No post anterior acabei falando da palestra de Mia Couto e sua advertência sobre não perder a Alma para atender as pessoas. A Medicina deveria ser exercida com Alma. Isso não dá para se ensinar nas cadeiras da Faculdade de Medicina. A Alma não aparece nos microscópios, nem nos aparelhos de Ressonância Magnética. Se está fora da Física, então é Metafísica. Se é Metafísica, é lixo, perante a Ciência Materialista. Pois a Ciência Materialista é como o governo Temer, demora para morrer. Se Einstein cunhou no início do século passado a equação da Relatividade, em que matéria e energia são estados diferentes de condensação e se complementam, ou seja, a matéria em si não existe, então, tecnicamente a Ciência Materialista bateu as botas nessa ocasião. Sem mencionar a Física Quântica, que jogou outras pás de cal. Mas esse é outro assunto.
A entrevista psiquiátrica foi substituída pela aplicação de escalas padronizadas, visando quantificar sintomas e achados para um diagnóstico menos subjetivo. Isso criou a Torre de Babel de escalas, competindo entre si como youtubers tentando ganhar um nicho de público. Isso significa a perda da Alma na entrevista. Lembro de uma consulta em que a cliente me descrevia detalhadamente a sequência de perdas dos últimos anos de sua vida: mudança de emprego, perda de sua mãe e tia depois de longo processo de doença, mudança de casa, desadaptação ao chefe. Uma odisseia moderna que chamamos de crise de meia idade. A sua descrição era detalhada e mostrava como tinha atravessado toda essa sequência de lutos e se organizado internamente em sua nova vida. Só estava com problemas para dormir, daí a consulta. Se ela tivesse sido entrevistada por um computador, digo, por uma escala padronizada, teria o diagnóstico de uma Reação ao Estresse, em curva de recuperação. Só faltou um detalhe. Durante a entrevista, a sua fala lógica e articulada transmitia em mim (veja o pronome, “em” mim, não “para” mim) uma profunda, cortante sensação de tristeza. Depois da tristeza, um cansaço, mas não um cansaço físico, um cansaço de Alma. Como uma vida em preto e branco. Os outros parâmetros clínicos estavam ok e ela estava vivendo bem. Era uma pessoa “funcional”, outro critério derivado da Revolução Industrial para medir a melhora do paciente: ele funciona? Está em condições de pertencer à Sociedade de Consumo? Então beleza. Pois ela estava bem e funcional, com uma dificuldade em dormir que parecia de fácil manejo. E o contato com ela transmitia uma profunda tristeza. Falei com ela sobre isso e introduzi um medicamento para esse estado de esgotamento, que fica sob o guarda chuva da Depressão. A resposta clínica foi impressionante até para mim mesmo, que levantei a hipótese diagnóstica. Felizmente ela aceitou a hipótese e tomou a medicação. E foi como enxergar colorido de novo.
A Alma está conectada com o Cérebro Emocional. Está diretamente correlacionada com nossa capacidade de sentir. Sentir a mim mesmo, sentir o outro. A virtualização do mundo está amortecendo a capacidade de sentir. O luto passou a ser uma foto ou desenho em redes sociais. A solidariedade é uma mensagem inbox. Tudo rápido, um clique e já vamos rir de um vídeo engraçado. A perda da Alma se relaciona à perda da temporalidade do corpo. Sim, porque é o Corpo que gera as sensações de Alma. O neurocientista Antônio Damásio formulou essa teoria, do Marcador Somático. Nosso Cérebro é moldado e se organiza pela sensação primeira de ter um corpo e, dentro desse corpo, tem uma mente que pensa e sente. Pensar e sentir são atividades integradas, que o autor desse post chama de Pensentimento. A Alma se localiza na fenda entre Pensamento e Sentimento, mas começa e termina na Sensação e no Sentimento. A Neurociência diria que se funda nos Neurônios em Espelho, que nos permitem bocejar quando alguém boceja e também sentir a dor do Outro quando o Outro não consegue mais sentir nada.
