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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

De Alma e Sentido

No post anterior acabei falando da palestra de Mia Couto e sua advertência sobre não perder a Alma para atender as pessoas. A Medicina deveria ser exercida com Alma. Isso não dá para se ensinar nas cadeiras da Faculdade de Medicina. A Alma não aparece nos microscópios, nem nos aparelhos de Ressonância Magnética. Se está fora da Física, então é Metafísica. Se é Metafísica, é lixo, perante a Ciência Materialista. Pois a Ciência Materialista é como o governo Temer, demora para morrer. Se Einstein cunhou no início do século passado a equação da Relatividade, em que matéria e energia são estados diferentes de condensação e se complementam, ou seja, a matéria em si não existe, então, tecnicamente a Ciência Materialista bateu as botas nessa ocasião. Sem mencionar a Física Quântica, que jogou outras pás de cal. Mas esse é outro assunto.
A entrevista psiquiátrica foi substituída pela aplicação de escalas padronizadas, visando quantificar sintomas e achados para um diagnóstico menos subjetivo. Isso criou a Torre de Babel de escalas, competindo entre si como youtubers tentando ganhar um nicho de público. Isso significa a perda da Alma na entrevista. Lembro de uma consulta em que a cliente me descrevia detalhadamente a sequência de perdas dos últimos anos de sua vida: mudança de emprego, perda de sua mãe e tia depois de longo processo de doença, mudança de casa, desadaptação ao chefe. Uma odisseia moderna que chamamos de crise de meia idade. A sua descrição era detalhada e mostrava como tinha atravessado toda essa sequência de lutos e se organizado internamente em sua nova vida. Só estava com problemas para dormir, daí a consulta. Se ela tivesse sido entrevistada por um computador, digo, por uma escala padronizada, teria o diagnóstico de uma Reação ao Estresse, em curva de recuperação. Só faltou um detalhe. Durante a entrevista, a sua fala lógica e articulada transmitia em mim (veja o pronome, “em” mim, não “para” mim) uma profunda, cortante sensação de tristeza. Depois da tristeza, um cansaço, mas não um cansaço físico, um cansaço de Alma. Como uma vida em preto e branco. Os outros parâmetros clínicos estavam ok e ela estava vivendo bem. Era uma pessoa “funcional”, outro critério derivado da Revolução Industrial para medir a melhora do paciente: ele funciona? Está em condições de pertencer à Sociedade de Consumo? Então beleza. Pois ela estava bem e funcional, com uma dificuldade em dormir que parecia de fácil manejo. E o contato com ela transmitia uma profunda tristeza. Falei com ela sobre isso e introduzi um medicamento para esse estado de esgotamento, que fica sob o guarda chuva da Depressão. A resposta clínica foi impressionante até para mim mesmo, que levantei a hipótese diagnóstica. Felizmente ela aceitou a hipótese e tomou a medicação. E foi como enxergar colorido de novo.
A Alma está conectada com o Cérebro Emocional. Está diretamente correlacionada com nossa capacidade de sentir. Sentir a mim mesmo, sentir o outro. A virtualização do mundo está amortecendo a capacidade de sentir. O luto passou a ser uma foto ou desenho em redes sociais. A solidariedade é uma mensagem inbox. Tudo rápido, um clique e já vamos rir de um vídeo engraçado. A perda da Alma se relaciona à perda da temporalidade do corpo. Sim, porque é o Corpo que gera as sensações de Alma. O neurocientista Antônio Damásio formulou essa teoria, do Marcador Somático. Nosso Cérebro é moldado e se organiza pela sensação primeira de ter um corpo e, dentro desse corpo, tem uma mente que pensa e sente. Pensar e sentir são atividades integradas, que o autor desse post chama de Pensentimento. A Alma se localiza na fenda entre Pensamento e Sentimento, mas começa e termina na Sensação e no Sentimento. A Neurociência diria que se funda nos Neurônios em Espelho, que nos permitem bocejar quando alguém boceja e também sentir a dor do Outro quando o Outro não consegue mais sentir nada.
Salvo engano desse escriba, no Juízo Final dos Egípcios, após a morte, a Alma Imortal do finado ou da finada era pesada numa balança. O peso a ser medido deveria ser o da quantidade de vivências e de participação efetiva na vida que a pessoa conseguiu ou não, adquirir. O peso da alma talvez fosse medido pela capacidade de ver com os olhos do coração. E na quantidade de amor vivido e gerado. Isso parece um mambo jambo metafísico para a Ciência Materialista. Mas a matéria nem sequer existe, não é mesmo? Colocamos a alma naquilo que faz sentido. Procuramos então por Alma e por Sentido.

sábado, 10 de junho de 2017

O Fogo ou o Gelo

Certa vez ouvi Casagrande comentar em entrevista que jogar contra o Flamengo de Zico era uma arte. O Corinthians da época, início dos anos 80, era também forte, mas faziam um pacto de levar o jogo na maciota e, comentário dos mais engraçados, era importante NÂO fazer um gol no Flamengo no começo do jogo. “A ordem era levar o jogo em Banho Maria, para não acordar os caras...”, conta Casão bem humorado. “Se fizesse um gol eles acordavam e vinham para cima... Aí ninguém segurava”. Reza a lenda que uma ordem parecida era dada aos adversários do Chicago Bulls nos tempos de Michael Jordan: todos eram proibidos de dar entrevistas provocando o cara ou dizendo que ele estava velho. Sobretudo, era proibido fazer alusões à sua idade. Michael Jordan, como o Flamengo de Zico, se inflamava quando provocado e conseguia transformar a raiva em concentração, mas uma concentração inflamada pela raiva que fazia o seu desempenho se ampliar. Teve um gaiato que quase apanhou do time porque provocou o homem e levou 45 pontos no placar feitos por Michael Jordan, sem contar desarmes e assistências. A raiva o tornava um monstro.
A Neurociência está começando a distinguir reações diferentes diante do estresse. A diferença principal entre elas é a utilização da reação do estresse como Desafio, Raiva Explosiva ou Paralisia. Não há dúvidas que as pessoas estão mais acostumadas a ativar a reação de medo ou raiva do que de enfrentamento divertido.
O São Paulo, do chato Rogério Ceni, por exemplo. É um time todo cheio de deslocamentos e concepções táticas que Rogério passou muito tempo aprendendo como jogador e treinador aprendiz. Mas suas invenções de Professor Pardal logo desmoronam na primeira bola que entra no gol do São Paulo. O time continua moderno, bacana, tático, mas não consegue ter a reação adrenérgica de Desafio, que é abrir os Brônquios, fazer o Coração bombear o sangue com mais força ou encher os músculos de sangue com a certeza de que vai conseguir virar o resultado. O São Paulo é o contrário do Flamengo de Zico: quando toma um gol, é ativada a Reação de Medo, o time perde a alegria e não consegue acreditar na vitória.
Foi feito um estudo de resposta ao Estresse em que dois grupos de alunos foram testados em períodos de provas finais. Um dos grupos recebeu a orientação de que a Reação de Estresse era boa para a performance porque aguçava o raciocínio e levava mais sangue para o Cérebro. O outro grupo não recebeu nenhuma orientação a respeito e foi só mandado para a prova. O primeiro grupo teve uma resposta significativamente melhor quando foi orientado indiretamente a transformar o medo em reação de desafio e enfrentamento. Essa reação transforma o medo em uma tensão divertida, que pode provocar um prazer de enfrentar e passar por cima da dificuldade (ou do adversário). Já a reação de medo de perder, que causa uma contrição de energia, cria uma situação inversa: tudo dá errado e o que se teme mais acaba acontecendo.
É curioso que tanta gente chegue para tratamento de doenças relacionadas ao estresse, sobretudo estresse profissional, onde os gestores não tem a menor noção de um saber tão óbvio e intuitivo: um ambiente de trabalho de desafio e apoio mútuo é muito mais produtivo que nossos correspondentes modernos de navios negreiros, onde as pessoas são massacradas com metas inalcançáveis e chicotes de cobranças e berros da gerência. Diga-se também que os funcionários que se entregam à uma moleza reclamona e medrosa também são grandes candidatos à fila de desemprego. A reação mais comum é o medo, que é evolutivamente mais antiga do que transformar o medo em excitação/combate. Mas é muito importante propagar o saber, agora cientificamente comprovado, que é sempre melhor se divertir pelejando do que se esconder no banheiro. Como dizia o Capitão Rodrigo de Erico Veríssimo: “Não está morto quem peleia”

