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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Que Os Homens Querem

Acho que neste post vou conseguir comprar muitas brigas: com militantes feministas, admiradores de Futebol Americano e fãs de cinema no Brasil. Não necessariamente nesta ordem.
Há uma palestra de uma terapeuta de casal e estudiosa das relações a dois, Esther Perel, em que ela faz uma deliciosa provocação, na minha opinião com um alvo certeiro: uma certa moral pós feminista. Esther fala de infidelidade conjugal com acidez e argúcia, e nas entrelinhas vai desenhando que não é uma pulada de cerca que vai obrigatoriamente encerrar uma história de amor. Ela surpreende ao dizer que, hoje em dia, a vergonha é ficar. Hillary Clinton está se havendo com esse novo moralismo, com pós feministas se descabelando por ela não ter abandonado o marido safado, autor de traições e mentiras que comprometeram o país, a história e sua família. Como não abandoná-lo? A vergonha é perdoar, ou, na ausência do perdão, não abandonar o sacana. O Feminismo, neste ponto, exclui e tolhe o Feminino. Freud desistiu de entender, afinal, o que querem as mulheres? Eu posso sugerir sobre o que querem os homens... Querem mulheres que exerçam a feminilidade.
Não gosto particularmente de Futebol Americano. Parece um bom pretexto para marmanjos ficarem de agarro. Sem falar dos uniformes colantes e das ombreiras. Macheza quando é muita acaba dando a volta e virando outra coisa. Mas tudo bem. Já cutuquei as feministas, agora os gorilas do Football.
Adoro o “Football Movie” “A Grande Escolha”. Cuidado para não confundir com “A Grande Aposta” filme atual e oscarizável. Nunca duvide da falta de imaginação dos títulos de filmes em Português. “A Grande Escolha” é um filme sobre o Draft Day do Futebol Americano, onde os times profissionais vão escolher novos atletas para a temporada, geralmente egressos dos times universitários. O filme é sobre o manager do Cleveland Browns, Sonny Weaver Jr, que é o cara que vai fazer as escolhas e as trocas de jogadores e de tudo o que se pode imaginar. Para quem não é acostumado com o esporte e o Draft, é um filme quase incompreensível. É melhor assistir um filme iraniano.
Pois o filme é bem legal e fala, basicamente, de um homem dividido entre as suas intuições profundas e as opiniões enlouquecidas de torcida, presidente, técnico e até de sua mãe. Mas tem alguém que se destaca nesta bagunça: a namorada do manager, que começa o dia contando para ele que está grávida, mas compreende sua reação sem graça no dia do Draft. Se as meninas, e as feministas, quiserem saber o que querem os homens, prestem atenção na namorada de Sonny, Ali. Está tudo lá. Ela é a escuta profunda, que entende quando o seu homem fraqueja, e erra, mas sobretudo, acredita o tempo todo em sua intuição e astúcia. Ela sabe que ele pode inventar um jeito paradoxal de sair do buraco que ele próprio cavou.
Ali, que é interpretada com segurança e delicadeza por Jennifer Garner, tem uma beleza pouco óbvia, é suave, delicada e, sobretudo, absolutamente atenta ao homem que ama, ajudando em sua travessia e entendendo, ao contrário de sua mãe mocréia, tudo o que se passa com ele no dia mais difícil do ano. Ela é a personificação da Anima de Sonny, o Feminino que acolhe, regenera e mostra as linhas tortas que levam o homem a encontrar o seu caminho. E, além de tudo, gosta e entende de Futebol. Só no cinema, mesmo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Planeta das Macacas

