Para quem pretende assistir ao novo filme de Cameron Crowe, “Compramos um Zoológico", saiba que esse post vai falar de um momento importante do filme, mas não vai estragá-lo, antes, espero despertar o interesse por ele.
Esse diretor americano pintou muito bem nos anos 90, fez um filme delicioso em 2000, o “Quase Famosos” e decaiu nos anos 00. “Compramos um Zoológico” não é a tentativa de recuperar o tom “cool” dos primeiros filmes. É um filme tradicional, redondo, sobre o processo de transição de uma família de classe média americana que se vê devastada pela morte prematura da mãe de duas crianças. Não é um filme a ser cultuado, como outros de Cameron, mas vale a espiada.
Matt Damon faz o papel do viúvo, Benjamin, um jornalista que está claramente zonzo com a puxada no tapete que a vida lhe deu. Resolve, como muita gente que passa por uma perda dessas, mudar completamente de vida. Quer mudar para uma casa no interior, levar uma vida mais tranquila. Encontra a casa de seus sonhos, mas há um porém: quem comprar a casa vai ter que cuidar de um zoológico que o antigo dono tinha montado. Benjamin toma a decisão de comprar a casa e reassumir o zoológico. Começa aí a jornada que na verdade é um caminho longo de elaboração de um luto.
Ontem uma cliente contava, emocionada, da declaração de amor de seu filho a uma coleguinha de escola, ambos na Sexta Série, atualmente o Sétimo Ano. O detalhe dramático é que a declaração foi postada no Facebook. Seria o menino massacrado pelos colegas, num Cyberbulling devastador? Seria simplesmente ignorado pela menina, que com doze anos já parece um murelhão quando põe um vestido? Surpresa. As outras meninas apoiaram a iniciativa. A musa agradeceu a postagem. Os colegas não devem ter notado o ocorrido, já que o menino não foi jogado dentro da lixeira da escola. Ela estava emocionada, eu contei para ela uma passagem do “Compramos um Zoológico”. Quando Benjamin resolve comprar o zoológico e mudar de vida, encontra a resistência de seu filho adolescente que já perdera a mãe e agora, mudando para uma pequena cidade, perde os amigos. O moleque fica emputecido o filme inteiro e torce para a empreitada dar errado. Faz uma amiga que trabalha no zoológico, a menina se encanta e se aproxima, mas de tanto ser maltratada, afasta-se do menino e lhe dá uma ignorada. Como diz a Lei de Spinelli número 25, “Homem bom é homem abandonado”; depois de levar um bom pé na bunda o menino se vê subitamente interessado pela garota, sem sucesso. A menina continua dando o merecido gelo nele. Foi quando Benjamin conta para o filho a Lei dos Vinte Segundos. O irmão ensinou para ele que, na vida, você precisa de apenas Vinte Segundos de Coragem Extrema. Vinte segundos que podem fazer toda a diferença. Mas é preciso exercer esses vinte segundos em plenitude. O moleque entendeu e foi lá enfrentar a menina e abrir o seu coração em seus vinte segundos de coragem extrema. O resultado os leitores vão checar no filme.
Minha cliente estava emocionada com a descoberta que seu filho fez, sem ter visto o filme, de seus vinte segundos de coragem extrema. Prometeu procurar o DVD na locadora para tentar vê-lo com o garoto, entre um blockbuster e outro. Com certeza, é um filme mais fácil de arrastar a filha para ver do que um filho, mas ela vai fazer uma propaganda adequada.
Para enfrentar as fases e os ciclos de nossa vida e de nossos filhos, vai ser preciso muitos pequenos intervalos de coragem extrema.
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quarta-feira, 20 de junho de 2012
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
O Semi Dizer
Eu prometi que não ía mais mencionar o filme "A Origem". Prometi, mas não vou cumprir. Agora esse filme está passando na HBO, na TV a cabo, permitindo que eu reveja alguns pedaços antes de enjoar e zapear para outros canais, de preferência uns dois ou três programas ao mesmo tempo. A passagem que eu vi ontem é de Cobb, o personagem de Leo di Caprio conversando com Eames, um astuto engenheiro do ramo da invasão dos sonhos alheios. Cobb fala da Incepção, uma operação psíquica de inserir uma idéia dentro do Inconsciente do sonhador para que ela vá ganhando vida e se multiplicando, até passar a definir todo o sistema de crenças do sujeito.
O meu filho estava vendo um DVD do Dom Casmurro, baseado numa primorosa série da Globo, mostrando que há vida inteligente na TV aberta. Bentinho é interpretado por um ator que lhe dá um tom farsesco e tragicômico, em algumas cenas ela tira a maquiagem como se fosse um palhaço. Palhaço da própria miséria, da vida esmagada pela dúvida e pela mágoa da mulher que o traíra em seus pensamentos, Capitú. Para quem não lembra, Dom Casmurro é um dos maiores clássicos da literatura brasileita, do inacreditável Machado de Assis. Antes de Freud, antes de Jung, Machado descreveu a trajetória de uma paranóia amorosa, um homem que é possuído pela idéia que a sua esposa, a misteriosa Capitú, tinha lhe sido infiel com um amigo, Escobar. Nunca saberemos se Capitú realmente traiu Bentinho, nem isso é importante. O romance descreve como a idéia da traição vai crescendo e envenenando a vida de Bentinho, afastando-o de sua mulher de seu filho e da sua vida. Dom Casmurro é o apelido que recebe, Camurro é um termo antigo para uma pessoa amarga, macambúzia, isolada de todos pela amargura. Bentinho termina os seus dias só e miserável pela idéia que o possuiu como um encosto. Ele próprio fez essa inserção, e a idéia foi crescendo, crescendo, até destruí-lo. E olha que Machado de Assis nem foi ao cinema.
Na cena de "A Origem", Eames não duvida que a Incepção é possível, mas ensina para Cobb que é uma arte muito sutil. Se tentar enfiar goela abaixo do Inconsciente, ele vai rejeitá-la. A idéia pode apenas ser delineada, sugerida em cada nível de sonho que entrarem, para ir ganhando vida dentro de Robert Fischer.
Lacan dizia que o analista não deve invadir a sessão do paciente com a sua fala, dizendo coisas que impeçam o paciente de tirar as próprias conclusões. Pode no máximo semi dizer, para levantar a bola que o Inconsciente analisado vai, ou não, cortar. Essa é a arte que Eames vai ensinar a Cobb: como sugerir gradativamente a idéia que vai ser implantada e se reproduzir naquela psique como um vírus. Assustador, não? Será que esse roteiro foi escrito por um psicanalista ou um publicitário?
O meu filho estava vendo um DVD do Dom Casmurro, baseado numa primorosa série da Globo, mostrando que há vida inteligente na TV aberta. Bentinho é interpretado por um ator que lhe dá um tom farsesco e tragicômico, em algumas cenas ela tira a maquiagem como se fosse um palhaço. Palhaço da própria miséria, da vida esmagada pela dúvida e pela mágoa da mulher que o traíra em seus pensamentos, Capitú. Para quem não lembra, Dom Casmurro é um dos maiores clássicos da literatura brasileita, do inacreditável Machado de Assis. Antes de Freud, antes de Jung, Machado descreveu a trajetória de uma paranóia amorosa, um homem que é possuído pela idéia que a sua esposa, a misteriosa Capitú, tinha lhe sido infiel com um amigo, Escobar. Nunca saberemos se Capitú realmente traiu Bentinho, nem isso é importante. O romance descreve como a idéia da traição vai crescendo e envenenando a vida de Bentinho, afastando-o de sua mulher de seu filho e da sua vida. Dom Casmurro é o apelido que recebe, Camurro é um termo antigo para uma pessoa amarga, macambúzia, isolada de todos pela amargura. Bentinho termina os seus dias só e miserável pela idéia que o possuiu como um encosto. Ele próprio fez essa inserção, e a idéia foi crescendo, crescendo, até destruí-lo. E olha que Machado de Assis nem foi ao cinema.
Na cena de "A Origem", Eames não duvida que a Incepção é possível, mas ensina para Cobb que é uma arte muito sutil. Se tentar enfiar goela abaixo do Inconsciente, ele vai rejeitá-la. A idéia pode apenas ser delineada, sugerida em cada nível de sonho que entrarem, para ir ganhando vida dentro de Robert Fischer.