domingo, 11 de dezembro de 2016

Um Pouco de Paciência

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/ Até quando o corpo pede um pouco mais de alma/ A vida não para…”. Os poetas, como Lenine nesses versos, conseguem perceber antes e melhor o que acontece com o tempo. O nosso tempo e nossa temporalidade. Nosso corpo pede um pouco mais de alma num tempo em que a alma está fora de moda. Somos cabeças sem corpo, e corpos sem alma. A vida não para e corre, corre entre os dedos.
Sempre acreditei que temos dois tipos de estresse, o Adrenérgico e o Cortisólico. Hoje tudo o que se estuda coloca o Cortisol no centro da ribalta da resposta ao Stress. O que acontece são respostas agudas e crônicas aos estressores. A resposta rápida é mais Adrenérgica, o coração bate forte, a respiração se encurta, os músculos tensionam, os pelos se eriçam preparados para lutar ou fugir. A reação prolongada demanda mais Cortisol e resiliência: o corpo reage retendo líquido, subindo os açúcares e a gordura disponíveis, a resposta imune e inflamatória aumentam e depois diminuem. O organismo entra em estado de resistência, e isso tem um custo a médio e longo prazo.
Cultural ou biológicamente os homens respondem mais da primeira forma e as mulheres, da segunda. O Taoísmo e a Medicina Chinesa já descrevia isso há milênios: os princípios Yin (Feminino) e Yang (Masculino) se equilibram e contrabalançam, nas estações do ano e nos ciclos corporais. Excessos de um Princípio em detrimento do outro gera desequilíbrio e o desequilíbrio se manifesta como doença. Nossos excessos de Yang criam a sensação permanente de pressa e urgência. Lenine fala disso na mesma música, “Paciência”: “Enquanto o tempo acelera e pede pressa/Eu me recuso faço hora eu vou na valsa/ A vida tão rara”.
Diante dos estressores, os machos da espécie se preparam para a luta ou a caça. As mulheres cuidam das crias e se cuidam entre si (lógico que existem espécies em que os machos são uns vagabundos e as mulheres fazem todo o serviço, como os leões e os humanos, por exemplo).
Temos meses e camisetas dedicados à prevenção do Câncer de Mama. Os tratamentos de reposição hormonal foram restritos, aumentando o risco de Doenças Cardíacas. As mulheres, nestes tempos de aceleração não fazem hora nem vão na valsa. Todos correm atrás do coelho de Alice: é tarde, é tarde, é muito tarde... Quando entram no tempo Yang, sofrem de suas doenças Yang. Estamos atentos às doenças oncológicas e é bom que estejamos, mas as mulheres estão morrendo de doenças coronarianas. Não era isso que se imaginava na igualdade entre os sexos.
No mundo com seus excessos de pressa e de Mente, o Corpo pede bastante mais de Alma. Danças circulares, Yôga, Meditação, respiração, psicoterapias, tudo isso faz parte da busca pela alma soterrada pelo tempo apressado. Para mudarmos o Stress, é bom começar pela percepção da temporalidade. Como diz a música: “Um pouco de paciência”.

domingo, 10 de julho de 2016

Bom Dia, Tristeza

Meus filhos cresceram com os filmes da Pixar, e eu, claro, virei um fã. Os filmes invariavelmente tem um tema junguiano da Jornada Arquetípica, do herói de origem humilde que, por acaso ou por cometer um pequeno erro, é lançado numa jornada heróica onde vai enfrentar monstros e perigos nunca imaginados. Não assisti o “Procurando Dory”, devo reparar essa falha na minha filmografia até a próxima semana, mas posso usar o primeiro filme da série, o Nemo, como um bom exemplo de Jornada Arquetípica. Nemo desenvolve um Estresse Pós Traumático quando perde a sua companheira e filhotes num ataque de barracuda. Ele vira um pai superprotetor e neurótico de seu único filho, Nemo. O Erro Fundamental ocorre durante uma brincadeira de Nemo com seus amigos, que o faz sair dos limites protegidos pelos corais. Ele é capturado por um mergulhador e seu pai vai ter que superar seus medos e traumas para atravessar o mar infinito atrás de seu filho perdido. Ele vai ser ajudado por muitos amigos e situações onde pequenas coincidência e acasos vão indicando o caminho até Nemo. Essa é a Jornada Arquetípica, uma metáfora da nossa vida e desenvolvimento.
A última obra prima da Pixar foi o Divertida Mente. O filme contou com a assessoria de um time de Neurocientistas para criar o mundo interno de uma menina de 11 anos, Riley, que passa por uma difícil transição em sua vida. As Emoções Básicas comandam sua Cognição na Sala de Controle. Como nos outros filmes, ocorre um Erro, e a Alegria e Tristeza se perdem dentro do Cérebro da menina. As suas reações passam a ser comandadas pela Raiva, o Medo e o Tédio. Ela se torna claramente uma pré adolescente, portanto. Alegria comete o erro fundamental, quando tenta a todo custo controlar a Tristeza que está contaminando a Psique de Riley. No meio da briga, elas são sugadas para as zonas de Memória e vão precisar atravessar um longo caminho para voltar à Sala de Controle. O problema é que as pontes que poderiam levá-las de volta também estão desmoronando: as relações com a Família, a Amizade, a Brincadeira e o Hóquei sobre o gelo, que fundamentavam a identidade de Riley, começam a desmoronar no meio da desadaptação à nova vida em San Francisco.
O filme fala sobre muita coisa interessante e poderia gerar uma dezena de posts, mas hoje vou falar sobre a função estruturante da Tristeza. Como o pai de Nemo tem a ajuda da desmiolada Dory e através de suas trapalhadas vai achando o caminho até seu filho, a decidida e algo obsessiva Alegria vai precisar rebocar a Tristeza no começo, mas no decorrer da jornada vai ser aconselhada e algumas vezes salva pela Tristeza. Uma cena particularmente bonita é quando a Alegria revê uma cena muito alegre de Riley sendo jogada para cima por sua equipe de Hóquei, em triunfo. Com a ajuda da Tristeza, ela recupera a cena inteira. Riley tinha errado a última jogada e seu time perdeu o jogo. Ela estava sobre o galho de uma árvore chorando e seus pais se aproximaram, acolhendo a Tristeza. Foi aí que seu time chegou e a jogou para cima, reconhecendo a sua importância. Dona Alegria percebe que só entrou em cena pela função estruturante da Tristeza e a interiorização da perda e do luto. Ninguém começou a cena comemorando uma derrota ou uma frustração.
Acho que as crianças são muito pressionadas em nossos dias pela tirania da Alegria. As mães ficam como cães de caça vigiando o tempo todo se as crianças são suficientemente felizes e surtam completamente quando as outras emoções tomam conta da Sala de Controle de seus filhos. Um de meus consultórios tem uma criança na vizinha que chora desconsolado por horas. A sua mãe varia o lidar com a situação com gritos que aumentam a choradeira até a perfeita apatia de simplesmente não fazer nada para acolher a Tristeza. Ele chora, chora, e ninguém faz nada. Do lado de um consultório de Psiquiatria e Psicoterapia. Quando a cena é dominada pela Alegria, aí tudo dá certo, todos brincam e se divertem no quintal. Mas a Tristeza, o Cansaço e a Raiva desencadeiam uma profunda intolerância e Raiva silenciosa em sua mãe. A criança fica abandonada no meio desses sentimentos. Parece que ela só será amada se estiver alegre. Essa é a tirania da Alegria, que aparece nas famílias esfuziantes dos comerciais de Margarina (esse deve ser outro efeito colateral da margarina, além da gordura Trans).
Jung pensou a nossa Psique como um sistema continuamente em Equilíbrio/Desequilíbrio, onde o Caos demanda muita energia para sua Organização. Não existe nesse sistema uma emoção boa ou ruim em si. Há lugar para a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva, a Repulsa e a Atração: todas tem a sua função Estruturante/Desestruturante dependendo da ocasião. Acho que ele estaria muito incomodado com a ditadura da Puerilidade que determina o nosso tempo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Vale das Sombras

Lembro de um episódio de um seriado americano, tipo Law and Order, onde um terapeuta ensinava aos seus pacientes um mantra para os momentos de aflição e desespero: “Eu sou a Rocha no meio da tempestade. Eu sou a Rocha que resiste ao mar”. No episódio o tal do terapeuta acabava sendo o psicopata que se aproveitava de sua ascendência sobre adolescentes perturbados e perdidos no meio da tempestade para abusar, de várias formas, de sua confiança, aumentando a sensação perigosa de que nada faz sentido para esses pacientes. O terapeuta era ruim, mas o mantra, não.
Ninguém descobriu onde fica o Ego em nossa Neurociência. O lugar mais próximo é o Cortex Pré Frontal, onde somos capazes de planejar, executar e corrigir erros em nossos planos futuros. Jung descreveu que a nossa Consciência se amplia em meio a uma fabulosa tensão de tendências opostas. A santidade e o pecado lutando diariamente dentro de nosso corpo e alma. Talvez a Neurociência tenha descoberto uma das sedes dessa tensão eterna: os Hemisférios Cerebrais. O Esquerdo cuida de nosso mundo linear, lógico, baseado em nossos sentidos e racionalidade. Quando algo acontece que subverte ou desafia essa visão racional, esse lado tende a simplesmente ignorar o que não se encaixa. Não precisamos ir muito longe para perceber este comportamento na Ciência, que ignora ou desmerece todos os fenômenos que não se encaixam em sua visão materialista do mundo.
O Hemisfério Direito responde por uma visão não linear, sintética e intuitiva do mundo. Está constantemente criando novas visões ou percepções não lógicas que existem em estado de tensão com a visão linear e sequencial do outro lado. Quando o equilíbrio entre esses lados se rompe, a capacidade do Ego de organizar a sua experiência interna e externa acaba se dissolvendo. A sensação é de que o mundo está desmoronando, num imenso terremoto interior. Quem olha de fora não consegue entender, pois nada aparentemente está acontecendo e, ainda assim, a mente da pessoa está derretendo na sua frente. Lembro de um caso antigo, onde o paciente sentia que estava possuído por uma sensação maligna e queria se matar para não ser tomado por essa presença. Era como se um hemisfério se sentisse invadido pelo outro, perdendo a capacidade de modular os próprios afetos e pensamentos, e tudo vira medo. Em alguns casos, o medo vira terror.
Jung chamou de Self o centro organizador que, acima do Ego, mantém a integridade dessa Psique que parece se esfarelar no meio dos sintomas. Penso no Salmo 23 “Mesmo que eu ande no Vale das Sombras e da Morte, nada temerei pois sei que estás ao meu lado”. Longe de mim psicologizar a Bíblia, mas este salmo é particularmente belo para descrever os momentos de medo, incerteza e desequilíbrio que uma pessoa pode atravessar em sua vida e a sensação protetora e apaziguadora que este centro pode trazer, ajudando na travessia. Essa capacidade organizadora vem da união dos hemisférios opostos? A criação de um plano lógico junto com a força de nosso afeto cria uma força interna para atravessar o Vale das Sombras? Este vale está dentro das áreas que processam o medo e o terror, em nosso Cérebro Profundo?
O mantra do terapeuta maluco do Law and Order funciona desta forma: identificando o Ego com esta rocha que resiste à tempestade de medos que temos em nosso mundo interno. Uma escritora brincou que seus pensamentos são uma área perigosa da cidade, onde ela não gosta de andar sozinha. Muito já escrevi neste blog sobre os pensamentos circulares, reverberantes, que ganham vida dentro de alguns quadros psiquiátricos até que a pessoa não consegue, simplesmente, parar de ser engolido pela tempestade desses pensamentos, que escalam em espiral. A imagem da Rocha no meio da tempestade dá um sentido de orientação no meio da bagunça. Cria um novo centro, onde a pessoa pode se agarrar e esperar pelo fim das marés de medo.
Há muito eu percebi que os verdadeiros curadores são aqueles que acreditam que a tempestade vai passar e a rocha vai, mais uma vez, resistir.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Em Mil Pedaços

