Essa postagem é um resumo da palestra proferida, a pedido da coordenação da Jornada. Algumas das idéias já foram descritas em outros posts, então me desculpem por chover no molhado. Vamos nós:
Uma das fontes de discordância entre as diversas correntes de pensamento, quando se trata de Psicoterapias, é quem está descrevendo melhor a Psique. Lembra a história hindú de um bando de cegos palpando um elefante e descrevendo o que tocou. Para um, o elefante é uma tromba; para outro, uma pata; um terceiro pode descrever as orelhas magníficas. Falta, a todos, a visão do Todo. Não é diferente com as formas de abordagem do sofrimento psíquico humano. O curioso é que as Psicologias Profundas foram descobertas antes de outras mais superficiais, mais fáceis de serem testadas pelos métodos científicos. Hoje estamos vendo um esforço quase deliberado em se desacreditar as Psicologias do Inconsciente, tratadas como ficções de seus autores pelos seus detratores. O pior é a falta de diálogo entre os xiitas e sunitas da Psicologia, ou psicologias. Vamos meter a nossa colher nesse angú:
Podemos dividir as dimensões de abordagem da mesma forma que dividimos a leitura de um fenômeno. Ou mesmo, dos níveis de abordagem de um problema comum, de nosso dia a dia:
Vamos pensar num fato simples, comum. Uma pessoa torce o pé e isso lhe causa uma fratura. Abordando no nível 1, isso foi a Manifestação de algo. No caso, de uma ruptura de um osso. Abordagem no nível 1 inclue fazer um raio X, detectar o problema, corrigí-lo, com cirurgia ou gesso. Não sabemos, mas a maior parte de nossas questões são resolvidos no nível 1: caiu, quebrou, SuperBonder colou. Se olharmos com mais detalhe, podemos chegar no nível 2, onde o fenômeno é visto com mais detalhes. Esse é o nível do Significado. Como é a marcha da pessoa? A Biomecânica de suas articulações? Há algum grau de Osteoporose em seus ossos? As ruas onde caminha estão mal pavimentadas? Todos os fatores que foram predisponentes ou desencadeantes do problema são levantados, a prevenção de um novo evento pode ser feita de forma mais ampla. Na vida, quando conseguimos olhar para as coisas com a complexidade do nível 2, já ficamos muito felizes. Na maior parte das vezes, não conseguimos nem um remendo no nível 1. Mas podemos ir ainda mais fundo. Se olharmos com mais detalhe, chegamos no nível 3, o nível do Símbolo. O que esse evento simbolizou naquele momento? A pessoa está estressada, por isso anda sem olhar? Não consegue elaborar um luto, ou uma mágoa, e sai por aí levando tombos? Tem uma doença oculta, um Tumor no Cerebelo ou uma Arritmia Cardíaca, causando as quedas? Esse é o nível de causalidade que as Psicologias do Inconsciente abordam. Se olharmos de forma ainda mais profunda, chegamos no nível 4, que é o nível do Sentido. Isso só dá para saber depois de um tempo. Aquela fratura obrigou a pessoa a ficar em casa, concluindo um livro magistral que estava parado há anos. A fratura tirou o sujeito da correria do dia a dia, deixando-o mais conectado com os ritmos da vida. Esse nível não é para qualquer um. Muita gente duvida mesmo que ele exista. Podemos vê-lo quando uma pessoa agradece por uma doença ou uma adversidade, que lhe causaram sofrimento mas a levaram para outra visão e compreensão da vida. Aquilo teve um Sentido.
A Terapia de Sandplay, criação da suiça Dora Kalff, traz em suas cenas na areia, todos esses componentes. A Expressão, no nível 1, através da montagem de uma cena com miniaturas em uma caixa de areia (que minhas gatas iriam adorar). O Significado, no nível 2, das questões de sua vida. A paciente solitária pode montar uma cena em que está presa numa ilha, por exemplo. A dimensão 3, do Símbolo, pode aparecer numa imagem inocente, de uma menina andando entre os bichinhos e pedras, que mostram uma infância solitária, uma criança, agora com quarenta anos, desconfiada se as pessoas podem ou querem ajudá-la. Analisando as imagens, depois de alguns anos, pode-se ver o Sentido profundo da dor e do sintoma que trouxe a pessoa para o seu processo. Se olharmos com mais cuidado, vamos perceber uma espécie de mão invisível, organizando as miniaturas e o processo. Os junguianos chamam essa ordem invisível de Self. E, bem sabemos, o Invisível, o Inapreensível, anda bem fora de moda.