Lacan dizia que o analista não deve invadir a sessão do paciente com a sua fala, dizendo coisas que impeçam o paciente de tirar as próprias conclusões. Pode no máximo semi dizer, para levantar a bola que o Inconsciente analisado vai, ou não, cortar. Essa é a arte que Eames vai ensinar a Cobb: como sugerir gradativamente a idéia que vai ser implantada e se reproduzir naquela psique como um vírus. Assustador, não? Será que esse roteiro foi escrito por um psicanalista ou um publicitário?
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
A Senhora do Labirinto 2
Estávamos falando de Minos, o chifrudo, que mandou construir um labirinto para encobrir a traição de sua mulher. Lá, ele prendeu a criatura monstruosa, o Minotauro (o original, não o lutador de UFC). Para manter o monstro, o rei de Creta colocava no labirinto jovens que lá ficavam perdidos e eram devorados todos os anos pela besta. Esse é o custo de nossas neuroses: elas fabricam nossos monstros e devoram nossos potenciais.
Um jovem príncipe, Teseu, filho de outro rei, Egeu, resolveu dar fim àquela situação. Pegou a sua clava, ganha em batalha contra outro bandido e figura monstruosa e foi para a ilha de Creta para a sua jornada heróica. Teseu teve a ajuda de uma filha do rei, Ariadne, uma virgem que se apaixonou pelo herói. Ariadne protegeu o valente, ajudando a enganar o seu pai e colocar Teseu e sua clava dentro do labirinto, onde ele finalmente domou e esmagou o Minotauro. A questão era como sair de lá. Como o cheque especial, entrar no labirinto era fácil, sair, nem tanto. Ariadne, sábia em sua juventude, deu a Teseu um novelo de lã bem resistente. Amarrou o novelo na entrada do labirinto e Teseu foi desenovelando esse carretel até o ponto de encontro com o monstro. Para voltar, foi só enrolá-lo de novo.
O fio de Ariadne representa a vitória da astúcia, do pensamento humano sobre a bestialidade. Uma idéia tão simples que resolveu um problema que parecia impossível de ser elaborado. Essa é a mágica de nossa consciência: descobrir a saída simples que está debaixo de nosso nariz. E não vemos.
No filme "A Origem" o Teseu é o líder do grupo, Cobb. Ariadne não vai apenas ajudá-lo a entrar e sair do labirinto do seu próprio Inconsciente, ela vai ser a própria construtora do labirinto. Como a Ariadne da Mitologia, ela é uma menina, sábia, que penetra naquele mundo com a tranquilidade de quem parecia ter sempre vivido por lá. A Ariadne do filme não ensina Cobb a sair do labirinto, mas a entrar cada vez mais fundo nele, até encontrar o ponto onde tudo estava preso. É como se o seu novelo de lã estivesse enroscado em algum lugar que Teseu\Cobb precisava encontrar. O amor da menina ajudou o herói a confrontar a sua Sombra: por seu desejo infinito de poder, Cobb tinha plantado uma idéia dentro das redes neurais de sua esposa. Essa idéia foi crescendo, crescendo, como um parasita, e acabou provocando o seu suicídio. Cobb é um herói decaído procurando por sua redenção. Ariadne representa o seu melhor lado, representa o amor que pode redimir as nossas culpas, abrir os caminhos fechados de nosso Inconsciente. Ariadne, do filme e da Mitologia, são boas terapeutas, mostrando o caminho que deve ser trilhado, os atalhos para chegar no miolo de nossos labirintos.
Vivemos numa época que tudo nos convida à superfície. Para que empreender uma jornada às nossas profundezas, se os livros de autoajuda nos prometem o sucesso com algumas fórmulas rápidas e definitivas? Para que enfrentar os nossos monstros, se o programador neurolinguístico promete consertar os nossas softwares mentais defeituosos?
Para um terapeuta junguiano, como eu, a nossa vida tem muitas metáforas arquetípicas, uma delas é que estamos aqui numa jornada interior e exterior, procurando por verdade e consciência. Podemos descer aos infernos ou subir aos céus, estamos na mesma jornada. Ariadne representa o bom senso, a modéstia, a justa medida que nos protegem da perdição, de ficarmos presos dentro do labirinto de nossos medos e covardias. Esse talvez seja um dos motivos de eu ter gostado tanto desse filme.
A psicoterapia profunda passa anos na tecelagem pacienciosa dos fios que vão nos levar a trazer de volta do labirinto de nossas dúvidas. Ariadne é a mão sábia que nos ajuda a tecer. E nunca paramos de tecer.
Um jovem príncipe, Teseu, filho de outro rei, Egeu, resolveu dar fim àquela situação. Pegou a sua clava, ganha em batalha contra outro bandido e figura monstruosa e foi para a ilha de Creta para a sua jornada heróica. Teseu teve a ajuda de uma filha do rei, Ariadne, uma virgem que se apaixonou pelo herói. Ariadne protegeu o valente, ajudando a enganar o seu pai e colocar Teseu e sua clava dentro do labirinto, onde ele finalmente domou e esmagou o Minotauro. A questão era como sair de lá. Como o cheque especial, entrar no labirinto era fácil, sair, nem tanto. Ariadne, sábia em sua juventude, deu a Teseu um novelo de lã bem resistente. Amarrou o novelo na entrada do labirinto e Teseu foi desenovelando esse carretel até o ponto de encontro com o monstro. Para voltar, foi só enrolá-lo de novo.
O fio de Ariadne representa a vitória da astúcia, do pensamento humano sobre a bestialidade. Uma idéia tão simples que resolveu um problema que parecia impossível de ser elaborado. Essa é a mágica de nossa consciência: descobrir a saída simples que está debaixo de nosso nariz. E não vemos.
No filme "A Origem" o Teseu é o líder do grupo, Cobb. Ariadne não vai apenas ajudá-lo a entrar e sair do labirinto do seu próprio Inconsciente, ela vai ser a própria construtora do labirinto. Como a Ariadne da Mitologia, ela é uma menina, sábia, que penetra naquele mundo com a tranquilidade de quem parecia ter sempre vivido por lá. A Ariadne do filme não ensina Cobb a sair do labirinto, mas a entrar cada vez mais fundo nele, até encontrar o ponto onde tudo estava preso. É como se o seu novelo de lã estivesse enroscado em algum lugar que Teseu\Cobb precisava encontrar. O amor da menina ajudou o herói a confrontar a sua Sombra: por seu desejo infinito de poder, Cobb tinha plantado uma idéia dentro das redes neurais de sua esposa. Essa idéia foi crescendo, crescendo, como um parasita, e acabou provocando o seu suicídio. Cobb é um herói decaído procurando por sua redenção. Ariadne representa o seu melhor lado, representa o amor que pode redimir as nossas culpas, abrir os caminhos fechados de nosso Inconsciente. Ariadne, do filme e da Mitologia, são boas terapeutas, mostrando o caminho que deve ser trilhado, os atalhos para chegar no miolo de nossos labirintos.
Vivemos numa época que tudo nos convida à superfície. Para que empreender uma jornada às nossas profundezas, se os livros de autoajuda nos prometem o sucesso com algumas fórmulas rápidas e definitivas? Para que enfrentar os nossos monstros, se o programador neurolinguístico promete consertar os nossas softwares mentais defeituosos?
Para um terapeuta junguiano, como eu, a nossa vida tem muitas metáforas arquetípicas, uma delas é que estamos aqui numa jornada interior e exterior, procurando por verdade e consciência. Podemos descer aos infernos ou subir aos céus, estamos na mesma jornada. Ariadne representa o bom senso, a modéstia, a justa medida que nos protegem da perdição, de ficarmos presos dentro do labirinto de nossos medos e covardias. Esse talvez seja um dos motivos de eu ter gostado tanto desse filme.
A psicoterapia profunda passa anos na tecelagem pacienciosa dos fios que vão nos levar a trazer de volta do labirinto de nossas dúvidas. Ariadne é a mão sábia que nos ajuda a tecer. E nunca paramos de tecer.
domingo, 14 de agosto de 2011
Inserção ou Incepção
Aqui estou eu, escrevendo em primeira pessoa de novo. Escrever através de personagens e de diálogos é divertido e menos teórico, mas as pessoas estão acostumadas a um discurso mais linear para entrar dentro de uma idéia. Um tema importante dos últimos posts é a diferença entre Inserção e Incepção. O filme "A Origem", que nos serviu de base para várias discussões, não fa essa distinção. Vamos tentar clarificá-la.