Era uma préadolescente que veio trazida no Ambulatório Psiquiátrico improvisado na sala abafada do Centro de Saúde. Ela trazia um sintoma daqueles que eu já lera em vários tratados de Psiquiatria: a perplexidade diante do que se passava dentro de si: o olhar apavorado de quem percebe que a sua mente está desmoronando, que vai explodir em mil pedaços e ela tentava, com imenso esforço e coragem, manter os pedaços juntos, quase colados. A sua família me trouxe vários cadernos cheio de desenhos, cheios de histórias em quadrinhos que ela passava o dia inteiro desenhando. Era um surto psicótico, o início precoce de uma Esquizofrenia. Ela foi medicada, arrumei uma terapeuta amiga para atendê-la de graça, pois seus pais eram muito pobres e, durante um tempo, tudo funcionou, ela melhorou e já não ficava o dia inteiro fechada dentro de seu quarto e de sua mente, tentando colar os pedaços de sua Psique através de suas histórias e desenhos. Como acontece muitas vezes, a sua melhora foi fatal para o tratamento: os pais pararam de levá-la à Psicoterapia e depois ela abandonou, também, o seguimento comigo. Gosto de imaginar que ela acabou se salvando de uma doença cruel e devastadora, e que a terapia ensinou a menina a juntar as partes dissociadas de sua mente para voltar a organizar seus pensamentos e percepções. Mas, aqui entre nós, não acho que foi isso que aconteceu.
A Psiquiatria continua, ainda hoje, vinte anos depois, tendo a mesma postura fatalista diante desses sintomas. A posição é baseada na teoria da fragilidade genética: haveria um pool de genes que determinam a doença e, de surto em surto, a doença progride e a capacidade do paciente regride. O médico usa medicamentos combinados e em alta dose para evitar novas crises.
Ao contrário do que muita gente pensa, o advento dos medicamentos melhorou muito a qualidade de vida dos pacientes e sua capacidade de viver em sociedade. Há cerca de dois anos a imprensa noticiou a tragédia da família de um importante cineasta e documentarista brasileiro, Eduardo Coutinho, que foi esfaqueado e assassinado por seu próprio filho, um rapaz também diagnosticado como esquizofrênico e que estava há muito sem tratamento. A doença e seu isolamento criou a sensação de que a sua família estava sendo perseguida e que matar os seus pais seria uma forma de protegê-los. O fato de estar sem tratamento e isolado socialmente com certeza foram decisivos para a tragédia.
Os medicamentos ajudam, e muito, mas apenas bloquear sintomas é muito pouco, nesse e nos outros transtornos psiquiátricos. Desde aquela época, nos anos noventa, que a Neurociência descobriu a Neuroplasticidade, o que mudou absolutamente tudo em Psiquiatria, menos a cabeça de alguns colegas. Como eu já descrevi em outros posts, foi comprovado o que já se sabia desde o início do século passado, que a Mente pode modificar o Cérebro. Através da compreensão de si e da capacidade de modular os pensamentos e as emoções, os sintomas melhoram e a necessidade de medicamentos diminue. Não que o establishment psiquiátrico goste sempre da ideia e menos ainda os laboratórios. A crença de que a doença é um campo minado e que qualquer movimento em falso pode causar uma explosão ainda está na base de muitos tratamentos e na cabeça de pacientes, médicos e familiares. A questão é que a Compreensão de si e do tratamento ajuda a reformatar os pedaços descolados da Mente. Os tratamentos são complementares, não excludentes.
Aquela menina estava assustada porque uma parte de seu Cérebro não estava integrada à outra parte. Nesse estado, os pensamentos como que ganhavam vida dentro de sua cabeça, dando sinais de que algo muito ruim estava para acontecer. Outra parte transformava esses pensamentos em vozes conversando entre si e falando coisas horríveis para ela. A falta de integração entre as partes também tirou dela a capacidade de integrar os pensamentos e as sensações, de modo a ficar cada vez mais assustada com a sensação de que tudo estava desmoronando dentro e fora de si. Os medicamentos desaceleraram os pensamentos e silenciaram as vozes. A psicoterapia ajudou-a a entender aqueles sintomas aterrorizantes e dimuindo o medo, diminuiu a quebra de seu Cérebro em mil pedaços. A pobreza e a falta de informação impediu a continuidade do tratamento, pelo menos naquele momento. Mas os tratamentos também são interrompidos por pessoas com recursos financeiros e informadas. As pessoas não querem "depender"de medicamentos ou terapeutas. Depender de medos ou da própria ignorância, me parece bem pior.

domingo, 2 de agosto de 2015

De Cima Para Baixo, De Baixo Para Cima

A descrição clássica da Reação do Estresse é o “Fight or Flight” um trocadilho que quer dizer uma reação de Luta ou Fuga quando diante de uma situação de ameaça. Ela se aplica muito mal a uma crise de Pânico. Nunca vi ninguém, durante e depois de uma crise de Pânico, afim de encarar uma briga. Nem ter vontade de fugir, para algum lugar, do inimigo invisível.Quem passa por isso quer correr, sim, para um lugar protegido, de preferência um hospital. A crise de Pânico parece mais um botão que a Mãe Natureza projetou para ser apertado num Enfarte do Miocárdio. Pode estar vindo uma betoneira na descida que o sujeito não se mexe quando sente a dor de um evento cardiovascular. Sudorese, taquicardia, dor em queimação no ombro e estômago, tremores em todo corpo e extremidades, ar que parece não querer entrar. Pior de tudo, a sensação de congelamento, de não ter como se mexer do lugar, como um peso de toneladas no peito. De fato, uma Crise de Pânico parece em tudo com um Enfarte. E é difícil convencer o paciente que aquilo é apenas um botão errado que o Cérebro apertou.
Gosto muito da Teoria da Neuroprogressão, do grupo de FLávio Kapczinski, lá do Rio Grande do Sul, que se aplica à Doença Bipolar, segundo esse grupo. Cada episódio da doença cria uma espécie de reorganização das redes neurais, criando um Cérebro diferente. Cada crise cria essa progressão, e quanto mais crises, pior. O mesmo se aplica à Doença do Pânico: quanto mais crises, mais o Cérebro vai se organizando em torno do risco de se ter outro evento. É como se o mundo deixasse de ser seguro e cada situação pudesse trazer uma crise de Pânico. Cria-se uma nova e amedrontada identidade, em que a pessoa passa a entender o mundo exterior como perigoso e a si mesma como muito frágil e acovardada. Esse é o maior estrago que a doença produz: uma Neuroprogressão no sentido de viver cercado por uma gaiola invisível: quanto mais crises, mais estreita fica a gaiola. E mais sem saída parece a situação. É muito importante devolver ao paciente a sensação de algum controle sobre as crises, e para isso a medicação é muito útil. Literalmente, um santo remédio.
Recebi um dia um jovem médico, que, óbvio, não ficou feliz com a hipótese de estar passando por crises de Pânico. E se for uma Arritmia Cardíaca? Como você pode ter certeza?- Ele me questionou. Não sei se há certeza em Psiquiatria, ou mesmo na Medicina. Uma arritmia pode causar taquicardia, medo e desconforto respiratório, bem como uma crise de Pânico. Como diferenciar uma coisa da outra?
Nossa consciência corporal se organiza nos dois sentidos: Top-Down e Bottom-Up, isto é, de Cima para Baixo, de Baixo para Cima. Nossa Consciência, na hipótese de Antonio Damásio, se organiza a partir das sensações corporais, nas percepções do próprio corpo que organiza uma sensação de Eu. O Penso Logo Existo de Descartes vira um Sinto Logo Existo dessa teoria. A sensação de existir, de ser o Fulano e Sicrano vai se organizando com uma coleção de Memórias e Percepções de Si e do Mundo. É justamente isso que passa a ser perturbado pelas crises de Pãnico. O Eu deixa de ser Eu e o Mundo deixa de ser o Mundo. Tudo fica estranho, novo, ameaçador. A Arritmia Cardíaca é um desconforto Bottom-Up (de baixo para cima). O Pânico é Top-Down (de cima para baixo). A Arritmia causa uma sensação de desconforto que é interpretada pelo Córtex: um aperto, uma tontura, um desconforto. A crise de Pânico, pelo contrário, primeiro dispara o alarme, o corpo se inunda de Adrenalina, a taquicardia vem depois. O jovem colega aprendeu a entender a crise e a lidar com ela. Isso fez toda a diferença.
Qualquer sensação corporal estranha pode apertar o botão do alarme: uma tosse, uma alergia, uma dor de barriga. O botão pode ser apertado de baixo para cima. mas manda a crise de cima para baixo.
Entender isso ajuda muito a orientar os pacientes e as pessoas que sofrem desta Doença. A sensação que dá para lidar com ela, então, é o começo da cura.

