Estava dando uma aula sobre o significado, o papel de uma Depressão na vida de uma pessoa. A Depressão exige uma parada. A Depressão exige uma interiorização. Em termos alquímicos, ou junguianos, toda morte busca a ressurreição, toda doença busca a sua cura, a doença é tarefa, a Depressão pode ser um caminho. Terminei a aula com os versos de “Flores”, dos Titãs: “A dor vai curar essas lástimas/O soro tem gosto de lágrima/As flores tem cheiro de morte/A dor vai fechar esses cortes” e passei o último slide: “Flores, flores/ As flores de plástico não morrem”. Olhei para a plateia cheia de psicólogos e psicólogas aprendizes e falei: - Era isso que eu queria dizer para vocês: só as flores de plástico não morrem. Muito obrigado. Depois de um breve e intenso silêncio, as palmas vieram, por todo o anfiteatro. Um breve silêncio para entender o paradoxo que, para morrer, precisamos estar vivos. E se estamos vivos, morremos várias vezes, já que não temos o conforto e a permanência das flores de plástico.
Essa aula foi nos anos noventa. Dificilmente ela seria possível num Simpósio de Psiquiatria dos dias de hoje, onde a Depressão é sempre um erro: um erro de ativação, ou inativação genética, um erro por excesso de Cortisol, um erro de regulação emocional. Um erro a ser corrigido com medicação adequada e orientação cognitiva. Algo que uma peça clássica diria que é uma história cheia de som e fúria, que significa nada. Consertamos neurônios como um gesso que permite a consolidação de uma fratura. E ponto.
Eu adoro essa música. “Chorei até, ficar cansado de ver os meus olhos no espelho/Chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro/ Os punhos, e os pulsos cortados e o resto do meu corpo inteiro/ Há flores subindo o telhado e embaixo do meu travesseiro”. Fico pensando que flores que o sujeito da música tinha despedaçado e estavam no canteiro. Teria sido um amor perdido? A falta de jeito de um homem em cuidar da delicadeza de um amor? O que fica depois são os punhos e os pulsos cortados, como o resto do corpo inteiro? As flores no telhado, no travesseiro, em tudo que o homem vê é o que foi perdido, e, portanto, passa a existir em tudo. Há flores em tudo o que se vê, as flores quebradas e espalhadas no telhado.
A dor vai curar essas lástimas/ O soro tem gosto de lágrima. Aqui é que está o significado e a esperança. São lindos esses versos. A dor só vai ter significado se vier para curar essas lástimas. A dor vai fechar os cortes. O choro e o soro têm gosto de lágrima. A dor é o que cura e as lágrimas são o soro.
Diz a primeira das quatro nobres verdades budistas que o fundamento de nossa vida consciente é o sofrimento. E a base do sofrimento é a ânsia, a falta, a inquietude que faz com que sempre acabemos por despedaçar as flores que estão no canteiro. Uma das tarefas duras dessa jornada é transformar dor em cura, lágrima em soro e transformar para sempre, o cheiro das flores, que não vão ter cheiro de morte. Isso é re-significar a dor, a perda, a depressão. Re-plantar as flores despedaçadas.
Eu sei que hoje estaria fora de moda, mas terminaria a aula dizendo, mais uma vez, que só as flores de plástico não morrem.
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domingo, 12 de fevereiro de 2017
sábado, 17 de setembro de 2016
Wall-E e o Sonho de Jung
Wall-E é um robô obsoleto, catando e classificando lixo no planeta Terra, desertificado pela intervenção humana. Os habitantes da Terra viraram nômades perdidos pelo Universo, vivendo em estações e naves interplanetárias, presos na frente de telas de computador e de profunda apatia. O enferrujado e valente WaIl-E finalmente encontra, na paisagem devastada do planeta deserto, um pequeno broto de planta, um quase microscópico trevo, que representa a recuperação da terra, o chão, e da Terra, o planeta, de abrigarem a vida. Wall-E dá o alarme e uma pequena e mais moderna robô fêmea atravessará as galáxias para pegar a amostra e levar para os humanos sem lar. Essa é a prova que o planeta está ganhando vida, de novo. Finalmente o homem vai poder voltar de seu exílio.