Salvo engano desse escriba, no Juízo Final dos Egípcios, após a morte, a Alma Imortal do finado ou da finada era pesada numa balança. O peso a ser medido deveria ser o da quantidade de vivências e de participação efetiva na vida que a pessoa conseguiu ou não, adquirir. O peso da alma talvez fosse medido pela capacidade de ver com os olhos do coração. E na quantidade de amor vivido e gerado. Isso parece um mambo jambo metafísico para a Ciência Materialista. Mas a matéria nem sequer existe, não é mesmo? Colocamos a alma naquilo que faz sentido. Procuramos então por Alma e por Sentido.
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017
domingo, 18 de junho de 2017
Vivemos para Descansar do Sonho
Estava meio desavisado no Brain Congress de Porto Alegre há três dias. Neste ano, o Congresso foi mais pobre em conteúdo e me fez correr mais atrás de coisa boa, então lá estava eu desavisado numa palestra sobre a “Neurociência ajudando a repensar o ser humano”. Nem atinei para o palestrante, um certo Mia Couto, provavelmente homônimo do grande escritor português/moçambicano, aquele que pode dar um prêmio Nobel para a nossa língua, a última Flor do Lácio. Quase capotei na cadeira quando ouvi que Mia Couto era mesmo Mia Couto, convidado de honra do Presidente para a sua palestra. Imediatamente tive a sensação que deveríamos ter todos os dias de nossa vida, de uma imensa gratidão e privilégio de estar lá, num Congresso de Psiquiatria, Neurologia e Neurociência ouvindo aquele homem. A sensação foi incrível: e pensar que todos os dias temos o privilégio de ver, tocar e sorrir para tanta gente especial e nem percebemos. Pois a presença modesta e bem humorada do romancista me deu a sensação que devia cultivar todo dia, a de gratidão. Estava grato de estar lá, depois de um dia exaustivo de gráficos, tabelas e saber científico. E Mia começou a contar histórias. Em tudo que descrevia, em todas histórias que ele contava, havia um viés de um narrador que fala escrevendo. Quem já assistiu uma aula show do infelizmente falecido Ariano Suassuna também tinha essa impressão. Os “causos” que saiam de sua boca não eram relatos factuais, mas a mágica de uma história que nos transportam para outras histórias. Uma viagem nos caminhos da Memória.
Mia Couto contou uma história de um homem que conheceu em viagem para a África, acho que no Zimbábue. O homem estava perdendo a visão mas conseguia guiar a todos em suas expedições e caçadas. O velho africano falou para o maravilhado escritor, que transforma tudo o que ouve em livros, que "só consegue enxergar quando caça". Mia ficou perplexo, porque alguns anos antes escreveu um livro em que um de seus personagens era cego e dizia: “Eu só enxergo quando escrevo”. Dizem que a vida sempre acaba imitando a Arte. Um tempo depois, o homem morreu e o escritor/narrador voltou para a sua cidade. Ele não foi enterrado, mas “semeado” debaixo de uma árvore. Quando perguntou do que ele morrera, percebeu que não havia esse conceito na tribo. As pessoas não morrem de algo, mas morrem de “alguém”. Como morrer de sua mãe e volta para seu seio. Uma morte freudiana perfeita. Mia se lembrou, então, da primeira vez que morreu de “alguém”: foi de seu pai, que viu chorando espantado aos sete anos.Ver o pai chorando foi como morrer. Nunca imaginou que seu pai pudesse chorar. Eles estavam exilados em Moçambique nos anos setenta quando chegou o aviso que seu avô, pai de seu pai, havia morrido em Portugal. O menino amedrontado e perplexo tentou consolar seu pai, que falou que seu avô podia ter morrido em Portugal, mas naquela casa ele nunca morreria. No decorrer dos anos, eram tantas as memórias, os sons, os gostos e as cores que era como se a família corresse pelos quartos, rindo e contando histórias.E o menino escritor nunca sentiu a morte de seu avô que não conhecera. Ele passeava pelas salas, indiferente à Morte. Lembrei do meu pai assobiando um samba de João Nogueira. O assobio encheu a sala da Memória, no meio do Congresso. Talvez as duas qualidades que nos tornem humanos seja a Linguagem e a Memória. Através delas prosperamos, crescemos, desejamos e adoecemos. Através delas, o escritor virou um livro que falava. Em vez da Neurociência ajudar a repensar o humano, foi o humano que ajudou a repensar a Neurociência. Pois não há Ciência e não há cura se não houver Alma, daquele que cura e daquele que é curado. Na pratica clínica, nem sempre sabemos quem é quem. Só era perceptível, embora a voz do escritor não o tenha mencionado, que é a Alma que diferencia os técnicos dos curadores, e não existe cura sem preparo técnico. Mas o preparo técnico sem Alma também pode ser inútil.