domingo, 19 de julho de 2015

Divertida (?) Mente

Se você que está entrando nesse blog não assistiu o novo filme da Pixar, “Divertida Mente” (título em português novamente lamentável para o original, “Inside Out”), talvez seja melhor correr para algum cinema e vê-lo. Vou evitar alguns spoilers, mas outros não. Vamos lá.
Os antecessores dos psiquiatras e psicoterapeutas foram os xamãs, os curandeiros, os sacerdotes. Eles entendiam a Depressão como um estado de Perda da Alma e faziam seus rituais para trazer de volta a alma perdida. Muitas vezes, depois de um tempo de tratamento eu finalmente me apresento para a pessoa que, gradualmente, vai recuperando as suas próprias características, como se estivesse exilada de si própria e tivesse que fazer um longo caminho de volta para se reencontrar. Um caminho de volta que atribuímos aos medicamentos, mas que é muito mais que isso, na opinião desse escriba. Quando a doença começa a melhorar, finalmente eu tenho a impressão de receber a pessoa “de verdade”, não aquela que chegou ao consultório.
Eu seria capaz de jurar que algum roteirista de “Inside Out” passou por uma Depressão ou teve alguém muito próximo com a doença. De preferência, algum adolescente deprimido. A personagem principal do filme é uma garotinha, Riley, filha única de pais amorosos e de uma família tradicional, em que a mãe cuida dela full time e seu pai trabalha numa pequena cidade, em Connecticut. De uma maneira abrupta a família é obrigada a se mudar para uma nova vida em São Francisco (será que o pai perdeu seu emprego na crise de 2008?). As Emoções Primárias de Riley são representadas por cinco personagens que operam da Sala de Controle: Alegria, que parece uma fada, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo. A nova casa é feia e antiga, a cidade é assustadora e, como em muitas situações de nossa vida, Riley experimenta um Ponto de Mutação, onde tudo vira de ponta cabeça: ela perde seu quintal, sua escola, sua melhor amiga e seu time de hockey sobre o gelo, de uma vez só. Alegria tenta coordenar todas as outras emoções primárias para ver o lado bom da situação e animar a menina. A maior dificuldade é manter sob controle a desajeitada Tristeza, que começa a contaminar toda a experiência de Riley. Durante uma briga pela Identidade fundamental da menina, Alegria e Tristeza são sugadas para dentro da Psique de Riley. Na Sala de Controle ficam Medo, Raiva e Nojo. Esse pedaço é muito legal. A Depressão em Adolescente muitas vezes não se manifesta com tristeza. O que aparece é uma irritabilidade profunda e constante, com variações e mudanças abruptas de Humor, explosões de raiva e aversão à tudo. A personagem chamada de Nojo, na verdade em Inglês se chama “Disgust”, que é Repulsa. No caso dos adolescentes, um Tédio profundo e constante, em todas situações.
Estou falando de uma situação extrema, que é a Depressão, mas a idade de Riley, doze anos, é bem a transição em que somos expulsos do paraíso da Infância e de repente lançados no labirinto das relações com o grupo, na necessidade de autonomia e no medo de não conseguir completar a travessia. Isso se dá na revolução da Pré Adolescência, que começa já entre os nove e dez anos. O referencial de Alegria e Tristeza se perdem nesse processo, e a antiga menina fofa e amorosa, que olha o mundo de maneira encantada se torna uma monstrinha irritável, entediada e perdida dentro dos seus medos de fracassar, não ser aceita e sofrer bullying de suas colegas. E olha que colocaram tudo isso no filme de maneira engraçada, mas a Mente de Riley nessa travessia pode ser tudo, menos Divertida.
O filme vai mostrar a jornada de volta para a Sala de Controle, da Alegria e da Tristeza. Tratar uma Depressão é exatamente isso, uma longa jornada de volta para casa. A Depressão de Riley dura alguns dias, mas, na vida real, essa jornada costuma durar muito mais tempo. Muito mais tempo. Os pais que o digam. Os que já passaram por isso que o digam.
Freud descobriu que a matriz de muitos sintomas psíquicos é um conflito de forças psíquicas antagônicas. No filme, o conflito permanente é entre Alegria e Tristeza. Alegria é uma fada bem intencionada, que quer prolongar ao máximo a infância de Riley. É um personagem bem atual, nesse tempo de infantilização coletiva. A Infância hoje em dia dura uns vinte e cinco anos e todos querem se divertir o tempo todo. Esse esforço de se manter alegre à qualquer custo leva Riley à Depressão. Dona Alegria, percebe, numa cena que marejou os meus olhos de lágrimas, que não há como atravessar aquele conflito sem manifestar a Tristeza. A desajeitada Tristeza assume o comando e Riley pode, finalmente, expressar o luto e a dor por tudo o que estava deixando para inciar a sua nova jornada, a Puberdade. Em nossa cultura de alegria de plástico e de redes sociais, não há como crescer sem integrar Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Tédio. Como dizia uma velha música de Cazuza: “A tristeza é uma maneira/ Da gente se salvar depois”...

domingo, 10 de maio de 2015

O Adeus e a Aspirina

Houve uma vez um começo de ano em que uma jornalista da Folha me ligou e informou que, naquele dia de começo de Janeiro, cinco caras, em lugares diferentes da cidade, haviam atirado em suas mulheres ou namoradas e tinham tentado (e a maioria conseguido) se matar em seguida. O que está acontecendo, doutor? Sei lá, pensei com meus botões, enquanto respondia que o período do ano de 20 de Dezembro a 05 de Janeiro é o mais perigoso do ano em termos de suicídios e violência doméstica. De maneira geral, o período de maior calor também é o mais animado em Hospitais Psiquiátricos e Delegacias. Observei também que o homem tem menos recurso para lidar com o abandono e pode partir para a saída evolutivamente estúpida de matar a pessoa que ama, apenas para não vê-la com outro cara.
No Congresso Brain, Behavior and Emotions, realizado em Porto Alegre, um colega apresentou um estudo americano que lançou uma nova luz nesse assunto; eu já sabia que, em escalas de estresse antigas, um divórcio pontuava 5 em um máximo de 6 pontos. Isso quer dizer que pior do que um divórcio, só a perda de um filho, um terremoto ou uma criança perdendo uma figura parental. Esse estudo demonstrou que uma separação tem uma escala de estresse muito superior a uma demissão, por exemplo, o que para mim foi uma surpresa. E lamento dizer que, apesar daquela conversa de que dói mais ser quem termina do quem “foi terminado”, o estudo mostra que tomar um pé na bunda é sempre bem pior do que dar. Términos inesperados ou repentinos pontuam mais. Isso se confirma nos consultórios, em quadros depressivos ou reações de luto diante da sensação dupla de rejeição e abandono que ocorre quando o parceiro, ou a parceira comunica que não quer mais e está terminando tudo.
Um trabalho aprofundando mais o tema lançou uma luz ainda mais interessante nesse assunto, com estudos de Ressonância Magnética Funcional: as vias neurais ativadas quando a pessoa sentia a dor do abandono são as mesmas mobilizadas por uma dor física. Sabe o que isso significa? O fim do “É psicológico”. A dor não tem causa física? “É psicológico”. Ou daqueles encaminhamentos simpáticos, do tipo: “Você não tem nada, vai fazer uma terapia”. Quando alguém descreve numa crise de angústia, uma dor tão forte como uma angina, ela está REALMENTE sentindo a dor de uma angina. Só não está sentindo uma dor que vem do seu Coração, mas da área do Cérebro que sente a dor do Coração. A dor é resultado da ativação de uma rede neural de dor, portanto não é “fingimento” ou “peripaque”.
O estudo mostra com felicidade que alguém que está com “o coração partido” não está necessariamente descrevendo uma sensação metaforicamente, ela pode ter realmente a sensação de que seu coração está partido em dois.
Hoje eu poderia responder para a jornalista que o sentimento de perda é dos mais perigosos que se pode ter em Psiquiatria. Alguém com a sensação de abandono deve receber toda atenção, sobretudo no período em que a sensação de perda evoca uma sensação física de dor. O desdobramento disso será usar medicamentos que atuem no Sistema Nervoso diminuindo a sensação de dor e a resposta inflamatória. Já foi colocado mais de uma vez que a Depressão e a Ansiedade já estão sendo entendidas como doenças inflamatórias. Vamos ter que desenvolver cada vez mais estratégias para ajudar as pessoas a lidar com a frustração e as dores de abandono. Isso pode evitar tragédias como um alguém que destrói a própria vida e de uma namorada porque não consegue tolerar que uma história de amor possa chegar ao fim.