Não há nenhum momento do dia que não recebamos alguma tentativa de Inserção. A Publicidade tem um prêmio, "Top of Mind" justamente para premiar as marcas que conseguiram se enfiar dentro da sua cabeça. Tente lembrar nesse momento as músicas, as imagens, os slogans que ficam na sua cabeça associadas a alguma marca. De cara já penso no comercial da Netshoes, com aquelas imagens radicais e "Born to be Wild" bombando por tráz das cenas. Os meus filhos cantam a música junto com o comercial. Sempre que cruzarmos na internet com um anúncio da Netshoes, as imagens e a música pode surgir. Essa é a Inserção: é uma disputa feroz pelos campos verdes de nossa Memória.
Há séculos que a Hipnose tenta fazer Inserções: baixar as defesas de nossa Consciência, induzir uma espécie de transe em que o Cérebro fica sugestionável e colocar lá dentro, uma idéia pronta. Os livros de Autoajuda também tentam novas Inserções. Uma senhora, amiga da família, fica alguns minutos por dia repetindo para si mesma que é uma gostosa e está pronta a ser amada. Ela está bem fora de forma e o seu penteado reforça o rosto muito redondo e, lamento dizer, feio. As Economia mundial está prestes a desmoronar, pelo mesmo princípio: se eu puser uma idéia de prosperidade na minha cabeça, ela vai se tornar realidade. Se eu colocar metas exorbitantes de vendas e produção, elas vão virar realidade. O que se consegue com esse "wishfull thinking" é empresas quebrando, produções mal feitas necessitando de recall e a senhora se entupindo de cremes e de sites e grupos de encontro. Se não operamos na realidade, a partir da realidade os resultados são muito ruins, às vezes catastróficos.
A Incepção, pelo contrário, não tenta enfiar nada goela abaixo de nossa memória. É um processo mais sutil e elegante. Um bom vendedor não é aquele que tenta enfiar uma idéia na cabeça de seu cliente. Um bom vendedor vai sugerindo o caminho, de uma forma que o comprador vai adotando a idéia como sua. O comprador compra a idéia e a emoção vinculada à idéia, depois pega a sua carteira.
No filme, a equipe penetra nos sonhos de um milionário,Robert Fischer. Sugerem que em algum lugar, muito profundo, há uma mensagem de seu pai, que acabou de morrer. Sucessivamente, eles vão penetrando em sonhos dentro de sonhos até chegar ao labirinto mais profundo. Lá, ele encontra o seu pai, no leito de morte, com a mensagem: "Beba Coca Cola". Estou brincando. A mensagem é "Você é meu filho amado, faça as coisas de seu jeito". Ele chora e se despede se seu pai. O Inconsciente produz a cura, normalmente através da Compreensão e do Perdão. Isso não é nem Inserção nem Incepção. Isso é a nossa capacidade de compreender a própria ferida e limpá-la, todo dia, até a cicatrização. É a boa e velha Psicologia Analítica, que vai nas profundezas de nossos labirintos. Como Ariadne.
Não há nenhum momento do dia que não recebamos alguma tentativa de Inserção. A Publicidade tem um prêmio, "Top of Mind" justamente para premiar as marcas que conseguiram se enfiar dentro da sua cabeça. Tente lembrar nesse momento as músicas, as imagens, os slogans que ficam na sua cabeça associadas a alguma marca. De cara já penso no comercial da Netshoes, com aquelas imagens radicais e "Born to be Wild" bombando por tráz das cenas. Os meus filhos cantam a música junto com o comercial. Sempre que cruzarmos na internet com um anúncio da Netshoes, as imagens e a música pode surgir. Essa é a Inserção: é uma disputa feroz pelos campos verdes de nossa Memória.
Há séculos que a Hipnose tenta fazer Inserções: baixar as defesas de nossa Consciência, induzir uma espécie de transe em que o Cérebro fica sugestionável e colocar lá dentro, uma idéia pronta. Os livros de Autoajuda também tentam novas Inserções. Uma senhora, amiga da família, fica alguns minutos por dia repetindo para si mesma que é uma gostosa e está pronta a ser amada. Ela está bem fora de forma e o seu penteado reforça o rosto muito redondo e, lamento dizer, feio. As Economia mundial está prestes a desmoronar, pelo mesmo princípio: se eu puser uma idéia de prosperidade na minha cabeça, ela vai se tornar realidade. Se eu colocar metas exorbitantes de vendas e produção, elas vão virar realidade. O que se consegue com esse "wishfull thinking" é empresas quebrando, produções mal feitas necessitando de recall e a senhora se entupindo de cremes e de sites e grupos de encontro. Se não operamos na realidade, a partir da realidade os resultados são muito ruins, às vezes catastróficos.
A Incepção, pelo contrário, não tenta enfiar nada goela abaixo de nossa memória. É um processo mais sutil e elegante. Um bom vendedor não é aquele que tenta enfiar uma idéia na cabeça de seu cliente. Um bom vendedor vai sugerindo o caminho, de uma forma que o comprador vai adotando a idéia como sua. O comprador compra a idéia e a emoção vinculada à idéia, depois pega a sua carteira.
No filme, a equipe penetra nos sonhos de um milionário,Robert Fischer. Sugerem que em algum lugar, muito profundo, há uma mensagem de seu pai, que acabou de morrer. Sucessivamente, eles vão penetrando em sonhos dentro de sonhos até chegar ao labirinto mais profundo. Lá, ele encontra o seu pai, no leito de morte, com a mensagem: "Beba Coca Cola". Estou brincando. A mensagem é "Você é meu filho amado, faça as coisas de seu jeito". Ele chora e se despede se seu pai. O Inconsciente produz a cura, normalmente através da Compreensão e do Perdão. Isso não é nem Inserção nem Incepção. Isso é a nossa capacidade de compreender a própria ferida e limpá-la, todo dia, até a cicatrização. É a boa e velha Psicologia Analítica, que vai nas profundezas de nossos labirintos. Como Ariadne.
sábado, 13 de agosto de 2011
A Origem: Epílogo
Estava mais alegre que o normal naquela manhã, sem saber que aquele poderia ser o seu último encontro.
- Bom dia, flor do dia!
- Oi, bonitinha.
- Adivinha?
- O que?
- Consegui acabar de ver o filme. E tem mais.
- Mais, ainda?
- Mais... Já tenho um tema para o meu trabalho. Ele vai se chamar "Ariadne, a Senhora do Labirinto".
Silêncio.
- Curtiu?
- Curti.
- O que você acha?
- Você vai se basear nas nossas conversas?
- Claro que vou. Mas preciso de uma coisa.
- Do que?
- Preciso de seu nome completo para te fazer um agradecimento e te citar como fonte.
Sorriu com um pouco de tristeza.
- Eu prefiro continuar sendo a Tata. Eu gostaria só de um favor.
- Qual?
- Quero que você me conte por que me deu esse apelido.
- Você quer a história toda?
- Quero.
- O meu pai é diretor dessa clínica. Já sabíamos disso, certo?
- Sim.
- A minha mãe não era muito feliz com ele. Digamos que ele não seja chato apenas com vocês. Ele é um chato full time. Do mesmo jeito que não deixa vocês terem as suas samambaias, também vivia controlando tudo em casa, inclusive a minha mãe. Eu era a primeira filha, ele mal permitia que a minha mãe me trocasse. Vivia dando palpites em tudo. Acho que foi nessa época que ela teve a sua primeira depressão. Foi aí que apareceu a Tata, eu acho. Ela cuidou de mim e de minha mãe. Ela ficou com a gente por muitos anos e era uma mulher tão impressionante que nem o meu pai conseguia estragar a nossa relação.
- E onde anda essa Tata?
- Não sei. Acho que ela era do Sul, quando viu que estávamos bem, que já conseguíamos, eu e minha mãe, enfrentar a barra, foi cuidar de sua vida. Quando ela foi embora, chorei uma semana sem parar... Eu chamei você de Tata porque ela vivia ralhando comigo, como você faz. Ela também me contava histórias, que eu lembro até hoje.
