Recapitulando os dois últimos posts desse mal teclado blog, o assunto foi o discurso de Steve Jobs em Stanford. Já fiz meus comentários sobre o expositor e o exposto e, sem propaganda indevida, sugiro ao leitor ou leitora incautos que adentraram esse blog agora, propositalmente ou não, que deem uma passada de olhos nos dois últimos textos. Por que o autor dessas linhas dominicais gosta tanto desse discurso? Tenho a impressão que nessa apresentação curta, Steve Jobs dividiu em três momentos, ou fases, de nossa odisséia humana, mesmo sem ter tido a intenção de fazê-lo. Eu dividiria essas fases em três arquétipos principais: A Ferida, A Jornada Noturna e o Significado.
A primeira pequena história é sobre a epopeia da Infância, que desde tio Sigmund sabemos, um período desagradável de nossa vida. Steve Jobs descreve impassível a brincadeira do destino com o seu nascimento; foi recusado por sua mãe biológica, que o deu para adoção e pelo primeiro casal da lista, que na última hora preferiu trocá-lo por uma menina em bom estado. Terminou aos cuidados de um casal muito simples e amoroso que fez muito sacrifício para criá-lo. E não deve ter sido muito fácil, mesmo.
Steve Jobs nunca fez as coisas que idealizou. Sempre colocou gente talentosa e disponível a trabalho semi escravo para materializar os seus projetos. A sua juventude coincide com a fundação da Apple, a luta para sua sobrevivência como companhia e a criação de um destino heroico, como Édipo, que foi abandonado por seu pai para ser criado por pastores e pessoas muito simples e procurou suplantar a sua dor com uma inteligência muito superior. Édipo, digo, Jobs, suplantou as dores da passagem de infância, adolescência e pós adolescência tornando-se um milionário dono de uma empresa de computadores e visando, antes de tudo, mudar o mundo. Para isso, usou (e abusou) de uma Inteligência e Visão bem adiante de seu tempo. E o mundo mudou. Bastante, aliás. A sua trajetória de Herói Ferido culminou com o tema de nosso último post, a Tijolada, quando foi demitido de sua própria empresa e afastado de seu comando. Atordoado, passou alguns anos longe de seu bebê, a Apple, procurando por um caminho para voltar para o jogo. Ganhou muito dinheiro, continuou tentando mudar o mundo, mas passou esses anos andando no escuro, numa Jornada Noturna, sem saber o que procurava e para onde estava indo. Só sabia que precisava seguir andando, passo após passo, na direção que a sua Intuição mandava. Jung passou por uma profunda Depressão quando tomou a sua tijolada, sendo expulso da Psiquiatria por Bleuler e da Psicanálise por Freud. Passou alguns anos estudando textos ininteligíveis de Alquimia e vários outros livros empoeirados, até começar a entender o que estava descobrindo e legando em sua imensa obra. Foi a sua Jornada Noturna.
Recapitulamos então: A Ferida, A Tijolada, A Jornada Noturna. Por fim, a última jornada, a Morte.
Steve Jobs falou sobre a Morte em perspectiva. Na época, tinha recebido o diagnóstico recente de um tipo de Câncer raro de Pâncreas. Não era de um tipo particularmente letal de Câncer de Pâncreas, que costumam ser muito agressivos e letais. Na época ele se sentia curado. Infelizmente, a doença recidivou alguns anos depois em seu Fígado e a evolução da doença levou à sua morte, como sabemos.
Jobs falou da morte como uma grande invenção da natureza, pois ela permite que o novo suceda o velho e que as ideias avancem, sem os impedimentos dos poderosos que, como qualquer outro ser humano, acabam morrendo. A Morte permite a Renovação de nosso DNA e de nossa Psique Humana.
Jobs alertou que não havia como se revestir de autoimportância já que, diante da morte, já estamos todos nús. Não há também motivo para viver uma vida mentirosa, já que temos um tempo limitado para seguir viagem.