Esse filme da Pixar me remete para um sonho muito antigo de Jung. Em seu sonho, ele anda com três amigos nas ruas escuras e empoeiradas de Liverpool. Ele fica sabendo que um de seus amigos havia optado por morar naquele lugar sujo, o que causa estranheza a todos. Chegam em um parque quadrado, que tem um lago em seu centro. Com a luz muito fraca, ele enxerga uma ilha no meio do lago, onde tem uma árvore, uma magnólia de flores vermelhas e nesse lugar, o sol nunca deixava de banhar as flores. Vendo esse milagre, entende como alguém tinha ido morar naquele lugar.
O sonho de Jung e a descoberta de Wall-E tem provavelmente a mesma origem simbólica: no meio da situação mais desesperadora e soturna, no meio da secura, do deserto ou da fuligem, nasce a nova vida, e nada detém a força que faz com que a vida floresça. É particularmente bonita a imagem do sonho, onde a árvore central é sempre banhada pela luz. Será que Jung descobriu a Árvore da Vida, sempre iluminada no mundo após a expulsão do Paraíso?
Uma das hipóteses junguianas para a nossa época repleta de doenças mentais epidêmicas é a sensação profunda de aridez de significado de nossa civilização tecnicista. Nascer-Crescer-Consumir-Morrer não parece um caminho inspirador ou com significado. Jung associou o sonho ao período de sua vida, que era especialmente difícil. Tinha sido expulso em pequeno espaço de anos da Psiquiatria e da nascente Psicanálise. Fora abandonado pelos poucos amigos e pesquisava, sem saber ao certo o que estava buscando, o núcleo central de sua teoria. Esse sonho mostrou para ele que sua busca estava indo no caminho certo, mesmo que ele, como o amigo do sonho, estivesse morando num lugar sujo e cheio de fuligem, e que ninguém entendesse como ou porque ele tinha se enfiado naquela situação de vida. Jung não tinha problemas financeiros, era um médico conceituado e procurado por pessoas de todo mundo e suas alunas montaram uma escola para ele transmitir as suas ideias. Mesmo assim ele se sentia perdido e sem saber se a sua busca iria dar em algum lugar. O sonho indicou que no fundo da Psique estava o facho de luz e a planta solitária do desenvolvimento. Difícil era fazer as pessoas olharem com os olhos de dentro.
Vivemos em um mundo unilateral, onde as pessoas compensam a ausência de orientação interna com a gana de acumular e adquirir. É feliz quem compra, é desesperado quem não pode comprar. Está muito fora de moda a ideia de que há, em nosso mundo interior, um núcleo de vida que sempre vai achar um caminho de manifestação.
Como Wall-E, Jung descobriu um broto de vida no deserto espiritual do homem moderno. A psicoterapia é um dos últimos lugares que convidam as pessoas a olharem para dentro. Bem no quintal de seu mundo interno, há um tesouro enterrado. Um tesouro que ninguém quer desenterrar. Só quem espera e escuta pode voltar a ouvir e ver. E precisa procurar muito para encontrar o trevo perdido.
Esse filme da Pixar me remete para um sonho muito antigo de Jung. Em seu sonho, ele anda com três amigos nas ruas escuras e empoeiradas de Liverpool. Ele fica sabendo que um de seus amigos havia optado por morar naquele lugar sujo, o que causa estranheza a todos. Chegam em um parque quadrado, que tem um lago em seu centro. Com a luz muito fraca, ele enxerga uma ilha no meio do lago, onde tem uma árvore, uma magnólia de flores vermelhas e nesse lugar, o sol nunca deixava de banhar as flores. Vendo esse milagre, entende como alguém tinha ido morar naquele lugar.
O sonho de Jung e a descoberta de Wall-E tem provavelmente a mesma origem simbólica: no meio da situação mais desesperadora e soturna, no meio da secura, do deserto ou da fuligem, nasce a nova vida, e nada detém a força que faz com que a vida floresça. É particularmente bonita a imagem do sonho, onde a árvore central é sempre banhada pela luz. Será que Jung descobriu a Árvore da Vida, sempre iluminada no mundo após a expulsão do Paraíso?