- Foi por isso que você foi fazer Psicologia?
- Eu nem sei por que fui fazer Psicologia. Todo mundo diz que é um curso para esperar marido. Mas sabe que, pensando bem...Tata pode ter tido uma grande influência, mesmo. Sabe do que eu gosto, mesmo?
- O que?
- Eu gosto do papel do psicoterapeuta de colecionador de histórias. Tinha uma história que a Tata me contava, do colecionador de sonhos. Era a história de um homem que passava no final do dia, recolhendo todos os sonhos não realizados, todos os planos, os projetos que tinham dado em nada. Ele limpava esses sonhos, enxugava as lágrimas e no dia seguinte levava-os de volta para as casas, para deixá-los nas portas das pessoas de novo, novinhos em folha. As pessoas teriam mais uma chance de recomeçarem a buscar os seus sonhos. Eu amava essa história! Acho que foi ela que me fez querer ouvir as histórias das pessoas. Lá na clínica eu atendi uma senhora, que eu também queria chamar de Tata, ela me contava as suas histórias, a de seus filhos, dos seus pais e parentes, era muito legal. Acho que é isso que eu queria virar, uma recolhedora de histórias.
- (Suspiro) Gostei muito dessa imagem que você fez.
- Você foi uma terapeuta, não foi?
- Eu fui muita coisa nessa vida, meu bem. Muita coisa.
- Você não gosta de contar as suas histórias, não é?
- Eu posso contar as minhas histórias, sim. Mas nesse lugar as pessoas ficam encharcadas do próprio passado. E o Passado pode ser uma prisão, meu bem. Eu prefiro estar em contato com o fluxo, com as emoções e as coisas do aqui\agora. Você veio aqui, nós falamos sobre um monte de coisas, amanhã você vai embora, as coisas prosseguem em seu fluxo, sempre com novas possibilidades. Mesmo aqui, numa casa de repouso, ainda temos possibilidades, sabia?
- Quem falou que eu vou embora?
- Você vai embora virar uma ótima terapeuta, meu bem. Isso vai levar alguns anos. Um dia você pode voltar e trabalhar nessa clínica, mas agora você segue.
- (Enxugou uma lágrima no canto do olho) Mas eu posso te visitar de vez em quando?
- Claro que pode. Claro que pode...
Colocou sem perceber sua cabeça em seu colo. Tentava controlar as lágrimas, sem muito sucesso. Foi preciso alguns minutos para conseguir falar:
- Você bem que poderia ser a minha Tata.
- E quem falou que eu não sou a sua Tata?
- Bom dia, flor do dia!
- Oi, bonitinha.
- Adivinha?
- O que?
- Consegui acabar de ver o filme. E tem mais.
- Mais, ainda?
- Mais... Já tenho um tema para o meu trabalho. Ele vai se chamar "Ariadne, a Senhora do Labirinto".
Silêncio.
- Curtiu?
- Curti.
- O que você acha?
- Você vai se basear nas nossas conversas?
- Claro que vou. Mas preciso de uma coisa.
- Do que?
- Preciso de seu nome completo para te fazer um agradecimento e te citar como fonte.
Sorriu com um pouco de tristeza.
- Eu prefiro continuar sendo a Tata. Eu gostaria só de um favor.
- Qual?
- Quero que você me conte por que me deu esse apelido.
- Você quer a história toda?
- Quero.
- O meu pai é diretor dessa clínica. Já sabíamos disso, certo?
- Sim.
- A minha mãe não era muito feliz com ele. Digamos que ele não seja chato apenas com vocês. Ele é um chato full time. Do mesmo jeito que não deixa vocês terem as suas samambaias, também vivia controlando tudo em casa, inclusive a minha mãe. Eu era a primeira filha, ele mal permitia que a minha mãe me trocasse. Vivia dando palpites em tudo. Acho que foi nessa época que ela teve a sua primeira depressão. Foi aí que apareceu a Tata, eu acho. Ela cuidou de mim e de minha mãe. Ela ficou com a gente por muitos anos e era uma mulher tão impressionante que nem o meu pai conseguia estragar a nossa relação.
- E onde anda essa Tata?
- Não sei. Acho que ela era do Sul, quando viu que estávamos bem, que já conseguíamos, eu e minha mãe, enfrentar a barra, foi cuidar de sua vida. Quando ela foi embora, chorei uma semana sem parar... Eu chamei você de Tata porque ela vivia ralhando comigo, como você faz. Ela também me contava histórias, que eu lembro até hoje.
- Foi por isso que você foi fazer Psicologia?
- Eu nem sei por que fui fazer Psicologia. Todo mundo diz que é um curso para esperar marido. Mas sabe que, pensando bem...Tata pode ter tido uma grande influência, mesmo. Sabe do que eu gosto, mesmo?
- O que?
- Eu gosto do papel do psicoterapeuta de colecionador de histórias. Tinha uma história que a Tata me contava, do colecionador de sonhos. Era a história de um homem que passava no final do dia, recolhendo todos os sonhos não realizados, todos os planos, os projetos que tinham dado em nada. Ele limpava esses sonhos, enxugava as lágrimas e no dia seguinte levava-os de volta para as casas, para deixá-los nas portas das pessoas de novo, novinhos em folha. As pessoas teriam mais uma chance de recomeçarem a buscar os seus sonhos. Eu amava essa história! Acho que foi ela que me fez querer ouvir as histórias das pessoas. Lá na clínica eu atendi uma senhora, que eu também queria chamar de Tata, ela me contava as suas histórias, a de seus filhos, dos seus pais e parentes, era muito legal. Acho que é isso que eu queria virar, uma recolhedora de histórias.
- (Suspiro) Gostei muito dessa imagem que você fez.
- Você foi uma terapeuta, não foi?
- Eu fui muita coisa nessa vida, meu bem. Muita coisa.
- Você não gosta de contar as suas histórias, não é?
- Eu posso contar as minhas histórias, sim. Mas nesse lugar as pessoas ficam encharcadas do próprio passado. E o Passado pode ser uma prisão, meu bem. Eu prefiro estar em contato com o fluxo, com as emoções e as coisas do aqui\agora. Você veio aqui, nós falamos sobre um monte de coisas, amanhã você vai embora, as coisas prosseguem em seu fluxo, sempre com novas possibilidades. Mesmo aqui, numa casa de repouso, ainda temos possibilidades, sabia?
- Quem falou que eu vou embora?
- Você vai embora virar uma ótima terapeuta, meu bem. Isso vai levar alguns anos. Um dia você pode voltar e trabalhar nessa clínica, mas agora você segue.
- (Enxugou uma lágrima no canto do olho) Mas eu posso te visitar de vez em quando?
- Claro que pode. Claro que pode...
Colocou sem perceber sua cabeça em seu colo. Tentava controlar as lágrimas, sem muito sucesso. Foi preciso alguns minutos para conseguir falar:
- Você bem que poderia ser a minha Tata.
- E quem falou que eu não sou a sua Tata?
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
A Origem 5 Paradoxo
- Eu estava com vergonha de te perguntar isso.
- E agora você ficou sem vergonha?
- (Riso) Agora fiquei.
- Pode mandar ver, então.
Tomou fôlego, solene.
- O que significa aquele final?
- O Tótem, girando?
- No cinema, todo mundo suspira e pensa, mas que grande fdp esse filme.
- Pois é. Foi o que eu pensei.
- O que aquilo significa?
- Ora, aquilo é como um koan. Já ouviu falar de koan?
- O termo não me é estranho, mas não sei o que significa.
- (Suspiro) No Zen Budismo, o koan é uma intervençao que gera o paradoxo. Uma espécie de charada. Vai o aluno para o mestre e pergunta se o cachorro pode atingir o estado de Buda. O mestre responde dando uma latida. O que isso significa?
- (Dando de ombros) Sei lá.
- (Suspirou de novo)
- Você está impaciente comigo?
- Com você, não. Mas essa sua geração internet tem uma preguiça mental muito grande. Parece que tudo tem que estar na distância de um clique. Pense no que eu falei, meu bem. Pense.
- O aluno pergunta se o cachorro pode atingir um determinado estado.
- O estado de Buda. O estado da iluminação.
- Ok. E ele responde com um latido.
