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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Para Não Dizer que Eu Não Falei de Flores

Estava dando uma aula sobre o significado, o papel de uma Depressão na vida de uma pessoa. A Depressão exige uma parada. A Depressão exige uma interiorização. Em termos alquímicos, ou junguianos, toda morte busca a ressurreição, toda doença busca a sua cura, a doença é tarefa, a Depressão pode ser um caminho. Terminei a aula com os versos de “Flores”, dos Titãs: “A dor vai curar essas lástimas/O soro tem gosto de lágrima/As flores tem cheiro de morte/A dor vai fechar esses cortes” e passei o último slide: “Flores, flores/ As flores de plástico não morrem”. Olhei para a plateia cheia de psicólogos e psicólogas aprendizes e falei: - Era isso que eu queria dizer para vocês: só as flores de plástico não morrem. Muito obrigado. Depois de um breve e intenso silêncio, as palmas vieram, por todo o anfiteatro. Um breve silêncio para entender o paradoxo que, para morrer, precisamos estar vivos. E se estamos vivos, morremos várias vezes, já que não temos o conforto e a permanência das flores de plástico.
Essa aula foi nos anos noventa. Dificilmente ela seria possível num Simpósio de Psiquiatria dos dias de hoje, onde a Depressão é sempre um erro: um erro de ativação, ou inativação genética, um erro por excesso de Cortisol, um erro de regulação emocional. Um erro a ser corrigido com medicação adequada e orientação cognitiva. Algo que uma peça clássica diria que é uma história cheia de som e fúria, que significa nada. Consertamos neurônios como um gesso que permite a consolidação de uma fratura. E ponto.
Eu adoro essa música. “Chorei até, ficar cansado de ver os meus olhos no espelho/Chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro/ Os punhos, e os pulsos cortados e o resto do meu corpo inteiro/ Há flores subindo o telhado e embaixo do meu travesseiro”. Fico pensando que flores que o sujeito da música tinha despedaçado e estavam no canteiro. Teria sido um amor perdido? A falta de jeito de um homem em cuidar da delicadeza de um amor? O que fica depois são os punhos e os pulsos cortados, como o resto do corpo inteiro? As flores no telhado, no travesseiro, em tudo que o homem vê é o que foi perdido, e, portanto, passa a existir em tudo. Há flores em tudo o que se vê, as flores quebradas e espalhadas no telhado.
A dor vai curar essas lástimas/ O soro tem gosto de lágrima. Aqui é que está o significado e a esperança. São lindos esses versos. A dor só vai ter significado se vier para curar essas lástimas. A dor vai fechar os cortes. O choro e o soro têm gosto de lágrima. A dor é o que cura e as lágrimas são o soro.
Diz a primeira das quatro nobres verdades budistas que o fundamento de nossa vida consciente é o sofrimento. E a base do sofrimento é a ânsia, a falta, a inquietude que faz com que sempre acabemos por despedaçar as flores que estão no canteiro. Uma das tarefas duras dessa jornada é transformar dor em cura, lágrima em soro e transformar para sempre, o cheiro das flores, que não vão ter cheiro de morte. Isso é re-significar a dor, a perda, a depressão. Re-plantar as flores despedaçadas.
Eu sei que hoje estaria fora de moda, mas terminaria a aula dizendo, mais uma vez, que só as flores de plástico não morrem.