Um paciente querido, em crise sobre o rumo a tomar em sua carreira, traz o seguinte sonho para a sessão: “Estava numa espécie de auditório, um lugar imenso, cheio de coisas e cacarecos. Chegando mais perto percebi que aquele lugar era uma espécie de sala de aula gigante, e que eu precisava me livrar daquela sujeira e porcarias para poder receber meus alunos”. Após uma carreira dedicada a formar bons profissionais, estava cada vez mais seduzido pelas responsabilidades e disputas de poder dentro da Instituição que dava suas aulas. O sonho ajudou-o a tomar a sua decisão: em vez de aceitar cargo de Coordenação, decidiu que seu lugar era dentro da sala de aula, onde, segundo o sonho, era o seu Templo. As sujeiras e tralhas que lá se acumulavam poderiam ser creditadas ao Ego vaidoso que queria ter Poder e Atenção. Dar aulas costuma ser tarefa menos valorizada nas universidades. O prestígio é medido por verbas, influência, publicações. Dar aula é para principiantes, ou uma terrível obrigação. Esse professor encontrou em seu sonho a resposta que procurava: o seu lugar era na sala de aula, mesmo que isso signifique uma espécie de exílio dentro da carreira.
É muito bom que esse Blog seja frequentado por poucos e bons leitores. Fico imaginando uma apresentação em um Congresso em que o palestrante afirme que um paciente tomou uma decisão importante baseada em um sonho. Conta a nossa história que o imperador Júlio César sonhou com uma voz que lhe pedia para não ir ao Senado no dia em que foi esfaqueado e morto pelos senadores de Roma. Talvez fosse melhor levar em conta esse sonho. O fato é que mesmo um psicoterapeuta que acredite que os sonhos são mais do que reencenações do que vivemos durante o dia, visando fixar memórias e dissipar tensões, achariam estranho tomar uma decisão importante baseada em um sonho. E se ficar na sala de aula fosse uma manifestação do medo de crescer e assumir novas responsabilidades, que são uma tendência inata e constante de todo processo de crescimento?
Talvez o melhor fosse mudar o ângulo dessa discussão. O tempo sempre dirá se a opção foi a melhor e vai oferecer outros indícios se é para seguir por esse ou por outro caminho. O que eu acho bem mais importante é que esse sonho ofereceu para meu cliente a noção de Significado. O auditório imenso e cheio de cacarecos é uma imagem muito significativa da confusão de valores que confundia tanto o sonhador como a instituição que trabalha: os debates sempre se situavam à atual posição que a Universidade ocupa no mercado e o esforço em captar mais clientes, digo, alunos. É como se a essência do que se faz ali, que é a transmissão do conhecimento e a criação de bons profissionais, estivesse completamente perdida em meio às questões do mercado. O tal do Mercado é a nova divindade que devemos reverenciar e proteger. O Ensino é um detalhe.
Algumas estimativas americanas dão conta que a terceira causa de morte em determinadas faixas etárias se relacionam com a reação ou má evolução após um procedimento médico. Alguns hospitais registram queda de índice de óbitos em semanas de congressos, quando uma parte do corpo clínico está ausente. Não considero que os médicos façam parte de algum grupo de extermínio ou esteja sob a orientação do Estado Islâmico, mas é uma ótima ocasião de parar e pensar sobre o que que é tudo isso, afinal? A prática médica se dá sobre a ideia da cura ou de guerras contra inimigos imaginários? Na minha área, por exemplo, uma senhorinha que perdeu o companheiro de décadas deve ser medicada porque está triste ou essa é uma reação perfeitamente normal e adequada? Se a medicação demorar a ser introduzida, a Depressão ficará mais grave e difícil de abordar?
Penso que muitos dos estragos perpetrados pela Medicina Moderna derivem muito mais da tentativa de antecipar problemas do que de corrigí-los. Nesse caso, os cacarecos da sala são os guidelines de tratamento e procedimentos, que devem ser seguidos mesmo que contra o interesse dos pacientes?
Esse post é sobre uma ideia portanto bastante fora de moda, que é a ideia do Significado. Significado com letra maiúscula para apontar justamente porque representa o que realmente importa. Como professores interessados em transmitir conhecimento, alunos interessados em conquistar esse conhecimento e médicos atentos à cura e melhora de qualidade de vida de seus pacientes. Veja o visitante desse blog que hoje está cada vez mais difícil de se limpar essas salas cheias de entulho, e cada vez mais difícil devolver às pessoas a sensação de Significado. Isso faz as pessoas adoecerem em nossos tempos difíceis.
