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domingo, 19 de janeiro de 2014

A Espada e a Expectativa

Lembro de uma pequena história de samurai que me ocorre para escrever esse post: “Havia um valente samurai que viajou de muito longe para consultar um velho Mestre. Estava com o espírito carregado por uma dúvida e, depois da jornada, finalmente perguntou ao sábio como saber a diferença e encontrar o Inferno ou o Céu na vida de uma pessoa. O mestre, de maneira estranha, não recebeu bem o Samurai. Pareceu mesmo ignorar a sua pergunta. O guerreiro começou a se sentir incomodado com essa atitude. Repetiu a pergunta, com insistência incomum. O velhinho respondeu com um desaforo, que não iria conversar com um desclassificado. O Samurai puxou a sua espada, pronto a matar o velho desaforado. O sábio olhou em seus olhos e falou: “Esse é o Inferno”. O samurai então, entendeu a mensagem, guardou a espada e se curvou diante do mestre. “Esse é o Paraíso”, completou o homem.
A história não é muito animadora. Podemos concluir, através dela, que estamos no Inferno a maior parte do tempo. Quando o guerreiro se deixa ofender por um desconhecido, está no reino do Ego. O sangue sobe à cabeça e ele está perto de lavar a sua honra também em sangue, quando, envergonhado, entende a lição. Mais surpreendente é o final, quando a atitude de respeito é comparada ao Céu.
Lembrei dessa historieta antes de falar sobre um tema recorrente nesse blog, que é a Obsessão Amorosa, doença que acomete ambos os sexos mas, predominantemente, as mulheres, que não usam armadura nem falam japonês, mas podem se comportar como o samurai. A língua pode ser afiada como uma espada e decepar esperanças. Mas o essencial de nosso inferno pós moderno é sempre, sempre o mesmo: “Eu, eu, eu, eu e mais eu”. Para completar, um pouco mais de Eu. As moças chegam nas relações com uma lista de características que se esperam de seu candidato a Príncipe: beleza, pegada, situação financeira e uma capacidade sobre humana de atender a todas as suas carências. Quando nosso candidato falha em alguns desses quesitos, geralmente em todos, começam as críticas, as cobranças e os desencontros que terminam em uma caixa de chocolates e vários lenços de papel molhados. Como o velho mestre conseguiria dar conta de tanta expectativa e sofrimento?
A atitude que o mestre aponta como o paraíso é do Respeito. Respeito pelo Outro, mas, acima de tudo, respeito pelo aprendizado. Em vez de esticar e puxar o Outro, ou a relação, para cima e para baixo até ela se encaixar no caixão das expectativas, adotar uma atitude de respeito por tudo o que não conseguimos controlar. Lição número um para os samurais do amor: começar pelo respeito ao Outro. Ou à Outra.
A Guerra dos Sexos não existe mais . O que existe são espadas cortando o ar.

domingo, 1 de dezembro de 2013

O Amor nos Tempos dos Aplicativos

Uma novidade na indústria da pegação é um aplicativo que permite localizar e interagir com pessoas selecionadas por perfil e interesses, o Tinder, que vai encher ainda mais os consultórios de terapeutas e consumir toneladas de lenços de papel. Ligando o tal radar, as pessoas tem acessos a imagens e perfis, trocam mensagens e se encontram. Os caras querem arrumar uma transa com alguém perto, sem esforço. As mulheres podem ter a mesma intenção, teoricamente, mas não é isso que ocorre. Normalmente ficam decepcionadas de um jeito ou de outro, ficando ou não, transando ou não. Hoje somos todos objetos de consumo, o que inclui o consumo sexual. O excesso de interesse no que é exterior faz as pessoas, de ambos os sexos, perderem a compreensão do que é fazer contato, afetiva e fisicamente. A sexualidade e a sexualização parecem uma manifestação de desespero e de isolamento, uma busca de contato que termina em não-contato.
As meninas arrumaram um novo aplicativo para a sua pouco disfarçada frustração: um tal chamado Lulu, onde avaliam os caras e expõe os seus defeitos. Uma menina suicidou-se no Piauí quando seus vídeos íntimos caíram na Web. Já estou esperando pelas consultas de urgência com esse aplicativo, tentativas suicidas incluídas. Sobretudo, fico imaginando o que vai acontecer depois do revide. As meninas vão colocar que o cara é galinha, não liga no dia seguinte e se acha melhor na cama do que realmente é. Os caras vão revidar dizendo que a menina, quando tira a roupa, tem gorduras localizadas, peitos caídos ou liga dezoito vezes por dia depois do primeiro encontro. Não é difícil de imaginar quem vai sofrer mais com essa prática idiota, não é mesmo? Sobretudo, quando se expõe a intimidade de alguém ao escárnio e à humilhação públicas, além de mágoas profundas, a resultante é que as pessoas evitem cada vez mais se envolver em qualquer tipo de relacionamento. O final desse jogo é a solidão, para ambos os sexos. O que um homem vai pensar, se ficar nú e receber em uma rede social notas e comentários sobre tamanho e perfomance de seu instrumento? E a menina? O que vai achar de ler comentários sobre o que faz ou deixa de fazer entre quatro paredes? O que vai pensar o seu avô quando ler sobre seu beijo e outras coisinhas que serão comentadas abertamente? E pior do que tudo, se alguém realmente quiser enxovalhar o cara que lhe deu um fora, ou a menina que ficou com o seu melhor amigo? Basta escrever todo tipo de barbaridades, pois as pessoas tem uma estranha tendência em acreditar na palavra escrita.
Diante de toda essa barbárie, esse lixo virtual pode ter um estranho efeito colateral: pode devolver as pessoas às relações profundas. Quanto maior a promiscuidade, maior a chance do linchamento nos aplicativos e nos celulares. A chance de tirar a roupa para alguém que não vai usar a sua nudez, corporal e, sobretudo, afetiva como uma arma de vingança ou agressão vai ser somente quem realmente ama. Já pensou? Esses aplicativos podem trazer de volta à moda o sexo feito com amor, aquele que perdoa um pinto pequeno ou uma celulite na barriga. Pode ser o começo do fim da guerra dos sexos. Ou o início da compreensão do valor da intimidade, pessoal e a dois.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Adeus Também Foi Feito pra se Cuidar