Uma das hipóteses junguianas para a nossa época repleta de doenças mentais epidêmicas é a sensação profunda de aridez de significado de nossa civilização tecnicista. Nascer-Crescer-Consumir-Morrer não parece um caminho inspirador ou com significado. Jung associou o sonho ao período de sua vida, que era especialmente difícil. Tinha sido expulso em pequeno espaço de anos da Psiquiatria e da nascente Psicanálise. Fora abandonado pelos poucos amigos e pesquisava, sem saber ao certo o que estava buscando, o núcleo central de sua teoria. Esse sonho mostrou para ele que sua busca estava indo no caminho certo, mesmo que ele, como o amigo do sonho, estivesse morando num lugar sujo e cheio de fuligem, e que ninguém entendesse como ou porque ele tinha se enfiado naquela situação de vida. Jung não tinha problemas financeiros, era um médico conceituado e procurado por pessoas de todo mundo e suas alunas montaram uma escola para ele transmitir as suas ideias. Mesmo assim ele se sentia perdido e sem saber se a sua busca iria dar em algum lugar. O sonho indicou que no fundo da Psique estava o facho de luz e a planta solitária do desenvolvimento. Difícil era fazer as pessoas olharem com os olhos de dentro.
Vivemos em um mundo unilateral, onde as pessoas compensam a ausência de orientação interna com a gana de acumular e adquirir. É feliz quem compra, é desesperado quem não pode comprar. Está muito fora de moda a ideia de que há, em nosso mundo interior, um núcleo de vida que sempre vai achar um caminho de manifestação.
Como Wall-E, Jung descobriu um broto de vida no deserto espiritual do homem moderno. A psicoterapia é um dos últimos lugares que convidam as pessoas a olharem para dentro. Bem no quintal de seu mundo interno, há um tesouro enterrado. Um tesouro que ninguém quer desenterrar. Só quem espera e escuta pode voltar a ouvir e ver. E precisa procurar muito para encontrar o trevo perdido.
sábado, 10 de setembro de 2016
Significado
Um paciente querido, em crise sobre o rumo a tomar em sua carreira, traz o seguinte sonho para a sessão: “Estava numa espécie de auditório, um lugar imenso, cheio de coisas e cacarecos. Chegando mais perto percebi que aquele lugar era uma espécie de sala de aula gigante, e que eu precisava me livrar daquela sujeira e porcarias para poder receber meus alunos”. Após uma carreira dedicada a formar bons profissionais, estava cada vez mais seduzido pelas responsabilidades e disputas de poder dentro da Instituição que dava suas aulas. O sonho ajudou-o a tomar a sua decisão: em vez de aceitar cargo de Coordenação, decidiu que seu lugar era dentro da sala de aula, onde, segundo o sonho, era o seu Templo. As sujeiras e tralhas que lá se acumulavam poderiam ser creditadas ao Ego vaidoso que queria ter Poder e Atenção. Dar aulas costuma ser tarefa menos valorizada nas universidades. O prestígio é medido por verbas, influência, publicações. Dar aula é para principiantes, ou uma terrível obrigação. Esse professor encontrou em seu sonho a resposta que procurava: o seu lugar era na sala de aula, mesmo que isso signifique uma espécie de exílio dentro da carreira.
É muito bom que esse Blog seja frequentado por poucos e bons leitores. Fico imaginando uma apresentação em um Congresso em que o palestrante afirme que um paciente tomou uma decisão importante baseada em um sonho. Conta a nossa história que o imperador Júlio César sonhou com uma voz que lhe pedia para não ir ao Senado no dia em que foi esfaqueado e morto pelos senadores de Roma. Talvez fosse melhor levar em conta esse sonho. O fato é que mesmo um psicoterapeuta que acredite que os sonhos são mais do que reencenações do que vivemos durante o dia, visando fixar memórias e dissipar tensões, achariam estranho tomar uma decisão importante baseada em um sonho. E se ficar na sala de aula fosse uma manifestação do medo de crescer e assumir novas responsabilidades, que são uma tendência inata e constante de todo processo de crescimento?
