Tudo bem, queridos leitores (ou leitora, no caso) logo vou postar textos definitivos sobre psique e futebol, em tempos de Copa do Mundo. Mas hoje vou responder a uma pergunta de minha seguidora, que colocou a seguinte frase de Carl Jung : " Os sonhos são manifestações não falsificadas da atividade criativa do Inconsciente ". Ela pede para esse que vos tecla comentar a frase e de quebra falar sobre sonhos e suas interpretações. É assunto para um ano de blog, mas vou tentar abordá-lo de forma nada sonolenta.
Vou começar sobre essa frase, que ninguém dá nada por ela, mas contém algumas elaborações teóricas de tirar o fôlego. Vou me concentrar na primeira parte da frase: " Os sonhos são manifestações NÃO FALSIFICADAS ..."; Este tiro tem destino, o alvo é a concepção freudiana das manifestações e interpretações de um sonho. Para a Psicanálise clássica, o sonho pode ser "lido" a partir de dois conteúdos: Manifesto e Latente. O sonho demonstra uma cena, por exemplo, Jung entrando em uma câmara secreta, cheia de ossos e sarcófagos antigos. Ele conta esse sonho para Freud, que o interpreta como o desejo inconsciente de Jung de matá-lo, simbolicamente falando. Vamos tentar entender o salto interpretativo: Jung era discípulo querido e menino de ouro do freudismo emergente no princípio do século XX. Tio Sigmund era o patriarca, o condutor desse movimento que mudou a forma de entendermos o homem e o mundo.O conteúdo manifesto é do jovem Carl descendo às catacumbas, em busca de algo perdido. O conteúdo latente, que Freud associou aos túmulos e cadáveres, seria o desejo inconsciente de morte do Pai e tomada do poder fálico paterno pelo filho. O sonho teria então um texto e um subtexto. Seria, a grosso modo, como se o sonho ocultasse o desejo inconfessável através de suas imagens. Jung ficou muito contrariado, para não usar outro termo, com essa interpretação. Para ele, devemos nos ater ao conteúdo manifesto sem acharmos que o mesmo oculta sempre ódios e cobiças inconfessáveis. Devemos confiar no que o sonho está demonstrando diretamente. Depois de um século desta pendenga, podemos dizer que Jung estava correto nessa conversa: o sonho provavelmente estava falando do que seria o caminho do pensamento junguiano nas décadas seguintes, quando o psiquiatra suiço realmente vasculhou os fundamentos arquetípicos da alma humana, o que incluiu escavar velhos textos e saberes que estavam enterrados no esquecimento da História. Um freudiano poderia contrargumentar que Freud tinha razão, pois Jung "matou-o" simbolicamente nos anos seguintes, tornando-se crítico e dissidente do movimento psicanalítico após rompimento doloroso com Freud. Podemos admití-lo, também, por que não? Mas no que tange a esse sonho, os junguianos vão continuar batendo o pé que o conteúdo está aí e devemos confiar nele. Isso que ele quer dizer com "manifestações não falsificadas". Descer às catacumbas, como apareceu no sonho, significava uma tendência que já se manifestava em Jung, quando passou a estudar Mitologias e Religiões comparadas para entender a formação da Psique Humana. Não era uma coleção de impulsos assassinos se manifestando de forma rebuscada. Para a interpretação de um sonho, devemos considerar o conteúdo manifesto como limite do que vamos interpretar, como uma mensagem da psique que chamamos de Inconsciente.
A segunda parte da frase, em que Jung fala sobre um Inconsciente Criativo eu comento no próximo blog. Até lá.
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sexta-feira, 11 de junho de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Diablogs 5 - O menino que perdeu a fé
- Qual a primeira história que você quer?
- Pode ser uma história sobre doença?
- Deixe-me ver... Tem uma que eu gosto muito...
- Como se chama?
- O que?
- A história?
- Ah, sim ... Não tinha pensado nisso... Bem, vou chamá-la de "O menino que perdeu a fé".
- Está me zoando, então.
- (Risos) Não estou não... Vai me deixar contar ou não?
Assentiu, rindo junto.