Um assunto importante em qualquer consultório de Psiquiatria e Psicologia é a separação. Muitas caixas de lenços de papel são consumidas no processo, ou nos processos de separação. Fico me perguntando se não deveria haver uma espécie de cuidado que um casal poderia ter com ele. Normalmente, as separações não são consensuais. Algumas, a minoria, terminam em tragédia. Sempre há o parceiro (a) que toma a iniciativa e o outro (a), renitente, que faz de tudo para evitar que a relação termine. Uma vez atendi um homem que me pediu, meio embargado, para ser submetido a um Exame Psíquico completo para decidir se estava mentalmente são para decidir pelo divórcio. A mulher o manteve anos dizendo que queria sair da relação porque era imaturo, neurótico, fixado na mãe ou com qualquer problema edípico para querer ir embora. Deixou de aventar apenas uma pequena mas importante hipótese: a de que ele não a amava mais. O homem quase pediu um Atestado de Sanidade para poder arrumar as malas e ir para a casa da mãe, o que seria entendido como mais um sintoma de fixação edípica. Reassegurei que estava em condições psíquicas para tomar a sua decisão qualquer que fosse. Ele saiu pálido de alívio pela minha porta e nunca mais voltou. A esposa deve tê-lo conduzido a outro Psiquiatra, imagino.
Uma das coisas que eu me pergunto é se não poderia haver alguma etiqueta ou acordo de bom comportamento durante uma separação. Até judeus e palestinos tem métodos de negociação e de construção de quase acordos. Isso não ocorre entre casais. Uma coisa particularmente incômoda é quando um dos parceiros declara que não quer mais, quer terminar tudo. O outro, ou a outra, pede, implora por uma nova chance. Reconhece os erros e tenta se transformar em uma semana em tudo que deixou de ser no decorrer dos anos. O parceiro, ou parceira, renitente tenta de tudo, o outro se fecha em copas. Este pedaço é particularmente difícil. Uma pessoa tenta, de toda forma, retomar contato, saber o que está acontecendo, se agarrando nos cabelos, nos pelos, no pijama, nos seus pés, como nos versos atrozes do Chico. O outro fica em silêncio. Esse é o ponto. Este silêncio. Temendo magoar ainda mais a pessoa ferida ou, mais provavelmente, temendo alguma nova cena, o desespero de um lado encontra o silêncio do outro. Eu fico me perguntando, sabendo que não há resposta para a pergunta: será que não dava para cuidar um pouco do outro, ou da outra, que está sendo abandonado (a)? Que requinte de crueldade, deixar o trabalho de elaboração para o outro, sem ajudar em nada, sem colocar com clareza o argumento mais irrespondível, que é: Estou indo embora porque não amo mais, não quero mais ficar. Fica aquela linguagem cifrada, aquele “não é você, sou eu” que acrescenta mais um abandono ao abandonado (a), que é o abandono do silêncio ou da desculpa esfarrapada. Em outras palavras: será que daria para cuidar da pessoa que está sofrendo, tomar essa responsabilidade? Por enquanto, não. A nova modalidade é despejar a pessoa no consultório do terapeuta ou do psiquiatra, quase com a plaquinha: “Fique com ele, ou com ela, doutor, que estou saindo fora”. Como deixar um beagle na porta do Instituto Royal.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Amor em Tempos de Facebook

Aquele ditado "Longe dos olhos, longe do coração", ficou completamente obsoleto em tempos de Facebook. Hoje você pode acompanhar em tempo real todas as peripécias amorosas de seu ex. Isso acrescenta alguns mililitros de lágrimas aos nossos divãs, pois as pessoas podem experimentar uma dupla ou uma tripla rejeição, tudo isso mediante um click. Sabe aquele cara que te fez sofrer, apareceu e desapareceu de sua vida umas trinta vezes e, ao ouvir um dá-ou-desce salta fora com aquelas frases clichê, tipo "Não é você, sou eu", ou "Não consigo me ligar a ninguém, não consigo me entregar"? Pois o cara fica embaçando a vida de uma mulher bonita, interessante e com questões de autoestima por meses e vai embora dizendo que não sabe amar. Duas semanas e várias caixas de lenço de papel e de chocolate depois, a moça resolve dar uma rápida e fatal espiada no Facebook do cara, só para tentar detectar algum sinal de tristeza pela quase relação encerrada. Lá está o Mister "Não consigo amar ninguém" com a sua nova namorada, cheio de posts repletos de arrulhos de amor. Nossa querida obsessiva amorosa vai entrar no Facebook da tal namorada, onde tem infinitos posts de amor e um "Relacionamento Sério" cravado na tela. Muitas vezes nosso candidato a Romeu estava já saindo com a atual pombinha enquanto enrolava a pombinha anterior. Isso é que é humilhação.
Estamos na era da genômica. Daqui a alguns anos, os pacientes vão preencher a ficha de admissão apenas colocando o dedo no scaner, onde vai aparecer todos os dados dele, inclusive o seu genoma. O médico já vai saber quais as doenças hereditárias que podem estar desenhadas e qual o perfil de medicamento mais adequado ao paciente. Pelo menos é isso que as pessoas fantasiam, um determinismo genético absoluto. Isso é, claro, uma bobagem. Um estudo que eu li mostra que o genoma pode prever muito pouco do que vai acontecer com o paciente, pois a interação entre genes e meio ambiente é que é a alma do negócio. Conversar com o paciente não vai sair de moda, felizmente, embora seja prática em desuso em alguns consultórios. Mas esse não é o assunto do post.
O que seria realmente legal seria a Genômica estudar a compatibilidade genética dos candidatos a namorados. Vivo pensando em formas de ficar rico no mole, então podemos captar investidores para esse projeto: vamos fazer um site de encontros em que as pessoas coloquem o rosto dos pais, ou das figuras parentais e dos últimos parceiros. Colhemos um gota de sangue para examinar a compatibilidade genética dos casais e marcamos encontro, baseados em características físicas e cheiros, gostos e genes comuns. No livro (que eu adoro) "O Analista de Bagé", Luís Fernando Veríssimo imagina um churrasco de final de ano dos pacientes do analista de Bagé. A pelada, por exemplo, não vai ser entre casados e solteiros, mas entre sádicos e masoquistas, que aí ninguém reclama. Podemos parear em nossos site de encontro essas "compatibilidades", então.
Tem um cliente meu, engenheiro, que soltou em uma sessão: "A vida é um mistério, não uma linha de montagem". Pois os casais se encontram, e desencontram, dentro desse campo de mistério. Mas quando alguém chora na sessão se perguntando por que o amado e a amada nunca deu certo com eles e se amarrou com a primeira ou o primeiro que apareceu, postando imediamente seu amor nas redes sociais, eu respondo, na maior cara de pau: "É uma questão de compatibilidade genética".

