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domingo, 20 de novembro de 2011

Insônia

Dei uma entrevista para uma jornalista amiga sobre o tema desse post. Queixava-se ela da visão seca dos neurologistas com seus laboratórios de sono, pediu ajuda de um psiquiatra, já que o sono de nossos pacientes é um assunto de grande interesse para a classe. Eu tinha um velho mestre que dizia que quando o paciente dorme é meio caminho andado. O psiquiatra pode e deve meter a sua colher nesse assunto.
Ela observou que segundo os dados dos institutos de sono, nunca se dormiu tão mal como nos últimos dez anos. O que está acontecendo? Boa pergunta. Mas uma pergunta não ocorreu em nossa conversa agradável: Para que dormimos?
A partir das aves e dos mamíferos que o dormir é uma constante em todas as espécies. Os mamíferos aquáticos, por exemplo, como golfinhos e baleias, repousam uma metade do Cérebro enquanto a outra continua operando o maquinário. Não sei por que alguém não teve ainda essa idéia. Poderíamos passar acordados todo o dia e noite. Usaríamos o Hemisfério Esquerdo durante o dia e o Direito à noite. Seríamos seres completamente diferentes em turnos de doze horas, o Médico até o fim do expediente, o Monstro quando o sol se põe. Mas não era disso que estávamos falando. Para que serve o sono?
Apesar do perigo, por exemplo, um antílope, dormindo, está muito mais sujeito a ser atacado por predadores do que acordado. Bom mesmo é ser um leão, no topo da cadeia alimentar, dorme vinte horas por dia sem medo de ser atacado. Ainda põe as leoas para trabalhar. Isso é que é vida. Apesar do perigo, o antílope e outros animais dormem.
Dormimos para equilibrar o metabolismo cerebral e corporal, para fixar memórias e aprimorar as nossas habilidades. Dormimos para viver e aprender. Existe uma doença transmitida por Príons, fragmentos primitivos de RNA que podem causar um grande estrago em nosso Cérebro. Uma dessas doenças eliminam a capacidade de dormir do acometido, que morre depois de alguns dias. Não podemos viver sem o sono. Precisamos de um sono que seja eficaz. Ele precisa ser regular, atingir níveis profundos de relaxamento, produzir bom sonhos e acordar gradativamente. Nem preciso dizer que não são muitas pessoas que conseguem ter um sono assim. Estamos talvez numa época histórica onde o sono seja mais agredido do que nunca. Horários irregulares para dormir e acordar; falta de um relaxamento progressivo até podermos entrar em estado de sono; excesso de atividades excitantes durante o dia e antes de dormir, tudo isso são fatores de desequilíbrio de nossos ciclos, o ciclo Vigília-Sono é apenas um dos ciclos afetados.
Dormir em horários regulares, não usar substâncias excitantes nem refeições pesadas antes de dormir, não ficar fritando na cama quando o sono não vem, não trabalhar encima da cama nem levar as preocupações para o travesseiro, são maneiras de preservar o nosso sono. Mas, sobretudo, devemos preservar e valorizar as horas de sono. Vivemos num tempo que as pessoas gostariam de dormir cada vez menos, arrumando atividades que adentram a madrugada.
Sabe o que é difícil nesse discurso? Vivemos hoje num mundo de mesmices. Esse discurso de preservação do sono é correto e uma boa higiene de sono pode mudar o rumo de uma doença, como a depressão, por exemplo. Mas o discurso médico lembra muito o de uma tia velha depositando as suas regras do bem viver. Com a ampliação da jornada de trabalho, pois as pessoas passam cada vez mais tempo trabalhando e demoram cada vez mais para atravessar o trânsito para chegar em casa, esse período do final da noite início da madrugada talvez seja a última fronteira da liberdade. O último período que as pessoas tenham para ficar em sua própria companhia, relaxando depois de mais um dia de tem-quês: tem-que levantar, tem-que bater meta no trabalho, tem-que colocar as crianças no banho quando chega em casa. A grande questão é que esse período precisa ser de preparação do sono, portanto, de relaxamento. Para muita gente, é a única hora do dia em que realmente estão despertas.
Não gosto de ficar ditando regras (poderia usar outro verbo), então o que posso sugerir é estar inteiro para dormir, e estar inteiro para acordar. Não durma querendo estar acordado nem acorde querendo estar dormindo. Esteja presente no seu dia e na sua noite. Durma bem.