Gosto muito da descrição de Dumbledore para Harry Potter, que havia sido morto por Lord Voldemort e o local de passagem era uma estação londrina de trem. Essa cena é do último livro e filme da saga. Harry perguntou ao mestre: como era morrer, afinal? Havia algo que pudesse ser feito, ou alguma tarefa a se cumprir? Dumbledore, o Velho Sábio, falou para Harry que a Morte era simplesmente, seguir caminho, seguir o trem sem olhar para trás.
Steve Jobs terminou seu discurso citando uma frase de uma revista hippie de sua época “Stay hungry, stay foolish”, em tradução livre: “Continue faminto, continue sem saber”. Tomara que essa seja a minha estação de trem, quando vou encontrar o Velho Mestre, que vai me aconselhar a continuar aprendendo, e seguir viagem sem me levar muito a sério. Esse é um bom Significado para a Morte.
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domingo, 8 de fevereiro de 2015
domingo, 6 de abril de 2014
A Vida e o Vagalume
A moderna Psiquiatria criou escalas para avaliar quase tudo. Uma das escalas dessa Babel de entrevistas padronizadas é a de Estressores. Por exemplo, numa escala de zero a seis, o estressor de um divórcio é grau 5. Na vida e na escala, a perda de um filho é pontuação máxima, grau 6. Em nossa prática clínica, são casos bem difíceis de se atender, pois é uma dor que não há o que alivie ou relativize.
Conheço uma história budista sobre o tema. Uma mulher que perdeu seu filho acorreu desesperada ao Buda para trazer o seu bebê de volta. Ele deu a ela uma tarefa muito dura: mandou bater de porta em porta e perguntar nas casas quem nunca tinha perdido um ente querido. Cada vez que encontrasse uma casa com essas características, ela pegaria uma semente de mostarda. Depois de passar o dia inteiro em sua busca, não encontrou nenhuma família que não tivesse passado por alguma perda dolorosa (grau 5 e 6 da escala de estressores. Mas o Buda não mencionou nenhuma escala. Na época, o bom senso já fazia essa função). Ela olhou a cidade do alto e viu as casas com suas luzes acesas, algumas apagando para iniciar o sono e percebeu como a vida é uma luz delicada que se acende e depois se apaga. No dia seguinte, não tinha nenhuma semente para levar, mas estava pronta a seguir o Buda e entender a verdadeira natureza daquela luz que se acende e se apaga com tanta fragilidade.
Uma paciente que passou por essa perda devastadora, perdeu uma filha, me relatou que um membro da família começou a blasfemar e xingar a Deus e todos os seus santos inúteis, que não conseguiram atender à tantas preces e clamores. No filme que eu citei há poucos posts atrás, “Philomena”, a tensão dramática e cômica do filme é garantida pelo contraste entre um elegante e sofisticado jornalista ateu e uma simplória enfermeira aposentada, que há cinquenta anos fora forçada a dar o seu filho para adoção e parte um uma jornada reveladora para tentar encontrá-lo. O jornal vai pagar pela viagem pois tem interesse em publicar a história. Um dos atritos que inevitavelmente vai ocorrer com a dupla se dá quando o jornalista se irrita com a fé católica da velha senhora. Comenta uma manchete de um jornal turco, retratando um terremoto que matou mais de vinte mil pessoas na época: “Deus mais uma vez supera o Terrorismo”. Ela fica muito brava com a comparação e menciona que prefere acreditar em Deus do que ser um cínico amargurado como ele. Auch! A velhinha aposentada não tinha nada de boba.
Não sou teólogo nem acho que a finalidade desse blog é discutir questões sobre a natureza e a percepção da divindade. Mas uma coisa que parece um engano muito frequente é imaginar que Deus é um velhinho de barba branca como um quadro de Michelângelo. E que ele paira acima das nuvens mandando terremotos e se fazendo de surdo diante das preces e aflições humanas. Jung dizia, em tom de brincadeira, que “Deus é tudo o que se opõe à minha vontade obstinada”. Ou seja, não adianta ser um bom menino e imaginar que vai ter mais créditos com o Homem. Até porque ele não é um homem, mas um princípio intrínseco à vida. E, como tal, invisível, intocável, misterioso em sua Ordem no meio do Caos.
