Estávamos falando de Minos, o chifrudo, que mandou construir um labirinto para encobrir a traição de sua mulher. Lá, ele prendeu a criatura monstruosa, o Minotauro (o original, não o lutador de UFC). Para manter o monstro, o rei de Creta colocava no labirinto jovens que lá ficavam perdidos e eram devorados todos os anos pela besta. Esse é o custo de nossas neuroses: elas fabricam nossos monstros e devoram nossos potenciais.
Um jovem príncipe, Teseu, filho de outro rei, Egeu, resolveu dar fim àquela situação. Pegou a sua clava, ganha em batalha contra outro bandido e figura monstruosa e foi para a ilha de Creta para a sua jornada heróica. Teseu teve a ajuda de uma filha do rei, Ariadne, uma virgem que se apaixonou pelo herói. Ariadne protegeu o valente, ajudando a enganar o seu pai e colocar Teseu e sua clava dentro do labirinto, onde ele finalmente domou e esmagou o Minotauro. A questão era como sair de lá. Como o cheque especial, entrar no labirinto era fácil, sair, nem tanto. Ariadne, sábia em sua juventude, deu a Teseu um novelo de lã bem resistente. Amarrou o novelo na entrada do labirinto e Teseu foi desenovelando esse carretel até o ponto de encontro com o monstro. Para voltar, foi só enrolá-lo de novo.
O fio de Ariadne representa a vitória da astúcia, do pensamento humano sobre a bestialidade. Uma idéia tão simples que resolveu um problema que parecia impossível de ser elaborado. Essa é a mágica de nossa consciência: descobrir a saída simples que está debaixo de nosso nariz. E não vemos.
No filme "A Origem" o Teseu é o líder do grupo, Cobb. Ariadne não vai apenas ajudá-lo a entrar e sair do labirinto do seu próprio Inconsciente, ela vai ser a própria construtora do labirinto. Como a Ariadne da Mitologia, ela é uma menina, sábia, que penetra naquele mundo com a tranquilidade de quem parecia ter sempre vivido por lá. A Ariadne do filme não ensina Cobb a sair do labirinto, mas a entrar cada vez mais fundo nele, até encontrar o ponto onde tudo estava preso. É como se o seu novelo de lã estivesse enroscado em algum lugar que Teseu\Cobb precisava encontrar. O amor da menina ajudou o herói a confrontar a sua Sombra: por seu desejo infinito de poder, Cobb tinha plantado uma idéia dentro das redes neurais de sua esposa. Essa idéia foi crescendo, crescendo, como um parasita, e acabou provocando o seu suicídio. Cobb é um herói decaído procurando por sua redenção. Ariadne representa o seu melhor lado, representa o amor que pode redimir as nossas culpas, abrir os caminhos fechados de nosso Inconsciente. Ariadne, do filme e da Mitologia, são boas terapeutas, mostrando o caminho que deve ser trilhado, os atalhos para chegar no miolo de nossos labirintos.
Vivemos numa época que tudo nos convida à superfície. Para que empreender uma jornada às nossas profundezas, se os livros de autoajuda nos prometem o sucesso com algumas fórmulas rápidas e definitivas? Para que enfrentar os nossos monstros, se o programador neurolinguístico promete consertar os nossas softwares mentais defeituosos?
Para um terapeuta junguiano, como eu, a nossa vida tem muitas metáforas arquetípicas, uma delas é que estamos aqui numa jornada interior e exterior, procurando por verdade e consciência. Podemos descer aos infernos ou subir aos céus, estamos na mesma jornada. Ariadne representa o bom senso, a modéstia, a justa medida que nos protegem da perdição, de ficarmos presos dentro do labirinto de nossos medos e covardias. Esse talvez seja um dos motivos de eu ter gostado tanto desse filme.
