O título da autobiografia do padre, psicanalista e escritor Jean Yves Leloup já é, em si, uma espécie de resumo de sua jornada humana e espiritual: “O Absurdo e a Graça”. Não foram poucas as vezes em que Leloup se encontrou na sua vida no miolo do Absurdo, do Não Sentido que acaba drenando a vida e a sanidade de muitos. Quando imagino o querido ator Robin Williams se enforcando com a própria cinta na solidão de seu quarto, imagino a sua Alma tragada pela sensação de Vazio e Absurdo.
Jean Leloup acredita, ou mais do que acreditar, passou em sua vida por muitas situações onde o Absurdo e o desespero foram a condição transitória que abriu o caminho da Graça, mesmo quando ela não era de forma nenhuma esperada. Aguentar o embate com o Absurdo, essa é a tarefa mais sofrida, até porque não podemos prever a Graça.
Eu pensava muito nisso durante a missa que celebrava a Primeira Comunhão de uma sobrinha querida. Pensava durante a Homilia, que é uma pequena pregação do padre sobre o sentido do Evangelho e do Sacramento que as crianças estavam recebendo. O discurso do sacerdote para as crianças foi perfeita e absolutamente ininteligível. Falava alguma coisa como compromisso mas se deteve com mais rigor em levantar a bola das catequistas, sobretudo uma senhora que fazia gestos largos para reger as crianças nas músicas. Fiquei com uma imensa vontade de tomar o microfone do rapaz e começar toda a prédica do zero. Começaria pelo livro de Leloup, e por uma história de sua infância: o menino Jean Yves vivia solto, com uma mãe pouco motivada em cuidar dele. A situação era suficientemente grave para ele ficar até três dias sumido, sem aparente intervenção de seus pais. O menino vivia, portanto, como um sem teto. Numa dessas andanças ele passava fome nas ruas de Paris e passou na frente de um bistrô. O garçom chamou a sua atenção: uma senhora que acabara de sair deixou para ele dois croissants e uma xícara de café com leite. Foi comendo aquele lanche que o menino teve a sua Primeira Comunhão. Foi comendo a refeição depois de dois dias de fome que ele experimentou pela primeira vez a Graça. Talvez naquele momento ele tenha virado um sacerdote. Esse é o sentido da Comunhão: dividir para multiplicar. Dividir o Pão Vivo, que é aquele que mata as fomes que não cansamos de ter.
No final da cerimônia, as crianças foram chamadas para tirar foto com a padre, sob os flashes dos fotógrafos oficiais. Quando o seu nome era chamado, cada criança recebia as palmas e os gritos de urrú dos familiares, como se fosse uma formatura. O bate papo dos que já tinham gritado pelo seu formando, digo, comungante, era cada vez mais alto e constrangedor. Uma música antiga de Renato Russo tocava na minha cabeça, se não me engano o nome dela é “Monte Castelo” em que ele musicou e misturou um soneto de amor de Camões com uma Epístola de São Paulo. Se eu fosse catequista, essa seria a primeira aula, com a música tocando ao fundo: “Ainda, que eu falasse a língua dos homens, e falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria...” Misturar o amor pelo Outro com o amor pela mulher amada é o significado da verdadeira Comunhão. Explicar para as crianças que a Comunhão pode ser dar de comer para uma criança que está perdida de si e de qualquer forma de proteção, essa para mim seria uma boa catequese.
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domingo, 8 de março de 2015
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