domingo, 14 de setembro de 2014

O Sorriso (Interior) da Monalisa

Tem um exercício de meditação taoista em que os órgãos são visualizados pelo meditador, que envia um sorriso para cada área de seu corpo. Um sorriso para o Fígado, outro para o Intestino e por que não, um sorriso para as partes do corpo que não gostamos. Parece uma coisa boba e sem fundamento, não é? Pois há vários estudos demonstrando que o sorriso, mesmo esboçado, mesmo de Mona Lisa, manda uma mensagem para o Córtex Cerebral e áreas ligadas às emoções que produzem sensações de relaxamento e tranquilidade. Não são só os nossos pensamentos que se manifestam no corpo, nosso corpo que interfere em nossos pensamentos. Parece muito óbvio, mas não é. Quando eu dava aula para o quinto ano de Medicina, dizia para eles que, mesmo que não se sentissem tranquilos diante dos pacientes psiquiátricos, que fingissem tranquilidade. Na época isso parecia uma trapaça, hoje eu percebo que estava dando a orientação correta. Ter uma atitude serena, mesmo de imitação, realmente deixa a mente mais tranquila.
Sempre costumei dizer que as pessoas vem para o consultório com um chachá invisível, e que este crachá é sempre falso. Um se apresenta: “Eu sou uma aberração”; a outra “Eu sou o Pânico”; um terceiro pode se apresentar “Eu sou o maioral, o fodão”. Jung chamou esta máscara social de Persona. Recebemos de nosso ambiente uma imagem do que as pessoas imaginam que somos. Com o passar dos anos, essa imagem pode ser reforçada pela vida. A menina que não é tão bonita quanto as irmãs pode desenvolver uma Persona de intelectual, ou virar uma grande empresária para demonstrar que é a mais aplicada, a mais focada, a mais bem sucedida. Isso pode custar o descuido com a própria aparência ou uma bela Depressão quando se apercebe que todo esse sucesso terminou num quarto vazio, cheio de papéis de chocolates e lenços assoados. O fato é que uma das tarefas das terapias é lançar um olhar nesta tal de Persona e ir subtraindo, pouco a pouco, seu poder. De preferência, trazer um pouco da emoção que se esconde debaixo da máscara. A Máscara costuma ser um lugar solitário. Tirá-la do rosto, quase sempre, dói, porque parece que está aderida à pele. Sem essa proteção tem muita gente que se sente nua. Talvez por isso que é tão difícil para os médicos retirarem seu jaleco e passarem a ser cuidados por outra pessoa, por exemplo.
Na semana passada estava de férias, e via em New York uma nova forma de pedintes: pessoas nem tão mal vestidas, sentadas na calçada, com um papelão de caixa dizendo: “Sou um sem teto e preciso de ajuda”. O mais impressionante é a expressão de tristeza trágica, uma verdadeira máscara de tristeza que ocupa o rosto dessas pessoas, sim, mais de uma pessoa. Havia pelo menos três pessoas diferentes fazendo essa estranha perfomance. Nessa época de Reality Show, cheguei a pensar que aquilo era uma espécie de intervenção, uma instalação de Arte Conceitual, como havia aquelas vacas coloridas espalhadas pela Paulicéia, a Cow Parade, há pouco tempo. Uma pegadinha, quem sabe. Por que me causou tanta estranheza, nossos mendigos são mais criativos que os mendigos de Primeiro Mundo? Não, não foi isso. O que me causou estranheza foi a máscara de tristeza e seu efeito anti empatia. Talvez por isso eu achei que fosse trote. Aquela tristeza não me gerava compaixão, eu que sou brazuca, imagina os ianques, que vivem naquele “Help yourself or die” ( em tradução livre, “Se vira nos trinta ou morra”). Quase falei sobre a meditação taoista, e o poder de rir para si mesmo e para quem passa na calçada. Garanto que seria um projeto de marketing muito melhor, gerando muito mais moedas. Essa será a campanha da semana, para os visitantes desse blog: pratique o sorriso interior (o exterior também é aconselhável).

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Esperança em Brasa

São muito antigos os estudos em bebês submetidos a um período de isolamento em instituições. Quando pedem por ajuda, o bebê começa com um resmungo, que vira choro e, se o pedido de ajuda continua sendo ignorado, por uma razão ou outra, o choro ganha contornos de agitação desesperada, que dura um tempo de fúria e resfolegos. Após um tempo em que esse choro não produz ajuda nem resultado, o bebê entra numa espécie de torpor e indiferença quanto aos estímulos do meio e a capacidade de interagir e, por que não dizer, confiar nas pessoas que lhe cuidam. Se o abandono é prolongado, o bebê pode ficar cada vez mais alheio e “frio” quando recebe estímulos amorosos.
George Vaillant, em seu livro “Fé”, descrito em outros posts deste blog, cita um estudo em que ratos são encurralados em um canto de sua gaiola e recebem choques elétricos (não fui eu que projetei esses experimentos, mas eles produziram belos modelos sobre a construção do medo em nosso Cérebro. Obrigado aos bravos roedores). Os ratos são divididos em dois grupos: o primeiro não tem como fugir e, após um tempo, entram no mesmo estado de torpor dos bebês abandonados. O termo técnico para isso é “Desamparo Aprendido”. Outro grupo de ratinhos conseguiu fugir de seus agressores e continuou tendo um comportamento semelhante ao normal depois do ocorrido. Finalmente, para completar o estudo, foram injetadas células cancerosas nos dois grupos. A amostra dos ratinhos “esperançosos”, os que conseguiram fugir dos choques, teve uma sobrevida e recuperação espetacularmente melhores: apenas 27 por cento dessa amostra veio a morrer de Câncer, em detrimento de 63 por cento dos ratinhos sem esperança, os que não encontravam saída.
Fico pensando nesses estudos quando vejo aqueles médicos americanos cheios de números e estatísticas avisando aos pacientes que a vaca provavelmente está indo para o brejo e não vale a pena alocar as esperanças contra os números. No filme “Dallas Buyers Club”, também citado em posts anteriores, o médico do PS chega para o personagem principal do filme e avisa que ele é soropositivo e desenvolveu a AIDS, e, pelos exames, não chegaria a ter um mês de vida. O cowboy mandou-o para vários lugares e saiu pelo mundo estudando e procurando ajuda, contra o esperançocídio que o colega tinha executado com suas palavras objetivas e científicas. Ele sobreviveu por alguns anos e ajudou muita gente a enfrentar o surto inicial da AIDS com a sua esperança e sua recusa de se curvar diante do tal do realismo que lhe foi esfregado na cara. Em tempos de Ebola, é bom lembra dessas histórias.
Nosso Cérebro tem uma capacidade ímpar na natureza de fazer projeções do Futuro. Isso é uma vantagem evolutiva extraordinária, assim como uma fonte de encaminhamento psiquiátrico, quando as projeções de futuro são sempre uma negação da esperança. O fato é que se agarrar a planos mirabolantes e esperanças infundadas destroem tantas vidas quanto as pessoas que aprendem a não esperar nada de si nem do outro, nem da vida.
Irving Yallon, autor de Best Sellers Psi como “Quando Nietzsche chorou”, confessou em um de seus livros sobre a prática da psicoterapia que, um dos melhores trabalhos que conseguiu realizar em sua vida de terapeuta foi continuar animando e dando suporte aos seus pacientes nas horas mais difíceis, na hora em que tudo fica escuro e tudo parece que vai dar só errado. Essa foi uma opinião muito corajosa, porque os terapeutas também são criados para serem muito objetivos e neutros, não a ficar gritando da arquibancada: “Vamo’ lá! Não desiste, continua remando, continue andando no túnel (sem luz no final)!” Concordo com ele. É das tarefas mais nobres da terapia, manter a brasa da esperança acesa. E tome sopradas. Quanto mais vezes encontramos a saída, mais valentes ficamos.

domingo, 3 de agosto de 2014

Carpe Diem

Há uma série de pequenas palestras no Youtube e outros canais da web, chamadas TED Talks. O subtítulo é “Ideias que Vale a Pena Espalhar” (tradução livre). São inserções curtas, de até 20 minutos, sobre os temas mais diversos. Num post anterior eu falei sobre uma palestra que abordou a Não Violência. Hoje assisti um novo TED, de um garoto de 17 anos chamado Sam Berns. Há um contraste entre a sua imagem, pré humana, a sua voz de criança e a sua aparência de idoso com alguma doença terminal e a força de sua fala. Sam tem Progeria, uma doença rara onde o processo de envelhecimento celular é acelerado pela síntese de uma proteína defeituosa que afeta a membrana das células. Sam tem a aparência de um homem de mais de cem anos, pesa 23 quilos e perde o fôlego em frases mais longas. Ele imediatamente nos transmite a sensação de vergonha por nossas preocupações mesquinhas e medo da vida. Sam sabe que não vai atingir idade para materializar muitos de seus sonhos. A sua filosofia para lidar com tudo isso inclui focar o que pode fazer, não o que nunca vai poder; cercar-se sempre de pessoas que ama e olhar para frente, não gastando energia com preocupações sobre o seu futuro e, ele não menciona mas é óbvio, sua morte prematura.
Isso bem que pode terminar como um vídeo viral na Internet, daqueles que recebemos de tias e de pessoas bem intencionadas e isso seria uma verdadeira pena. A fala de Sam é muito mais profunda e delicada que um testemunho de Revista Seleções ou entrevistas em programas de variedades; Sam dá um testemunho de vida carregada de Atenção Plena, ou Mindfullness. O exercício do Carpe Diem (algo como “Aproveite o Dia, ele pode ser o seu último) para ele é um fato e um exercício diário. Olhar para frente e ter planos para o futuro é uma forma de contornar a sensação de que o futuro é um beco sem saída. Mas Sam dribla o maior risco de sua apresentação, que era de cair num otimismo bobalhóide respaldado por sua condição terrível. Ele escapa bem dessa cilada. Fala abertamente sobre os dias ruins, as crises de angústia e as ideias sombrias que o acometem, como acometem a todos nós. Essa, para mim, é a parte mais genial de sua fala: Sam sabe que não adianta ignorar nem fugir desses pensamentos. Pensamentos que com certeza devem incluir desistir de tudo e ficar em casa, esperando pela morte. Sam descreve o processo de lidar com esses pensamentos em 3 fases: Reconhecer o sentimento ruim, acolher o pensamento, deixá-lo por lá até descobrir um jeito de lidar com aquilo e superá-lo. Uma verdadeira aula de manobras cognitivas para resolver crises de angústia e pensamentos reverberantes sobre o futuro.
Pesquisas em Neurociência mostram que se macacos criados em isolamento passam a comer compulsivamente e se automutilarem. Quando colocados com outros de sua espécie, podem lutar até a morte e não conseguem fazer parte do grupo. Qualquer semelhança com humanos não é mera coincidência.
Sam aprendeu a manter a sua humanidade sendo parte de seu grupo. Ele pode causar tanto a piedade quanto o horror nos que o cercam e não conhecem. Mas a sua luta mais do que corajosa é para se manter dentro do âmbito de sua condição humana. Por isso, a sua última recomendação é “Nunca perca uma festa, se puder ir”. Essa me acertou na boca do Estômago.