Talvez o melhor fosse mudar o ângulo dessa discussão. O tempo sempre dirá se a opção foi a melhor e vai oferecer outros indícios se é para seguir por esse ou por outro caminho. O que eu acho bem mais importante é que esse sonho ofereceu para meu cliente a noção de Significado. O auditório imenso e cheio de cacarecos é uma imagem muito significativa da confusão de valores que confundia tanto o sonhador como a instituição que trabalha: os debates sempre se situavam à atual posição que a Universidade ocupa no mercado e o esforço em captar mais clientes, digo, alunos. É como se a essência do que se faz ali, que é a transmissão do conhecimento e a criação de bons profissionais, estivesse completamente perdida em meio às questões do mercado. O tal do Mercado é a nova divindade que devemos reverenciar e proteger. O Ensino é um detalhe.
Algumas estimativas americanas dão conta que a terceira causa de morte em determinadas faixas etárias se relacionam com a reação ou má evolução após um procedimento médico. Alguns hospitais registram queda de índice de óbitos em semanas de congressos, quando uma parte do corpo clínico está ausente. Não considero que os médicos façam parte de algum grupo de extermínio ou esteja sob a orientação do Estado Islâmico, mas é uma ótima ocasião de parar e pensar sobre o que que é tudo isso, afinal? A prática médica se dá sobre a ideia da cura ou de guerras contra inimigos imaginários? Na minha área, por exemplo, uma senhorinha que perdeu o companheiro de décadas deve ser medicada porque está triste ou essa é uma reação perfeitamente normal e adequada? Se a medicação demorar a ser introduzida, a Depressão ficará mais grave e difícil de abordar?
Penso que muitos dos estragos perpetrados pela Medicina Moderna derivem muito mais da tentativa de antecipar problemas do que de corrigí-los. Nesse caso, os cacarecos da sala são os guidelines de tratamento e procedimentos, que devem ser seguidos mesmo que contra o interesse dos pacientes?
Esse post é sobre uma ideia portanto bastante fora de moda, que é a ideia do Significado. Significado com letra maiúscula para apontar justamente porque representa o que realmente importa. Como professores interessados em transmitir conhecimento, alunos interessados em conquistar esse conhecimento e médicos atentos à cura e melhora de qualidade de vida de seus pacientes. Veja o visitante desse blog que hoje está cada vez mais difícil de se limpar essas salas cheias de entulho, e cada vez mais difícil devolver às pessoas a sensação de Significado. Isso faz as pessoas adoecerem em nossos tempos difíceis.
É muito bom que esse Blog seja frequentado por poucos e bons leitores. Fico imaginando uma apresentação em um Congresso em que o palestrante afirme que um paciente tomou uma decisão importante baseada em um sonho. Conta a nossa história que o imperador Júlio César sonhou com uma voz que lhe pedia para não ir ao Senado no dia em que foi esfaqueado e morto pelos senadores de Roma. Talvez fosse melhor levar em conta esse sonho. O fato é que mesmo um psicoterapeuta que acredite que os sonhos são mais do que reencenações do que vivemos durante o dia, visando fixar memórias e dissipar tensões, achariam estranho tomar uma decisão importante baseada em um sonho. E se ficar na sala de aula fosse uma manifestação do medo de crescer e assumir novas responsabilidades, que são uma tendência inata e constante de todo processo de crescimento?
Talvez o melhor fosse mudar o ângulo dessa discussão. O tempo sempre dirá se a opção foi a melhor e vai oferecer outros indícios se é para seguir por esse ou por outro caminho. O que eu acho bem mais importante é que esse sonho ofereceu para meu cliente a noção de Significado. O auditório imenso e cheio de cacarecos é uma imagem muito significativa da confusão de valores que confundia tanto o sonhador como a instituição que trabalha: os debates sempre se situavam à atual posição que a Universidade ocupa no mercado e o esforço em captar mais clientes, digo, alunos. É como se a essência do que se faz ali, que é a transmissão do conhecimento e a criação de bons profissionais, estivesse completamente perdida em meio às questões do mercado. O tal do Mercado é a nova divindade que devemos reverenciar e proteger. O Ensino é um detalhe.