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sábado, 10 de setembro de 2016
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
O Sonho do Carpinteiro
Já vou avisar aos poucos e bons leitores desse blog que não vou engatar em mais uma conversa de Natal sobre aumento de risco de violência e suicídio nessa época do ano. Igualmente, não vou repetir que é uma época que os psiquiatras deveriam estar de plantão. Mas, sobretudo, não vou discorrer sobre a Mitologia do Nascimento da Criança Divina. Para isso, sugiro um pulinho nos posts de Natal anteriores. São mais de quinhentos posts, vários assuntos e piadas se repetem de maneira inevitável, mas não hoje. Vamos dar uma pausa nos panettones e comerciais de famílias unidas em torno do Perú Sadia.
Vou me deter no sonho de José, um rapaz que desconfiava seriamente da versão de sua jovem noiva, de que recebera a visita de um anjo que lhe anunciou o nascimento de um menino, chamado Emanuel (que significa Deus-Conosco). Ela receberia em seu ventre esse menino que vinha para salvar o mundo de seus pecados. Na época não havia internet nem whatsapp, muito menos maridos traídos destruindo o carro do amante da mulher na porta do Motel. José não podia produzir um vídeo para se tornar viral nos celulares da Galiléia. Felizmente para a sua pequena Maria, para quem a acusação de adultério poderia terminar na morte por apedrejamento ou na desgraça para si e sua família, José não foi estúpido nem narcisista para expor publicamente seu drama privado. Mas o jovem carpinteiro não estava realmente feliz com a história. Não pretendia criar o filho de outro, mesmo que o Outro fosse o Espírito Santo em pessoa. Aliás, o próprio filho traria a manifestação do Fogo de Pentecostes trinta e poucos anos depois, então José não conseguia entender aquela história. Planejou, em suas noites insones, que iria deixar a sua noiva, atraindo sobre si a culpa pelo malfeito. Isso acabou por tranquilizá-lo, pois achou a solução de perfeita lógica: não criaria um filho bastardo, mas não causaria a morte de sua noiva. Era juntar uns trocos e iniciar nova vida em outro lugar. Foi assim, mais tranquilo, que acabou dormindo. Sonhou com a visita do Anjo, que lhe avisou que não deveria abandonar a moça nem seu bebê, mas, antes, protegê-los, pois aquele nascimento corria muitos riscos. Deve ter dado uns chacoalhões em José, que acabou aceitando a tarefa.
Apesar de prometer que este post iria fugir dos temas natalinos, acabei caindo no sonho de José. Isso foi inspirado na pauta de uma jornalista, que me perguntou na diferença entre uma leitura freudiana ou junguiana dos sonhos. Vou usar o sonho de José como base, embora já tenha alertado em outros posts para os riscos de psicologizar temas mitológicos.
Uma leitura freudiana diria que o tema do sonho, o encontro com o anjo, tinha uma forte relação com o relato de sua noiva: como os sonhos manifestam os medos e os desejos inconscientes, José manifestou em seu sonho seu medo de sua própria agressividade com a sua futura esposa e filho. Um junguiano diria que a gravidez de sua noiva ativou o arquétipo do Pai Terrível, que pode se manifestar com o abandono de seu filho e família. Bem sabemos que diariamente muitos Josés deixam as suas Marias e filhos abandonados à própria sorte.
O sonho, voltando a Freud, seria a manifestação de sua culpa reprimida e de seu Superego chamando-o à responsabilidade, o que ele acatou para não viver imerso na culpa para sempre. E para um junguiano? Bem, aí a coisa complica.
Para um junguiano, o Anjo representa o arquétipo da Totalidade, o Self. O Self, que não deve gostar de selfies, se manifesta com toda a intensidade nesse momento crucial e joga José para fora dos jogos mentais e para dentro do Mistério. Ele deveria aceitar a tarefa e proteger aquela criança, para sempre. Essa era a sua missão, mesmo que não conseguisse entendê-la. O Self aponta para o significado profundo e inatingível para o Ego de determinada experiência. Ou decisão. Parece uma metáfora bíblica, mas representa aquela voz silenciosa que empurra a vida para decisões paradoxais, como continuar casado, ou seguir uma carreira, ou enfrentar situações onde tudo parece perdido, e triunfar. Lá no fundo pode ter um anjo assoprando: “Vai, não desista, não dê para trás agora”. Essas coisas que parecem misticismo e crendice para nossas mentes científicas, mas não deixam de existir.