Senti uma pena profunda de imaginar que o mundo está mudando para esse tipo de literatura, para o mundo que é percebido, processado e recriado desde o olhar imenso do narrador. Os livros já nascem como roteiros, não de cinema, mas de séries do Netflix. Quanto tempo teremos pessoas debruçadas em livros que abrem esse Olhar mágico?
Foi viajando nessas ideias e percepções que vi a palestra de Mia Couto terminar, e quase mil congressistas aplaudirem de pé a aula em que o humano reinventou a Ciência, como os verdadeiros artistas fazem. Eu lembrei de um sonho meu recente, onde afastava as pessoas para poder chorar a morte de meu pai. O velho caçador africano disse a Mia Couto que vivemos para poder descansar do sonho. Eu precisei do sonho para abrir espaço para o choro. O sonho não tem tempo, já que meu pai morreu há quase vinte e cinco anos. A mágica do sonho e da poesia me fez chorar na palestra de Mia Couro, de saudade de meu pai.
Mia Couto contou uma história de um homem que conheceu em viagem para a África, acho que no Zimbábue. O homem estava perdendo a visão mas conseguia guiar a todos em suas expedições e caçadas. O velho africano falou para o maravilhado escritor, que transforma tudo o que ouve em livros, que "só consegue enxergar quando caça". Mia ficou perplexo, porque alguns anos antes escreveu um livro em que um de seus personagens era cego e dizia: “Eu só enxergo quando escrevo”. Dizem que a vida sempre acaba imitando a Arte. Um tempo depois, o homem morreu e o escritor/narrador voltou para a sua cidade. Ele não foi enterrado, mas “semeado” debaixo de uma árvore. Quando perguntou do que ele morrera, percebeu que não havia esse conceito na tribo. As pessoas não morrem de algo, mas morrem de “alguém”. Como morrer de sua mãe e volta para seu seio. Uma morte freudiana perfeita. Mia se lembrou, então, da primeira vez que morreu de “alguém”: foi de seu pai, que viu chorando espantado aos sete anos.Ver o pai chorando foi como morrer. Nunca imaginou que seu pai pudesse chorar. Eles estavam exilados em Moçambique nos anos setenta quando chegou o aviso que seu avô, pai de seu pai, havia morrido em Portugal. O menino amedrontado e perplexo tentou consolar seu pai, que falou que seu avô podia ter morrido em Portugal, mas naquela casa ele nunca morreria. No decorrer dos anos, eram tantas as memórias, os sons, os gostos e as cores que era como se a família corresse pelos quartos, rindo e contando histórias.E o menino escritor nunca sentiu a morte de seu avô que não conhecera. Ele passeava pelas salas, indiferente à Morte. Lembrei do meu pai assobiando um samba de João Nogueira. O assobio encheu a sala da Memória, no meio do Congresso. Talvez as duas qualidades que nos tornem humanos seja a Linguagem e a Memória. Através delas prosperamos, crescemos, desejamos e adoecemos. Através delas, o escritor virou um livro que falava. Em vez da Neurociência ajudar a repensar o humano, foi o humano que ajudou a repensar a Neurociência. Pois não há Ciência e não há cura se não houver Alma, daquele que cura e daquele que é curado. Na pratica clínica, nem sempre sabemos quem é quem. Só era perceptível, embora a voz do escritor não o tenha mencionado, que é a Alma que diferencia os técnicos dos curadores, e não existe cura sem preparo técnico. Mas o preparo técnico sem Alma também pode ser inútil.