Estava lendo um estudo em Neuroeconomia. Tudo o que se coloca um “Neuro” ou uma “Neurociência” na frente ganha imediatamente uma aura de respeitabilidade, mas esse é outro assunto. No tal estudo os pesquisadores introduzem a um pequeno grupo de macaquinhos um sistema de trocas: pequenas moedas ou fichas são trocadas por bananas e outras guloseimas símias. Depois de meses em que o nosso pequeno primo evolutivo aprende o valor numérico das fichas, ou seja, quanto mais fichas, mais bananas, vai que um pequeno e safado primata oferece uma ficha para a macaquinha jovem e irresistível. Ela depois de um tempo entende que a troca é por uma transa, rapidinha. Essa é a confirmação científica de que essa é realmente a profissão mais antiga do mundo. O sujeitinho passou fome mas não abriu mão da pegação. E a menina passou a ser remunerada pelos seus dotes.
A Revolução Sexual foi libertária para a mulher, mas tirou dela o poder que a pequena macaquinha descobriu com as suas fichas. O poder do não. O macho da espécie não precisa mais impressionar, declamar poesias, impressionar a fêmea para conseguir, depois de muito esforço, provar do néctar de seu sexo, ou de uma “prova de amor” (quando eu era moleque, lia tudo o que caía em minhas mãos, inclusive uma coleção de revistas femininas das casas das tias. Lá as moças ainda falavam se deviam ou não oferecer uma “prova de amor” para o namorado. Imagina só).
Outro dia eu dava a minha tradicional zapeada na TV a Cabo e me deparei com um documentário meio ginecológico de mulheres falando de sua sexualidade. Close up numa moça bonita que declara, solenemente, que evita dar para o cara nos primeiros encontros. Discutia o poder do não, para fidelizar o cliente, digo, o homem. Muda a câmera, close up na sua irmã gêmea, que declara que a regra é boba, a vida é curta e se ela quer dar de primeira, dá e acabou. Acabou emendando que a irmã passou meses para liberar para um cara, quando finalmente chegou o grande momento, o cara falhou. Muita expectativa para o rapaz. ( Na série do GNT, “Surtadas na Yoga”, uma moça comenta com a outra que as mulheres exigiram tanto que os homens sejam mais sensíveis que eles viraram um bando de mariquinhas. Acho que a moça fez suspense e o cara, na hora H, virou uma mariquinha).
As mulheres de hoje parecem a indústria fonográfica: não sabem direito mais o que e como vender. Perderam o poder da espera, do interesse gerado pela interdição. Amor e sexo em tempos de internet, que canseira. Pois o macaquinho acima citado tinha que passar fome para poder ganhar uma transa extra, já que a mocinha sabia que tinha o que ele queria, e não iria liberar de graça. Será que as feministas leram sobre esse estudo? Talvez seja a hora das revistas femininas darem uma boa olhada nessas pesquisas. Só para constar: estou com a primeira gêmea. Para ganhar a moça, precisa gastar as suas fichinhas.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Adeus Também Foi Feito pra se Cuidar

Um assunto importante em qualquer consultório de Psiquiatria e Psicologia é a separação. Muitas caixas de lenços de papel são consumidas no processo, ou nos processos de separação. Fico me perguntando se não deveria haver uma espécie de cuidado que um casal poderia ter com ele. Normalmente, as separações não são consensuais. Algumas, a minoria, terminam em tragédia. Sempre há o parceiro (a) que toma a iniciativa e o outro (a), renitente, que faz de tudo para evitar que a relação termine. Uma vez atendi um homem que me pediu, meio embargado, para ser submetido a um Exame Psíquico completo para decidir se estava mentalmente são para decidir pelo divórcio. A mulher o manteve anos dizendo que queria sair da relação porque era imaturo, neurótico, fixado na mãe ou com qualquer problema edípico para querer ir embora. Deixou de aventar apenas uma pequena mas importante hipótese: a de que ele não a amava mais. O homem quase pediu um Atestado de Sanidade para poder arrumar as malas e ir para a casa da mãe, o que seria entendido como mais um sintoma de fixação edípica. Reassegurei que estava em condições psíquicas para tomar a sua decisão qualquer que fosse. Ele saiu pálido de alívio pela minha porta e nunca mais voltou. A esposa deve tê-lo conduzido a outro Psiquiatra, imagino.
Uma das coisas que eu me pergunto é se não poderia haver alguma etiqueta ou acordo de bom comportamento durante uma separação. Até judeus e palestinos tem métodos de negociação e de construção de quase acordos. Isso não ocorre entre casais. Uma coisa particularmente incômoda é quando um dos parceiros declara que não quer mais, quer terminar tudo. O outro, ou a outra, pede, implora por uma nova chance. Reconhece os erros e tenta se transformar em uma semana em tudo que deixou de ser no decorrer dos anos. O parceiro, ou parceira, renitente tenta de tudo, o outro se fecha em copas. Este pedaço é particularmente difícil. Uma pessoa tenta, de toda forma, retomar contato, saber o que está acontecendo, se agarrando nos cabelos, nos pelos, no pijama, nos seus pés, como nos versos atrozes do Chico. O outro fica em silêncio. Esse é o ponto. Este silêncio. Temendo magoar ainda mais a pessoa ferida ou, mais provavelmente, temendo alguma nova cena, o desespero de um lado encontra o silêncio do outro. Eu fico me perguntando, sabendo que não há resposta para a pergunta: será que não dava para cuidar um pouco do outro, ou da outra, que está sendo abandonado (a)? Que requinte de crueldade, deixar o trabalho de elaboração para o outro, sem ajudar em nada, sem colocar com clareza o argumento mais irrespondível, que é: Estou indo embora porque não amo mais, não quero mais ficar. Fica aquela linguagem cifrada, aquele “não é você, sou eu” que acrescenta mais um abandono ao abandonado (a), que é o abandono do silêncio ou da desculpa esfarrapada. Em outras palavras: será que daria para cuidar da pessoa que está sofrendo, tomar essa responsabilidade? Por enquanto, não. A nova modalidade é despejar a pessoa no consultório do terapeuta ou do psiquiatra, quase com a plaquinha: “Fique com ele, ou com ela, doutor, que estou saindo fora”. Como deixar um beagle na porta do Instituto Royal.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Relação Abusiva