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Terezinha

Outro dia estava citando numa sessão uma música de Chico Buarque, Terezinha. A cliente, na faixa dos trinta anos, não conhecia a música. Mandei youtubá-la. Chico Buarque deveria ser matéria obrigatória. A tal geração Y está perdendo-o de vista. O fato é que, particularmente, as músicas do Chico falam da alma feminina como ninguém. Um junguiano diria que ele faz música com a sua Anima. Terezinha fala das três fases de desenvolvimento do Animus, ou seja, da relação da mulher com o Masculino. Chico inspirou-se numa cantiga de roda: “O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, o terceiro foi aquele que a Tereza deu a mão”. Chico escreveu, Betânea cantou: “O primeiro, me chegou/ Como quem vem do florista/Trouxe um bicho de pelúcia/Trouxe um broche de ametista”. Esse homem é o primeiro da cantiga de roda. O Homem Bonzinho. Ele é protetor, cuida e é o genro que toda sogra quer. Dá segurança e está sempre por lá quando a mulher precisa. Chico conclui essa estrofe assim “Me encontrou tão desarmada, que tocou meu coração/ Mas ele não me negava nada/ E assustada eu disse não”. O Homem Bonzinho tem todos os predicados, está sempre atento, demonstra o tempo todo a sua perfeição. Entediada, a mulher diz não. Continua a música : “ O segundo, me chegou/ Como quem chega do bar/ Trouxe um litro de água ardente/ Tão amarga de tragar/ Indagou o meu passado/ E cheirou a minha comida/ Vasculhou minha gaveta/ Me chamava de perdida”. Se o primeiro é um homem Pai/Mãe, o segundo é o bad boy. É o que vai fazer a mulher sofrer. É anti-Pai e a anti-Mãe. As mulheres de alcoólatras e de homens feridos em geral conhecem bem essa versão. O homem que agride, que duvida, que pune a mulher pelo que sua mamãe fez e deixou de fazer. A estrofe termina com: “Me encontrou tão desarmada/que arranhou meu coração/ Mas ele não entregava nada/ E assustada eu disse não.”
Não são poucas as mulheres que ficam presas nessas duas fases. As meninas que casam com homens-paizões, tendo chiliques por bolsas de cinco mil reais e morrendo de tédio no meio de um conforto desértico; ou as que se fixam na relação com os bad boys e vivem caçando as suas infidelidades e a absoluta falta de generosidade com a companheira; choram, deprimem, se entristecem sem perceber que estão presas apenas pela sua dependência do sofrimento. Basta dar as costas ao infinito egoísmo desse homem e seguir em frente. Mas como deixar a identidade de ser aquela-que-sofre? A quem ela irá culpar pela sua infelicidade?
Chico termina essa música belíssima com o terceiro homem de Terezinha: “O terceiro, me chegou/ Como quem chega do nada/ Ele não me trouxe nada/ Também nada perguntou/ Mal eu sei como se chama/ Mas eu sei o que ele quer/ Se deitou na minha cama/ E me chama de mulher”. O terceiro, o que vem para ser o cara, ao contrário dos outros, não tenta ifantilizar a mulher. Ela já não é mais a menina assustada, de coração arranhado. É uma mulher adulta, pronta para receber o seu homem: “Foi chegando sorrateiro/ E antes que eu dissesse não/ Se instalou feitou um posseiro/ Dentro do meu coração”.
Acho que vou distribuir a letra dessa música a todas as pacientes obsessivas amorosas, que procuram no escuro, sem saber o que estão procurando num homem. Ou deveria entregá-la aos homens que querem aprender a ser homem?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Que os Homens Dizem

Já mencionei em outros posts que a busca de um parceiro ou de um grande amor virou uma grande jornada arquetípica da mulher pós moderna. As comédias românticas, onde a mocinha sofre todo tipo de desilusão para encontrar o grande amor no final, também aumentam o sofrimento, pois fica gravado no Inconsciente da moça que, apesar de todos os pesares, tem um happy ending à sua espera, não importa o que possa acontecer ou parecer.
Óbvio que eu não ouço só a versão das Luluzinhas, enlouquecidas pela ausência dos meninos. Os rapazes também sentam no meu sofá e falam da perplexidade de serem medidos de cabo a rabo desde o primeiro encontro, com vistas ao meio fraque e ao altar da igreja. Tinha um particularmente engraçado que cunhou o termo DRI, em oposição à tradicional DR. DR são as intermináveis (para os homens) e as insuficientes (para as mulheres) Discussão de Relacionamento. As mulheres tem as áreas da Fala mais desenvolvidas, por isso que as meninas normalmente falam antes e melhor do que os meninos, quando são bebês (e quando são crescidas, também). Por isso que em qualquer DR conseguem pulverizar os argumentos de seu oponente, listando meticulosamente todas as suas incoerências. A DRI é uma Discussão de Relacionamento Inexistente. Dentro da selva atual de classificações, com Peguetes, Periguetes, Ficantes Eventuais, Ficantes Fixos e por aí vai, a DRI é quando uma Peguete muito eventual vem cobrar coisas e assuntos como se o casal inexistente estivesse perto das Bodas de Prata. O cara olha com aquela cara e some. Do que ela está falando? -perguntam, e somem.
Os homens também tem uma classificação para a mulher a ser evitada: é a Mulher que Surta.
Além das DRIs, a Mulher que Surta faz um esforço hercúleo para parecer descolada, independente e vitaminada, mas uma hora não aguenta a falta de consistência masculina do rapaz e explode, geralmente com uma miscelânea de queixas imaginárias. O cara olha com aquela expressão embasbacada e se sai com o tradicional- "Não te prometi nada", o que deixa a Mulher que Surta ainda mais surtada.
Outra dica para as meninas: não puxem um arquivo de frases amorosas e promessas que o candidato a Romeu falou antes do, como poderia dizer sem chocar, conluio carnal. Os machos de diversas espécies usam vários artifícios de sedução, como cantos maravilhosos dos pássaros e caudas de pavão abertas para impressionar as fêmeas. Não se iludam, eles estão pensando "naquilo". Atingido o objetivo, as promessas, as frases bonitas, as juras, perdem a sua importância. A Mulher-que-ainda-Não-Surtou começa a procurar por aquele macho da espécie que trinou belos cânticos de amor na véspera, para descobrir que o nosso galã faz parte de outro grupo de homens, o Cara-que-Some. O cara que some, depois de concluída a noite de paixão (ou os quinze minutos de paixão, dependendo do cara), some no deserto de celulares na caixa postal, facebooks indeterminados e montanhas de compromissos de trabalho. A Mulher-que-Não-Tinha-Surtado começa, após alguns dias de silêncio, a ficar muito perto de se tornar uma Mulher-que-Surta, sobretudo quando o Dito Cujo aparece algumas semanas depois, como se nada tivesse acontecido e indaga: "Oi, sumida. E aí?", com aquela cara lustrada em óleo de peroba.
E ainda falam que as psicoterapias profundas vão deixar de existir. Haja divã para esse povo, perdido nas selvas das redes sociais.

sábado, 27 de agosto de 2011

A Verdade do Sofrimento (Amoroso)