Senti uma pena profunda de imaginar que o mundo está mudando para esse tipo de literatura, para o mundo que é percebido, processado e recriado desde o olhar imenso do narrador. Os livros já nascem como roteiros, não de cinema, mas de séries do Netflix. Quanto tempo teremos pessoas debruçadas em livros que abrem esse Olhar mágico?
Foi viajando nessas ideias e percepções que vi a palestra de Mia Couto terminar, e quase mil congressistas aplaudirem de pé a aula em que o humano reinventou a Ciência, como os verdadeiros artistas fazem. Eu lembrei de um sonho meu recente, onde afastava as pessoas para poder chorar a morte de meu pai. O velho caçador africano disse a Mia Couto que vivemos para poder descansar do sonho. Eu precisei do sonho para abrir espaço para o choro. O sonho não tem tempo, já que meu pai morreu há quase vinte e cinco anos. A mágica do sonho e da poesia me fez chorar na palestra de Mia Couro, de saudade de meu pai.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Perda de Alma
Este blog já passou por outros Natais, e chegando à véspera ou ao dia de Natal, é um tanto difícil para um junguiano deixar de falar da belíssima Mitologia Cristã, particularmente do Mito da Natividade. Quem quiser pode procurar esses posts pelos termos da Natividade ou do Mito Cristão. Hoje não vou escrever sobre isso.
Uma dificuldade ou, uma potencialidade do trabalho com a chamada Psicologia Profunda é trabalhar num mundo onde não há mais silêncio, ou, no limite, não há mais Mundo Interno. Tudo é exteriorizado ou exteriorizável. Lutos, amores, alegrias, tristezas, morte, vida, tudo pode ser transmitido em Tempo Real na nuvem. Já falei sobre isso muitas vezes. O resultado, num mundo onde tudo corre e é consumido rapidamente, é um tempo em que as pessoas perdem a sua Alma. A própria Alma passa a ser dada como inexistente, ou reduzida ao Marcador Somático de Antonio Damásio, uma parte sensitiva de nossa Cognição que nos dá a sensação de sermos algo. Não é mais o “Penso, Logo Existo”, mas o “Percebo, Logo Sou”.
A epidemia de Depressão, Obesidade, Deficit de Atenção e Ansiedade está, na opinião deste escriba, inteiramente correlacionada com essa perda de Alma. A sensação de correria sem objetivo leva a Desatenção como um grave sintoma de nosso tempo. Acidentes, tragédias, catástrofes todo tipo de doença deriva deste senso de correria desatenta. Os exemplos estão todos por aí: enfermagem injetando café com leite na veia de uma idosa, acidentes cirúrgicos, médicos operando o joelho errado, mães esquecendo o bebê no carro para morrer de desidratação e hipertermia, exemplos diários e cada vez mais dolorosos.
Na prática clínica, a Alma pode começar a pedir a nossa atenção em pequenos e suaves sinais de que algo não vai bem: noites mal dormidas, irritabilidades e desconcentração. Uma sutil sensação de que algo não está encaixado ou fora do lugar. Os sintomas e as sensações podem evoluir, e a Alma, que começa sussurrando, pode irromper aos berros, numa crise de Pânico, num nódulo maligno de Mama ou Tireóide, um acidente grave de trânsito ou um divórcio. Podemos ouvir os seus sinais, ou tentar suprimir os seus berros, mas a tragédia de nosso tempo talvez seja a própria ausência do conceito que temos uma Alma e ela deva ser considerada em tudo o que fazemos, como uma conselheira ou breque dessa correria.
Quando alguém chega ao consultório em diversos níveis de dor e sofrimento psíquico, aquilo que pede como ajuda pode ser visto como alguma disfunção de metabolismo cerebral e corrigido com medicamentos. Se a orientação for mais profunda, o paciente pode rever as suas prioridades, melhorar a dieta, perder peso, fazer exercícios, desacelerar. Se o trabalho realmente engrenar, a doença poderá ser vista como um mergulho na direção de um significado mais profundo da própria vida e da saída do circuito oval onde corremos não se sabe para onde. A maior parte volta para o circuito com o auxílio luxuoso de alguns medicamentos de tarja vermelha e preta.