- Exato.
- Isso significa que o mestre está precisando ser medicado?
- Não vou suspirar dessa vez. Continue.
Mordeu os lábios.
- O mestre está dando uma resposta neutra. Quer dizer que a pergunta é um pouco idiota.
- Está melhorando. Mas nenhum mestre vai estimular um aprendiz a achar que suas perguntas são idiotas.
- Para que o latido, então?
- Para criar o paradoxo. Para criar um estado mental que ultrapasse as categorias de certo e errado. O latido pode ser o próprio Buda.
- Ok. Estou quase entendendo alguma coisa. Mas o que isso tem a ver com o filme?
Ajeitou-se na cadeira. O filme termina com a incerteza, certo?
- A incerteza se aquilo era um sonho ou realmente tinha acontecido.
- Exato. Deixa o espectador acostumado com happy endings em suspenso.
- Acho que sim.
- Mas não acho que a idéia é deixar o espectador frustrado, ou pensando.
- Estou ouvindo.
- A idéia, ao meu ver, é jogar o espectador para uma nova dimensão psíquica. Uma dimensão onde a realidade física e a realidade da psique se equivalem.
Balançou a cabeça, sem entender. A senhora levantou a sua mão, pedindo tempo para explicar.
- De uma forma ou de outra, todos os três sonhadores principais resgataram o que tinham para resgatar.
- Três sonhadores?
- Sim. O personagem do Di Caprio, Cobb. O herdeiro que era o alvo da Incepção, Robert Fischer. E o homem poderoso por trás de toda operação.
- O japonês?
- O japonês.
- Por favor, fale mais sobre isso.
- Cobb desce ao nível mais profundo do Inconsciente para acertar os ponteiros com a sua projeção. Olha no olho de sua esposa morta e finalmente vê que ela é uma peça de seu Inconsciente. Mal está morta, não adianta ele mantê-la viva em seu Inconsciente. Ele finalmente se despede e reconhece a culpa que levará nas costas por toda a sua vida.
- Os outros...
- Robert Fischer encontra com uma figura que representa o seu pai e finalmente ouve o que sempre quisera ouvir: seja você mesmo, seja diferente de mim, faça as coisas de seu jeito.
- E o japonês?
- O japonês, Saito, envelhece só e cheio de arrependimentos, no castelo de sua sede de poder. Ele representa nosso Ego, que acha que vai sempre controlar tudo e mexer no destino das pessoas. Saito vai precisar do amor que Cobb sente por seus filhos para sair dali. Cobb vai resgatá-lo e não fica preso, pois já se libertou de sua sede de poder, já recuperou a sua forma humana.
- Ok. Acho que estou entendendo. Mas aquilo tudo foi Real, ou não?
- Claro que foi Real. A descida ao Inconsciente e os resgates foram reais. A realidade psíquica interfere na realidade como nós a entendemos. Essa é a função da terapeuta: ajudar o sujeito em sua jornada, sem deixá-lo perdido pelo caminho.
Ficaram em silêncio por intermináveis minutos.
- E aí?
- Bom, eu vim para cá com uma dúvida e agora tenho uma dúzia de dúvidas.
- É sinal de que a conversa foi muito boa.
- (Coçando a cabeça) Acho que sim. Obrigada.
- E agora você ficou sem vergonha?
- (Riso) Agora fiquei.
- Pode mandar ver, então.
Tomou fôlego, solene.
- O que significa aquele final?
- O Tótem, girando?
- No cinema, todo mundo suspira e pensa, mas que grande fdp esse filme.
- Pois é. Foi o que eu pensei.
- O que aquilo significa?
- Ora, aquilo é como um koan. Já ouviu falar de koan?
- O termo não me é estranho, mas não sei o que significa.
- (Suspiro) No Zen Budismo, o koan é uma intervençao que gera o paradoxo. Uma espécie de charada. Vai o aluno para o mestre e pergunta se o cachorro pode atingir o estado de Buda. O mestre responde dando uma latida. O que isso significa?
- (Dando de ombros) Sei lá.
- (Suspirou de novo)
- Você está impaciente comigo?
- Com você, não. Mas essa sua geração internet tem uma preguiça mental muito grande. Parece que tudo tem que estar na distância de um clique. Pense no que eu falei, meu bem. Pense.
- O aluno pergunta se o cachorro pode atingir um determinado estado.
- O estado de Buda. O estado da iluminação.
- Ok. E ele responde com um latido.
- Exato.
- Isso significa que o mestre está precisando ser medicado?
- Não vou suspirar dessa vez. Continue.
Mordeu os lábios.
- O mestre está dando uma resposta neutra. Quer dizer que a pergunta é um pouco idiota.
- Está melhorando. Mas nenhum mestre vai estimular um aprendiz a achar que suas perguntas são idiotas.
- Para que o latido, então?
- Para criar o paradoxo. Para criar um estado mental que ultrapasse as categorias de certo e errado. O latido pode ser o próprio Buda.
- Ok. Estou quase entendendo alguma coisa. Mas o que isso tem a ver com o filme?
Ajeitou-se na cadeira. O filme termina com a incerteza, certo?
- A incerteza se aquilo era um sonho ou realmente tinha acontecido.
- Exato. Deixa o espectador acostumado com happy endings em suspenso.
- Acho que sim.
- Mas não acho que a idéia é deixar o espectador frustrado, ou pensando.
- Estou ouvindo.
- A idéia, ao meu ver, é jogar o espectador para uma nova dimensão psíquica. Uma dimensão onde a realidade física e a realidade da psique se equivalem.
Balançou a cabeça, sem entender. A senhora levantou a sua mão, pedindo tempo para explicar.
- De uma forma ou de outra, todos os três sonhadores principais resgataram o que tinham para resgatar.
- Três sonhadores?
- Sim. O personagem do Di Caprio, Cobb. O herdeiro que era o alvo da Incepção, Robert Fischer. E o homem poderoso por trás de toda operação.
- O japonês?
- O japonês.
- Por favor, fale mais sobre isso.
- Cobb desce ao nível mais profundo do Inconsciente para acertar os ponteiros com a sua projeção. Olha no olho de sua esposa morta e finalmente vê que ela é uma peça de seu Inconsciente. Mal está morta, não adianta ele mantê-la viva em seu Inconsciente. Ele finalmente se despede e reconhece a culpa que levará nas costas por toda a sua vida.
- Os outros...
- Robert Fischer encontra com uma figura que representa o seu pai e finalmente ouve o que sempre quisera ouvir: seja você mesmo, seja diferente de mim, faça as coisas de seu jeito.
- E o japonês?
- O japonês, Saito, envelhece só e cheio de arrependimentos, no castelo de sua sede de poder. Ele representa nosso Ego, que acha que vai sempre controlar tudo e mexer no destino das pessoas. Saito vai precisar do amor que Cobb sente por seus filhos para sair dali. Cobb vai resgatá-lo e não fica preso, pois já se libertou de sua sede de poder, já recuperou a sua forma humana.
- Ok. Acho que estou entendendo. Mas aquilo tudo foi Real, ou não?
- Claro que foi Real. A descida ao Inconsciente e os resgates foram reais. A realidade psíquica interfere na realidade como nós a entendemos. Essa é a função da terapeuta: ajudar o sujeito em sua jornada, sem deixá-lo perdido pelo caminho.
Ficaram em silêncio por intermináveis minutos.
- E aí?
- Bom, eu vim para cá com uma dúvida e agora tenho uma dúzia de dúvidas.
- É sinal de que a conversa foi muito boa.
- (Coçando a cabeça) Acho que sim. Obrigada.
sábado, 6 de agosto de 2011
A Origem 4 Pensamento Viral
- Pode perguntar.
- Pode perguntar o que?
- Pode perguntar se eu assiti o filme inteiro, dessa vez.
- (Riso)Você assistiu o filme inteiro, dessa vez?
- Não! (Gargalhadas)
- Não vou mais lutar contra isso.
- Não?
- Não. Aprenda isso: quanto mais a gente briga com uma defesa, mais forte ela fica.
- Eu não assisto o filme porque estou me defendendo...
- Exato.
- A minha "defesa" é a seguinte, querida: eu vejo o filme sempre que vou fazer a minha bike. Como eu aguento pedalar uns vinte minutos, eu vejo o filme em partes.