O sonho freudiano vai investigar os conteúdos reprimidos em nosso Inconsciente. Suas leituras são válidas em muitas situações e podem representar uma camada de nosso Cérebro que precisa ignorar alguns medos e agressões para seguir a vida, mas em algum momento precisa recuperar o que está enterrado. Talvez o medo de José de assumir aquela paternidade tivesse uma razão mais profunda, da memória de um pai ausente, ou violento, por exemplo.
O sonho junguiano conecta José com todos os pais que, em determinado momento de sua vida, tiveram vontade de deixar seus filhos e família e voltar para uma vida sem responsabilidades. Conecta o jovem carpinteiro com todo homem que assumiu inteiramente a responsabilidade de proteger e criar os filhos que nem sabiam se eram seus. Homens que sacrificaram uma parte considerável de suas vidas a proteger seus filhos e família, mesmo que para isso tivessem que atravessar um deserto.
As leituras são complementares, e não excludentes, como muita gente quer acreditar.
Vou me deter no sonho de José, um rapaz que desconfiava seriamente da versão de sua jovem noiva, de que recebera a visita de um anjo que lhe anunciou o nascimento de um menino, chamado Emanuel (que significa Deus-Conosco). Ela receberia em seu ventre esse menino que vinha para salvar o mundo de seus pecados. Na época não havia internet nem whatsapp, muito menos maridos traídos destruindo o carro do amante da mulher na porta do Motel. José não podia produzir um vídeo para se tornar viral nos celulares da Galiléia. Felizmente para a sua pequena Maria, para quem a acusação de adultério poderia terminar na morte por apedrejamento ou na desgraça para si e sua família, José não foi estúpido nem narcisista para expor publicamente seu drama privado. Mas o jovem carpinteiro não estava realmente feliz com a história. Não pretendia criar o filho de outro, mesmo que o Outro fosse o Espírito Santo em pessoa. Aliás, o próprio filho traria a manifestação do Fogo de Pentecostes trinta e poucos anos depois, então José não conseguia entender aquela história. Planejou, em suas noites insones, que iria deixar a sua noiva, atraindo sobre si a culpa pelo malfeito. Isso acabou por tranquilizá-lo, pois achou a solução de perfeita lógica: não criaria um filho bastardo, mas não causaria a morte de sua noiva. Era juntar uns trocos e iniciar nova vida em outro lugar. Foi assim, mais tranquilo, que acabou dormindo. Sonhou com a visita do Anjo, que lhe avisou que não deveria abandonar a moça nem seu bebê, mas, antes, protegê-los, pois aquele nascimento corria muitos riscos. Deve ter dado uns chacoalhões em José, que acabou aceitando a tarefa.
Apesar de prometer que este post iria fugir dos temas natalinos, acabei caindo no sonho de José. Isso foi inspirado na pauta de uma jornalista, que me perguntou na diferença entre uma leitura freudiana ou junguiana dos sonhos. Vou usar o sonho de José como base, embora já tenha alertado em outros posts para os riscos de psicologizar temas mitológicos.
Uma leitura freudiana diria que o tema do sonho, o encontro com o anjo, tinha uma forte relação com o relato de sua noiva: como os sonhos manifestam os medos e os desejos inconscientes, José manifestou em seu sonho seu medo de sua própria agressividade com a sua futura esposa e filho. Um junguiano diria que a gravidez de sua noiva ativou o arquétipo do Pai Terrível, que pode se manifestar com o abandono de seu filho e família. Bem sabemos que diariamente muitos Josés deixam as suas Marias e filhos abandonados à própria sorte.
O sonho, voltando a Freud, seria a manifestação de sua culpa reprimida e de seu Superego chamando-o à responsabilidade, o que ele acatou para não viver imerso na culpa para sempre. E para um junguiano? Bem, aí a coisa complica.