Uma paciente de Jung contou um sonho desagradável em que estava numa espécie de lodaçal, ou coisa pior, enfiada até o pescoço e sem conseguir sair. Na borda estava Jung. Ela pensa: “Quer ver que, em vez de me tirar daqui, esse puto vai me mandar mergulhar?”. Dito e feito. Ele falou, sem dó: “Mergulha”. Como se pode perceber, não é fácil ser junguiano neste século. Mergulhar na própria lama não é para qualquer um. O que será que tem do outro lado?
Uma dificuldade ou, uma potencialidade do trabalho com a chamada Psicologia Profunda é trabalhar num mundo onde não há mais silêncio, ou, no limite, não há mais Mundo Interno. Tudo é exteriorizado ou exteriorizável. Lutos, amores, alegrias, tristezas, morte, vida, tudo pode ser transmitido em Tempo Real na nuvem. Já falei sobre isso muitas vezes. O resultado, num mundo onde tudo corre e é consumido rapidamente, é um tempo em que as pessoas perdem a sua Alma. A própria Alma passa a ser dada como inexistente, ou reduzida ao Marcador Somático de Antonio Damásio, uma parte sensitiva de nossa Cognição que nos dá a sensação de sermos algo. Não é mais o “Penso, Logo Existo”, mas o “Percebo, Logo Sou”.
A epidemia de Depressão, Obesidade, Deficit de Atenção e Ansiedade está, na opinião deste escriba, inteiramente correlacionada com essa perda de Alma. A sensação de correria sem objetivo leva a Desatenção como um grave sintoma de nosso tempo. Acidentes, tragédias, catástrofes todo tipo de doença deriva deste senso de correria desatenta. Os exemplos estão todos por aí: enfermagem injetando café com leite na veia de uma idosa, acidentes cirúrgicos, médicos operando o joelho errado, mães esquecendo o bebê no carro para morrer de desidratação e hipertermia, exemplos diários e cada vez mais dolorosos.
Na prática clínica, a Alma pode começar a pedir a nossa atenção em pequenos e suaves sinais de que algo não vai bem: noites mal dormidas, irritabilidades e desconcentração. Uma sutil sensação de que algo não está encaixado ou fora do lugar. Os sintomas e as sensações podem evoluir, e a Alma, que começa sussurrando, pode irromper aos berros, numa crise de Pânico, num nódulo maligno de Mama ou Tireóide, um acidente grave de trânsito ou um divórcio. Podemos ouvir os seus sinais, ou tentar suprimir os seus berros, mas a tragédia de nosso tempo talvez seja a própria ausência do conceito que temos uma Alma e ela deva ser considerada em tudo o que fazemos, como uma conselheira ou breque dessa correria.
Quando alguém chega ao consultório em diversos níveis de dor e sofrimento psíquico, aquilo que pede como ajuda pode ser visto como alguma disfunção de metabolismo cerebral e corrigido com medicamentos. Se a orientação for mais profunda, o paciente pode rever as suas prioridades, melhorar a dieta, perder peso, fazer exercícios, desacelerar. Se o trabalho realmente engrenar, a doença poderá ser vista como um mergulho na direção de um significado mais profundo da própria vida e da saída do circuito oval onde corremos não se sabe para onde. A maior parte volta para o circuito com o auxílio luxuoso de alguns medicamentos de tarja vermelha e preta.
Uma paciente de Jung contou um sonho desagradável em que estava numa espécie de lodaçal, ou coisa pior, enfiada até o pescoço e sem conseguir sair. Na borda estava Jung. Ela pensa: “Quer ver que, em vez de me tirar daqui, esse puto vai me mandar mergulhar?”. Dito e feito. Ele falou, sem dó: “Mergulha”. Como se pode perceber, não é fácil ser junguiano neste século. Mergulhar na própria lama não é para qualquer um. O que será que tem do outro lado?
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