Finalmente, falamos sobre o filme "A Origem", como uma metáfora desse Inconsciente em camadas. Não adianta ficar plantando idéias nas camadas mais superficiais da psique. Senão, era só repetir algumas fórmulas dos livros de Autoajuda e tudo sairia como planejamos. O filme mostra o desafio de se adentrar as camadas mais profundas do Inconsciente, os porões da Alma Humana. O sonho, dentro do sonho, dentro do sonho que os exploradores de sonhos vão explorar no filme.
Uma personagem do filme é muito cara aos terapeutas: Ariadne, que arrisca a própria vida ou a própria sanidade para ajudar os personagens em seu mergulho, sobretudo Cobb, o personagem de Leonardo di Caprio, que vai até o fundo de seus pecados e culpas para finalmente elaborar e resolver o Sintoma. E qual era o Sintoma? Cobb não conseguia ver, ou entrever, o rosto de seus filhos, nem em seus sonhos, nem em suas lembranças. Ariadne o conduz, no Labirinto de suas dores, às camadas mais profundas de seu Inconsciente, onde, como disse Jesus, a Verdade o libertou.
Ariadne é uma personagem e uma metáfora perfeita para a Psicoterapia do Inconsciente e para a Psicoterapia de Sandplay. Ela demonstra o profissional que põe à disposição a sua estrutura, a sua escuta ou as suas miniaturas para que o paciente preencha esse espaço com o seu Inconsciente. É lá, no nível 3 e 4, que encontramos a verdade. E, se dermos sorte, a Cura.
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011
domingo, 23 de outubro de 2011
Fora do Tempo
Hoje pela manhã já somos bombardeados com notícias de acidentes etílicos de automóvel. Ontem um bancário atropelou dois garis, recusando depois passar pelo teste do Bafômetro. Outro acidente estarrecedor foi da Fórmula Indy, no Domingo passado: um carro desgovernado, pegando fogo, atravessando a pista oval, os outros carros se apertando contra o muro até um strike de muitos pilotos, com um morto. A cena parece uma definição da pósmodernidade, as pessoas correndo em uma pista oval, tentando uma velocidade cada vez maior, para chegar em lugar algum. Mesmo com o carro pegando fogo, o risco de uma catástrofe, que acabou ocorrendo, os caras se apertavam para continuar dentro da corrida. Deu no que deu.
O fato é que a sensação de correria sem sentido acomete a todos. Recolhemos nos consultórios os feridos e avariados, que muitas vezes fazem um pit stop para recarregar a gasolina e voltam depois para a pista, correndo sem motivo e sem enxergar a linha de chegada. As bebedeiras seguidas de acidentes também fazem parte do pacote.
Ontem no evento uma das palestrantes mostrou, através das cenas montadas com miniaturas na Caixa de Areia, a evolução, impressionante, de uma paciente sua, no decorrer de quatro anos. De imagens iniciais, sem figuras humanas e com ilhas de areia que não se comunicavam entre si, as cenas foram ganhando vida, personagens e o desabrochar, que Lury, a terapeuta, comparou com uma crisálida que foi virando uma borboleta. As imagens falavam por si.
Acordei refletindo que o trabalho psicoterápico virou uma ilha de sossego no meio da correria. O trabalho com as miniaturas coloca o paciente numa franja de Não Tempo, mais do que na lentidão, ou no repouso. Fora do tempo, a psique pode voltar a se expressar, a se colocar dentro de imagens que procuram sempre pelo centro organizador no meio da aridez de nossos egoísmos. E correrias.
Tentei falar em minha aula de que a Terapia de Jogo de Areia é uma ferramenta clínica para atingir extratos mais profundos de nossa Psique, onde realmente as mudanças podem ocorrer. Cavamos nessas camadas para desfazer os nós, aguar as plantas, abrir as janelas do que está esquecido e cheirando a mofo em nossa alma. As pessoas procuram por soluções rápidas, epidérmicas, quase mágicas. A pressa termina em um muro de um circuito oval.
Ontem fiquei recompensado de estar em um Sábado fora do tempo. A delicadeza desse Não Tempo se manifestou na última cena, onde cada participante colocou a sua miniatura dentro da caixa e montamos uma cena coletiva. Ninguém se atreveu a interpretar a cena, mas ela obviamente representava o grupo se formando em torno de uma mulher grávida. No meio de escombros e de ferros retorcidos, estamos cuidando de uma gravidez de risco, que é o nosso mundo.
O fato é que a sensação de correria sem sentido acomete a todos. Recolhemos nos consultórios os feridos e avariados, que muitas vezes fazem um pit stop para recarregar a gasolina e voltam depois para a pista, correndo sem motivo e sem enxergar a linha de chegada. As bebedeiras seguidas de acidentes também fazem parte do pacote.