Para um junguiano, o Anjo representa o arquétipo da Totalidade, o Self. O Self, que não deve gostar de selfies, se manifesta com toda a intensidade nesse momento crucial e joga José para fora dos jogos mentais e para dentro do Mistério. Ele deveria aceitar a tarefa e proteger aquela criança, para sempre. Essa era a sua missão, mesmo que não conseguisse entendê-la. O Self aponta para o significado profundo e inatingível para o Ego de determinada experiência. Ou decisão. Parece uma metáfora bíblica, mas representa aquela voz silenciosa que empurra a vida para decisões paradoxais, como continuar casado, ou seguir uma carreira, ou enfrentar situações onde tudo parece perdido, e triunfar. Lá no fundo pode ter um anjo assoprando: “Vai, não desista, não dê para trás agora”. Essas coisas que parecem misticismo e crendice para nossas mentes científicas, mas não deixam de existir.
O sonho freudiano vai investigar os conteúdos reprimidos em nosso Inconsciente. Suas leituras são válidas em muitas situações e podem representar uma camada de nosso Cérebro que precisa ignorar alguns medos e agressões para seguir a vida, mas em algum momento precisa recuperar o que está enterrado. Talvez o medo de José de assumir aquela paternidade tivesse uma razão mais profunda, da memória de um pai ausente, ou violento, por exemplo.
O sonho junguiano conecta José com todos os pais que, em determinado momento de sua vida, tiveram vontade de deixar seus filhos e família e voltar para uma vida sem responsabilidades. Conecta o jovem carpinteiro com todo homem que assumiu inteiramente a responsabilidade de proteger e criar os filhos que nem sabiam se eram seus. Homens que sacrificaram uma parte considerável de suas vidas a proteger seus filhos e família, mesmo que para isso tivessem que atravessar um deserto.
As leituras são complementares, e não excludentes, como muita gente quer acreditar.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
O Sonho de Jung
Para os poucos, e bons que acompanham essas mal traçadas, vou ser mais técnico nesse post, então se ficar chato ou incompreensível, continuem navegando.
Há uma passagem no filme de David Cronenberg, que já comentei em outro post, “Um Método Perigoso”, em que Jung está viajando com Freud para a América e conta para ele, no deck do navio um sonho interessante: “Jung estava fazendo uma viagem, na fronteira entre Áustria e Suiça. As bagagens estavam presas na fronteira e havia um barqueiro se movimentando. Era um homem triste e alguém comenta que ele não estava realmente lá, mas era um homem que já havia morrido, mas não sabia como morrer direito”. Freud interpretou o sonho como uma alusão à relação deles. A fronteira entre Suiça e Áustria era a relação entre eles, já que Freud era austríaco e Jung, suíço. Para ele, o barqueiro morto-vivo era uma alusão à opinião de Jung sobre ele, alguém que já estava superado. Mencionou também que o sonho expressava a hostilidade inconsciente de Jung,o filho, contra Freud, o pai. Jung ficou perturbado com essa interpretação e, na minha opinião, com toda razão. O rompimento entre eles estava a caminho e Freud tinha uma certa fixação na estrutura arquetípica do Grande Pai sendo destituído pelos filhos. No começo da relação com Jung pensou que ele seria o seu Príncipe consorte, o continuador da senda psicanalítica por ele criada. Com o tempo, Jung passou a discordar de vários pontos de sua teoria, até o que era uma grande amizade caminhou para a rivalidade e o rompimento. A briga persiste até hoje, um século depois do quiproquó. Mas não é sobre isso que eu quero escrever.
As diferentes interpretações marcam as diferenças entre a interpretação redutora e a amplificação simbólica. Jung tentava sempre uma amplificação dos conteúdos dos sonhos para além dos esquemas interpretativos da teoria, psicanalítica ou não. Vou me arriscar nesse sonho. Jung explorou as várias fronteiras da Psique: a fronteira biológica, as mitologias, e, por que não dizer, as fronteiras da espiritualidade. Não há nenhuma alusão do sonho ao barqueiro como figura paterna, Freud ou qualquer outra figura. As malas presas na aduana era realmente uma alusão ao momento que Jung estava passando, tentando transpor as fronteiras de seu pensamento. O barqueiro morto-vivo era uma alusão a várias experiências que Jung teve da fronteira entre a Psique inconsciente e a espiritualidade, o que lhe valeu até hoje a classificação de místico, romântico, religioso e outros “xingamentos” no campo da Psicologia.
