faz essa pequena sábia, que não cansa de repetir que os homens são maus e fazem coisas ruins por conta de seus medos. Impressionante a quantidade de pessoas que hoje adoecem do medo, pelo medo, pela sensação de que vivemos em um mundo hostil e pouco confiável, ou que o mundo vai cair em nossa cabeça se cometermos um erro. Impressionante também como o medo pervade todos os discursos, mesmo o discurso médico: tome o remedinho do jeito que estou falando, senão...Na vida profissional então, o discurso que evoca e domina pelo medo é cada vez mais instrumento de gerenciamento. Sobrevivem os que são mais ou menos medrosos dependendo da cultura de sua empresa. Na última postagem falei dessa característica que Jack Welch procurava/exigia de seus líderes: Estofo. Há um outro nome muito mencionado na Psicologia Corporativa: Resiliência, eu gosto desse, pois denota resistência e flexibilidade, um termo emprestado da física de materiais. Ter Estofo, então, é ser "durão"? Os durões podem ser muito úteis para determinadas organizações, mas terminam quebrando, como os galhos secos e poucos flexíveis, em algum momento não serão resilientes, justamente pela falta de flexibilidade.
Fábio Capello, técnico hoje da Inglaterra, ensina aos seus comandados que uma virtude do atleta de alto desempenho no meio de uma disputa é a tolerância ao sofrimento. Tolerância à frustração para atravessar as dificuldades. Essa é a diferença entre profissionais mais ou menos resilientes: a capacidade em atravessar os períodos de dificuldades, os mares de tormenta, as mudanças climáticas; o nosso primeiro impulso é espanar, explodir, jogar tudo para cima, mas podemos esperar, tolerar a angústia e os tempos de incerteza, aprender a decidir com o máximo de lucidez em situações de medo. Essa é a minha interpretação de Estofo. Estofo é a base onde você vai construir toda a sua personalidade e a sua carreira profissional. Contudo, de nada adianta o saber esperar sem o saber lidar com a Energia, o que veremos na próxima postagem.
Fábio Capello, técnico hoje da Inglaterra, ensina aos seus comandados que uma virtude do atleta de alto desempenho no meio de uma disputa é a tolerância ao sofrimento. Tolerância à frustração para atravessar as dificuldades. Essa é a diferença entre profissionais mais ou menos resilientes: a capacidade em atravessar os períodos de dificuldades, os mares de tormenta, as mudanças climáticas; o nosso primeiro impulso é espanar, explodir, jogar tudo para cima, mas podemos esperar, tolerar a angústia e os tempos de incerteza, aprender a decidir com o máximo de lucidez em situações de medo. Essa é a minha interpretação de Estofo. Estofo é a base onde você vai construir toda a sua personalidade e a sua carreira profissional. Contudo, de nada adianta o saber esperar sem o saber lidar com a Energia, o que veremos na próxima postagem.
Assinar:
Comentários (Atom)