Lembro de um curso na minha pós que foi particularmente bacana e ilustrativo: como montar uma seita fundamentalista. Não chegamos ao nível de como montar um homem bomba, pois eram tempos anteriores ao 11 de Setembro. Mas a técnica básica nós aprendemos: isolar as pessoas do convívio exterior, de preferência em lugar ermo, sem muitos recursos. Se não tiver luz elétrica, melhor. Importantíssimo é impedir as pessoas de dormir, ou bagunçar todo o ciclo vigília-sono de seus trainees fundamentalistas. Repita, de diversas formas, as mensagens que você queira incutir nos “alunos”: primeiro sugerindo, depois afirmando, finalmente gritando slogans e memes que vão penetrar, de forma cada vez mais profunda, na cabeça das pessoas. Privações são benvindas: privação de comida, de banho, de luz do sol, tudo o que oferece às pessoas orientação, referência. Finalmente, incentive e premie os neófitos que repetirem as mensagens e a ideologia transmitida e questione, isole e humilhe os dissidentes e os questionadores. Em alguns dias você terá fiéis e fanáticos seguidores após uma boa lavagem cerebral.
Venho atendendo alguns casos que me fizeram lembrar dessas aulas. Não estou atendendo nenhum homem bomba, entretanto. Eles não costumam buscar tratamento. As seitas ou os grupos terroristas não são o único lugar onde as pessoas possam passar por isso. O lugar onde pode ocorrer esse condicionamento é na relação abusiva.
A fórmula é muito parecida com as das seitas. Inicialmente, o parceiro da relação abusiva vai tentar isolar a vítima, digo, o cônjuge, de seu meio social. O marido pode implicar com as aulas de dança, ou as tardes no clube; a esposa vai cismar com a pelada de final de semana ou com as Terças Feiras de carteado. Afaste a cara metade de seus amigos e dos interesses que não seja discutir a relação. Uma técnica eficaz é questionar a natureza e a real intenção das pessoas. A família também deve ser afastada, em nome do amor. Os encontros amorosos devem ser ardentes e intensos. Os desencontros também. Uma característica da relação abusiva é essa: quando é bom, é muito bom; quando é ruim, é intolerável.
A relação abusiva usa os pontos fracos do ser amado. Se a pessoa tem medo da solidão, ameace sempre e cumpra, algumas vezes, com o abandono. Uma técnica consagrada é a Dissonância Cognitiva: puna, desmereça e deixe o ser amado a pão e água, durante a maior parte do tempo. Dê afeto, reconhecimento e bons momentos de forma errática, inconstante. Isso faz que a pessoa busque, sem perceber, pelos poucos momentos agradáveis em meio a um cotidiano de cobranças e privações.
Se o leitor já viveu ou está dentro de uma relação com essas características, procure ajuda. Uma relação a dois não é um passaporte para o Paraíso, mas deve ficar, sempre que possível, longe do Inferno. É que ambos os amantes merecem e devem esperar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Mulan e a Filosofia