O barqueiro que não consegue morrer representa as coisas que não deixamos morrer em nossa vida, o que nos impede de transpor as fronteiras de nossas neuroses. Mas representa também a fronteira que Jung descreveu, mas não entrou, a fronteira do que chamamos de Espiritualidade. Quando tratamos de nossos pacientes e de suas dores, podemos afetar a própria relação com as mágoas e as dores que carregamos, os mortos vivos de nossa tristeza. Isso afeta as coisas que devem e podem, acabar.
Há uma passagem no filme de David Cronenberg, que já comentei em outro post, “Um Método Perigoso”, em que Jung está viajando com Freud para a América e conta para ele, no deck do navio um sonho interessante: “Jung estava fazendo uma viagem, na fronteira entre Áustria e Suiça. As bagagens estavam presas na fronteira e havia um barqueiro se movimentando. Era um homem triste e alguém comenta que ele não estava realmente lá, mas era um homem que já havia morrido, mas não sabia como morrer direito”. Freud interpretou o sonho como uma alusão à relação deles. A fronteira entre Suiça e Áustria era a relação entre eles, já que Freud era austríaco e Jung, suíço. Para ele, o barqueiro morto-vivo era uma alusão à opinião de Jung sobre ele, alguém que já estava superado. Mencionou também que o sonho expressava a hostilidade inconsciente de Jung,o filho, contra Freud, o pai. Jung ficou perturbado com essa interpretação e, na minha opinião, com toda razão. O rompimento entre eles estava a caminho e Freud tinha uma certa fixação na estrutura arquetípica do Grande Pai sendo destituído pelos filhos. No começo da relação com Jung pensou que ele seria o seu Príncipe consorte, o continuador da senda psicanalítica por ele criada. Com o tempo, Jung passou a discordar de vários pontos de sua teoria, até o que era uma grande amizade caminhou para a rivalidade e o rompimento. A briga persiste até hoje, um século depois do quiproquó. Mas não é sobre isso que eu quero escrever.
As diferentes interpretações marcam as diferenças entre a interpretação redutora e a amplificação simbólica. Jung tentava sempre uma amplificação dos conteúdos dos sonhos para além dos esquemas interpretativos da teoria, psicanalítica ou não. Vou me arriscar nesse sonho. Jung explorou as várias fronteiras da Psique: a fronteira biológica, as mitologias, e, por que não dizer, as fronteiras da espiritualidade. Não há nenhuma alusão do sonho ao barqueiro como figura paterna, Freud ou qualquer outra figura. As malas presas na aduana era realmente uma alusão ao momento que Jung estava passando, tentando transpor as fronteiras de seu pensamento. O barqueiro morto-vivo era uma alusão a várias experiências que Jung teve da fronteira entre a Psique inconsciente e a espiritualidade, o que lhe valeu até hoje a classificação de místico, romântico, religioso e outros “xingamentos” no campo da Psicologia.
O barqueiro que não consegue morrer representa as coisas que não deixamos morrer em nossa vida, o que nos impede de transpor as fronteiras de nossas neuroses. Mas representa também a fronteira que Jung descreveu, mas não entrou, a fronteira do que chamamos de Espiritualidade. Quando tratamos de nossos pacientes e de suas dores, podemos afetar a própria relação com as mágoas e as dores que carregamos, os mortos vivos de nossa tristeza. Isso afeta as coisas que devem e podem, acabar.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
O Sonho e a Cura
Desde os tempos bíblicos que os sonhos são vistos como um portal de consciência e de previsão de futuro. Há uma história bíblica belíssima sobre essa capacidade: os filhos de Isaque, enciumados, venderam o seu irmão caçula, José, como escravo no Egito. Ele era o preferido de seu velho pai. José acabou preso por outros problemas e na prisão, interpretou o sonho de um preso, revelando o seu futuro. Quando esse preso foi reabilitado, contou para o Faraó das capacidades de José. Ele previu que o Egito teria sete anos de abundância, seguido de outros sete anos de secas. O Egito se preparou durante os anos de fartura e atravessou assim os anos de seca. Pensando bem, nos dias de hoje José iria fazer muito sucesso trabalhando nas bolsas ou no FMI, só analisando os sonhos da galera.