Algumas estimativas americanas dão conta que a terceira causa de morte em determinadas faixas etárias se relacionam com a reação ou má evolução após um procedimento médico. Alguns hospitais registram queda de índice de óbitos em semanas de congressos, quando uma parte do corpo clínico está ausente. Não considero que os médicos façam parte de algum grupo de extermínio ou esteja sob a orientação do Estado Islâmico, mas é uma ótima ocasião de parar e pensar sobre o que que é tudo isso, afinal? A prática médica se dá sobre a ideia da cura ou de guerras contra inimigos imaginários? Na minha área, por exemplo, uma senhorinha que perdeu o companheiro de décadas deve ser medicada porque está triste ou essa é uma reação perfeitamente normal e adequada? Se a medicação demorar a ser introduzida, a Depressão ficará mais grave e difícil de abordar?
Penso que muitos dos estragos perpetrados pela Medicina Moderna derivem muito mais da tentativa de antecipar problemas do que de corrigí-los. Nesse caso, os cacarecos da sala são os guidelines de tratamento e procedimentos, que devem ser seguidos mesmo que contra o interesse dos pacientes?
Esse post é sobre uma ideia portanto bastante fora de moda, que é a ideia do Significado. Significado com letra maiúscula para apontar justamente porque representa o que realmente importa. Como professores interessados em transmitir conhecimento, alunos interessados em conquistar esse conhecimento e médicos atentos à cura e melhora de qualidade de vida de seus pacientes. Veja o visitante desse blog que hoje está cada vez mais difícil de se limpar essas salas cheias de entulho, e cada vez mais difícil devolver às pessoas a sensação de Significado. Isso faz as pessoas adoecerem em nossos tempos difíceis.
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Significado
Há poucos anos estava com a minha família passando o final de ano em Florianópolis e, como costuma acontecer nessa época, presos em um dos imensos congestionamentos que se formam em suas vias de apenas uma pista, numa ilha que não foi projetada para receber tanta gente. Os carros avançavam muito devagar e notamos, eu e meu filho, uma moça correndo aflita atrás de um cãozinho minúsculo, uma espécie de miniatura de Fox Paulistinha cortando perigosamente a frente dos carros. Bendito congestionamento que permitia aos motoristas perceberem a movimentação para evitar que o bichinho estressado se pusesse sob algum carro. Ficamos torcendo silenciosamente pela moça e alguns voluntários que tentavam pegar o fugitivo. Foi quando ele entrou numa rua pequena e sem saída que eu acelerei o carro e resolvi entrar na perseguição. O pequenino ficou encurralado num muro, eu atravessei o carro como um tira americano e eu e meu filho descemos para a operação resgate. Fomos miseravelmente driblados pelo dog, que escapou entre nós em cena de comédia, só faltou batermos as cabeças. Felizmente, ele não passou pela segunda linha de pessoas que nos seguiram, que acabaram capturando o travesso. Voltamos para o carro e retomamos o caminho do congestionamento até a Praia dos Ingleses, quando meu filho comentou que sentia uma imensa alegria no coração, como se algo tivesse se abrido dentro de seu peito. Foi bom ele notar, porque eu também estava sentindo aquela coisa que era mais do que alegria, era uma espécie de expansão de sentimento, de ter saído de nossa costumeira apatia e medo de envolvimento para fazer uma coisa pelo Outro, mesmo que o outro tivesse cerca de 30 centímetros de comprimento.
Na web há um TED, para quem não conhece, uma pequena aula ou exposição de saber ou manifesto pessoal de no máximo 20 minutos que já comentei em posts anteriores. Um TED de 2014 foi apresentado por um sujeito chamado Dan Pacholke, que apresentou o seu trabalho de décadas com cadeias e Sistemas Prisionais americanos, com um título inusitado “Como viver uma vida com significado dentro de uma prisão”. A sua apresentação discorreu sobre as formas de repressão truculenta e força bruta dos presos, e como foram desenvolvendo projetos piloto de treinamento de guardas em suas capacidades de comunicação e contenção de conflitos de forma não violenta, melhorando significativamente o ambiente para os internos e a equipe. O próximo passo foi usar uma prisão agrícola para intervenção ecológica, plantando árvores e alocando espécies de plantas e animais em extinção, ou participando de pesquisas científicas. As pessoas ficaram inspiradas e se sentiram participando de algo maior do que a mediocridade de oprimir ou ser oprimido que caracterizam as instituições fechadas, um presídio acima de tudo. Um modelo fácil de se entender e aplicar seria um grande projeto de recuperação da mata ciliar que envolve o reservatório da Cantareira. São Paulo está à margem (sem trocadilho) de um colapso ecológico de esgotamento de recursos hídricos e as autoridades pedem para rezarmos para São Pedro. Pobre São Pedro, que já carrega a fama de ter negado Jesus três vezes, agora precisa sanar a monumental incompetência de nossos gestores. A mata que poderia e deveria proteger o reservatório está dizimada. A mão de obra institucionalizada em celas superlotadas talvez tivesse uma melhora em sua autoestima e senso de pertencimento de pudessem ajudar a proteger nossos reservatórios e áreas de mananciais. Ou participassem de feiras de adoção das centenas dos cães capturados e mortos em nossa cidade, muitas vezes abandonados pelas próprias famílias que os adotaram. Eles poderiam correr atrás desses bichos soltos como eu e meu filho tomando fintas do cachorrinho fugitivo.