Quando o príncipe Sidarta atingiu a iluminação, hesitou muito em contar para as pessoas algumas das coisas que teria visto em sua jornada interior. Após algum período de dúvida, dedicou a segunda metade de sua vida a tentar transmitir um pouco dessa nova visão. Não sei se tantos séculos depois tenhamos assimilado uma pequena parte do que ele viu, ou mesmo o que Jesus viu. Uma de suas leis foi transmitida pelas Quatro Nobres Verdades. A primeira das nobres verdades é da realidade do sorimento. Sofrer é uma condição básica da nossa experiência humana. Outra nobre verdade dizia que a causa do sofrimento é o desejo. Sempre achei que essa tradução não era boa. O desejo é uma condição fundamental da própria vida. A ausência do desejo está quase sempre associada à doença, não à vida. O que o Buda provavelmente estava falando é que a causa do sofrimento é essa sensação de oco, de vazio e de angústia que fazem parte da vida de todos, gerando sofrimento. Eu já atendi pessoas dos dois lados da pirâmide social e posso dizer que a sensação é compartilhada. Pode ser um playboy esmagando uma moça com seu carro a cento e cinquenta quilômetros por hora ou um moleque matando a própria avó para pegar o seu dinheiro, a sensação é a mesma: algo está faltando, algo está vazio dentro de sua alma. A moça acha que seu vazio vai ser curado por um príncipe encantado, o moleque quer ser o mais popular da turma, o executivo manda vários pais de família embora para atingir as metas de lucros, o outro compra um Porshe para se sentir vivo. Não é o desejo que provoca o sofrimento, antes é a busca permanente da fantasia de que essa fenda possa ser suturada por esse ou aquele objetivo conquistado.
As obsessões amorosas derivam dessa mesma fonte. As meninas são bombardeadas desde as histórinhas na cama, de que a sua longa busca amorosa vai terminar quando o homem certo finalmente transformar todos os seus sonhos em realidade. Depois de uma infãncia e adolescência e idade adulta repleta de contos de fada e comédias românticas com a Jennifer Aniston, as moças descobrem que os príncipes não estão mais lá. As relações humanas viraram um objeto de consumo, o consumo é rápido, as relações perdem a sua continuidade. No último post falamos de duas irmãs da Mitologia Grega, Ariadne e Fedra.
Ariadne é a virgem sem mácula, o feminino protetor e sábio que vai guiar o herói para fora do labirinto. Fedra é a sua irmã má, que desvia o herói de seu caminho e o leva à ruína, sempre manobrando para ser atendida em todos os seus desejos. Ariadne representa a moderação e a generosidade. Fedra representa o desejo insaciável, a necessidade de passar por cima de todos para conseguir o que quer, inclusive da própria irmã.
Muitas obsessivas amorosas se enxergam como Ariadne, dedicadas, desprendidas. Na verdade, o que assusta e afasta os homens é o desespero de Fedra, que se manifesta por uma lista de expectativas que o candidato a príncipe deve preencher. O que desde os tempos de Buda é uma fonte inesgotável de sofrimento.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Presente dos Olhos

Engraçado que estava com dificuldade de encontrar o último post, A Palestra, postado há dois dias. Achei agora.
Não vou falar do evento nesse post. Já temos as inscrições e o mesmo não será mais cancelado, o que era um receio. Aceitamos sugestões de temas para os próximas palestras. Ainda temos algumas vagas de qualquer forma. Informações no post anterior.
Ontem eu falava de mais um trecho do filme "Comer, Rezar e Amar", durante uma consulta. Lembrava de uma cena muito bonita. Engraçado que parece pelos meus comentários que eu gostei muito do filme, o que nem foi muito o caso. Achei o filme legal, mas evidentemente aquém do livro, que não li. O livro fala da jornada interior de uma escritora, Liz, em profunda crise existencial. Resolve viajar sozinha pelo mundo, em busca de si mesma. A parte de Comer ela faz na Itália, a parte do Rezar na Índia e a do Amar, em Bali, com o Javier Bardem, que é bonitão mas não poderia fazer papel de brasileiro. Rodrigo Santoro cairia melhor no papel, mas esse não é o assunto do post. Na Itália, Liz conhece por acaso uma moça, uma sueca namorada de um italiano, o que é uma ponte para conhecer uma italianada engraçada. Falei desse grupo em outro post. A cena que me interessa é quando ela está em uma pizzaria napolitana, com essa amiga, preparando a primeira mordida numa pizza maravilhosa, quando percebe a loirinha petrificada diante da sua pizza de mussarela. O que está havendo? - pergunta, a amiga responde que está com medo de comer aquilo, pois já tinha engordado 5 kg desde a chegada na Itália. Liz, a personagem de Júlia Roberts, olha para ela com muita ternura e responde: "Você sabe, quando a gente tira a roupa o homem olha com aquela cara de felicidade ... Ele olha, ganhou na loteria, está tudo bom. Ele não fica olhando se você tem um dedo a mais ou a menos de barriga. Então come a pizza e depois a gente sai para comprar uns jeans novos (e maiores). Depois você emagrece, criatura!". Eu gostei muito da descrição, porque é isso mesmo. Quando a mulher revela a sua nudez, o homem a vê com olhos de menino abrindo presentes no dia de Natal. Que sensação.
Uma dica para as portadoras de Transtorno Obsessivo Amoroso: se nessa hora o cara desviar o olhar, ou pegar o vestido para ver se fica bem no espelho, ele muito provavelmente não é bom candidato a namorado. A culpa é do candidato, não sua. Pare de culpar as pizzas, a roupa, os quilinhos a mais. Na hora H, é obrigatório que o nosso candidato olhe com a cara de um menino maravilhado olhando um Sundae de três andares (dependendo do ângulo, dois). Não se contente com menos. Ou marque a sua passagem para Bali nas próximas férias.

sábado, 2 de abril de 2011

Zumbis Emocionais

Antigamente eram as meninas do Tchan. Hoje temos as vitaminadas do Pânico. O inconsciente masculino reage contra o emagrecimento progressivo das modelos e das mulheres que servem como ideal inatingível. Queremos opulência, abaixo a Anorexia e a Bulimia. Por que estou falando disso?
Edward, o vampiro romântico da saga "Crepúsculo", é uma compensação para o inconsciente feminino. Não é à toa que aquele altão magrelo do Robert Pattinson virou sex symbol com o papel. Ele é apaixonado, verdadeiro e completamente cuidadoso e delicado com a sua amada, Bella. Como o inconsciente masculino procura pela mulher cheia de curvas, o inconsciente feminino tem sede desértica de homens românticos, atenciosos, apaixonados.
Um junguiano não deixa de notar a proliferação de filmes e seriados de vampiros e zumbis. Não deixa de ser um sintoma em nossos tempos bicudos. Recebi um comentário no blog de uma moça desesperada pelo namorado-que-não-consegue-assumir-a relação e que fica punindo-a com a grande arma do homem pós moderno, que é o sumiço. Ela se desespera, pede por uma definição, ele se queixa que ela está "invadindo o seu espaço". Finalmente, ele some, e a moça fica enlouquecida com o sumiço. Devo procurá-lo? Não querida. Não deve. Mas já te aviso: você vai procurá-lo, e não será bem recebida. Os homens estão sendo contaminados pelo vírus dos Zumbis Emocionais. A doença é grave e altamente contagiosa. O Zumbi Emocional tem uma profunda dificuldade de vínculo, fica ensimesmado com a sua vida e sua busca pouco objetiva de sucesso e bens de consumo, não dá espaço para vínculos, nem com mulheres nem com ninguém. Durante a noite, o morto vivo sai à procura da caça, ou já tem uma equipe de ficantes à disposição, que ele escolhe como quem escolhe uma camiseta. Durante cerca de meia hora ele é amoroso e se entrega e faz amor como um náufrago que encontrou uma ilha. A mulher sente aquela entrega, aquela conexão. Não é possível que não sinta no resto do dia o que sentiu naquela meia hora. Não é possível? É possível, sim. O amor é um bem de consumo, um aplicativo de celular. Nosso zumbi emocional volta ao seu mundo árido e narcísico. Não liga no dia seguinte, está sempre cheio de trabalho e "passando por um momento difícil". Está sempre enrolado. Nossa obsessiva amorosa esperneia, ameaça, termina a relação inexistente dezenas de vezes. O zumbi emocional ignora: mulher é assim, surta mesmo.
Edward é o contrário disso. Outro dia eu vi num programa da TV a cabo que um grupo de senhoras já próximas à meia idade formaram um fã clube, as "Twilight Moms", ou "As Mães do Crepúsculo". Rivalizam com as filhas adolescentes pelo lugar na fila e gritam com o romantismo e a pegada de vampiros e lobisomens querendo engolir aquela magrelinha sem graça, Bella. Difícil deve ser voltar para casa e encontrar o maridão, com a pança caindo sobre a bermuda, dormindo na frente da TV, que nunca sai dos canais de esporte.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Vincere