Coisas ruins acontecem com gente boa, sou capaz de testemunhá-lo todo dia na escuta do consultório ou abrindo um jornal. Gosto de imaginar a cena da mãe desesperada, olhando a cidade do alto do morro, vendo as luzes se apagando e acendendo, como é a própria vida. Ela não teve o seu filho de volta e não insultou o Buda por isso. Na minha imaginação, penso nela compreendendo que nesse mundo estamos todos de passagem, e que a única forma de dar algum sentido a esse absurdo é espalhando o amor que ela tinha pelo bebê para todos os seres que continuam em sua jornada. É uma tarefa muito, muito dura. É mais fácil virar uma pessoa cínica e amargurada.
Conheço uma história budista sobre o tema. Uma mulher que perdeu seu filho acorreu desesperada ao Buda para trazer o seu bebê de volta. Ele deu a ela uma tarefa muito dura: mandou bater de porta em porta e perguntar nas casas quem nunca tinha perdido um ente querido. Cada vez que encontrasse uma casa com essas características, ela pegaria uma semente de mostarda. Depois de passar o dia inteiro em sua busca, não encontrou nenhuma família que não tivesse passado por alguma perda dolorosa (grau 5 e 6 da escala de estressores. Mas o Buda não mencionou nenhuma escala. Na época, o bom senso já fazia essa função). Ela olhou a cidade do alto e viu as casas com suas luzes acesas, algumas apagando para iniciar o sono e percebeu como a vida é uma luz delicada que se acende e depois se apaga. No dia seguinte, não tinha nenhuma semente para levar, mas estava pronta a seguir o Buda e entender a verdadeira natureza daquela luz que se acende e se apaga com tanta fragilidade.
Uma paciente que passou por essa perda devastadora, perdeu uma filha, me relatou que um membro da família começou a blasfemar e xingar a Deus e todos os seus santos inúteis, que não conseguiram atender à tantas preces e clamores. No filme que eu citei há poucos posts atrás, “Philomena”, a tensão dramática e cômica do filme é garantida pelo contraste entre um elegante e sofisticado jornalista ateu e uma simplória enfermeira aposentada, que há cinquenta anos fora forçada a dar o seu filho para adoção e parte um uma jornada reveladora para tentar encontrá-lo. O jornal vai pagar pela viagem pois tem interesse em publicar a história. Um dos atritos que inevitavelmente vai ocorrer com a dupla se dá quando o jornalista se irrita com a fé católica da velha senhora. Comenta uma manchete de um jornal turco, retratando um terremoto que matou mais de vinte mil pessoas na época: “Deus mais uma vez supera o Terrorismo”. Ela fica muito brava com a comparação e menciona que prefere acreditar em Deus do que ser um cínico amargurado como ele. Auch! A velhinha aposentada não tinha nada de boba.
Não sou teólogo nem acho que a finalidade desse blog é discutir questões sobre a natureza e a percepção da divindade. Mas uma coisa que parece um engano muito frequente é imaginar que Deus é um velhinho de barba branca como um quadro de Michelângelo. E que ele paira acima das nuvens mandando terremotos e se fazendo de surdo diante das preces e aflições humanas. Jung dizia, em tom de brincadeira, que “Deus é tudo o que se opõe à minha vontade obstinada”. Ou seja, não adianta ser um bom menino e imaginar que vai ter mais créditos com o Homem. Até porque ele não é um homem, mas um princípio intrínseco à vida. E, como tal, invisível, intocável, misterioso em sua Ordem no meio do Caos.