Sempre gostei de dar aulas de Psicologia Junguiana usando alguns desenhos da Disney, clássicos ou não. Cheguei a escrever um livro que se baseou completamente na Branca de Neve de Walt Disney, justamente por ter atravessado várias gerações, dos meus avós a meus filhos: todo mundo se rende aos figurinos retrô de Branca de Neve e ao charme dos anões. Já tivemos um técnico da seleção com o nome de um dos sete anões, Dunga (infelizmente o apelido não deixou-o mudo, como o personagem).
Nos últimos posts venho abordando, a pedido de um leitor, o tema da Donzela Venenosa, uma figura feminina que representa para o homem o canto da sereia, o estado de quase possessão e fascínio que algumas mulheres exercem sobre os homens, muitas vezes causando a sua ruína. Algumas leitoras se queixaram indagando se as mulheres já pagaram muito o pato da tal Donzela Venenosa. Desde o Genesis que aprendemos que os males do mundo e a expulsão do Paraíso se deram justamente quando Adão resolveu dar ouvidos à sua esposa, inaugurando toda uma era de maridos que fazem bobagem inspirado nas idéias das respectivas. Para piorar a situação, a salvação veio por intermédio de um Homem-Deus quem, apesar das lendas e das fofocas, parece que optou por não se casar. Senão não conseguiria salvar o mundo, afundado em prestações e despesas com os cartões de crédito. E as mulheres? Elas também não são vítimas do Masculino Negativo, o Vampiro, ou a Fera, ou o Agressor? Claro que são.
Hoje apareceu em sonho de uma cliente a imagem dela comendo um pacote de salgadinho que não era seu. Lá dentro havia uma agulha, que ela engoliu inadvertidamente. Tentou arrancá-lo com a mão, conseguiu, mas isso gerou uma infecção. Ela esperava, no sonho, a vinda do médico com o resultado do exame, para saber se ainda havia a infecção. Com as associações livres, chegamos à conclusão que ela comera as batatas de seu pai. A agulha na garganta representava a sua dificuldade de falar as coisas, sobretudo manifestar as suas necessidades, quase transplantadas da Psique de seu pai. No sonho também havia um Andrógino, um homem ambíguo que a seduzia, seduzia até ela ficar completamente envolvida. Esse cara realmente existia em sua vida e tinha esse comportamento. Após o encontro amoroso, ele sumia e passava a tratá-la como mais uma ficante de sua equipe ou pior, uma velha amiga. A infecção na garganta do sonho representa a depressão que essa brincadeira de Gosta-Se Aproxima- Se Envolve-Fica- O Cara Some acabou gerando nela. O preâmbulo aparentemente nada a ver desse post deriva desse momento da sessão, em que lembrei de um desenho dos Estúdios Disney, “Mulan”. Não sei se os leitores assistiram, é um desenho que já tem uns quinze anos.
Mulan é a filha única de uma família chinesa. Ela é moleca e tem uma relação muito especial com os bichos da pequena fazenda de seu pai. Quando tenta se qualificar para um bom casamento, único destino de uma filha de uma família medieval chinesa, o resultado é catastrófico. Mulan tem uma família pequena e amorosa. Um belo dia vem a convocação para o exército: toda família precisa mandar um homem para a guerra com os hunos. O único candidato da família de Mulan é seu pai, que tem uma lesão grave no joelho. Sabendo que ele não resistiria se fosse para a guerra, Mulan se traveste como homem e entra no exército chinês, onde vai começar a sua jornada em busca de sua própria feminilidade. Ela se apaixona por seu oficial, é claro, mas a sua identidade precisa ser escondida, sob risco de morte.
Mulan representa profundamente as questões da mulher pósmoderna. A moça do sonho, ao comer as batatinhas de seu pai, acaba engolindo uma agulha, o que representa a ferida que lhe foi transmitida diretamente. O homem que não consegue falar, não consegue se mexer e nem engolir as dificuldades da vida. Como Mulan, ela teve que se vestir de homem, fazer MBAs e competir no mercado de trabalho. Como Mulan, ela se apaixonou pelo “tenente” de sua empresa, mas teve que engolir o seu desejo para vencer no jogo corporativo. Hoje ela ajuda a velhice de seu pai e ajuda a amparar o seu “joelho” ferido. Claro que ela encontrou o seu Vampiro, o homem de sucesso que promete ser exatamente o contrário de seu pai choroso. É claro que ela comeu o pão que o diabo amassou e pisou nessa paixão. Ela veio para a psicoterapia para tratar a sua “infecção” psíquica. No sonho, já está bem melhorada. Assim espero.
O Masculino e o Feminino Negativos aparecem em nossa vida para testar nossos limites, abrir caminhos e tirar a nossa zona de conforto. É por isso que eu detesto o nome Anima ou Animus Negativo. São relações sofridas mas que, bem trabalhadas, levam uma menina como Mulan a conquistar o mundo. O que vai tornar a experiência positiva ou negativa é o que fazemos com ela.