Finalmente consegui ver um filme muito recomendado na época de seu lançamento, "Vincere" de Marco Belocchio. Eu já sabia pelas resenhas que ele tratava da história de um filho ilegítimo do ditador fascista Benito Mussolini. O filme é muito duro, mas serve como reflexão sobre o que venho postando a respeito das Obsessões Amorosas. Para não estragar o filme de quem vai assistí-lo, posso apenas adiantar que é a história de duas vidas devastadas por uma obsessão amorosa. Nas primeiras cenas o jovem Benito está debatendo numa assembléia de uma pequena cidade italiana, Trento, sobre a existência de Deus. Para provar a sua tese, que Deus não existe, Benito Mussolini desafia o Criador a fulminá-lo em cinco minutos. Passados os cinco minutos, está provado que Deus não existe. (O tempo de Deus é misterioso, o raio que fulminou-o demorou mais 40 anos e veio pelo fuzilamento do ditador pelos partizani, resistência italiana na Segunda Grande Guerra). Na platéia, siderada, está uma mulher belíssima, chamada Ida Dalzer, se não me engano. Ela se apaixona perdidamente por aquele jovem idealista, vive com ele um tórrido romance, acaba engravidando e tendo um filho, a quem dá o nome do pai, Benito. A carreira de Benito pai dispara, ele se torna um herói nacional na Primeira Guerra, depois sobe ao poder e se torna o Dulce, a Itália é varrida pelo fascismo. Ida Dalzer é riscada da vida do líder, que volta para a sua família original sem reconhecer o caso e o filho que tivera em Trento.
Ida Dalzer passa a escrever cartas e enfrentar autoridades para ser reconhecida e reencontrar o amor de sua vida. Um sistema delirante vai se formando: ela sabe que será redimida, o seu casamento validado, o seu filho reconhecido como legítimo. Toda a sua existência psíquica depende disso: ela só existe se for acolhida pelo seu amado. Ida Dalzer vai perder tudo, a sanidade inclusive, nessa cruzada. Morre clamando pelo seu direito, pelo seu amor.
Este filme fala sobre duas situações muito presentes nos Transtornos Obsessivos Amorosos: o silêncio e a fabulação. Para o jovem e ambicioso Benito, capaz de desafiar ao próprio Deus, a jovem Ida foi um caso amoroso como tantos outros de sua vida. Ele era o garanhão, tinha o direito de espalhar o seu sêmen pelo mundo. Para Ida, ele era o macho alfa, o único homem de sua vida, para quem ela se entregou de corpo e alma. O filme mostra os dois personagens perdendo essa alma: Benito deixa de ser o jovem idealista para se tornar um ditador sanguinário, que arrastou a Itália para uma guerra ruinosa, da qual o país demorou décadas para se recuperar (quando vejo o atual Primeiro Ministro italiano, Silvio Berlusconi, me pergunto se a Itália realmente chegou a se recuperar de Mussolini). Ida vai criando um mundo próprio, criando para si uma fábula para explicar a ausência e o silêncio do homem amado. Ela não consegue, em momento nenhum perceber que o seu amor está sendo entregue a um homem que não é mercedor dele, que está sacrificando a sua vida e a de seu filho para tentar buscar um amado inexistente. Para não encarar esse vazio, vai se afundando em um vazio cada vez mais profundo e irrecuperável.
Morrer de amor, sim, meninas, mas por alguém que merça esse amor, minimamente.
Tem uma música linda de Chico Buarque, sobre as palavras. Num de seus versos, ele fala: "Nós aprendemos/ Palavras Duras/ Como dizer perdi/ Perdi". Muitas vezes, os amores e as obsessões amorosas terminam nessa palavra: perdi. O que Ida não sabia é que, nesse caso, perder seria ganhar.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A relação Iô Iô

Há alguns anos atrás, melhor nem fazer a conta, dei uma entrevista para uma jovem jornalista que estava concluindo o seu treinamento na Folha Trainee. Não sei por que cargas d´água falávamos de relacionamentos a dois, eu topei falar, já que esse assunto é dos mais presentes em um consultório de psiquiatra e psicoterapeuta (ontem mesmo recomendei a internação de um paciente que vinha bem mas teve a sua psique completamente desestruturada por uma separação). Lá pelas tantas fiz um comentário das relações que ficam quase eternamente nesse vai e volta, termina e volta, acabei chamando esse tipo de relacionamento de Relação IÔIÔ, em alusão ao antiquíssimo brinquedo (que recentemente virou um brinquedo radical e com manobras). O movimento de afastamento e reaproximação do iôiô foi uma imagem forte para esses movimentos de vai e volta das relações. Há dois dias dei a minha terceira entrevista sobre o tema, dessa vez para a revista Gloss para uma compenetrada jornalista, Sílvia Araújo. Não vejo problema em falar sobre o assunto, mas confesso que fico um pouco apavorado de entrar para a história Psi como o descobridor da Relação Iôiô.
Tem um trecho de L. Ron Hubbard, criador da Cientologia, em que ele afirma a incrível capacidade dos seres humanos de localizarem sarnas e mais sarnas para se coçarem. As pessoas precisam de problemas e são viciadas neles, como naqueles cubos mágicos que ficávamos horas tentando decifrar. Os problemas prendem a nossa atenção.
Um bom lugar para arrumarmos problemas insolúveis é a relação a dois. Deixar a tábua do sanitário abaixada ou levantada, notar o novo corte de cabelo ou discutir a relação às duas horas da madrugada são algumas das torturas que podemos construir a dois. Disputa de poder, necessidade de desmistura, busca de oxigênio ou de distância, chantagem pura e simples, todas motivações para os casais que não conseguem ficar juntos nem separados (quando digito isso me ocorre Bono cantando com o U2 - With ou without you/ I can´t live, with ou without you... esticando o yooouuu do final - em tradução livre, eu não vivo com e sem você). Procurar problemas é como uma coceira irresistível, que vai crescendo, crescendo até virar uma briga, uma mágoa, uma acusação boba e infundada. Queremos aceitação. A relação a dois permite ao Outro ver o que temos de melhor e sobretudo, o que temos de pior. Queremos a aceitação de nosso pior sem poder oferecer o mesmo ao parceiro(a). Talvez nas últimas décadas as relações tenham ficado mais guerreiras e os relacionamentos jogos de xadrez verborrágicos e cheios de lenços de papel assoados. Vou terminar o post respondendo com Gilberto Gil para Bono: "O amor da gente é como um grão/ Uma semente de ilusão/ tem que morrer pra germinar". O desencontro pode germinar o encontro (em tradução livre).