Ontem no evento uma das palestrantes mostrou, através das cenas montadas com miniaturas na Caixa de Areia, a evolução, impressionante, de uma paciente sua, no decorrer de quatro anos. De imagens iniciais, sem figuras humanas e com ilhas de areia que não se comunicavam entre si, as cenas foram ganhando vida, personagens e o desabrochar, que Lury, a terapeuta, comparou com uma crisálida que foi virando uma borboleta. As imagens falavam por si.
Acordei refletindo que o trabalho psicoterápico virou uma ilha de sossego no meio da correria. O trabalho com as miniaturas coloca o paciente numa franja de Não Tempo, mais do que na lentidão, ou no repouso. Fora do tempo, a psique pode voltar a se expressar, a se colocar dentro de imagens que procuram sempre pelo centro organizador no meio da aridez de nossos egoísmos. E correrias.
Tentei falar em minha aula de que a Terapia de Jogo de Areia é uma ferramenta clínica para atingir extratos mais profundos de nossa Psique, onde realmente as mudanças podem ocorrer. Cavamos nessas camadas para desfazer os nós, aguar as plantas, abrir as janelas do que está esquecido e cheirando a mofo em nossa alma. As pessoas procuram por soluções rápidas, epidérmicas, quase mágicas. A pressa termina em um muro de um circuito oval.
Ontem fiquei recompensado de estar em um Sábado fora do tempo. A delicadeza desse Não Tempo se manifestou na última cena, onde cada participante colocou a sua miniatura dentro da caixa e montamos uma cena coletiva. Ninguém se atreveu a interpretar a cena, mas ela obviamente representava o grupo se formando em torno de uma mulher grávida. No meio de escombros e de ferros retorcidos, estamos cuidando de uma gravidez de risco, que é o nosso mundo.
domingo, 16 de outubro de 2011
Sandplay
Tem uma frase do Lacan que eu adoro: "Sou onde não penso; penso onde não sou". Ela é muito bonita, mesmo sendo quase ininteligível para a maioria das pessoas. Eu tinha uma provocação que usava com a angústia que os pacientes sentem quando não conseguem falar dentro da sessão: " O Que fala quando você não fala?". As duas frases, ou jogo de palavras meio zen, falam de um dos mistérios de nosso ofício, que é a coisa que pensa dentro de nosso Cérebro e que está atrás de nossa mente tagarela, de nosso eterno diálogo interno. Não são poucas as pessoas que adoecem com um sintoma cada vez mais comum, o "Pensamento em turbilhão", justamente quando esse pensamento se perde dentro de si mesmo e fica dando voltas dentro da cabeça, sem que a pessoa consiga silenciá-lo. O impressionante é que precisamos às vezes de uma dose alta de medicação sedativa para que esse palavrório diminua e a pessoa consiga, finalmente, descansar dentro da própria mente. O Que fala dentro de sua alma quando você para de falar?
A Terapia de Sanplay vai revelar justamente esse ser que se manifesta fora de nosso discurso. Parece complicado de entender? Vou dar um exemplo. Uma pessoa intelectual e articulada, que zomba nas consultas das técnicas e abordagens psicológicas, montou uma cena com as miniaturas na caixa de areia, quase triunfante por achar a técnica boba e infantil. A imagem que apareceu é de uma menina solitária, uma única personagem humana no meio do cenário, cercada de bichos, de plantas e de brinquedos olhando para frente. A cena montadas com as miniaturas mostra todos os personagens apontando na mesma direção. Quando eu mencionei a menina que ela fora, muito solitária, muito cercada de brinquedos e da própria imaginação, ela se emocionou. A sua empáfia científica acabou de desmoronar. Na cena estava o miolo da sua dificuldade: a visão unilateral, sempre para a frente, pela dificuldade de olhar o seu passado. A menina aprendeu a construir o seu futuro para fugir de uma infância difícil, que ela jurou abandonar e nunca mais ficar na mão de ninguém. O preço disso aparecia na cena da areia: independência com solidão. Nenhuma figura masculina em toda a cena.
A Terapia do Sand Play, ou como eu prefiro chamar, a Terapia de Jogo de Areia, é uma técnica e um método de revelação do Incosciente. Ele que é o sujeito oculto da frase de Lacan: "Sou onde não Penso, Penso onde não SOU". É lógico que a frase é uma paráfrase e uma inversão do famosíssimo aforisma de Descartes: "Penso, logo Existo". Genial. O lugar onde eu mais sou é o lugar em que o pensamento não atrapalha a minha verdade. Aí é o Inconsciente, que, como o nome já diz, está fora do meu campo de Consciência. A menina solitária, um pouco triste e sonhadora era a verdadeira identidade daquela mulher descolada, supercrítica e elegante que se apresentava para o tratamento.