domingo, 20 de julho de 2014

Amor de Proveta

Uma cliente, com seu humor deliciosamente ácido citou, há alguns anos, um estudo europeu que mostrava uma alta incidência de crianças que não tinham compatibilidade genética com seus pais, ou, no caso, com os homens que as criavam. Ela observou, entre boas risadas, que aquela era a prova científica de que as mulheres escolhiam um homem para engravidar e outro para criar o seu filho. O pior é que a ironia procede. Escolher o doador do material genético e o homem que cuida dos filhotes podem ser processos bem diferentes do ponto de vista evolutivo.
As moças não sabem, mas se queixam, nesses tempos de amor virtual e encontros no Tinder, que procuram um tipo e encontram o outro, e o que é pior, demoram muito para saber a diferença entre um e outro tipo. Saem nas baladas e encontram caras prontos a chamá-las de maravilhosas e ressaltar todas as suas qualidades, existentes e inexistentes, para conseguir a aproximação e o sucesso amoroso de uma noite de amor, que, na verdade, é uma noite de sexo. O romance termina rápido, assim como a paixão de pipoca de micro ondas, que termina após três minutos de barulho. E um gosto de isopor no céu da boca, no dia seguinte.
As espécies onde os filhotes precisam decisivamente da presença do macho para a sua sobrevivência contam com as maiores taxas de Ocitocina, um Neuro hormônio cada vez mais estudado pela Neurociência. Um ovo de pinguim, por exemplo, pode ser chocado durante semanas por um papai congelado e faminto, mas que com suas altas taxas de Ocitocina fica grudado em seu futuro bebê, mesmo que isso lhe custe a vida. Não sei como dizer isso, mas aparentemente o valor evolutivo da fidelidade masculina se restringe a esse tipo de filhote altamente dependente da presença do papi. Em primatas, nossos primos, é mais comum ver as fêmeas defendendo sua prole com a própria vida, enquanto os machos ficam catando piolhos. Os níveis de Testosterona e Ocitocina não devem ser, necessariamente, proporcionais. A minha cliente e o estudo tem toda razão: as mulheres tendem a procriar com machos ricos em Testosterona, mas vão querer criar os filhotes com os ricos em Ocitocina. Por isso que os “bad boys” costumam fazer mais sucesso do que os “bonzinhos”. Na noite e na cama. Os que sabem ser galantes, então, ganham de goleada dos caras “legais”.
Se eu ganhar da Megasena, pretendo me dedicar a vários projetos. Um deles é desenvolver uma testagem imediata dos níveis de Ocitocina para avaliar candidatos na balada. O cara chegou na menina, disse que ela é maravilhosa, dança bem, coloca o seu desejo de forma encantadora e vai ganhando a confiança da presa, digo, da pretendente, ela já está perto de sair com ele para um “lugar mais tranquilo”. Antes de dizer sim, entre um beijo ardente e outro, imagine que ela coloca um cotonete na boca do nosso candidato e, para a sua surpresa, coloca numa máquina para medida da sua Ocitocina. Já pensou? Detectar in loco o chavequeiro e diferenciá-lo do cara que realmente liga no dia seguinte e não tem dificuldade de ficar dentro de uma relação? Para ganhar dos dois lados, poderíamos fazer também um spray de Ocitocina, para o candidato se aplicar antes do “Bafômetro do Amor”.
Não está longe o dia, senhoras e senhores, que o amor vai ter um diagnóstico laboratorial.


domingo, 6 de julho de 2014

Neymar e a Banalidade do Mal

O psiquiatra suiço Carl Jung era filho de um pastor protestante. Seu pai era um homem fraco e deprimido que morreu prematuramente. É justo imaginar que uma boa parte de sua obra psicológica foi uma forma de responder a questões que seu pai se recusava a tentar entender. Para Jung, o Bem, o Mal, a vida e o ensinamento de Jesus eram uma verdade psíquica viva e atual, algo para ser compreendido, não ser sepultado debaixo do cimento do Dogma. O seu pai defendia que o Dogma deveria ser respeitado e pronto. Jung dedicou uma boa parte de sua vida para demonstrar que essa visão não era a mais correta.
Obviamente, Jung andou às turras com Protestantes, Católicos e, por outros motivos, com os Judeus. Uma das pendengas com a Igreja Católica foi sobre a natureza do Mal. Jung discordava que o Mal seria apenas algo que ocorre pela privação do Bem. Essa ideia está gravada de maneira mais profunda em nossa Psique e Cultura do que podemos imaginar. Quando se estuda um sociopata ou um serial killer, logo vamos procurar por terríveis abusos e privações de infância. É claro que na maioria dos casos, vamos encontrar. O imprinting da violência e do abandono de transmite de geração em geração, e filhos de mães abandonadoras vão ter uma chance bem maior de reproduzir esse comportamento do que filhos de mães amorosas. Mas Jung via no Mal uma realidade psíquica própria. Como uma expressão de uma função na Natureza. Haveria pessoas naturalmente vocacionadas para exercê-lo, bastando oferecer a elas a devida oportunidade para fazê-lo.
Assisti outro dia ao filme “Hanna Arendt”, sobre a filósofa judia alemã que dedicou grande parte de sua obra ao estudo do Mal. Estou frisando a sua origem judaica e alemã porque isso é fundamental para entender o tema central desse filme. Hanna Arendt fugiu da Alemanha no alvorecer do Nazismo e dava aulas de Filosofia nos Estados Unidos. Foi contratada por um importante órgão de imprensa para cobrir o julgamento de um genocida nazista, Adolf Eichman, um dos executores da chamada “Solução Final”. Eichman foi identificado e preso pelo Mossad vivendo uma vida pacata na Argentina, e em nada lembrava o monstro que ordenou o extermínio de centenas de milhares de vidas de pessoas que nada fizeram contra ele. O seu julgamento foi no início dos anos 60 e sua linha de defesa frisou que ele foi um mero executor de ordens superiores e que ele não tinha a capacidade e o direito de questionar essas ordens. Transformou-se, então, num mero autômato da Morte, sem esboçar sentimento humano com relação a o que fazia.
Hanna Arendt, depois de um longo período de pesquisa e reflexão que quase levou seus editores à loucura, escreveu uma longuíssima matéria sobre o julgamento de Eichman, onde destacou a perplexidade de ver um homem tão medíocre, tão desprovido de qualquer inteligência ou capacidade especial ter sido capaz de dar a Morte uma característica industrial, como uma linha de montagem. Hanna analisou no mesmo ângulo os judeus que colaboraram com os nazistas nos Campos de Concentração e os jovens oficiais germânicos que mandavam seus semelhantes para a morte em massa sem nenhuma culpa e, acima de tudo, sem nenhuma reflexão. Esse foi o tema mais importante do artigo de Hanna: o Mal havia se tornado algo banal e qualquer imbecil poderia assumir o comando da linha de montagem. Obviamente que seu artigo foi incompreendido, para dizer o mínimo, e ela sofreu um verdadeiro linchamento intelectual e moral após a sua publicação. O filme mostra a sua tentativa irredutível de defender o seu olhar em contraponto a todos que queriam transformar o oficial nazista num titã da maldade. Foi classificada como uma traidora de seu povo e da compaixão humana. Hoje, mais de meio século depois, a sua visão sobre o Mal continua sendo comprovada, até pela Neurociência.
Neymar saiu da Copa do Mundo graças a uma joelhada de um jogador da Colômbia, Zuniga, que se caracteriza pelo excesso de vigor físico em detrimento de um Cérebro pouco privilegiado. Se houvesse um poste em campo, correria o risco de um Trauma de Crânio, pois corre sempre em linha reta e de cabeça abaixada. Neymar fez algumas firulas encima dele durante o jogo. O que me convence que a joelhada de Zuniga foi um ato de maldade banal e estúpido foi a sua reação posterior, de se eximir completamente do ocorrido, como um lance normal de jogo. Nenhum tipo de sentimento pelo ocorrido. Um ato banal e sem sentido de agredir um semelhante que ganha em um trimestre o que Zuniga não receberá em toda a sua vida.
Jung e Hanna Arendt tinham, ambos, razão. O Mal existe e se manifesta melhor onde campeia a estupidez.

domingo, 29 de junho de 2014

Pátria Límbica, Brasil

Experimentos com hamsters, hoje clássicos, demonstraram que o amor não estava no Coração, como diziam os poetas, mas no Cérebro Límbico, o Cérebro Emocional. Se o Neocortex, o que podemos chamar de Cérebro Racional, é removido, os roedores não aprendem mais como sair de labirintos, mas continuam cuidando atenciosamente de seus filhotes. Por outro lado, se as áreas emocionais forem ligeiramente danificadas, os bichos vão resolver qualquer labirinto, mas vão deixar os filhotes morrerem de fome. Há uma relação do afeto com o córtex olfativo, usado pelas ratinhas para localizar as suas crias no escuro. A tal da “Química” entre casais é talvez seja química mesmo, com uma compatibilidade de cheiros, gostos, texturas. Isso que está na base de relações que dão, ou não, liga.
Quem acompanha esse blog sabe que eu já escrevi um texto de apoio e admiração pelo Felipão, técnico da seleção nesta Copa. Felipão é um técnico eminentemente Límbico, pode-se assim dizer. Abraça e beija seus jogadores, xinga juízes e dá peitadas em oponentes. Quando era técnico de Portugal deu uma cabeçada em um beque adversário. No início da carreira, deu uns cascudos em Wanderley Luxemburgo dentro de campo e só por isso já merecia colocar as mãos na Calçada da Fama. Felipão descarta jogadores que não tenham “Espírito de Seleção”, o que eu desconfio que foi o motivo de não chamar o Robinho. Ele sabe que para ganhar os sete jogos que separam uma seleção da taça é preciso foco e motivação absolutas. O problema é que a sua ênfase no aspecto emocional e amoroso do grupo está transformando nossa seleção num bando de mariquinhas. Eles choram abraçados, choram no hino, choram na zona mista, choram antes, durante e depois da decisão por pênaltis contra os tampinhas do Chile. Como os ratinhos de laboratório, a retirada do Neocortex deixa a galera unida, a família Scolari aos prantos, e jogar bola, que é bom, nada. Precisamos de Cérebro para entender o jogo, criar situações inesperadas e executar o adversário de maneira sumária e implacável. Chega de caras fofinhos que entram em campo de mãos dadas. Precisamos de gente de má índole, sobretudo na hora em que passa pela cabeça dos jogadores o que vai acontecer se milhões e milhões de brasileiros se decepcionarem mais uma vez com o futebol.
Uma característica dramática das crianças autistas é a sua capacidade de identificar e retribuir as manifestações de afeto. A doença de Asperger, que está dentro do espectro do Autismo, deixa os pacientes como os ratinhos com lesão límbica: com uma capacidade de inteligência bem próxima ao normal, mas com uma incapacidade de entender emoções complexas, ironias ou frases de duplo sentido. Entendem a lógica, mas tem dificuldades de perceber quando alguém está irritado mas não o demonstra. E, sobretudo, não conseguem retribuir ou demonstrar as emoções que não conseguem processar.
Pode me chamar, Felipão. Vamos acabar com a choradeira e transformar os seus meninos em Autistas, que não ouvem, não sentem, não percebem o que está envolta. Só conseguem ver as traves do adversário e a necessidade de enfiar a bola lá dentro. Várias vezes. Emoção, só com o caneco na mão.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Planeta das Macacas

