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domingo, 2 de abril de 2017

Responsabilidade

Toninho era um rapaz bonito que trabalhava de ascensorista em um prédio que eu tinha consultório. Não sei porque ainda tinha ascensorista, pois era um prédio razoavelmente moderno. Para mim vinha a calhar, pois minha sala ficava em andar alto e isso era um suplício para pacientes claustrofóbicos ou com medo de elevador. Parecia que o ascensorista dava uma certa confiabilidade ao transporte, em caso de pane no meio do caminho. Mas não é disso que vou falar. Toninho era um sujeito um pouco negativo, desses que andam com uma nuvenzinha negra encima da cabeça. Reclamava do zelador, do tempo e da situação da Economia. Eu me limitava a ouvir, já que viagem era curta e meu ofício é ouvir mesmo. Palpite meu, só fazendo a ficha. Mas, como sou observador, também por dever de ofício, notava que tudo acontecia com o rapaz: sua pele tinha espinhas, ficava muito resfriado, defeito grave para ascensorista, e vez ou outra eu pegava um analgésico pois estava com dor de cabeça. Um dia entrou bandido no prédio, disse a rádio peão que para roubar um doleiro e adivinha quem estava de serviço? Pois é. Toninho levou uma coronhada, ouviu ameaças de praxe e ainda teve que dar depoimento na delegacia para um delegado que achou que ele estava envolvido e era cúmplice dos meliantes. O prédio teve que mandar um advogado condômino para livrar a cara dele, que era bom rapaz, só um pouco rabugento. E absolutamente honesto. Mas foi aí que Toninho começou a se fazer a pergunta certa: por que essas coisas não param de acontecer comigo? Toninho foi levado à Igreja Evangélica pelos colegas e, meio desconfiado, aceitou Jesus. Fui notando que a sua atitude foi mudando com o tempo. Em vez de reclamar e apontar um bom motivo para ficar mau humorado, começou a dar bênçãos e a desejar um bom dia. Como eu continuava sendo bom ouvinte, começou a dar testemunho e cantar os hinos baixinho. O fato é que Toninho deixou de ser um chato rabugento e pessimista e se tornou um chato cantor de hinos. Mas a vida dele, sem dúvida, melhorou. Arrumou uma boa moça para casar, caiu nas graças do zelador, que também era crente, e parou de consumir meus analgésicos. Ou foi pedir para outro médico “cristão”, já que eu não me pronunciava muito sobre o assunto.
Quando eu trabalhava em um postinho de saúde numa área pobre e violenta da Zona Sul de São Paulo, também aumentei os lucros da Igreja Universal. Mandava os moleques envolvidos com o tráfico para virarem crentes, única forma de se afastarem de suas funções sem uma reprimenda do traficante. Reprimenda é uma forma de dizer. Sabemos como são as punições nessa corporação.
Na recente polarização entre coxinhas e mortadelas, me vi classificado como um coxinha hardcore e esse blog não ajudou muito a melhorar a fama. O que realmente me irrita é a cristalização do discurso da vítima. Ou a cronificação da miséria pelo discurso assistencialista. Cheguei ao auge do meu discurso reacionário quando lembrei, na época das invasões de nossas escolas, que nossos alunos estavam dando aula de Democracia e os professores incentivavam esse caminho, mas ninguém explicava porque São Paulo é o estado da União que mais gasta com ensino público e nossos resultados sempre são tão ruins nas avaliações nacionais e internacionais. Nossos sindicatos se alinham com Cuba em muitas questões, mas não são avaliados e cobrados continuamente como seus colegas cubanos.
O tema desse posto é a responsabilidade, como diz o título. Pode parecer que a entrelinha seja um alinhamento com Edir Macedo ou com a Direita podre e bolsonárica que pede a volta dos militares ao poder. Ai meu Deus. Não, não sou alinhado à nada disso. Mas o que melhorou a vida do Toninho ou dos moleques do postinho não foi fazer passeatas por mais verbas para isso ou aquilo. Foi a noção de que a injustiça e a exclusão são responsabilidade de todos e, sobretudo, uma responsabilidade individual. Não é fácil fazê-lo. Mas ficar culpabilizando A, ou B, ou C não faz ninguém sair do lugar. Outro dia eu escrevi nesse blog que a responsabilidade do Caminho é do caminhante. Ajudar é mostrar o mapa, polir as botas e ajustar a bússola, mas a responsabilidade precisa ser ensinada desde o Jardim da Infância. Não adianta culpar o Outro. Como disse o poeta, o caminho se faz ao se caminhar.