- (Sorriso bondoso) E assistindo assim picado, a sua compreensão é melhor?
- (Olhar de dúvida) Você está me sacaneando?
- (Riso) Não. Você está?
- Também não.
- Então segue o enterro, minha filha. Qual é a sua pergunta do dia?
- Pergunta?
- Ai, meu Deus!
- Tá bom, tá bom... Eu quero falar um pouco sobre a Incepção, pode ser?
- Nossa, vejo sinais de vida inteligente! Prossiga.
- Você acredita que isso é possível? Dá para implanter uma idéia na cabeça de alguém e ela crescer como um vírus?
- Claro que isso é possível. Aliás, é uma das coisas mais legais desse filme. Dá para fazer o imprinting, mas ele não pode ser literal.
- Desculpe, eu...
- Eu sei, eu sei. Vou explicar melhor. Nós já conversamos sobre isso outro dia. Todos tentam fazer imprintings na sua cabeça. Faça isso, faça aquilo, beba Coca-Cola, não perca a promoção de lingerie sexy das lojas Marilda...Sempre esse tom de ordem, sempre essa imposição tentando fazer uma inserção. Concorda?
- Sim.
- Eu gosto ainda mais desse termo, então; fazer uma incepção é diferente de fazer uma inserção. Inserção é tentar colar em seu subconsciente uma idéia. Incepção é fecundar o seu Inconsciente com uma idéia que vai se desenvolver e desenrolar como um vírus, até virar um sistema de pensamento e de crença. Dá para perceber a diferença?
- A diferença é de profundidade e de atitude.
- Isso! Em estados cada vez mais profundos de inconsciência as idéias podem ser colocadas e criar vida. Mas, se você usar um comando, tipo faça isso, faça aquilo...
- Vai ativar as defesas.
- Vai ativar as defesas. Imagine uma inserção de uma idéia: "Espelho, espelho meu, não existe alguém mais bonita do que eu".
- Uma inserção clássica.
- Sim. Clássica. As defesas ficam reagindo à essa idéia. Em nosso caso, para evitar a gênese de uma idéia delirante em nossa cabeça (risos).
- Fale por você (risos).
- A incepção é mais sutil e mais viral. É algo como: "Eu conseguiria me tornar uma mulher muito bonita". Mas aí entra o condicionante.
- Como assim?
- Caramba. Demorou quase meia hora de conversa para o primeiro "Como Assim?".
- (Sorriso amarelo)Não zoa. Como assim?
- O condicionante é uma coisa do tipo: "Eu conseguiria me tornar uma mulher bonita SE eu emagrecer doze quilos".
- Mas isso é um dado de realidade.
- Não meu bem. É um condicionante e um impeditivo. Na hora que você coloca o SE, o resto se desmancha. Aparecem os arquivos de regimes que fracassaram, o marido te chamando de gorda e a calça que não entra mais, de jeito nenhum. A Incepção é uma sugestão, uma idéia que pode se multiplicar. Não é um Se, mas é um E Se? E se eu deixasse a beleza fazer parte da minha vida? E se eu parar de xingar o espelho? E se as coisas começassem a realmente dar certo para mim?
- No filme, eles querem fazer a Incepção da idéia: "O meu pai quer que eu siga o meu caminho".
- Só que o que eles conseguem é algo muito mais profundo.
- Como ass...?
- Ele chega diante de seu pai moribundo, cheio de dor e amargura, esperando ser censurado ou diminuído mais uma vez, mas ouve algo completamente diferente: o pai se arrepende de não ter sido um bom pai, não ter permitido que ele, Robert Fischer, encontrasse o seu caminho.
- Eles se encontram e se unem.
- Eles se unem em um perdão mútuo. Aí que pode ser feita a Incepção: quando os programas condicionantes são dissolvidos no perdão.
- Parece complicado.
- Por isso que não é para qualquer um. Por isso que não adianta comprar um livro de programação neurolinguística para tentar ser uma pessoa "mais positiva".
- A Incepção precisa ser profunda.
- A Incepção precisa ser profunda e a pessoa precisa cultivar esse sistema de novas idéias para elas crescerem.
- Não entendi nada. Não basta fazer a Incepção?
- Não. Vamos pegar o tal exemplo: "Eu poderia ficar bem mais bonita". Se quer deixar a idéia se multiplicar como um vírus, eixe ela se espalhar pelo seu dia: embeleze a sua roupa, o seu cabelo, tenha nojo dos alimentos que te fazem sentir-se gorda. Essas coisas. Como aquela música gospel antiga: "Essa pequena luz que eu tenho, vou deixá-la brilhar".
- Isso pode virar um sistema que se multiplique sozinho?
- Pode. Requer muita prática, mas pode.
Sorriu, mordendo o lábio.
- Engraçado.
- O que?
- Pensei que você fosse uma junguiana.
- Eu sou. Junguiana de carteirinha.
Os sorrisos das duas se encontraram no final da frase.
- Pode perguntar o que?
- Pode perguntar se eu assiti o filme inteiro, dessa vez.
- (Riso)Você assistiu o filme inteiro, dessa vez?
- Não! (Gargalhadas)
- Não vou mais lutar contra isso.
- Não?
- Não. Aprenda isso: quanto mais a gente briga com uma defesa, mais forte ela fica.
- Eu não assisto o filme porque estou me defendendo...
- Exato.
- A minha "defesa" é a seguinte, querida: eu vejo o filme sempre que vou fazer a minha bike. Como eu aguento pedalar uns vinte minutos, eu vejo o filme em partes.
- (Sorriso bondoso) E assistindo assim picado, a sua compreensão é melhor?
- (Olhar de dúvida) Você está me sacaneando?
- (Riso) Não. Você está?
- Também não.
- Então segue o enterro, minha filha. Qual é a sua pergunta do dia?
- Pergunta?
- Ai, meu Deus!
- Tá bom, tá bom... Eu quero falar um pouco sobre a Incepção, pode ser?
- Nossa, vejo sinais de vida inteligente! Prossiga.
- Você acredita que isso é possível? Dá para implanter uma idéia na cabeça de alguém e ela crescer como um vírus?
- Claro que isso é possível. Aliás, é uma das coisas mais legais desse filme. Dá para fazer o imprinting, mas ele não pode ser literal.
- Desculpe, eu...
- Eu sei, eu sei. Vou explicar melhor. Nós já conversamos sobre isso outro dia. Todos tentam fazer imprintings na sua cabeça. Faça isso, faça aquilo, beba Coca-Cola, não perca a promoção de lingerie sexy das lojas Marilda...Sempre esse tom de ordem, sempre essa imposição tentando fazer uma inserção. Concorda?
- Sim.
- Eu gosto ainda mais desse termo, então; fazer uma incepção é diferente de fazer uma inserção. Inserção é tentar colar em seu subconsciente uma idéia. Incepção é fecundar o seu Inconsciente com uma idéia que vai se desenvolver e desenrolar como um vírus, até virar um sistema de pensamento e de crença. Dá para perceber a diferença?
- A diferença é de profundidade e de atitude.
- Isso! Em estados cada vez mais profundos de inconsciência as idéias podem ser colocadas e criar vida. Mas, se você usar um comando, tipo faça isso, faça aquilo...
- Vai ativar as defesas.
- Vai ativar as defesas. Imagine uma inserção de uma idéia: "Espelho, espelho meu, não existe alguém mais bonita do que eu".
- Uma inserção clássica.
- Sim. Clássica. As defesas ficam reagindo à essa idéia. Em nosso caso, para evitar a gênese de uma idéia delirante em nossa cabeça (risos).
- Fale por você (risos).
- A incepção é mais sutil e mais viral. É algo como: "Eu conseguiria me tornar uma mulher muito bonita". Mas aí entra o condicionante.
- Como assim?
- Caramba. Demorou quase meia hora de conversa para o primeiro "Como Assim?".
- (Sorriso amarelo)Não zoa. Como assim?
- O condicionante é uma coisa do tipo: "Eu conseguiria me tornar uma mulher bonita SE eu emagrecer doze quilos".
- Mas isso é um dado de realidade.