Estava lendo um estudo em Neuroeconomia. Tudo o que se coloca um “Neuro” ou uma “Neurociência” na frente ganha imediatamente uma aura de respeitabilidade, mas esse é outro assunto. No tal estudo os pesquisadores introduzem a um pequeno grupo de macaquinhos um sistema de trocas: pequenas moedas ou fichas são trocadas por bananas e outras guloseimas símias. Depois de meses em que o nosso pequeno primo evolutivo aprende o valor numérico das fichas, ou seja, quanto mais fichas, mais bananas, vai que um pequeno e safado primata oferece uma ficha para a macaquinha jovem e irresistível. Ela depois de um tempo entende que a troca é por uma transa, rapidinha. Essa é a confirmação científica de que essa é realmente a profissão mais antiga do mundo. O sujeitinho passou fome mas não abriu mão da pegação. E a menina passou a ser remunerada pelos seus dotes.
A Revolução Sexual foi libertária para a mulher, mas tirou dela o poder que a pequena macaquinha descobriu com as suas fichas. O poder do não. O macho da espécie não precisa mais impressionar, declamar poesias, impressionar a fêmea para conseguir, depois de muito esforço, provar do néctar de seu sexo, ou de uma “prova de amor” (quando eu era moleque, lia tudo o que caía em minhas mãos, inclusive uma coleção de revistas femininas das casas das tias. Lá as moças ainda falavam se deviam ou não oferecer uma “prova de amor” para o namorado. Imagina só).
Outro dia eu dava a minha tradicional zapeada na TV a Cabo e me deparei com um documentário meio ginecológico de mulheres falando de sua sexualidade. Close up numa moça bonita que declara, solenemente, que evita dar para o cara nos primeiros encontros. Discutia o poder do não, para fidelizar o cliente, digo, o homem. Muda a câmera, close up na sua irmã gêmea, que declara que a regra é boba, a vida é curta e se ela quer dar de primeira, dá e acabou. Acabou emendando que a irmã passou meses para liberar para um cara, quando finalmente chegou o grande momento, o cara falhou. Muita expectativa para o rapaz. ( Na série do GNT, “Surtadas na Yoga”, uma moça comenta com a outra que as mulheres exigiram tanto que os homens sejam mais sensíveis que eles viraram um bando de mariquinhas. Acho que a moça fez suspense e o cara, na hora H, virou uma mariquinha).
As mulheres de hoje parecem a indústria fonográfica: não sabem direito mais o que e como vender. Perderam o poder da espera, do interesse gerado pela interdição. Amor e sexo em tempos de internet, que canseira. Pois o macaquinho acima citado tinha que passar fome para poder ganhar uma transa extra, já que a mocinha sabia que tinha o que ele queria, e não iria liberar de graça. Será que as feministas leram sobre esse estudo? Talvez seja a hora das revistas femininas darem uma boa olhada nessas pesquisas. Só para constar: estou com a primeira gêmea. Para ganhar a moça, precisa gastar as suas fichinhas.

domingo, 28 de abril de 2013

O Homem mais Feliz do Mundo

Quando o Dalai Lama interessou-se pela Neurociência, particularmente pela ação da Meditação no Cérebro Humano, ele foi buscar nos monges tibetanos uma cobaia perfeita. Matthiew Ricard era um francês que após concluir seu doutorado no Instituto Pasteur, resolveu largar tudo e se dedicar a ser um monge tibetano. Depois de décadas de prática meditativa, ele seria o cara para o estudo, uma vez que entendia tanto o mecanismo da Meditação como o Método Científico, uma espécie de religião materialista do Ocidente.
Descobriu-se que esse homem tinha uma ativação impressionante das Áreas Pré Frontais esquerdas, quando o assunto era felicidade, prazer, compaixão. Era uma ativação até oito vezes mais intensa do que os controles que entraram no estudo. Logo o monge francês ganhou o apelido, dado pela imprensa, de “O Homem mais Feliz do Mundo”. Para um homem que praticou a renúncia em toda a sua vida, foi um apelido e uma publicidade meio incômodos, mas tudo bem. Estava documentado que o trabalho que fizera em todas as horas solitárias de meditação realmente modificava as redes neurais e a função dos neurônios. O que hoje parece óbvio demorou muito tempo para ser referendado pelo Método Científico: a nossa Mente interfere e modifica o Cérebro. Escrevi sobre isso no post do último Domingo. Podemos alimentar o Bom ou o Mau Cão que habita o nosso Cérebro. A Mente é treinada evolutivamente para a hostilidade, o pessimismo, o medo, a pressa. Qualquer editor de tablóide sabe que um crime bizarro vende muito mais jornal do que uma cura de uma pessoa que abandonou os seus pensamentos de ódio. O treinamento meditativo diminui a violência e transforma a vida de presos perigosos e violentos, outro fato documentado em estudos.
Impressionante o depoimento da mãe da dentista queimada viva em seu consultório porque não tinha dinheiro na conta para dar a seus sequestradores. Ela disse que esses quase meninos que perpetraram essa barbárie, se presos, só vão aprimorar a sua capacidade de praticar atos criminosos. O nosso sistema prisional não consegue, na maior parte dos casos, recuperar ninguém, mas antes consolidar essas pessoas como seres isolados e apartados da sociedade e contra ela eles vão se voltar, como anticorpos que se voltam contra as suas próprias células.
Somos uma nação eminentemente cristã, mas é mentira que não podemos ter familiaridade com alguma prática meditativa. Há alguns anos eu fazia umas sessões de meditação, feitas por um monge argentino (pode-se dizer que eu já gostava de um argentino antes da eleição do Papa Francisco), e ele pedia para a gente vislumbrar o Buda da Compaixão. Para mim, o Buda da Compaixão é o Sagrado Coração de Maria, ou é Jesus pendendo na cruz, pedindo perdão pelos que “não sabem o que fazem”. Não preciso buscar nenhuma outra imagem. Rezar um terço é praticar a Mente Presente. A meditação é o trabalho de se voltar para o Aqui/Agora da mudança de nossas redes neurais de medo, de hostilidade, de autodecepção. Não é preciso ser budista, nem mesmo ter qualquer crença religiosa para fazê-lo. Aliás, quem não tem nenhuma crença metafísica, isso é, da existência de qualquer coisa fora do seu reino material, pode acreditar no Método onipresente, o Método Científico, que comprova a boa ação dessa quietude em nossas redes neurais.
A felicidade não é um objetivo, mas antes, um efeito colateral. Nossa mente objetiva e finalista se perde na busca da tal da Felicidade, que se afasta sempre que tentamos agarrá-la. Essa é uma causa da distância entre os meditadores e a Civilização Ocidental: tudo aqui tem que ter um uso, uma utilidade. O nome dessa filosofia é Utilitarismo. Por essa forma de ver o mundo, rezar um terço pode ter o efeito de ativar essas áreas Pré Frontais de Alegria, ou apaziguar as Áreas Subcorticais do Medo. Isso normalmente deixa desconfortáveis os praticantes.
A Felicidade é um subproduto da prática amorosa, não um objetivo a ser alcançado. Como eu citei no texto de Jorge Luis Borges (vide o último post de 2012 ou o primeiro de 2013), “Felizes os felizes”.