domingo, 23 de janeiro de 2011

Crises e Jornadas

Um ofício que realmente me dá inveja é o de vidente, cartomante ou diversos tipos de aconselhamento que graçam pelo mercado. Lembro aos leitores que sou junguiano, então está muito longe de mim esse nariz torto de cientista fazendo pouco caso dos fenômenos psíquicos paranormais, vidência incluída. Não estou falando de gente séria e com capacidades notáveis de percepção, que já vi mudarem muitas vidas. Estou falando de uma indútria de palpiteiras que se utilizam de cartas, búzios e bolas de cristal para fazer previsões e sugestões que realmente podem causar estrago. O último filme de Woody Allen, que eu não recomendo, "Você vai conhecer o homem da sua vida" tem uma personagem central, uma senhorinha cuja vida é literalmente dirigida por uma dessas palpiteiras intuitivas que sempre vão dizer para a consulente do homem maravilhoso que vai entrar na sua vida.A simpática e roliça senhora acaba conhecendo um homem e mudando a sua vida, numa dessas ironias Allenianas, não antes de deixar completamente louca a sua filha e genro.O roteiro é conhecido: no futuro todas as mazelas e desencontros serão redimidos e as peças, finalmente vão todas se encaixar: dinheiro, sucesso, felicidade, tudo isso a cinquenta reais a hora.
Para determinados tipos de consulta, o roteiro se estende e se aprofunda: quando uma querida e desesperada obsessiva amorosa vai pedir ajuda para conseguir finalmente uma relação estável com o homem amado, sempre vai haver uma ex namorada ou um ex namorado que fez um trabalho, impedindo que os pombinhos encontrem seu happy ending. Lógico que o trabalho pode ser desfeito, por uns dois mil reais e algumas oferendas às divindades iradas. Longe de mim o desrespeito à essas crenças, mas não é bom espetáculo ver a pessoa que sempre professou outra religião cuspindo farofa sem entender o ritual.
Há alguns anos eu publiquei um e-book no site de um amigo, que falava na crise como jornada de transformação. Havia uma personagem, a Vovó, que contava para a neta algumas historinhas com uma visão arquetípica, de Forrest Gump a Branca de Neve. Se o leitor tiver curiosidade, pode entrar no site que eu não atualizo há noventa anos, o www.marcospinelli.com.br para ver alguns textos da Vovó. Tem dias que eu tenho vontade de tirar a velhinha do baú e fazê-la conversar com as netinhas sobre seus problemas amorosos.Nos textos antigos, a Vovó falava de um momento que sempre inicia uma jornada de transformação: o momento do Erro Fundamental, termo que eu pequei emprestado de uma grande autora, Jean Houston. Vou falar sobre isso nos próximos posts, mas o erro fundamental é o evento, catastrófico ou não, que faz a nossa vida mudar para sempre. É como o caçador apontando a faca para Branca de Neve, obrigando-a a entrar na floresta escura e começar a sua própria jornada. Acho que as videntes de fundo de quintal tem uma particular capacidade de pegar esse momento do erro fundamental e mostrar que, a partir de daquele ponto, tudo mudou para pior. Um namorado magoado, a perda de um emprego, uma doença. Responsabilizar a bruxa, ou o bruxo malvado pelo ocorrido é fácil. Difícil é o ofício do terapeuta, que vai apontar a ferida e comunicar ao cliente que a ferida é de sua inteira responsabilidade. Ficar procurando ou elegendo culpados só vai aumentar o sofrimento de todos. Mas é sempre mais fácil imaginar que as coisas não dão certo por conta de um trabalho de uma ex enlouquecida. Difícil é tentar entender as linhas tortas onde a vida tenta escrever certo. E refazer o caminho quando pegamos mais um atalho errado.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Amores Voláteis

Uma das formas de tortura de mulheres que procuram por um relacionamento é a quantidade de subclassificações existentes hoje. Particularmente complexa é a classificação para "Ficar". Tem a "ficância" predatória, com uma busca estatística de quantas pessoas o ficante em questão consegue beijar durante uma balada. Uma Ficância Listerine, pode-se assim dizer. Temos os ficantes eventuais, os ficantes múltiplos e os ficantes fixos. Tudo para evitar a pronúncia da palavra proibida, "Namoro". As candidatas se espremem em diversos e pouco explícitos graus de ficância, entram nos e-mails, perscrutam os carros e a agenda do ficante para saber quantas outras candidatas lutam pela vaga. Como esta seleção Darwiniana não fosse suficiente, temos a parte mais difícil, a da consolidação da "ficância". A nossa candidata vigia cada passo, estuda as entonações, evita qualquer erro que possa por a perder o quase relacionamento recém iniciado. Óbvio que em algum momento, acabam surtando, tendo uma explosão verbal e de ciúmes, mágoa, cansaço de todo esse jogo de xadrez relacional. Conheci um rapaz que tem crises de Pãnico toda vez que vai reconhecer que está namorando. Um quadro típico de Transtorno Fóbico do Amor. Mas qual o ponto de vista dos rapazes, nessa selva de Luluzinhas ansiosas? Os rapazes aproveitam do seu desespero, é claro. Mas será que não há mais solteiros na Terra querendo relacionamentos? Os homens desenvolveram uma fobia relacional caracterizada por promessas não cumpridas e fuga desesperada diante de qualquer alteração de humor das meninas? Acho que não. Os homens também suspiram nos divãs por um relacionamento significativo. Também se sentem emparedados por mulheres que planejam o futuro ou tem uma Bíblia de reivindicações depois do primeiro beijo. Anos e anos de espera pelo Príncipe Encantado e já vão tirando as medidas do noivo para o Meio Fraque após a primeira transa.
Um relacionamento humano depende de muitas variáveis: achar a distância correta, deixar a intimidade ir se fazendo, aprender a ouvir e ser ouvido, aprender e criar sistemas de aprendizagem, amorosa, inclusive. Parece muito difícil, mas é quase impossível quando os candidatos e candidatas ficam com o nariz preso no próprio umbigo.

sábado, 27 de novembro de 2010

Sistemas de Aprendizagem (Amorosa)