domingo, 9 de março de 2014

A Responsabilidade e o Outro

Recentemente foi notícia, primeiro nas redes sociais, depois na mídia impressa, uma prescrição de um médico da rede pública, que “receitou” para uma paciente uma série de cadeados para ela emagrecer: cadeados para a boca, para a geladeira, para a despensa, a bolsa, cadeados que traziam uma agressão muito comum para os obesos ou os portadores de outras compulsões além das alimentares: fecha a boca, interrompa o comportamento, organize o seu consumo. A moça, que tinha e ainda deve ter muita dificuldade de controlar suas compulsões alimentares, não teve dificuldade nenhuma em fotografar a “prescrição” e botar a boca no trombone, mostrando o abuso que sofrera. O colega em questão tirou uma licença e veio a público para dizer que havia sido mal interpretado e que não quis causar mal ou humilhação à moça. Como os tais assuntos de redes sociais não duram mais do que alguns poucos dias, ou horas, ou minutos, o assunto caiu no esquecimento e as pacientes daquele postinho ficaram com um médico a menos, esperando por algum médico cubano que fique algum tempo por lá antes de fugir para Miami.
Estamos falando sobre a droga de nosso tempo, a autoindulgência. No último post, falei sobre a existência da ferida que nos constitui e a responsabilidade sobre ela, que é, antes de mais nada, do dono da ferida. Li em um livro de um mini monge que adoro, Tich Nat Han, que as monjas de sua comunidade tiveram um período de encontro com freiras católicas e voltaram reclamando, divertidas, que as freiras terceirizavam a salvação colocando tudo nas costas de Jesus, enquanto ele vivia dizendo que a salvação só poderia vir de sua prática diária e busca incessante. É lógico que isso é um gracejo, não uma ofensa. Jesus também dizia para quem quiser ouvir que não há perdão para quem enterra os próprios talentos. O fato é que cuidar da própria dificuldade e procurar caminhos é tarefa de todos. E o esforço e dedicação pessoal contam, e muito para qualquer caminho, espiritual e pessoal.
Não é difícil entender o que causou a explosão do médico: a moça deve ter uma dieta com excesso de carbohidratos e gorduras, come mais do que precisa e, sobretudo, come de forma desregrada, desorganizada. Chega diante do médico e reclama que não consegue emagrecer, como se comer fosse um ato involuntário (e, no caso das compulsões, é quase um ato automático). Ela deposita a responsabilidade de seu emagrecimento no médico e pede uma balinha mágica que queime gordura sem que ela precise mudar nenhum de seus (maus) hábitos. Já o médico esperava pacientes que seguem as orientações, melhoram e ainda idolatram o bravo apóstolo da ciência médica. Muito provavelmente despejou na moça a frustração de não conseguir ajudar muita gente, assistindo a Obesidade, o Diabetes (irmãos siameses em nossos dias) a Hipertensão e outras doenças crônicas fazendo o que costumam fazer, que é se tornarem mais crônicas e mais complicadas. Tudo isso diante do olhar impotente do médico, que se defende não dando a mínima.
Os dois padecem da mesma doença: a incrível capacidade de transferir as suas dificuldades e frustrações para o Outro. Temo que, mais de um ano depois do evento, a moça continue obesa e o médico apenas esteja evitando colocar o seu preconceito por escrito. O pior é que ambos podem estar morrendo de pena de si mesmos, esperando que algo ou alguém venha mudar o seu destino.