Vivemos uma crise humana sem precedentes e em todas as áreas de nossas vidas. Talvez a crise mais profunda seja a de falta de significado. Sobretudo, a falta de significado do trabalho, da ação política ou mesmo do consumo. Muitas pessoas massacradas nos cubículos corporativos talvez invejassem os presidiários que podem tentar salvar rãs ou plantas ameaçadas de extinção. Um papel do trabalho de todos, inclusive e sobretudo dos profissionais de saúde mental, onde me incluo, devem começar a pesquisar e focar em projetos que conectem as pessoas com algo que não seja o próprio umbigo. Algo que forneça, minimamente, a noção de significado para nossa vida e ação.
Na web há um TED, para quem não conhece, uma pequena aula ou exposição de saber ou manifesto pessoal de no máximo 20 minutos que já comentei em posts anteriores. Um TED de 2014 foi apresentado por um sujeito chamado Dan Pacholke, que apresentou o seu trabalho de décadas com cadeias e Sistemas Prisionais americanos, com um título inusitado “Como viver uma vida com significado dentro de uma prisão”. A sua apresentação discorreu sobre as formas de repressão truculenta e força bruta dos presos, e como foram desenvolvendo projetos piloto de treinamento de guardas em suas capacidades de comunicação e contenção de conflitos de forma não violenta, melhorando significativamente o ambiente para os internos e a equipe. O próximo passo foi usar uma prisão agrícola para intervenção ecológica, plantando árvores e alocando espécies de plantas e animais em extinção, ou participando de pesquisas científicas. As pessoas ficaram inspiradas e se sentiram participando de algo maior do que a mediocridade de oprimir ou ser oprimido que caracterizam as instituições fechadas, um presídio acima de tudo. Um modelo fácil de se entender e aplicar seria um grande projeto de recuperação da mata ciliar que envolve o reservatório da Cantareira. São Paulo está à margem (sem trocadilho) de um colapso ecológico de esgotamento de recursos hídricos e as autoridades pedem para rezarmos para São Pedro. Pobre São Pedro, que já carrega a fama de ter negado Jesus três vezes, agora precisa sanar a monumental incompetência de nossos gestores. A mata que poderia e deveria proteger o reservatório está dizimada. A mão de obra institucionalizada em celas superlotadas talvez tivesse uma melhora em sua autoestima e senso de pertencimento de pudessem ajudar a proteger nossos reservatórios e áreas de mananciais. Ou participassem de feiras de adoção das centenas dos cães capturados e mortos em nossa cidade, muitas vezes abandonados pelas próprias famílias que os adotaram. Eles poderiam correr atrás desses bichos soltos como eu e meu filho tomando fintas do cachorrinho fugitivo.
Vivemos uma crise humana sem precedentes e em todas as áreas de nossas vidas. Talvez a crise mais profunda seja a de falta de significado. Sobretudo, a falta de significado do trabalho, da ação política ou mesmo do consumo. Muitas pessoas massacradas nos cubículos corporativos talvez invejassem os presidiários que podem tentar salvar rãs ou plantas ameaçadas de extinção. Um papel do trabalho de todos, inclusive e sobretudo dos profissionais de saúde mental, onde me incluo, devem começar a pesquisar e focar em projetos que conectem as pessoas com algo que não seja o próprio umbigo. Algo que forneça, minimamente, a noção de significado para nossa vida e ação.
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