- Não meu bem. É um condicionante e um impeditivo. Na hora que você coloca o SE, o resto se desmancha. Aparecem os arquivos de regimes que fracassaram, o marido te chamando de gorda e a calça que não entra mais, de jeito nenhum. A Incepção é uma sugestão, uma idéia que pode se multiplicar. Não é um Se, mas é um E Se? E se eu deixasse a beleza fazer parte da minha vida? E se eu parar de xingar o espelho? E se as coisas começassem a realmente dar certo para mim?
- No filme, eles querem fazer a Incepção da idéia: "O meu pai quer que eu siga o meu caminho".
- Só que o que eles conseguem é algo muito mais profundo.
- Como ass...?
- Ele chega diante de seu pai moribundo, cheio de dor e amargura, esperando ser censurado ou diminuído mais uma vez, mas ouve algo completamente diferente: o pai se arrepende de não ter sido um bom pai, não ter permitido que ele, Robert Fischer, encontrasse o seu caminho.
- Eles se encontram e se unem.
- Eles se unem em um perdão mútuo. Aí que pode ser feita a Incepção: quando os programas condicionantes são dissolvidos no perdão.
- Parece complicado.
- Por isso que não é para qualquer um. Por isso que não adianta comprar um livro de programação neurolinguística para tentar ser uma pessoa "mais positiva".
- A Incepção precisa ser profunda.
- A Incepção precisa ser profunda e a pessoa precisa cultivar esse sistema de novas idéias para elas crescerem.
- Não entendi nada. Não basta fazer a Incepção?
- Não. Vamos pegar o tal exemplo: "Eu poderia ficar bem mais bonita". Se quer deixar a idéia se multiplicar como um vírus, eixe ela se espalhar pelo seu dia: embeleze a sua roupa, o seu cabelo, tenha nojo dos alimentos que te fazem sentir-se gorda. Essas coisas. Como aquela música gospel antiga: "Essa pequena luz que eu tenho, vou deixá-la brilhar".
- Isso pode virar um sistema que se multiplique sozinho?
- Pode. Requer muita prática, mas pode.
Sorriu, mordendo o lábio.
- Engraçado.
- O que?
- Pensei que você fosse uma junguiana.
- Eu sou. Junguiana de carteirinha.
Os sorrisos das duas se encontraram no final da frase.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
A Origem 3 - O Fio de Ariadne
- E aí?
- Aí o que?
- Assitiu o filme?
- Quase inteiro.
Risos.
- Eu sei. Eu sei.
- É isso que você diz em sua defesa?
- Fiquei até de madrugada fazendo um trabalho.
- Sobre o que?
- Sobre terapeutas como facilitadores do processo, o terapeuta é alguém capaz de ser uma enzima que cataliza o ganho de consciência...
Notou que a velha senhora olhava com ar divertido.
- O que foi?
- Não sei se gosto dessa história de terapeuta-enzima, meu bem.
- E Vossa Excelência prefere o que?
- Vamos voltar ao filme?
- Não vai responder à pergunta?
- Vamos voltar ao filme, que eu respondo. Fique fria. Eu respondo.
Olhou com ar divertido.
- Voltando ao filme.
- Ok.
- Onde está o terapeuta no filme?
Mordeu os lábios.
- Você entendeu a pergunta?
- Acho que não sou tão burra assim. O filme é sobre pessoas que entram nos sonhos alheios para obter informações.
- Na prática clínica, os sonhos são daquele jeito?
- (Fez careta) São?
- Claro que não. Aqueles sonhos tem roteiro, diálogos e personagens fixos. Não são assim na vida real, nem à beira do divâ.
- Mas o terapeuta não é o extrator, não é a pessoa que vai entrar nos sonhos em busca dos conteúdos reprimidos?
- (Sorriu) Olha que é uma visão interessante. O terapeuta é o ladrão de sonhos.
- Vai ficar zoando?
- Não estou zoando. A idéia é interessante. Eu tinha outra, mas a sua não é ruim.
- E a sua idéia, qual é?
- Quando os extratores entram nos sonhos, são perseguidos, não sâo? Seguranças, bandidos, militares, eles são perseguidos o tempo todo para não chegar a níveis mais profundos do Inconsciente. Essas são as defesas. O terapeuta tem que contornar as defesas, mas também trazê-las à luz. Não dá para matá-las. Você está acompanhando?
- Estou.
- Quem é que cria o cenário e defende todos nesse percurso?
- A menina?
- (Bateu na cadeira) Isso! A menina. Ariadne. Você lembra quem é Ariadne?
- Da mitologia?
- Da mitologia.
- Por favor, refresque a minha memória.
- Ariadne tem o fio que possibilita a Teseu sair do labirinto. Ele pode entrar, matar o Minotauro e sair do labirinto graças ao fio de Ariadne. Ela sabe entrar e sair de lá.
- Mas no filme ela constrói o labirinto.
- Pois é. Ela constrói o labirinto, sabe entrar e sabe sair. Ela cria as armadilhas para pegar as defesas, para driblar as resistências dos pacientes, digo, do inconsciente que estão tentando invadir.
- Ela é a terapeuta?
- Ela é a terapeuta e a terapia.
- Você está dizendo...
- (Interrompendo) Eu estou dizendo que o terapeuta, através da sua escuta e atenção plena, cria o cenário onde o paciente vai colocar as suas memórias, fantasias e sonhos. Essa é a primeira qualidade que um terapeuta deve ter: ser um bom construtor de labirintos.
- E saber sair dele.
- Esse pedaço então...Não é tão fácil.
- Imagino que não.
- Ariadne percebe que o líder, Cobb, tem um problema. Quando ele está chegando perto do que procura, aparece a sua esposa, Mal.
- A que morreu.
- Ela não sabe que Mal morreu. Ela só percebe que Mal representa um problema, uma dificuldade de Cobb. Ela sabe que tudo pode dar errado por conta desse conteúdo não elaborado. No filme ela vai tentar ajudá-lo a resolver isso. É uma grande terapeuta.
Ficou um tempo em silêncio, até soltar uma risada.
- O que foi?
- Você acabou de estragar o meu trabalho.
- Que bom, meu bem.
- Você não gosta dessa história de terapeuta-facilitador, não é?
- O terapeuta é um facilitador, querida. Claro que é. Mas o serviço é bem mais do que isso.
- Vou para meu lap top, consertar o trabalho.
Risos.
- Até amanhã...
Não deu tempo. Já tinha saído.
- Aí o que?
- Assitiu o filme?
- Quase inteiro.
Risos.
- Eu sei. Eu sei.
- É isso que você diz em sua defesa?
- Fiquei até de madrugada fazendo um trabalho.
- Sobre o que?
- Sobre terapeutas como facilitadores do processo, o terapeuta é alguém capaz de ser uma enzima que cataliza o ganho de consciência...
Notou que a velha senhora olhava com ar divertido.
- O que foi?
- Não sei se gosto dessa história de terapeuta-enzima, meu bem.
- E Vossa Excelência prefere o que?
- Vamos voltar ao filme?
- Não vai responder à pergunta?
- Vamos voltar ao filme, que eu respondo. Fique fria. Eu respondo.
Olhou com ar divertido.
- Voltando ao filme.
- Ok.
- Onde está o terapeuta no filme?
Mordeu os lábios.
- Você entendeu a pergunta?
- Acho que não sou tão burra assim. O filme é sobre pessoas que entram nos sonhos alheios para obter informações.
- Na prática clínica, os sonhos são daquele jeito?
- (Fez careta) São?
- Claro que não. Aqueles sonhos tem roteiro, diálogos e personagens fixos. Não são assim na vida real, nem à beira do divâ.
- Mas o terapeuta não é o extrator, não é a pessoa que vai entrar nos sonhos em busca dos conteúdos reprimidos?
- (Sorriu) Olha que é uma visão interessante. O terapeuta é o ladrão de sonhos.
- Vai ficar zoando?
- Não estou zoando. A idéia é interessante. Eu tinha outra, mas a sua não é ruim.
- E a sua idéia, qual é?
- Quando os extratores entram nos sonhos, são perseguidos, não sâo? Seguranças, bandidos, militares, eles são perseguidos o tempo todo para não chegar a níveis mais profundos do Inconsciente. Essas são as defesas. O terapeuta tem que contornar as defesas, mas também trazê-las à luz. Não dá para matá-las. Você está acompanhando?
- Estou.