domingo, 4 de março de 2012

Algumas Bolhas de Vazio

Não sei se as pessoas perceberam, mas estou respondendo alguns comentários do blog. Alguns comentários são uma contribuição ou uma expansão do que foi escrito. A esses não respondo porque eles não estão perguntando.
No post em que foi abordado o tema dos vários caminhos de uma Psicologia, por exemplo. Um leitor Anônimo perguntou sobre o Riso que tem depois do vazio. Isso não é um tema de Psiquiatria, por isso delicado de responder.
Passamos tanto tempo de nossa vida fugindo do vazio, ou tentando preenchê-lo, que esse tema do Riso ou do Amor no coração do Vazio é tema mais dos místicos e dos meditadores do que da Psicologia. A Física Quântica também gosta do vazio, ou do Vácuo Quântico, de onde tudo se origina.
Para a Neurociência, o Vazio também não é tão estranho. Talvez toda nova idéia, todo insight, toda criatividade dependa de um pequeno salto, em que um determinado estado de informação passa a outro patamar. É o estado de "Eureka!". Podemos usar os mesmos caminhos, as mesmas redes neurais para as mesmas funções por anos. Um belo dia, em um determinado estado de relaxamento, uma nova idéia pode mudar tudo.Tem um livro que adoro, sobre Alquimia e Homeopatia, que a autora, uma médica homeopata chamada Myria, citou um paciente querido; durante anos a fio, ele sempre foi buscar o pão e o leite pelo mesmo caminho, atravessando algumas quadras para cumprir a tarefa. Depois de muitos anos, resolveu andar mais uma quadra, encontrando o mar. Esse senhor morava há décadas e fazia esse caminho nessas décadas e, num belo dia, resolveu andar mais uma quadra e voltar para a casa pela orla marítima, ouvindo a arrebentação. Ele viu e ouviu o mar como nunca, assim como o caminho de volta da padaria virou algo completamente novo.
Acho que por isso um terapeuta é sempre inimigo do dogma. Nunca existe uma resposta só, muito menos uma verdade imutável. Nesses tempos em que um Criacionista assumiu uma cadeira no ministério da presidente Dilma, é bom saber que a nossa visão das coisas pode saltar e adquirir outros caminhos, sobretudo os caminhos que estão debaixo de nosso nariz.
Uma coisa que já foi abordada nessas mal tecladas é a dificuldade que as pessoas portadoras do que eu apelidei de Transtorno Obsessivo Amoroso tem em respeitar a fenda, a hiância que separa o Eu do Outro. As pessoas que tem essa dificuldade não toleram nenhum tipo de Vazio, nenhuma ameaça de abandono. Já invadem o vazio do Outro com cobranças, mensagens eletrônicas e de celular, posts no Facebook e no Twitter para evitar, a qualquer custo, o Vazio. Quando o candidato a amante reclama que seu Vazio está sendo massacrado pela ansiedade obsessiva do Outro, ou da Outra, pronto, lá vem as ameaças e os dramas que vão acabar de destruir a relação que nem tinha começado. O Vazio é também desesperadoramente necessário para as relações humanas.
Nas minhas poucas aulas eu costumo intimidar as pessoas pelo excesso de fala, portanto também padeço de falta de vazio. Mas vejam como uma simples pergunta pode gerar um post novo nesse blog. Parece que não, mas as perguntas sempre ajudam a esse e a outros autores.

