Agora entendo a insistência com que o cartunista Angeli, da Folha de São Paulo pintava a si mesmo derretendo na frente da prancheta na série “Angeli em Crise”. As crises criativas não são incomuns na vida de alguém que tem que produzir uma tira de jornal engraçada, todo dia. Eu não tenho a mesma pressão que ele, mas já sei o que é ficar na frente desse teclado sem nenhuma idéia do que escrever no blog de hoje.Daí, o título acima.
Podia falar de futebol e do rebaixamento da Lusinha, para grande consternação de minha cachorrinha, Chiara, que apesar do nome italiano é tida nessa casa como torcedora da Portuguesa. Ela é um pouco burrinha, achamos que seria mais simpático ela torcer pela Lusinha. Poderia falar sobre as cachorrinhas, o post sobre a querida e saudosa Bunny foi o mais lido na história do blog. Nada de Neurociência, Psiquiatria Biológica ou Psicologia Analítica. O amor de um homem pela cachorrinha e a dor de sua partida foi o tema do ano.
Pois quando não tenho nenhum tema na cabeça para esse blog, começo a pegar as minhas anotações de aulas, como do Simpósio que comentei ontem. Vejo um estudo bacana sobre Exclusão e Doença Mental. Há um grande aumento da incidência de doenças mentais, inclusive as mais graves, que são os transtornos psicóticos, em pessoas que se sentem cronicamente excluídas. O estudo fala da “Experiência de Ser Diferente”, o que pode após alguns anos gerar sintomas esquizofrênicos. Quando aquele rapaz invadiu a escola no Rio de Janeiro e matou as crianças, não foram poucos os colegas que se apressaram em chamá-lo de Esquizofrênico nas reportagens. A sua mãe biológica tinha um transtorno psiquiátrico, ele teve dificuldades de adaptação e socialização desde a adolescência e sofrera muito bullying na escola porque “era diferente”. Jean Charles, mineiro assassinado por policiais ingleses, também teve esse comportamento persecutório quando viu que os policiais se aproximavam dele porque viram que ele era “diferente”. A maior estranheza gerada por esses estudos é que a Psiquiatria tenta, há décadas, descobrir as causas da Esquizofrenia. Traços Genéticos, Traumas de Parto, Desnutrição e até Nascimento no Inverno, quando a gestante e o bebê são mais suscetíveis à infecções virais, tudo isso é pesquisado exaustivamente há décadas. Se a base da doença é tão biológica, por que faz tanta diferença o isolamento e o estresse social?
Entendemos que temos uma sociedade mais tolerante e menos sectária, que as pessoas são mais estimuladas a fazerem parte ou serem incluídas. Basta ouvir algumas bandas de rap ou hip hop brasileiras para perceber a experiência da exclusão social e, principalmente, da exclusão do paraíso do hiperconsumo. Falta de oportunidades, de perspectivas, de estímulos. Escrevi bastante nesse blog sobre o Transtorno Obsessivo Amoroso, que tem como traço comum a sensação de muitas pessoas, sobretudo mulheres, de estarem excluídas dos relacionamentos amorosos, perdidas na selva dos relacionamentos expressos e casuais. Talvez a nossa sociedade se caracterize, mais do que qualquer outra época histórica, nos grandes agrupamentos humanos onde as pessoas se sintam cada vez mais sós e excluídas. Vou me lançar candidato a alguma coisa para estabelecer micropolíticas de inclusão. O estresse de ficar fora, ou o medo permanente dele, pode estar na raiz de todos os nossos problemas sociais. Votem em mim, para qualquer coisa.
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domingo, 15 de abril de 2012
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