- Quem é que cria o cenário e defende todos nesse percurso?
- A menina?
- (Bateu na cadeira) Isso! A menina. Ariadne. Você lembra quem é Ariadne?
- Da mitologia?
- Da mitologia.
- Por favor, refresque a minha memória.
- Ariadne tem o fio que possibilita a Teseu sair do labirinto. Ele pode entrar, matar o Minotauro e sair do labirinto graças ao fio de Ariadne. Ela sabe entrar e sair de lá.
- Mas no filme ela constrói o labirinto.
- Pois é. Ela constrói o labirinto, sabe entrar e sabe sair. Ela cria as armadilhas para pegar as defesas, para driblar as resistências dos pacientes, digo, do inconsciente que estão tentando invadir.
- Ela é a terapeuta?
- Ela é a terapeuta e a terapia.
- Você está dizendo...
- (Interrompendo) Eu estou dizendo que o terapeuta, através da sua escuta e atenção plena, cria o cenário onde o paciente vai colocar as suas memórias, fantasias e sonhos. Essa é a primeira qualidade que um terapeuta deve ter: ser um bom construtor de labirintos.
- E saber sair dele.
- Esse pedaço então...Não é tão fácil.
- Imagino que não.
- Ariadne percebe que o líder, Cobb, tem um problema. Quando ele está chegando perto do que procura, aparece a sua esposa, Mal.
- A que morreu.
- Ela não sabe que Mal morreu. Ela só percebe que Mal representa um problema, uma dificuldade de Cobb. Ela sabe que tudo pode dar errado por conta desse conteúdo não elaborado. No filme ela vai tentar ajudá-lo a resolver isso. É uma grande terapeuta.
Ficou um tempo em silêncio, até soltar uma risada.
- O que foi?
- Você acabou de estragar o meu trabalho.
- Que bom, meu bem.
- Você não gosta dessa história de terapeuta-facilitador, não é?
- O terapeuta é um facilitador, querida. Claro que é. Mas o serviço é bem mais do que isso.
- Vou para meu lap top, consertar o trabalho.
Risos.
- Até amanhã...
Não deu tempo. Já tinha saído.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Os Filmes que assisti com Jung - O Campo dos Sonhos
Esse blog tem mais de um ano e tem sido um bom veículo de idéias, reflexões, críticas. O assunto dele é basicamente tudo, de Futebol a Neurociência. Não é divulgado de forma nenhuma, senão o boca a boca, não tem um fio condutor que defina um público alvo, ou em bom Português, um target. Uma delícia de fracasso. Como estou cansado de achar assunto, nesse mês de Julho esse blog vai ficar ainda mais esquizofrênico, falando de filmes, ou cenas marcantes dos mesmos, ou começando a discutir questões de Psicologia Analítica através de diálogos. Não digam que eu não avisei.
Estava falando agora há pouco sobre "O Campo dos Sonhos". Um filme todo ele calcado na elaboração da Metáfora Paterna. Já falei sobre ele em outro post, mas vou retomá-lo.
O filme é sobre um fazendeiro do Iowa, um estado agrícola americano. O personagem principal, interpretado por Kevin Costner no auge da carreira no final dos anos 80 e início dos 90. O fazendeiro começa a ouvir vozes falando dentro de sua cabeça: "Se você construir, ele virá". Se consultasse um psiquiatra, iria ganhar uma prescrição de antipsicótico ou uma internação. Pior ainda quando ele começa a obedecer essa voz/intuição e levanta um campo de beisebol oficial bem no meio de sua plantação de milho, endividando-se até o pescoço para fazê-lo. Para piorar a situação, as vozes não param de falar, ele vai resgatar um escritor solitário e sofrido, um pediatra idoso que queria mesmo é ter sido jogador de beisebol. O campo começa a ser frequentado por jogadores de beisebol lendários, ou seus fantasmas. É como um campo de futebol onde viessem jogar Leônidas da Silva, Garrincha, Heleno de Freitas e outras lendas de nosso futebol.
Durante o percurso pela América pegando os caras que as vozes mandavam, ele contava a sua história. Conta que saiu de sua casa aos 17 anos, após uma briga idiota com seu pai. Deu as suas cabeçadas, casou, construiu a sua fazenda e sua família. Quando estava no trempo de recuperar a sua relação com o seu pai, pois já crescera e estava pronto para conversar como gente, o pai havia morrido. Fica óbvio então, mesmo para quem assista o filme sem o olhar interpretante de um terapeuta, que todos os personagens estão procurando por redenção. Redenção das coisas não realizadas, das perdas e das omissões que vamos deixando por todo o caminho. Não é fácil quando um homem está preparado para acertar as contas com as figuras parentais, com o pai, por exemplo e ele não está mais lá para conversar. Contei esse filme para um cliente que passou a noite toda de febre conversando em sonho com o seu falecido pai. Não tinha dado tempo para colocar o assunto em dia durante a vida. O pai insistia para ele parar de se culpar. A vida joga a gente de um lado para o outro e é difícil entender a sua ordem debaixo do aparente caos.
No final do filme, um dos jogadores, líder do time aponta para o construtor do campo, ainda angustiado porque não sabia por que construíra o Campo dos Sonhos. Vem jogar com esse calouro aqui, ele falou. O calouro era o pai dele, ainda jovem e sem as cacetadas e decepções que a vida, infelizmente, nos impõe. Ele apresenta o jogador, seu pai, para a sua família. o filme termina com ele trocando bola de luva a luva com o seu pai. E eu chorando lágrimas de esguicho, claro. "Se você construir, ele virá".
Estava falando agora há pouco sobre "O Campo dos Sonhos". Um filme todo ele calcado na elaboração da Metáfora Paterna. Já falei sobre ele em outro post, mas vou retomá-lo.
O filme é sobre um fazendeiro do Iowa, um estado agrícola americano. O personagem principal, interpretado por Kevin Costner no auge da carreira no final dos anos 80 e início dos 90. O fazendeiro começa a ouvir vozes falando dentro de sua cabeça: "Se você construir, ele virá". Se consultasse um psiquiatra, iria ganhar uma prescrição de antipsicótico ou uma internação. Pior ainda quando ele começa a obedecer essa voz/intuição e levanta um campo de beisebol oficial bem no meio de sua plantação de milho, endividando-se até o pescoço para fazê-lo. Para piorar a situação, as vozes não param de falar, ele vai resgatar um escritor solitário e sofrido, um pediatra idoso que queria mesmo é ter sido jogador de beisebol. O campo começa a ser frequentado por jogadores de beisebol lendários, ou seus fantasmas. É como um campo de futebol onde viessem jogar Leônidas da Silva, Garrincha, Heleno de Freitas e outras lendas de nosso futebol.
Durante o percurso pela América pegando os caras que as vozes mandavam, ele contava a sua história. Conta que saiu de sua casa aos 17 anos, após uma briga idiota com seu pai. Deu as suas cabeçadas, casou, construiu a sua fazenda e sua família. Quando estava no trempo de recuperar a sua relação com o seu pai, pois já crescera e estava pronto para conversar como gente, o pai havia morrido. Fica óbvio então, mesmo para quem assista o filme sem o olhar interpretante de um terapeuta, que todos os personagens estão procurando por redenção. Redenção das coisas não realizadas, das perdas e das omissões que vamos deixando por todo o caminho. Não é fácil quando um homem está preparado para acertar as contas com as figuras parentais, com o pai, por exemplo e ele não está mais lá para conversar. Contei esse filme para um cliente que passou a noite toda de febre conversando em sonho com o seu falecido pai. Não tinha dado tempo para colocar o assunto em dia durante a vida. O pai insistia para ele parar de se culpar. A vida joga a gente de um lado para o outro e é difícil entender a sua ordem debaixo do aparente caos.
No final do filme, um dos jogadores, líder do time aponta para o construtor do campo, ainda angustiado porque não sabia por que construíra o Campo dos Sonhos. Vem jogar com esse calouro aqui, ele falou. O calouro era o pai dele, ainda jovem e sem as cacetadas e decepções que a vida, infelizmente, nos impõe. Ele apresenta o jogador, seu pai, para a sua família. o filme termina com ele trocando bola de luva a luva com o seu pai. E eu chorando lágrimas de esguicho, claro. "Se você construir, ele virá".
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