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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Síndrome Metabólica

Antes de começar este post, uma resposta: Vanessa, deixe o seu e-mail que eu não uso o MSN. Ou deixe recado na Secretária Eletrônica que retornamos. Obrigado.
Os poucos e fiéis leitores e leitoras dessa página devem estranhar o título, num blog de um psiquiatra. Ontem eu mencionei que evidentemente havia algo de muito estranho com o metabolismo do Ronaldo, além de outras esquisitices. Não é normal um rapaz de 34 anos, atleta de altíssimo nível, engordar do jeito que ele engorda. Algumas horas depois do post, em sua chorosa despedida, Ronaldo revelou que a causa de sua Obesidade galopante é uma doença hormonal, com repercussão metabólica, o Hipotireoidismo. Ele não poderia se tratar por medo do exame antidoping. Não tardou a ser desmentido pelo médico do Corinthians (que arriscou claramente o seu pescocinho, pois atrapalhou a história dramática e de sacrifício pelo Timão): Ronaldo tem uma disfunção tireoidiana mas ela está sendo tratada e não iria aparecer no Exame Antidoping. Não é substância proibida. Tirou um pouco a carga dramática, mas os jornais todos estampam em suas manchetes a versão, não o desmentido. Reza um velho dito de um político mineiro que o que vale não é a História, mas a Versão. Pode ser que a versão prevaleça, tudo bem, não vai ser a primeira nem a última. Mas que aí tem fumaça e fogo, tem.
Não é incomum que atletas de alto desempenho engordem muito na aposentadoria. A atividade física diminue drasticamente, o apetite e os hábitos alimentares, não. Sem mencionar o luto, citado por Ronaldo, de se afastar da ribalta e da lona do circo. Maradona, entre outros transtornos de comportamento, precisou de uma Cirurgia Bariátrica para conter o ganho exponencial de peso, após meses de um Comer Compulsivo (não era a sua única compulsão, diga-se de passagem).
A Síndrome Metabólica, que dá título a esse post, é um quadro de alteração da capacidade do organismo de procesar e armazenar açúcares e gordura. As células ficam resistentes à Insulina, causando alterações dramáticas no peso e no apetite. Como a Insulina está sempre alta, a fome e a vontade de consumir porcarias também está elevadíssima. Quanto mais a pessoa come, mais rápido vem a sensação de fome. A Saciedade também fica prejudicada. Começa aí um processo infernal de luta com a balança e aumento de glicose e colesteróis, com efeitos sanfonas dramáticos. Está tocando o sininho na sua cabeça, leitor e leitora? Ronaldo demora muito a emagrecer e precisa de um fim de semana sem jogo para engordar 5 quilos. As suas dores derivam, claro, da combinação de contusões antigas com sobrepeso, que ele não consegue vencer. Por isso ele diz que foi derrotado pelo seu corpo.
Portanto, às pessoas que ficaram assustadas e acharam que, por conta do Hipotireoidismo vão engordar e sofrer como o Ronaldo, fiquem tranquilas. A alteração tireoidiana é provavelmente a pontinha de um iceberg do que realmente está acontecendo. Espero que o homem que está sofrendo possa agora, finalmente, dedicar um bom tempo à sua recuperação.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ronaldo

Hoje o Gordo vai anunciar o final de sua carreira. As torcidas adversárias lamentam a perda da piada. Eu, como fã de futebol, suspiro de alívio. Sai o atleta, fica o mito, é mais fácil alimentar o mito do que equilibrar aquele corpanzil de pelada de casados e solteiros, levando botinadas da defesa do Tolima. É bem mais fácil alimentar o Imaginário do que lidar com a tensão do Real, diriam os analistas.
No Sportv News fizeram uma matéria em que diziam que o apelido de Fenômeno vem dos tempos de Barcelona. Bobagem. O apelido vem do final dos anos 90, quando ele saiu brigado de Barcelona e foi para a Inter de Milão. Era uma referência a um filme com John Travolta, "O Fenômeno", onde um morador de uma pacata cidade de interior americana começa a exibir poderes mentais sobrehumanos, atraindo a atenção, inclusive, do FBI. Adoro esse filme, aliás. Ronaldo deixou de ser um Fenômeno no final dessa década, de 90, quando estourou os dois joelhos. Passou a viver (como o seu xará, Ronaldinho Gaúcho) da memória de quatro ou cinco temporadas em que jogou um futebol primoroso, de gênio. Esses mitos trabalham com um dos sentimentos mais profundo da alma humana, a Nostalgia. Todos esperam um lampejo, uma fração de segundo que traga de volta o passado. Os Ronaldos passaram os últimos anos vivendo disso.
É coisa de muito poucos chegar ao auge da capacidade atlética, inclusive de entendimento do jogo, por volta dos 21, 22 anos. Ele é um desses jogadores fora de série que já parecem nascer prontos, como Pelé, Maradona, Messi. Teve também a característica de vários artistas, da bola ou não, de destruir completamente o próprio sucesso para depois recuperá-lo, calando os críticos. Daria um bom material de terapia descobrir de onde vem essa tendência à autodestrição, ou autoboicote. É como se a pessoa por tráz do mito implorasse pela sua humanização. É uma tensão imensa carregar a expectativa e a idealização de um mito, sobretudo de um mito acalentado para vender cerveja ou medicamentos genéricos. O impressionante, no seu caso, é o que vem acontecendo no seu corpo, de 2006 para cá. Ronaldo passou a fazer uso em público de Álcool e Nicotina de forma compulsiva. A velocidade com que ganha peso também sugere um Transtorno Alimentar. O ídolo não consegue mais sustentar as expectativas projetadas, o seu corpo se recusa a fabricar novas jogadas, a ansiedade fica muito clara atráz dos discursos planejados, ensaiados, como será a sua coletiva de despedida, daqui a algumas horas. Espero que, com a despedida do atleta e o estabelecimento do mito, o homem possa cuidar de sua própria saúde, pois ele não tem idade para seu organismo se comportar tão mal, metabolicamente falando. Ou, como Maradona, ele caminhará para novas compulsões, necessitando de intervenções mais fortes no futuro. Espero que não. Espero que ele vire um Fenômeno na vida real, que é o que interessa.