Na era moderna, os sonhos, como instrumento de acesso à psique, foi novamente revelado por Freud, que o chamou da via régia para o acesso ao Inconsciente. Os seus achados com relação aos sonhos até hoje não foram aceitos pela Ciência, bem como grande parte de sua teoria. Dane-se a Ciência. Os sonhos se comprovam em nossa prática como uma via maravilhosa de acesso ao Inconsciente e à cura. As psicoterapias comprovam isso no dia a dia, o que não pode ser detectado por nenhum exame de Neuroimagem.
As pessoas normalmente acham os sonhos pouco importantes, fragmentos de assuntos que apareceram durante o dia. Sonham com o trabalho, sonham com as preocupações e os medos do dia a dia. Freud mesmo resumia que o sonho manifesta um desejo ou um medo, e isso se confirma em uma série de sonhos.
Jung, que veio um pouco depois de Freud e descobriu o Inconsciente Coletivo, julgava os sonhos uma via de acesso ao Inconsciente e à própria vida. Não vou me estender nesse post, mas Jung imaginava que os sonhos fosse uma manifestação de outras esferas da psique, como a própria Supraconsciência, que ele chamou de Self. Para esse post não ficar muito chato, vou dar o exemplo de um sonho recente colhido na prática do consultório. O paciente sonhou com uma Arara Azul, belíssima, pousada em seu braço. Ele olhava a ave admirado, quando percebeu que a arara estava chorando. O pensamento que lhe veio foi que não sabia que os bichos tinham esses sentimentos. Acolheu a arara com um longo e amoroso abraço, ela se aninhou em seus braços. Parecia um sonho comum e sem sentido, não é? A tal da arara poderia ser uma alusão à arara da última animação de Carlos Saldanha, "Rio", onde a personagem principal é uma arara azul, Blue. O significado da arara e do que ela representa no sonho que é pessoal e intransferível. A interpretação do sonho, realizada a partir das associações do paciente foi que a Arara Azul representa a profunda solidão do paciente em sua vida pessoal e profissional. Nesse mundo utilitarista de cada um por si, ele se sente cada vez mais um animal em extinção. Uma ave rara, tentando fazer as coisas certo. Olhar para o bichinho e perceber a sua dor é como olhar para si mesmo e toda a sensação de solidão e injustiça que lhe causam mágoa. Quando ele acolhe a ave num abraço, está realizando uma cura de sua própria ferida e solidão. Em vez de esperar reconhecimento e acolhimento do Outro, como a sociedade, os pares, os amigos ou quem quer que seja, ele toma a iniciativa de acolher o bichinho em sua dor. Esse é um sonho de cura, um sonho em que a percepção que o paciente tem da vida é profundamente transformada por esse conteúdo que vem no sonho. O paciente pode ver em 3D o que lhe machuca e cuidar da própria ferida. Essa é uma das vivências e compreensões mais profundas que podemos ter em um processo de psicoterapia.
Somos todos araras azuis procurando o nosso caminho. Encontramos com diversos tipos de pessoas e de amores, mas no final das contas, é nossa tarefa compreender o que nos machuca e cuidar disso. Veja quanta coisa num fragmento meio besta de sonho.
Os neurocientistas continuam procurando pela alma dentro do aparelhos. Não vão encontrar.
Na era moderna, os sonhos, como instrumento de acesso à psique, foi novamente revelado por Freud, que o chamou da via régia para o acesso ao Inconsciente. Os seus achados com relação aos sonhos até hoje não foram aceitos pela Ciência, bem como grande parte de sua teoria. Dane-se a Ciência. Os sonhos se comprovam em nossa prática como uma via maravilhosa de acesso ao Inconsciente e à cura. As psicoterapias comprovam isso no dia a dia, o que não pode ser detectado por nenhum exame de Neuroimagem.
As pessoas normalmente acham os sonhos pouco importantes, fragmentos de assuntos que apareceram durante o dia. Sonham com o trabalho, sonham com as preocupações e os medos do dia a dia. Freud mesmo resumia que o sonho manifesta um desejo ou um medo, e isso se confirma em uma série de sonhos.