domingo, 27 de março de 2011

Philos e Phobos

Estava lendo um estudo sobre a melhora nas taxas de mortalidade de bebês prematuros. Como muitas descobertas da ciência, essa também foi acidental. Uma enfermeira, apesar das orientações expressas da chefia de não tocar os bebês, não aguentou a choradeira e acabou massageando as costas de um prematuro. Nos outros plantões, passou a fazê-lo em outros bebês. Felizmente o tempo que passavam internados permitiu à equipe observar que os bebês massageados passaram a crescer e engordar mais do que os intocados, numa medida objetiva de melhora. Desde essa época, no início dos anos 80, pipocaram os estudos demonstrando os benefícios do estímulo e do contato amoroso para a boa ou má evoluçao de várias doenças.
Uma das coisas que os relacionamentos pós modernos perderam é justamente a incidência do tempo nas relações. O começo, o meio e o fim são acelerados pelo medo de um e o desespero de outro. Um tem medo de se comprometer, o outro o desespero de conseguir o tempo para a relação se estabelecer. O tempo para as massagens fazerem efeito e o vínculo se estabelecer.
Freud descreveu e formulou leis maravilhosas baseadas na sua impressionante capacidade de observação. Dividiu as forças básicas da Vida usando duas divindades gregas, Eros e Tanathos. Eros, o deus Cupido, é a nossa capacidade de explorar e sentirmos atração pelo Outro, pelo desconhecido, pelo o que vem por aí. Tanathos representa o fascínio e a procura inconsciente da Morte, ou da Não Vida. Basta ver o fascínio que muitas pessoas tem por histórias de doença e morte para observar as folias de Tanathos em nossa cultura. O que seria dos Datenas e de outros programas se não houvesse esse desejo de ver e procurar a desgraça? Mas hoje que acordei cedo e com sensação de humildade impressionante, vou dar um pitaco no tio Sigmund. Antes de Eros e Tanathos, temos Philos e Phobos. Não sei se a Mitologia Grega fornece divindades específicas para ambas. São antes princípios do que deuses. Os deuses representam tendências psíquicas formadas no decorrer dos séculos, o que os junguianos chamam de Arquétipos. Talvez existam populações genéticas ou redes neurais que, quando ativadas, possam acionar o comportamento arquetípico. Na usina de Fukushima há vários funcionários que vem ignorando o risco à própria vida para tentar evitar uma catátrofe nuclear. Diante do risco para a espécie, ativa-se o Arquétipo do Herói e assim que são chamados os 50 de Fukushima, de heróis. O instinto de preservação da própria vida é inibido diante da necessidade de salvar a própria espécie. A raça humana, capaz de tanta estupidez, também é capaz de ativar esse comportamento de forma consciente. E sublime.
Philos e Phobos são a expressão de princípios que existem na Física primordial: forças de atração e de repulsão. Ambas são inerentes e importantes à vida. Temos também redes neurais e populações genéticas responsáveis pela ativação de um ou outro módulo. Temos pessoas que naturalmente sentem confiança e atração pelo Outro, enquanto outras pessoas parecem sempre com medo, sempre esperando um ataque. Quando eu leio sobre os bebês que se desenvolvem mais apenas recebendo durante alguns plantões o estímulo amoroso nas costas, fico um pouco arrepiado se essas pessoas que tem particularmente dificuldade em confiar, em se entregar, ou receber o Outro com o princípio da Philia: será que não gravaram em suas células essa desconfiança desde o berço? Será uma tendência genética ou uma influência do ambiente, transmitidas por pessoas com pouco afeto?
Tudo hoje nos estimula ao Phobos. Cercamos e nos cercamos com a hipervigilância do medo. O Outro sempre nos traz medo. Os homens tem medo que as mulheres surtem ou façam cobranças desproporcionais. As mulheres tem medo que o afeto de hoje vire um silêncio congelado amanhã. Como um bebê isolado na incubadeira. Phobos está ganhando, de goleada. Os programas de Philos devem ser trazidos de volta às nossas células. Parece fácil de fazer, mas não é.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Parecia que não ía acontecer com a gente