Tem alguns livros que você encontra onde uma peça de um grande quebra cabeça finalmente se encaixa e algo se clareia. "O Cérebro Quântico", de J. Saltinover teve esse efeito para mim. Uma das pequenas e saborosas histórias que ele usa para ilustrar o aprendizado vem da vida de um grande físico, Richard Feyiman, que deu um livro de Astronomia de nível universitário para a sua irmã, na época no colégio. Ela gostou, mas fora criada numa família onde se acreditava que as meninas não tinham a mesma capacidade dos meninos em dominar disciplinas lógico-matemáticas. Uma variante sutil do "lugar de mulher é na cozinha". Como eu conseguiria ler esse livro? - perguntou. A resposta do irmão mudou a sua vida. Ele a aconselhou a ler o livro com atenção até a parte em que ficasse totalmente perdida. Desse ponto era só voltar e procurar o ponto onde estava parada, até conseguir superá-lo. Devia fazer isso tantas vezes quanto necessário, até dominar o livro. Alguns anos depois, a sua irmã terminava o doutorado em Fisica, contrariando as crenças familiares.
Acho essa pequena história mágica sob vários recortes diferentes. O primeiro, mais óbvio, é como alguém consegue, às custas de aprendizado, se afastar desses sistemas de crença que família, grupo social ou consciência coletiva dizem ser a verdade absoluta e, hoje em dia, "científica". As psicoterapias trabalham, em diferentes registros, com esses sistemas de crença e como modificá-los, mas não vai ser o tema desse post. A parte que me interessa é como ele descreve à perfeição os sistemas de aprendizagem. Repetição, repetição, tentativa, erro, retomada, revisão. Nossa pedagogia passou décadas abominando essa repetição, priorizando a capacidade de raciocínio e pesquisa. A má notícia é que o aprendizado continua precisando de repetição e exposição ao erro. Décadas de cultivo à Autoestima também vem criando gerações e gerações de pessoas com uma evitação quase fóbica ao erro. Errar compromete a minha autoestima. Portanto, isso é uma evitação à aprendizagem. O que isso tem a ver com a aprendizagem amorosa? Tudo a ver. As nossas meninas são educadas pelos desenhos e Barbies a serem boas meninas que o príncipe aparecerá para levá-la em seu cavalo branco, ou em sua Ferrari vermelha. Quando esse conto começa a se chocar com os muros da realidade e dos príncipes meia boca, nossas candidatas à princesa ficam perdidas no país das Maravilhas. Os sistemas de crença não resistem aos sites de encontro e aos amores expressos. Mas o aprendizado é mais difícil para quem persevera no conto de fadas. Se eu fizer tudo direito, vai dar tudo certo. Não é assim que funciona. Para criar sistemas de aprendizagem é preciso coragem, teimosia, repetição, tolerância à frustração. Conhecer pessoas, acreditar, desacreditar. Tentar de novo. Não adiante beijar o sapo em diversos ângulos, ele não vai mudar a sua pele gosmenta. É preciso repetir, aprender sobre si e sobre o outro, perder o medo do erro e do pior, a rejeição, real ou imaginária. Esse é um jeito de criar sistemas de aprendizagem, onde o erro faz parte, como na própria vida.

sábado, 30 de outubro de 2010

Par Imperfeito

Ontem tive uma manhã psicoterapêutica no Congresso. Mas você é psicoterapeuta também, Marco Antonio. Para quem não sabe, a Psicoterapia é um bicho em extinção no ecossistema cada ver mais pobre da Psiquiatria, mas não vamos falar disso agora. Na primeira apresentação, um tiozinho do setor de Psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Ele falava da fantasia totalizante da Psicologia dos séculos anteriores, da necessidade de se construir um sentido para tudo, tudo participa do Todo. Não há como construir um saber totalizante, disse o Desconstrutivista da aula das 8 e meia, para todos os gatos pingados presentes, como eu. A apresentação de Ana Lia, da Sociedade Junguiana (SBPA) invoca a Física Quântica para dizer que somos todos conectados e interrelacionados no Todo. Jung estava certo, então. Já adianto aos caros leitores que essa pendenga será eterna, sempre haverá o defensor de que a evolução humana se dá às cegas e os outros que encontrarão um sentido nos movimentos caóticos da vida. Isso também não será nosso assunto. Qual será o nosso assunto, então, cara pálida? Obsessões Amorosas, é claro, só que agora com uma base filosófica (e neurobiológica) muito mais bacana.
Os homens tem uma grande vantagem atual nas relações amorosas: a vantagem de poder perder. Neurobiologicamente, o macho da espécie tem a obrigação de espalhar o seu semen pelo maior número de fêmeas possíveis. Quando uma relação não dá certo, ele se pergunta: qual será a próxima? Quantas fêmeas vou conseguir colecionar? Neurobiologicamente, a fêmea primata precisa encontrar o macho mais viável, com o melhor patrimônio genético. Quantos filmes e revistas femininas ganham fortunas com isso: como conseguir O Cara, como manter O Cara, como dispensar o Cara que não é O Cara. A mulher busca pela Totalidade, a sensação do encontro amoroso absoluto. Isso gera uma técnica de xaveco masculino quase infalível: você encontra uma mulher num site de encontro (já pensou nos nomes - "Par Perfeito", "Almas Gêmeas"? Parecem feitas por mulheres ou homens explorando essa fome de encontro absuluto), retomando, você encontra na balada ou no site uma mulher, qual o xaveco perfeito? Falar que o encontro é absoluto, claro. Você é maravilhosa. Você é a Mulher que eu estava procurando.Vamos fazer planos. Eu sou o cara que te conhece de outras vidas. Quando essa promessa desmorona na primeira dificuldade, e, acredite, dificuldade é o segundo nome de relação a dois, todo aquele amor totalizante desmorona como uma torre de papel sob a chuva. Restam lágrimas, decepção e um apego obsessivo ao que foi dito, ao que foi prometido. Como alguém pode falar tantas coisas, pode prometer tanto e daqui a dois dias, ou daqui a meia briga ou meia troca de farpas, simplesmente deixa de sentir? Um amor total que não aguenta meia hora de sereno? Cuidado, meninas. Cuidado com a fantasia de Pares Perfeitos, pois os pares são sempre imperfeitos, portanto, humanos. Sobretudo, cuidado com homens que prometem demais, ou não sustentam o que prometeram.Fujam deles e de seu bláblablá. Um homem se faz de atitude, não de palavras.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Transtorno Obsessivo Amoroso - O Imprinting