Jung, que veio um pouco depois de Freud e descobriu o Inconsciente Coletivo, julgava os sonhos uma via de acesso ao Inconsciente e à própria vida. Não vou me estender nesse post, mas Jung imaginava que os sonhos fosse uma manifestação de outras esferas da psique, como a própria Supraconsciência, que ele chamou de Self. Para esse post não ficar muito chato, vou dar o exemplo de um sonho recente colhido na prática do consultório. O paciente sonhou com uma Arara Azul, belíssima, pousada em seu braço. Ele olhava a ave admirado, quando percebeu que a arara estava chorando. O pensamento que lhe veio foi que não sabia que os bichos tinham esses sentimentos. Acolheu a arara com um longo e amoroso abraço, ela se aninhou em seus braços. Parecia um sonho comum e sem sentido, não é? A tal da arara poderia ser uma alusão à arara da última animação de Carlos Saldanha, "Rio", onde a personagem principal é uma arara azul, Blue. O significado da arara e do que ela representa no sonho que é pessoal e intransferível. A interpretação do sonho, realizada a partir das associações do paciente foi que a Arara Azul representa a profunda solidão do paciente em sua vida pessoal e profissional. Nesse mundo utilitarista de cada um por si, ele se sente cada vez mais um animal em extinção. Uma ave rara, tentando fazer as coisas certo. Olhar para o bichinho e perceber a sua dor é como olhar para si mesmo e toda a sensação de solidão e injustiça que lhe causam mágoa. Quando ele acolhe a ave num abraço, está realizando uma cura de sua própria ferida e solidão. Em vez de esperar reconhecimento e acolhimento do Outro, como a sociedade, os pares, os amigos ou quem quer que seja, ele toma a iniciativa de acolher o bichinho em sua dor. Esse é um sonho de cura, um sonho em que a percepção que o paciente tem da vida é profundamente transformada por esse conteúdo que vem no sonho. O paciente pode ver em 3D o que lhe machuca e cuidar da própria ferida. Essa é uma das vivências e compreensões mais profundas que podemos ter em um processo de psicoterapia.
Somos todos araras azuis procurando o nosso caminho. Encontramos com diversos tipos de pessoas e de amores, mas no final das contas, é nossa tarefa compreender o que nos machuca e cuidar disso. Veja quanta coisa num fragmento meio besta de sonho.
Os neurocientistas continuam procurando pela alma dentro do aparelhos. Não vão encontrar.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
O Sonho de Jung
Tudo bem, queridos leitores (ou leitora, no caso) logo vou postar textos definitivos sobre psique e futebol, em tempos de Copa do Mundo. Mas hoje vou responder a uma pergunta de minha seguidora, que colocou a seguinte frase de Carl Jung : " Os sonhos são manifestações não falsificadas da atividade criativa do Inconsciente ". Ela pede para esse que vos tecla comentar a frase e de quebra falar sobre sonhos e suas interpretações. É assunto para um ano de blog, mas vou tentar abordá-lo de forma nada sonolenta.
Vou começar sobre essa frase, que ninguém dá nada por ela, mas contém algumas elaborações teóricas de tirar o fôlego. Vou me concentrar na primeira parte da frase: " Os sonhos são manifestações NÃO FALSIFICADAS ..."; Este tiro tem destino, o alvo é a concepção freudiana das manifestações e interpretações de um sonho. Para a Psicanálise clássica, o sonho pode ser "lido" a partir de dois conteúdos: Manifesto e Latente. O sonho demonstra uma cena, por exemplo, Jung entrando em uma câmara secreta, cheia de ossos e sarcófagos antigos. Ele conta esse sonho para Freud, que o interpreta como o desejo inconsciente de Jung de matá-lo, simbolicamente falando. Vamos tentar entender o salto interpretativo: Jung era discípulo querido e menino de ouro do freudismo emergente no princípio do século XX. Tio Sigmund era o patriarca, o condutor desse movimento que mudou a forma de entendermos o homem e o mundo.O conteúdo manifesto é do jovem Carl descendo às catacumbas, em busca de algo perdido. O conteúdo latente, que Freud associou aos túmulos e cadáveres, seria o desejo inconsciente de morte do Pai e tomada do poder fálico paterno pelo filho. O sonho teria então um texto e um subtexto. Seria, a grosso modo, como se o sonho ocultasse o desejo inconfessável através de suas imagens. Jung ficou muito contrariado, para não usar outro termo, com essa interpretação. Para ele, devemos nos ater ao conteúdo manifesto sem acharmos que o mesmo oculta sempre ódios e cobiças inconfessáveis. Devemos confiar no que o sonho está demonstrando diretamente. Depois de um século desta pendenga, podemos dizer que Jung estava correto nessa conversa: o sonho provavelmente estava falando do que seria o caminho do pensamento junguiano nas décadas seguintes, quando o psiquiatra suiço realmente vasculhou os fundamentos arquetípicos da alma humana, o que incluiu escavar velhos textos e saberes que estavam enterrados no esquecimento da História. Um freudiano poderia contrargumentar que Freud tinha razão, pois Jung "matou-o" simbolicamente nos anos seguintes, tornando-se crítico e dissidente do movimento psicanalítico após rompimento doloroso com Freud. Podemos admití-lo, também, por que não? Mas no que tange a esse sonho, os junguianos vão continuar batendo o pé que o conteúdo está aí e devemos confiar nele. Isso que ele quer dizer com "manifestações não falsificadas". Descer às catacumbas, como apareceu no sonho, significava uma tendência que já se manifestava em Jung, quando passou a estudar Mitologias e Religiões comparadas para entender a formação da Psique Humana. Não era uma coleção de impulsos assassinos se manifestando de forma rebuscada. Para a interpretação de um sonho, devemos considerar o conteúdo manifesto como limite do que vamos interpretar, como uma mensagem da psique que chamamos de Inconsciente.