Estava atendendo outro dia uma sequência de pacientes que reclamava do esfriamento do casamento, da ausência de romantismo, da rotina seca do dia a dia de uma família. Nelson Rodrigues tinha uma dessas frases definitivas para o assunto, dizendo que construir o amor nada tem a ver com Felicidade. Aliás, não tem nada que encha mais o consultório dos terapeutas do que a idéia da Felicidade, ou, melhor dizendo, a Idealização do que deveria ser a tal da Felicidade. O fato é que construir o Amor é tarefa das mais árduas e isso vai roubando energia do casal, esmagado entre os filhos e as respectivas carreiras.
Temos uma mitologia cinematográfica que mostra todas as idas e vindas dos encontros amorosos. Carrie, do Sex and the City, demorou umas oito temporadas para finalmente casar com seu eterno quase namorado, por ela apelidado de Mr Big. O casamento em si, o amor conjugal, isso já deixa o espaço dos romances açucarados e vai sempre para o campo das comédias, sempre explorando as frustrações e os desencontros dos casais. Não há em nossa cultura um espaço para o cultivo da vida a dois. Lembro de uma matéria horrível na Revista da Folha sobre casais que conseguiam priorizar a relação a dois, às custas da exclusão dos filhos. Na capa havia um casal sorridente e a filha, em segundo plano, olhando com cara de choro. Trbalhamos com sistemas de exclusão: ou o casal, ou os filhos. Sempre os sistemas binários. Uma música dos Titãs dizia "A gente quer inteiro, não pela metade". A gente quer inteiro, quer felicidade profissional, pessoal,sexual, conjugal e familiar. Pode-se acrescentar à lista o que o leitor(a) preferir. Fácil? Não. Mas não temos a cultura de cultivar o inteiro, não a metade. Como esses clientes, vamos acomodando situações mais e mais frustrantes, distâncias ressentidas e silêncios perigosos. Homens que não aguentam mais "Discutir a Relação". Mulheres que não aguentam mais tentar conversar com uma porta disfarçada de marido. Ou talvez o pior, a idéia de que "é assim mesmo". Vamos aprofundar esse tema nos próximos posts.