- Era uma vez um rapaz que muito se incomodava com todas as referências religiosas que havia em minha sala. Frequentemente, alfinetava os terapeutas junguianos como místicos e pouco científicos, eu deixava passar para ver onde aquilo iria dar, até que um dia ele chegou muito mexido na minha sala. Algo de muito diferente ocorrera e ele não queria muito falar no assunto, mas estava tão definitivamente incomodado que acabou tendo que me dizer. O rapaz frequentava uma faculdade noturna e trabalhava durante o dia, era de notável valor e nunca mencionara, talvez por medo de minha reação, que ele sentia sempre um desconforto razoável na aula de um determinado professor. O velhinho era muito querido mas um tanto ridicularizado pela turma, pois começava as suas aulas com um breve momento de oração, uma oração pedindo para que a aula transcorresse bem, para a saúde das pessoas, essas coisas. Os alunos que não quizessem se juntar á oração podiam fazer outra coisa, desde que sem barulho, e a maior parte da turma ligava seus Ipods ou repassavam alguma matéria enquanto o velhinho, acompanhado de alguns poucos alunos, fazia sua breve oração. Pois bem, nas semanas anteriores uma aluna pediu em prantos para que rezassem por sua mãe, que havia sido diagnosticada com um Tumor Cerebral. O professor fechou os olhos e deu a mão para essa menina e meu paciente, ateu convicto, acabou se juntando à oração: O professor agradeceu pela reunião daquelas pessoas, pelo amor da filha, pelos desencontros da vida e, sobretudo, agradeceu pela completa recuperação daquela senhora, mãe de sua aluna. Na semana seguinte a menina falou que um pequeno procedimento havia neutralizado aquele tumor, mas que o médico ficou impressionado com a redução espontânea do mesmo, que ele atribuiu a algum artefato do aparelho de ressonância. Quando ele acabou de contar essa história, perguntei, afinal, porque esses assuntos religiosos ou metafísicos lhe despertavam tanta raiva, tanta aversão? Ele me contou muito a contragosto que quando era criança tinha o seu porquinho da índia, que um dia soltou de forma um pouco imprudente no quintal. O bichinho se enfiou num buraco e até logo, nunca mais foi visto. Com muito fervor, ele rezou, implorou para o seu melhor amigo aparecer, sabia que se havia um Deus, Ele poderia trazê-lo de volta. Ficou doente, chorou por muitas noites e implorou a seus pais que não comprassem outro bicho. Um dia ele parou de orar e de pedir. Nunca mais teve um porquinho da índia, nunca mais pediu nada e passou a acreditar apenas em seu próprio esforço e no que podia palpar. Achou a história do professor uma bobagem, mas uma coisa muito lhe impressionou.
- O que?
- Ele se juntou à oração do professor e pediu, do fundo do seu coração, para aquele grande Silêncio que as pessoas chamam Deus, pediu de coração para ajudar a menina em sua aflição, pois tinha certeza que a sua mãe, como o seu bichinho, não mais sairia do buraco. Foi como se algo tivesse se quebrado dentro dele. Ele negaria até a morte, mas acho que, naquele momento, o rapaz tão ciente de seu ateísmo, sentiu que a pessoa por quem ele orava estava se curando.
Ficaram alguns segundos em silêncio.
- Ele voltou a falar no assunto?
- Não. Ele ficou mais alguns meses comigo e foi transferido para uma cidade do interior, perdemos o contato. Não sei se ele recuperou a fé, não sei como ficou, mas tenho quase certeza que era um ateu de araque.
- Você falou isso para ele?
- Não me lembro.
Ficou um tempo em silêncio, olhando para o nada.
- (Suspiro prolongado) Mas vem cá, o que você chama de fé?
- (Sorriu enquanto tomava fôlego) Fé? Fé é continuar pedindo quando não se é atendido e continuar vivendo, mesmo quando as coisas não são como deveriam ser. Isso é que é a tal da fé.
Sorriu suavemente, desviando o olhar.
- Pode ser uma história sobre doença?
- Deixe-me ver... Tem uma que eu gosto muito...
- Como se chama?
- O que?
- A história?
- Ah, sim ... Não tinha pensado nisso... Bem, vou chamá-la de "O menino que perdeu a fé".