Coisas ruins acontecem com gente boa, sou capaz de testemunhá-lo todo dia na escuta do consultório ou abrindo um jornal. Gosto de imaginar a cena da mãe desesperada, olhando a cidade do alto do morro, vendo as luzes se apagando e acendendo, como é a própria vida. Ela não teve o seu filho de volta e não insultou o Buda por isso. Na minha imaginação, penso nela compreendendo que nesse mundo estamos todos de passagem, e que a única forma de dar algum sentido a esse absurdo é espalhando o amor que ela tinha pelo bebê para todos os seres que continuam em sua jornada. É uma tarefa muito, muito dura. É mais fácil virar uma pessoa cínica e amargurada.
domingo, 23 de dezembro de 2012
Amen
Ontem estava no velório de um tio querido, pensando em coisas esquisitas.( As pessoas que me encontram na rua pensam sempre que eu sou metido, muito provavelmente porque esteja pensando em coisas esquisitas e não olhe muito para os lados). Entre uma receita de picanha na panela de pressão e algumas histórias engraçadas e ternas que lembrávamos daquele ente querido, muito querido, que agora era um invólucro de proteínas, minerais e água sem o sopro misterioso da vida no meio da sala, eu ainda pensava em coisas estranhas, como cura à distância e Medicina Chinesa. Coisas que é bom que não se espalhem além do grupo que passa os olhos por esse blog. Eu não acredito no mundo causal de que falava o pastor antes de fecharmos o caixão. Não acredito que o clamor da oração estendeu a vida de meu tio. Eu mesmo vibrei muito, mentalizei muito e o que pude ver foi uma pilha se apagando, apesar do interesse e esforço da equipe que o atendia. A Medicina Chinesa acredita que temos um quantum de energia vital. Algumas pessoas gastam mais, outra menos, essa energia. Quando ela acaba, a vida acaba. A moderna Medicina fala do encurtamento dos Telômeros, o que é um conceito muito parecido, estranhamente parecido, com a intuição dos chineses. Enquanto nosso DNA tem essas pontas, os Telômeros, bons e funcionantes, somos mais saudáveis e longevos. Nosso tempo fica nesse tiquetaque da duração das pontas de DNA. A vida perde a capacidade de se proteger e multiplicar e acaba, simplesmente. Não acho que o clamor das orações tenha interferido, quando a Velha Senhora, a Morte, agarrou meu tio e não quis mais largá-lo. O amor, o investimento, o cuidado prolongou a sua luta, mas foi como se a pilha estivesse acabando, coisa que eu senti desde o início de sua doença.
Mas se eu não acredito no num mundo causalista, no que acredito? Acredito, como o filósofo francês Deleuze, em mundo de quase - causas. Acredito na Oração Intercessora e na intervenção médica bem planejada e embasada. Acredito que o Mistério não responde à nossa vontade, mas pode ser movimentado por ela, pois a nossa Consciência é Co-criadora do mundo. Podemos participar dessas quase- causas, mas não podemos interromper a gigantesca roda dos acontecimentos.
O Natal é uma época que celebra a renovação da vida, na forma de uma Criança Divina que nasce de uma Concepção Imaculada. É a vida em sua forma mais pura, se refazendo em meio à sinfonia de som e fúria que é o mundo. Esse arquétipo da Vida anda muito próximo da Morte, talvez por isso a gente ouça tanto falar da Velha Senhora nessa época. Depois do enterro, fui comprar presentes de Natal, pois a Vida e a Morte são irmãs e andam sempre de mãos dadas.
Mas se eu não acredito no num mundo causalista, no que acredito? Acredito, como o filósofo francês Deleuze, em mundo de quase - causas. Acredito na Oração Intercessora e na intervenção médica bem planejada e embasada. Acredito que o Mistério não responde à nossa vontade, mas pode ser movimentado por ela, pois a nossa Consciência é Co-criadora do mundo. Podemos participar dessas quase- causas, mas não podemos interromper a gigantesca roda dos acontecimentos.
O Natal é uma época que celebra a renovação da vida, na forma de uma Criança Divina que nasce de uma Concepção Imaculada. É a vida em sua forma mais pura, se refazendo em meio à sinfonia de som e fúria que é o mundo. Esse arquétipo da Vida anda muito próximo da Morte, talvez por isso a gente ouça tanto falar da Velha Senhora nessa época. Depois do enterro, fui comprar presentes de Natal, pois a Vida e a Morte são irmãs e andam sempre de mãos dadas.
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