sábado, 23 de outubro de 2010

Perto do Coração de Fogo

Tem uma passagem de um filme que adoro, "Melhor é Impossível" (mais um título bobo em Português, para um título em Inglês que seria "O melhor que fica", ou um slogan invertido do Tiririca, "Melhor que está não fica"), quando a personagem de Helen Hunt está dando uns amassos num cara, de repente ouve o seu filho doente chamando, vai acudí-lo, ele está passando mal e vomita. Quando ela volta para o rapaz, para continuar o que tinham parado, ele se suja de vômito. Ela limpa a sua manga, sem graça, o clima se desfaz, a transa para, o rapaz vai embora dizendo: "Too much reality", ou "realidade demais para mim". Lembro dessa cena quando ouvi um amigo me contando de um encontro agendado pela internet, através desses sites de encontros. Depois de alguns minutos de conversa agradável, a moça revela que aquele encontro era o primeiro depois de um longo tempo, após um longo e doloroso tratamento de uma doença grave que lhe custou os cabelos. Acabou o relato mostrando a pele sob a peruca. Quando ele passou a evitá-la, percebeu frases e twittadas relatando a decepção que os homens sempre acabam sendo. Melhor continuar sozinha, ela concluía. Ele acabou de contar, constrangido mas não culpado, como era desconcertante receber uma carga daquelas no primeiro encontro, sem ter chegado ao terceiro chopp. Too much reality. Qual a moral da história? Os homens são seres fantasticamente egoístas, que não são capazes de aguentar meia hora de sereno, recuando diante de uma criança doente ou de uma mulher que sobreviveu corajosamente a uma doença grave? Ou será que existe nesse "causos" uma trapaça que acaba caracterizando as obsessões amorosas? Se os relacionamentos são como um processo orgânico, uma pequena planta a ser cultivada, nada melhor do que um pisão atabalhoado para destruí-la. Qual o pisão dado pelos obsessivos amorosos? Despejar logo no início da relação, logo no começo da dança sutil de interesses e sedução um caminhão, uma betoneira de expectativas. Olha só, estou saindo pela primeira vez após dois anos de sofrimento e solidão, estou dividindo o meu segredo com você, se você me abandonar será o mais cruel e covarde dos homens, não vai conseguir sequer olhar para o seus olhos culpados no espelho. Quando o cara vai embora, seja porque está assustado seja porque percebeu a pegadinha e não vai morder a isca, as mensagens reiteram o imprinting maldito: "Os homens me decepcionam". Um dos aforismas do Tao te King lembra que se você se decepcionou é porque havia um Ego orgulhoso que se decepcionasse. Eu sei que a pessoa assolada pela obsessão amorosa não consegue conter o coração queimando de ansiedade para finalmente poder entregar todo o amor, todo o desejo represado por meses, anos. Mas esse discurso: "Estou só a tantos anos e você pode me resgatar, Príncipe do Cavalo Branco" faz os machos da espécie voarem para a rua ultrapassando rapidamente na corrida o carro de Rubens Barrichelo. Há um aforisma da Psicologia da Gestalt: "Eu não vim ao mundo para corresponder às suas expectativas. Você não veio ao mundo para corresponder às minhas", que deveria ser a verdadeiras jura de casamento, antes do pedaço da alegria e tristeza, saúde e doença,até que a morte (ou as expectativas) os separem.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Perder por medo de perder

Tem um livro de que gosto muito e às vezes tento imitar, que é o "Superfreaknomics'. No seu último capítulo os autores descrevem experimentos de microeconomia feitos com pequenos micos capuchinhos, onde um gaiato resolveu pesquisar o que aconteceria se introduzisse na comunidade dos macacos o uso de moedas. Os nossos pequenos primatas, portadores de cérebros pequenos e interesses restritos ao sexo e a comer (um bom modelo experimental para estudar o Cérebro dos Homens, então) recebem moedas que podem trocar por guloseimas. Uma parte do experimento serve para nossa discussão sobre Transtorno Obsesssivo Afetivo: a evitação da perda. Os micos tinham acesso aos balcões de dois pesquisadores. No primeiro, ganhavam uma uva. O pesquisador fazia um pequeno sorteio de cara ou coroa. Se desse cara, por exemplo, o mico recebia outra uva. É um modelo de ganho. Em outro balcão, outro pesquisador dava duas uvas e procedia ao mesmo sorteio. Em caso de coroa, o macaco perdia uma das uvas. É um modelo de perda. Qualquer macaco com noções básicas de estatística sabe que a tendência era de fornecer o mesmo número de uvas nos dois balcões, sem precisar pagar mico. Mas é óbvio que os pequenos primatas preferiram o modelo de ganho. A explicação vem de um traço profundo em nossa neurobiologia: a aversão pela perda.
As queridas portadoras do recém nomeado Transtorno Obsessivo Amoroso sofrem primordialmente dessa falha: a aversão pelo abandono. Quando o nosso candidato a Romeu começa a usar a tática do sumiço, prima irmã da tática do silêncio, todos os mecanismos de alarme são acionados para evitar a perda, normalmente com resultados opostos aos desejados. Pedir atenção, discutir a relação, surtar, questionar, tudo isso deriva do sistema de evitação de perda, o que vai deixando o macho da espécie progressivamente arredio. Nossos machos jogam com um modelo difícil de se lidar, que é o "posso ter, mas posso procurar em outra freguesia". Nossas candidatas precisam aprender a jogar o "vamos ver se você tem boas moedas, garotão".
Essa, meninas, é a lição 1: joguem como se o único perdedor possível fosse o pretendente. Não é fácil, mas está na hora de parar de chorar na frente de uma caixa de chocolates, esperando pelo telefonema que não vem.