Pois essa é exatamente a mágica da brincadeira com as miniaturas dentro do setting terapêutico. Na aula que vou dar no evento do dia 22 de Outubro (vide o post anterior), uma colega sugeriu que eu usasse imagens do filme que vai servir de ilustração para a aula, que é "A Origem". Agradeci a sugestão, mas não vou acolhê-la. A terapia com as miniaturas liberta uma coisa que ficou perdida em nossa infância, que é a nossa capacidade de fantasia, de imaginação. Espero que a aula consiga estimular a imaginação das pessoas. Já temos a nossa imaginação muito colonizada por imagens, por vídeos, por fotos e desenhos, não conseguimos mais, simplesmente, tentar reconstruir um acontecimento em nossa imaginação. Na aula, vou deixar que cada um imagine as cenas com as miniaturas como se a tivessem montado.
Esse talvez seja um grande diferencial desse tipo de terapia: trazer de volta a capacidade de imaginar, fantasiar, fazer associações e finalmente, mostrar ao paciente em 3D o que está escondido atrás de nossas personas tão sofisticadas. Talves é lá, no meio de nossas fantasias, que está a verdade de nosso desejo e de nosso ser.
A Terapia de Sanplay vai revelar justamente esse ser que se manifesta fora de nosso discurso. Parece complicado de entender? Vou dar um exemplo. Uma pessoa intelectual e articulada, que zomba nas consultas das técnicas e abordagens psicológicas, montou uma cena com as miniaturas na caixa de areia, quase triunfante por achar a técnica boba e infantil. A imagem que apareceu é de uma menina solitária, uma única personagem humana no meio do cenário, cercada de bichos, de plantas e de brinquedos olhando para frente. A cena montadas com as miniaturas mostra todos os personagens apontando na mesma direção. Quando eu mencionei a menina que ela fora, muito solitária, muito cercada de brinquedos e da própria imaginação, ela se emocionou. A sua empáfia científica acabou de desmoronar. Na cena estava o miolo da sua dificuldade: a visão unilateral, sempre para a frente, pela dificuldade de olhar o seu passado. A menina aprendeu a construir o seu futuro para fugir de uma infância difícil, que ela jurou abandonar e nunca mais ficar na mão de ninguém. O preço disso aparecia na cena da areia: independência com solidão. Nenhuma figura masculina em toda a cena.
A Terapia do Sand Play, ou como eu prefiro chamar, a Terapia de Jogo de Areia, é uma técnica e um método de revelação do Incosciente. Ele que é o sujeito oculto da frase de Lacan: "Sou onde não Penso, Penso onde não SOU". É lógico que a frase é uma paráfrase e uma inversão do famosíssimo aforisma de Descartes: "Penso, logo Existo". Genial. O lugar onde eu mais sou é o lugar em que o pensamento não atrapalha a minha verdade. Aí é o Inconsciente, que, como o nome já diz, está fora do meu campo de Consciência. A menina solitária, um pouco triste e sonhadora era a verdadeira identidade daquela mulher descolada, supercrítica e elegante que se apresentava para o tratamento.
Pois essa é exatamente a mágica da brincadeira com as miniaturas dentro do setting terapêutico. Na aula que vou dar no evento do dia 22 de Outubro (vide o post anterior), uma colega sugeriu que eu usasse imagens do filme que vai servir de ilustração para a aula, que é "A Origem". Agradeci a sugestão, mas não vou acolhê-la. A terapia com as miniaturas liberta uma coisa que ficou perdida em nossa infância, que é a nossa capacidade de fantasia, de imaginação. Espero que a aula consiga estimular a imaginação das pessoas. Já temos a nossa imaginação muito colonizada por imagens, por vídeos, por fotos e desenhos, não conseguimos mais, simplesmente, tentar reconstruir um acontecimento em nossa imaginação. Na aula, vou deixar que cada um imagine as cenas com as miniaturas como se a tivessem montado.
Esse talvez seja um grande diferencial desse tipo de terapia: trazer de volta a capacidade de imaginar, fantasiar, fazer associações e finalmente, mostrar ao paciente em 3D o que está escondido atrás de nossas personas tão sofisticadas. Talves é lá, no meio de nossas fantasias, que está a verdade de nosso desejo e de nosso ser.
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