domingo, 14 de abril de 2013

Os Cães

Durante a minha fase de formação e alguns anos depois, costumava ouvir de um cara que frequenta a mídia como luminar da Psiquiatria, que, Psicoterapia, sobretudo nas suas vertentes analíticas, tem uma função importante de autoconhecimento mas não tem efeitos de cura, ou melhora dos sintomas. Do outro lado do muro, bons psicanalistas defendem que a análise serve para desenvolver a consciência do freguês como um todo, o sintoma vai no embrulho. Parece estranho, mas nesse ponto parecem que as visões são tão opostas que acabam se tocando: as Psicoterapias Profundas não tem como objetivo melhorar sintomas. Antes disso, devemos desenvolver a Psique como um todo. Bobagem de um lado. Bobagem do outro.
As descobertas da Neurociência, que tiveram um grande impulso na década de 90, demonstraram que a Mente atua decisivamente no funcionamento Cerebral. Pensamentos de alegria ou de felicidade ativam áreas cerebrais e são processados de forma diferente de pensamentos de tristeza ou angústia. Isso me lembra uma parábola de um monge ou um guia espiritual que dizia que dentro dele havia dois cães: um do Amor, outro do Ódio. Os alunos perguntaram para ele qual dos cães seria o mais forte. Ele respondeu: aquele que eu alimentar mais. Pela Neurociência moderna, sabemos que o monge estava sendo bastante otimista, para dizer o mínimo. Em nosso Subcórtex, temos um cão muito maior para o Ódio do que para o Amor. O medo, a necessidade de domínio territorial, a luta pelo alimento e melhores condições de perpetuação de seu genoma, são um imperativo inconsciente que nos movem mais do que gostaríamos de admitir. Alimentar a Mente com sentimentos de Amor e respeito pelas diferenças com o Outro é dar de comer a um cão muito menor, muito mais frágil do que o outro que é o da desconfiança, da defesa de interesses e da disputa. Destruir é mais fácil do que criar. Defender é mais fácil do que confiar. Alimentar o cão menor e fazê-lo crescer é uma tarefa e tanto, que dura alguns anos e demanda uma crença e uma convicção muito grande nesse caminho. O caminho do Ódio e da Divisão vende jornais e aumenta o Ibope de programas popularescos. O deputado Marco Feliciano que o diga: está exultante com o foco e a atenção que sua insignificante pessoa tem recebido através de um discurso sectário e de manipulação do Medo e da Divisão. Bater nele é vitaminá-lo, é dar a um político inexpressivo um valor de divisão que ele não tem. Mas a mídia gosta do enfrentamento, da divisão.
No âmbito da psicoterapia profunda, Symbolon é aquilo que une, que junta os mundos do Real e do Imaginário; Jesus é um Símbolo da união do Mundo Externo com o Mundo Interno. O “Eu e Meu Pai somos Um” tem a ver com isso. Dia-bolon é aquele que separa, que divide. Eles são funções complementares em nossa vida, mas é sempre mais fácil dividir do que somar em nossa matemática psíquica.
Uma boa psicoterapia, seja de qual linha terapêutica for, é aquela que une, que sintetiza o que antes estava despedaçado dentro de uma Psique. Para isso, pode buscar alimentar o Cão do Amor, com escuta, compreensão, amplificação do Sintoma. O Cão do Ódio e do Medo é sempre mais forte, por isso que fazer Psique é tão delicado e tão difícil. Uma vez eu dei supervisão para uma jovem terapeuta corporal. Ela estava surpresa com a quantidade de espetadas e de raiva que tocar no corpo das pessoas gerava. Falei para ela que se queria ser terapeuta, era bom engrossar o couro porque ainda tomaria muita porrada em sua prática. Ela aposentou a maca e hoje se dedica a uma boa carreira como decoração de interiores. Ou decoração de exteriores, pois quem redecora os interiores somos nós. Terapeutas.

domingo, 7 de abril de 2013

Karma Evolutivo

Estou lendo um livro chamado “Retornando ao Silêncio” de um monge budista que emigrou para os EUA, mas lembra de muitas histórias da sua terra natal, o Japão. Uma delas era a respeito de seu mestre. Desde o início de sua aprendizagem, o Mestre dizia que ele nascera paraa ter sorte. Várias vezes durante a passagem pelo mosteiro, o homem observava que ele era uma pessoa naturalmente propensa à ser afortunado, o que lhe causava alguma inveja. Os fatos confirmaram as ideias do Mestre: o seu Templo pegou fogo, os seus monges foram embora, e sua tristeza foi se tornando cada vez mais profunda. Dizia que plantava sementes boas nessa vida para viver melhor nas próximas, acumulando mérito. A primeira vez que eu li, pensei: “Ai meu Deus, o tal do japa tinha Depressão, não tratou, o quadro se aprofundou e destruiu a vida dele”. Mesmo uma pessoa com todos os fatores de proteção para um quadro depressivo, como boa e saudável alimentação, vida não sedentária, meditação por horas ao dia, uma prática religiosa altruísta e uma rotina com muito pouco estresse, todos esses fatores de proteção e o Mestre foi destruído por um único pensamento, que cresceu como um vírus até tomar conta de toda a sua vida: a sensação de que não era uma pessoa destinada a ter sorte. Esse era o seu Karma, e esse sistema de crenças tornou-se uma programação inconsciente que ganhou vida em sua Psique. Jung chamou essa metaprogramação de Complexo: um agregado de ideias cercadas de imensa e oculta carga afetiva, que influencia a nossa vida consciente e, algumas vezes, toda a nossa vida. Quem pode saber de onde surgiu essa ideia viral: se o cara era ruim nos esportes, ou perdia os jogos, ou nunca provou da alegria de estar vivo ou viu nos olhos da mãe essa alegria.
Em nosso Genoma temos populações genéticas para todas as características. O ambiente pode ativá-las ou inibi-las. Jung descrevia uma informação inata, universal, que poderia ser ativada e acessada. Filhos de alcoólatras e abusadores podem se tornar grandes pais, mulheres maltratadas pelas mães podem virar mulheres amorosas e cuidadosas com suas filhas. Olhar para as características que desaprovamos e ativarmos outras é uma tarefa de todos nesse mundo, talvez seja esse nosso Karma evolutivo: pegar o legado que nossos mentores e ambiente nos impõe e transformá-lo em coisa melhor para quem vem depois. O que ocorre de maneira mais comum é essas dores ou sementes de dor ficarem gravadas no fundo de nossas redes neurais, causando estragos.
Mesmo um monge que pratica o bem durante a maior parte de seu tempo pode ficar envenenado por um simples ideia: “Eu não nasci para ter sorte” e esse núcleo de crença virar progressivamente autopiedade, inveja, tristeza. As velhas pragas da mente que catamos todo dia e que não param de nascer. Para mim, o otimismo consiste na prática diária de plantar boas sementes, ou ativar boas populações genéticas, para tornar a vida das pessoas melhor e menos sofrida. Jesus advertiu que “o Mal é o que sai da Boca” e tinha toda razão. As palavras, pensadas ou faladas, podem fazer muito estrago.

sábado, 6 de abril de 2013

Cérebro, Mente, Psique

Acabei de abrir e-mail da colega e amiga Luciana Magalhães, que me passou comentários no Facebook sobre esse blog, que ela gentilmente divulgou. Fiquei particularmente mexido com os comentários do grupo de Ernani Fornari, que fazem um trabalho que me chegou ao conhecimento através da Lú, da Terapia do Realinhamento Energético. Ainda sei pouco sobre essa forma de terapia, mas já li e assisti um vídeo do Ernani e já percebi que ele compartilha dessa mania de síntese, que eu sei que é um caminho longo e tortuoso. Ernani é um buscador e mete o bedelho em toda forma de conhecimento que possa ajudar na Cura e nesse ponto, imagino que nossos trabalhos, embora bem diferentes, sejam muito próximos. Muito obrigado ao grupo pelos comentários e já os convido para comentar aqui mesmo, neste blog. Será uma honra.
Luciana também colocou o texto em um grupo junguiano. Li um comentário em inglês de um terapeuta junguiano americano desancando o meu texto, falando que eu me autodenomino “Terapeuta de Orientação Junguiana” mas sou mais um seduzido pela Ciência Materialista que acho que a Psique é um produto do Cérebro e que uso o termo Brain (Cérebro) muito mais do que Mind (Mente) ou Psique. Que delícia. O ataque é meio bobo e sectário, embora bastante compreensível, já que ele deve ter lido um post do departamento de Neurociência desse blog, coordenado pelo mesmo autor dos posts junguianos, no caso, eu. O bacana é criar debate e levantar questões. Vou contar uma pequena história pessoal para ilustrar esse assunto, e para esclarecer do que se fala neste blog.
Nos idos dos anos 90, eu fazia parte de um grupo do Instituto de Psiquiatria. Nossa verba era limitada e passamos a organizar cursos para pagar nossas contas, da secretária ao computador. Aproveitei a ocasião para falar do que realmente interessava: uma reflexão sobre o trabalho complementar da Psiquiatria e Psicologia na Clínica diária. O nome da série era: “Psiquiatria e Psicologia: Uma Ponte Possível”. Tudo bem que quase duas décadas depois está mais para “Uma Ponte Longe Demais” do que uma ponte possível. Lembro nitidamente de uma aula que eu preparei sobre Esquizofrenia, e da leitura tripla que tentei na época: os achados clínicos e como eles se agrupavam no que hoje entendemos como um espectro sindrômico; os achados biológicos e como funcionava o Cérebro de um paciente com esses sintomas; finalmente, descrevi como o então jovem psiquiatra suíço, Carl Jung, descobriu o Inconsciente Coletivo em uma frase de um paciente que hoje seria chamado de esquizofrênico. O paciente disse para Jung que o vento se formava a partir do movimento do pênis do Sol, que se movia para frente e para traz. Jung já era um estudioso de Religião e Mitologia comparadas. A ideia do Pênis do Sol existia na Mitra, uma das mais antigas mitologias do mundo. A Psique do paciente tinha reproduzido aquela ideia, e não havia a menor chance dele ser um estudioso da mitologia mitraica. A Esquizofrenia poderia ser, também, uma psique aberta para o Inconsciente Coletivo, como os xamãs eram e são. Ao final da aula, o chefe do grupo pediu a palavra e me desancou na frente de 200 pessoas, dizendo que aquela aula não representava o nosso grupo, era pessoal e não comprovada cientificamente. Não respondi, pois as pessoas não entenderam o ataque, mas na primeira reunião do grupo observei, com aquela moderação que temos aos vinte e poucos anos, que faltava cultura psiquiátrica, psicológica e científica para ele para entender aquela aula. E que a opinião dele não era a opinião do grupo, mesmo ele sendo nosso chefe. Não é uma coisa boa para se falar ao seu chefe, muito menos em público. Foi o último curso que eu organizei, e a Psiquiatria que ele defendia está no poder em todos esses anos. A Psicologia Profunda é vista como uma espécie de curiosidade e as Terapias consideradas são as de Orientação Comportamental e Cognitiva, passíveis de validação empírica.
Esse blog representa essa tentativa de síntese: me interessam, muito, os avanços da Neurociência; as intervenções a Nível de Ego, como as Terapias Comportamentais, ajudam milhares de pacientes, todo dia; a medicação bem empregada muda e transforma sofrimentos humanos atrozes; o trabalho na Psique Profunda chega nas verdadeiras origens do sofrimento e produz as verdadeiras transformações, as que vem de dentro, não de fora. Finalmente, não consigo acreditar numa clínica junguiana que não seja Multidimensional, onde Cérebro, Mente e Psique não se transformem entre si. Sei que isso gera incompreensão e ataques de todos que defendem o seu quadrado. Mas está na hora de se arrebentar com os quadrados para formarmos um mosaico.