A psicoterapia profunda passa anos na tecelagem pacienciosa dos fios que vão nos levar a trazer de volta do labirinto de nossas dúvidas. Ariadne é a mão sábia que nos ajuda a tecer. E nunca paramos de tecer.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
A Senhora do Labirinto
Antes de Ariadne ser nome de Ex BBB (e que Ex BBB), havia uma outra Ariadne, a da Mitologia Grega. Esse post vai falar da Ariadne original e da personagem do filme "A Origem", que já andou aparecendo nos últimos posts. Sei que os leitores já devem estar um pouco cansados dessa quase obsessão do autor dessas mal tecladas pelo filme. Não gostei tanto dele assim. Vou dar uma aula sobre ele em Outubro, então aproveito para explorar as suas diferentes facetas nesse blog.
Para conhecer Ariadne,a da Mitologia Grega, precisamos conhecer o seu pai, o rei Minos. Minos era o rei de Creta, um tirano. A sua esposa, como acontecia com as esposas mortais de alguns reis, teve um filho ilegítimo com Poseidon, o deus dos Mares. O fruto do chifre foi um chifrudo, não o rei Minos, mas um monstro, o Minotauro, o touro de Minos. Para encobrir a sua vergonha, Minos ouve um astuto conselheiro, Dédalo, que sugere a construção de um labirinto perfeito, impossível de se sair, onde o rei deixa o monstro preso.
No filme, o personagem de Léo di Caprio, Cobb, é perseguido em seus sonhos pela imagem de sua esposa morta. Ele tenta lidar com isso construindo um labirinto de memórias, onde ela vai ficar presa, ou pelo menos, onde ela deveria estar. Como sabemos desde Freud, tudo o que é recalcado volta como sintoma.
O rei Minos mantém o Minotauro preso oferecendo a carne fresca de jovens atenienses, deixados no labirinto para serem devorados pelo monstro.
Cobb sacrifica também o seu bem mais precioso, os seus filhos, de quem ele é separado por ser o principal suspeito da morte de sua esposa. Ele foge do país e vive atormentado pela lembrança de seus filhos, a saudade de sua esposa e o labirinto de culpas que o impedem de viver. A sua esposa aparece em todas as suas tentativas de entrar nos sonhos das pessoas. Ela não fica presa no Labirinto. Mal, a sombra de sua esposa, é o monstro que habita a psique de Cobb. Ela possui o seu coração e sua mente. Para a libertação ele vai precisar matá-la, de uma vez por todas. É aí que entra Ariadne. É dela que vamos falar com mais vagar em nosso próximo post. Não percam.
Para conhecer Ariadne,a da Mitologia Grega, precisamos conhecer o seu pai, o rei Minos. Minos era o rei de Creta, um tirano. A sua esposa, como acontecia com as esposas mortais de alguns reis, teve um filho ilegítimo com Poseidon, o deus dos Mares. O fruto do chifre foi um chifrudo, não o rei Minos, mas um monstro, o Minotauro, o touro de Minos. Para encobrir a sua vergonha, Minos ouve um astuto conselheiro, Dédalo, que sugere a construção de um labirinto perfeito, impossível de se sair, onde o rei deixa o monstro preso.
No filme, o personagem de Léo di Caprio, Cobb, é perseguido em seus sonhos pela imagem de sua esposa morta. Ele tenta lidar com isso construindo um labirinto de memórias, onde ela vai ficar presa, ou pelo menos, onde ela deveria estar. Como sabemos desde Freud, tudo o que é recalcado volta como sintoma.
O rei Minos mantém o Minotauro preso oferecendo a carne fresca de jovens atenienses, deixados no labirinto para serem devorados pelo monstro.
Cobb sacrifica também o seu bem mais precioso, os seus filhos, de quem ele é separado por ser o principal suspeito da morte de sua esposa. Ele foge do país e vive atormentado pela lembrança de seus filhos, a saudade de sua esposa e o labirinto de culpas que o impedem de viver. A sua esposa aparece em todas as suas tentativas de entrar nos sonhos das pessoas. Ela não fica presa no Labirinto. Mal, a sombra de sua esposa, é o monstro que habita a psique de Cobb. Ela possui o seu coração e sua mente. Para a libertação ele vai precisar matá-la, de uma vez por todas. É aí que entra Ariadne. É dela que vamos falar com mais vagar em nosso próximo post. Não percam.
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