A segunda parte da frase, em que Jung fala sobre um Inconsciente Criativo eu comento no próximo blog. Até lá.
Vou começar sobre essa frase, que ninguém dá nada por ela, mas contém algumas elaborações teóricas de tirar o fôlego. Vou me concentrar na primeira parte da frase: " Os sonhos são manifestações NÃO FALSIFICADAS ..."; Este tiro tem destino, o alvo é a concepção freudiana das manifestações e interpretações de um sonho. Para a Psicanálise clássica, o sonho pode ser "lido" a partir de dois conteúdos: Manifesto e Latente. O sonho demonstra uma cena, por exemplo, Jung entrando em uma câmara secreta, cheia de ossos e sarcófagos antigos. Ele conta esse sonho para Freud, que o interpreta como o desejo inconsciente de Jung de matá-lo, simbolicamente falando. Vamos tentar entender o salto interpretativo: Jung era discípulo querido e menino de ouro do freudismo emergente no princípio do século XX. Tio Sigmund era o patriarca, o condutor desse movimento que mudou a forma de entendermos o homem e o mundo.O conteúdo manifesto é do jovem Carl descendo às catacumbas, em busca de algo perdido. O conteúdo latente, que Freud associou aos túmulos e cadáveres, seria o desejo inconsciente de morte do Pai e tomada do poder fálico paterno pelo filho. O sonho teria então um texto e um subtexto. Seria, a grosso modo, como se o sonho ocultasse o desejo inconfessável através de suas imagens. Jung ficou muito contrariado, para não usar outro termo, com essa interpretação. Para ele, devemos nos ater ao conteúdo manifesto sem acharmos que o mesmo oculta sempre ódios e cobiças inconfessáveis. Devemos confiar no que o sonho está demonstrando diretamente. Depois de um século desta pendenga, podemos dizer que Jung estava correto nessa conversa: o sonho provavelmente estava falando do que seria o caminho do pensamento junguiano nas décadas seguintes, quando o psiquiatra suiço realmente vasculhou os fundamentos arquetípicos da alma humana, o que incluiu escavar velhos textos e saberes que estavam enterrados no esquecimento da História. Um freudiano poderia contrargumentar que Freud tinha razão, pois Jung "matou-o" simbolicamente nos anos seguintes, tornando-se crítico e dissidente do movimento psicanalítico após rompimento doloroso com Freud. Podemos admití-lo, também, por que não? Mas no que tange a esse sonho, os junguianos vão continuar batendo o pé que o conteúdo está aí e devemos confiar nele. Isso que ele quer dizer com "manifestações não falsificadas". Descer às catacumbas, como apareceu no sonho, significava uma tendência que já se manifestava em Jung, quando passou a estudar Mitologias e Religiões comparadas para entender a formação da Psique Humana. Não era uma coleção de impulsos assassinos se manifestando de forma rebuscada. Para a interpretação de um sonho, devemos considerar o conteúdo manifesto como limite do que vamos interpretar, como uma mensagem da psique que chamamos de Inconsciente.
A segunda parte da frase, em que Jung fala sobre um Inconsciente Criativo eu comento no próximo blog. Até lá.
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