Foi com muito pouco alarde que a Neurociência desvendou o Inconsciente Freudiano. Há mais de um século o neurologista de Viena descreveu quadros onde conteúdos gravados no Inconsciente emergiam, com sofrimento, na forma de sintomas. Freud dedicou toda a sua vida, carreira e credibilidade àquela idéia original: fragmentos de memória emocional podem ficar offline em sua Consciência para emergir de forma geralmente inesperada ou gradativa, mas quase sempre, fazendo estrago.
Os mecanismos de Memória, notadamente a Memória Emocional, começaram a ser progressivamente esmiuçados desde a década de noventa, chamada pelo presidente Bush (o pai) de Década do Cérebro. Uma região do tamanho de uma ervilha, a Amígdala, situada na região de contato e relê de todos os nossos circuitos emocionais, foi a principal suspeita pela potencialização de nossa Memória do Medo. Foi descoberto um circuito nas profundezas de nosso Cérebro Emocional, onde a Memória é gravada sem a participação da consciência do proprietário. Bingo. Olha aí o Inconsciente descrito por Freud. Uma lembrança traumática de um cachorro avançando em sua infância podem virar um Imprinting em seus sistemas de Memória, gerando medos irracionais no adulto. Algumas frases, também.
Estou dando esse esboço teórico para que possamos entender a importância das frases e das imagens deflagradoras em nossa Memória Emocional. Como os circuitos são profundos, eles podem reverberar e determinar muitos comportamentos antes que a pessoa se dê conta. No caso desse quadro, que em tom de brincadeira (mas que não é tão brincadeira assim) chamamos de Transtorno Obsessivo Amoroso, isso também vai ocorrer, algumas vezes de forma traumática. Muito do comportamento obsessivo e até perseguidor de suas portadoras derivam de uma fantasia profunda, gravada nesses circuitos emocionais: a idéia que, se não for perfeita, o interesse do homem pode se desvanecer rapidamente. Procurando mais no fundo do Sistema de Crenças podemos encontrar um Imprinting, uma frase gravada profundamente nesse banco de memória, que diz assim: "Com esse seu gênio, nenhum homem vai querer ficar com você"; "Desse jeito, você vai acabar sozinha"; " Quando você casar, vai ver o que é bom para a tosse". Quando o menor sinal de desinteresse e abandono surge, todos os alarmes, todos os dez núcleos da Amígdala disparam simultaneamente: "Perigo! Estou sendo abandonada!", gerando um comportamento inicialmente furtivo para depois alcaçar graus cada vez maiores de desespero e de luta para evitar o abandono temido e claro, já antevisto pela frase deflagradora: "Eu não valho a pena" ou até pior "Os homens não valem nada". Tudo isso terminando em outra manifestação freudiana de neurose: a repetição. De um jeito ou de outro, se não trabalhado, esse curto circuito emocional vai se repetindo de tentativa em tentativa de relacionamento. E haja caixa de lenços de papel e de chocolates.
Os imprintings são profundos e sua transformação, lenta. Há muito as psicoterapias procuram por formas de acelerar a cicatrização dessas feridas emocionais e a construção de sistemas de crença menos carregados de dor. Vamos falar um pouco sobre isso nas próximas postagens.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Perder por medo de perder

Tem um livro de que gosto muito e às vezes tento imitar, que é o "Superfreaknomics'. No seu último capítulo os autores descrevem experimentos de microeconomia feitos com pequenos micos capuchinhos, onde um gaiato resolveu pesquisar o que aconteceria se introduzisse na comunidade dos macacos o uso de moedas. Os nossos pequenos primatas, portadores de cérebros pequenos e interesses restritos ao sexo e a comer (um bom modelo experimental para estudar o Cérebro dos Homens, então) recebem moedas que podem trocar por guloseimas. Uma parte do experimento serve para nossa discussão sobre Transtorno Obsesssivo Afetivo: a evitação da perda. Os micos tinham acesso aos balcões de dois pesquisadores. No primeiro, ganhavam uma uva. O pesquisador fazia um pequeno sorteio de cara ou coroa. Se desse cara, por exemplo, o mico recebia outra uva. É um modelo de ganho. Em outro balcão, outro pesquisador dava duas uvas e procedia ao mesmo sorteio. Em caso de coroa, o macaco perdia uma das uvas. É um modelo de perda. Qualquer macaco com noções básicas de estatística sabe que a tendência era de fornecer o mesmo número de uvas nos dois balcões, sem precisar pagar mico. Mas é óbvio que os pequenos primatas preferiram o modelo de ganho. A explicação vem de um traço profundo em nossa neurobiologia: a aversão pela perda.
As queridas portadoras do recém nomeado Transtorno Obsessivo Amoroso sofrem primordialmente dessa falha: a aversão pelo abandono. Quando o nosso candidato a Romeu começa a usar a tática do sumiço, prima irmã da tática do silêncio, todos os mecanismos de alarme são acionados para evitar a perda, normalmente com resultados opostos aos desejados. Pedir atenção, discutir a relação, surtar, questionar, tudo isso deriva do sistema de evitação de perda, o que vai deixando o macho da espécie progressivamente arredio. Nossos machos jogam com um modelo difícil de se lidar, que é o "posso ter, mas posso procurar em outra freguesia". Nossas candidatas precisam aprender a jogar o "vamos ver se você tem boas moedas, garotão".
Essa, meninas, é a lição 1: joguem como se o único perdedor possível fosse o pretendente. Não é fácil, mas está na hora de parar de chorar na frente de uma caixa de chocolates, esperando pelo telefonema que não vem.

sábado, 9 de outubro de 2010

Transtorno Obsessivo Amoroso

O roteiro é o mesmo, repetido em diferentes personagens. Menina encontra menino, o menino gosta da menina, eles se apaixonam, trocam juras, fazem planos. A menina entende que a longa jornada em busca do Mr Right (também conhecido como Príncipe Encantado e Encantador) finalmente chegou ao fim. O clima de idílio dura um tempo, o rapaz continua fazendo planos: casamento, filhos, companheirismo. De repente, diria o poeta- de repente não mais que de repente - alguma pequena rachadura aparece na moldura: uma briga, um desencontro, um malentendido. Uma técnica muito simples que os meninos utilizam: sumiços sem nenhum contato. Dois, três dias sem ligar. A menina fica em dúvida: devo ligar? Isso vai parecer uma cobrança? Desculpas não faltam: estou estressado, meu chefe está me matando, minha décima segunda ex esposa está tentando me prender. Silêncio. O que está acontecendo? Respostas evasivas. A menina se cerca de justificativas. Sente cheiro de fumaça, mas pode ser o vizinho queimando o churrasco outra vez. Ele está perdendo o interesse? Quanto tempo eu devo esperar? Mas não dá para esperar. A menina vai atrás, quer saber, quer ouvir: mas você me prometeu tanta coisa, mas você disse que me amava. O menino usa uma arma de destruição em massa de meninas: a dúvida. Estou em crise, minha ex me procurou (a décima terceira), está indo muito depressa, preciso de um tempo. A menina é tomada de fúria. Liga quinze vezes, aparece na casa, arremessa o celular na parede, tenta recuperar o contato a qualquer custo, tenta transar no elevador, aparece no trabalho. O menino, constrangido, já a classifica: ela é surtada. O que aconteceu? Eu não prometi nada. Lágrimas. Luto. Vergonha. E o que é pior, a menina fica pensando que a culpa é dela. Eu que surtei. Pus tudo a perder.
Vamos dedicar algumas postagens a esse quadro clínico que vem tomando proporções epidêmicas: os Transtornos Obsessivos Amoros, doença que afeta principalmente as meninas que se envolvem com meninos com Deficiência Congênita de Testosterona. Não percam.