- Está me zoando, então.
- (Risos) Não estou não... Vai me deixar contar ou não?
Assentiu, rindo junto.
- Era uma vez um rapaz que muito se incomodava com todas as referências religiosas que havia em minha sala. Frequentemente, alfinetava os terapeutas junguianos como místicos e pouco científicos, eu deixava passar para ver onde aquilo iria dar, até que um dia ele chegou muito mexido na minha sala. Algo de muito diferente ocorrera e ele não queria muito falar no assunto, mas estava tão definitivamente incomodado que acabou tendo que me dizer. O rapaz frequentava uma faculdade noturna e trabalhava durante o dia, era de notável valor e nunca mencionara, talvez por medo de minha reação, que ele sentia sempre um desconforto razoável na aula de um determinado professor. O velhinho era muito querido mas um tanto ridicularizado pela turma, pois começava as suas aulas com um breve momento de oração, uma oração pedindo para que a aula transcorresse bem, para a saúde das pessoas, essas coisas. Os alunos que não quizessem se juntar á oração podiam fazer outra coisa, desde que sem barulho, e a maior parte da turma ligava seus Ipods ou repassavam alguma matéria enquanto o velhinho, acompanhado de alguns poucos alunos, fazia sua breve oração. Pois bem, nas semanas anteriores uma aluna pediu em prantos para que rezassem por sua mãe, que havia sido diagnosticada com um Tumor Cerebral. O professor fechou os olhos e deu a mão para essa menina e meu paciente, ateu convicto, acabou se juntando à oração: O professor agradeceu pela reunião daquelas pessoas, pelo amor da filha, pelos desencontros da vida e, sobretudo, agradeceu pela completa recuperação daquela senhora, mãe de sua aluna. Na semana seguinte a menina falou que um pequeno procedimento havia neutralizado aquele tumor, mas que o médico ficou impressionado com a redução espontânea do mesmo, que ele atribuiu a algum artefato do aparelho de ressonância. Quando ele acabou de contar essa história, perguntei, afinal, porque esses assuntos religiosos ou metafísicos lhe despertavam tanta raiva, tanta aversão? Ele me contou muito a contragosto que quando era criança tinha o seu porquinho da índia, que um dia soltou de forma um pouco imprudente no quintal. O bichinho se enfiou num buraco e até logo, nunca mais foi visto. Com muito fervor, ele rezou, implorou para o seu melhor amigo aparecer, sabia que se havia um Deus, Ele poderia trazê-lo de volta. Ficou doente, chorou por muitas noites e implorou a seus pais que não comprassem outro bicho. Um dia ele parou de orar e de pedir. Nunca mais teve um porquinho da índia, nunca mais pediu nada e passou a acreditar apenas em seu próprio esforço e no que podia palpar. Achou a história do professor uma bobagem, mas uma coisa muito lhe impressionou.
- O que?
- Ele se juntou à oração do professor e pediu, do fundo do seu coração, para aquele grande Silêncio que as pessoas chamam Deus, pediu de coração para ajudar a menina em sua aflição, pois tinha certeza que a sua mãe, como o seu bichinho, não mais sairia do buraco. Foi como se algo tivesse se quebrado dentro dele. Ele negaria até a morte, mas acho que, naquele momento, o rapaz tão ciente de seu ateísmo, sentiu que a pessoa por quem ele orava estava se curando.
Ficaram alguns segundos em silêncio.
- Ele voltou a falar no assunto?
- Não. Ele ficou mais alguns meses comigo e foi transferido para uma cidade do interior, perdemos o contato. Não sei se ele recuperou a fé, não sei como ficou, mas tenho quase certeza que era um ateu de araque.
- Você falou isso para ele?
- Não me lembro.
Ficou um tempo em silêncio, olhando para o nada.
- (Suspiro prolongado) Mas vem cá, o que você chama de fé?
- (Sorriu enquanto tomava fôlego) Fé? Fé é continuar pedindo quando não se é atendido e continuar vivendo, mesmo quando as coisas não são como deveriam ser. Isso é que é a tal da fé.
Sorriu suavemente, desviando o olhar.
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