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domingo, 20 de agosto de 2017

As Pontas do Mundo

Um lugar comum de entrevistas de emprego e de Coaching é a tal pergunta: “Como você se enxerga em cinco anos?”. Eu consigo entender que a construção de planos ou de intencionalidades seja importante. Até o delinear de um prazo, também é ok. Mas talvez a maior fonte de sofrimento humano seja a perspectiva de enxergar os próximos anos e ter que ter um plano, um projeto, uma garantia. Os planos macro sepultam o entrelaçamento de pequenos momentos que compõe o que temos, que é a infinidade de aqui agoras que vão se bifurcando em quase futuros. O Macro é inimigo do Micro. Nosso Cérebro caça regularidades e garantias. Foi projetado para isso. Nossa tarefa é reprogramá-lo.
“A vida é o que acontece enquanto você está fazendo seus planos”. Essa pode ser uma boa resposta para a tal pergunta de manual de autoajuda, ou de estagiária de RH: espero que a vida aconteça enquanto os coachs programam o futuro. A vida corre nas bordas do que se espera dela. Eu me vejo em cinco anos tentando arredondar as pontas do mundo, como faço hoje. Todo dia.
Fiquei bastante tocado com uma matéria da Folha, de alguns anos atrás, em que uma moça de origem muito humilde descreveu como ficou feliz após tornar-se budista. Ela era faxineira, e a principal descoberta foi que podia ser muito feliz sendo faxineira. Tornou-se uma profissional cuidadosa e sentia que cada movimento da vassoura tinha significado e devia ser caprichado. Em vez de fazer planos de carreira, como virar a Faxineira das Estrelas ou lançar alguma marca de pano de chão com a sua grife, tratava de estar presente em cada momento de seu dia. Em vez de fingir que limpa e tentar se livrar do serviço o mais rápido possível para poder voltar a viver fora da casa da patroa, ela consegue tirar um grande prazer em fazer o seu trabalho direito, sem checar seus e-mails ou postagens no Face a cada doze segundos. A vida é o que acontece quando você não está postando nas redes sociais. Se antes o Futuro nos roubava uma imensa parcela de nosso presente, agora o Presente se nos escapa na tentativa de atualizar o Passado. Postamos o que comemos, onde estivemos, quem apareceu na Selfie. O postar das fotos e dos comentários é uma constante luta para registrar o que já passou e ou ler os comentários que funcionam como um Espelho. Recebo um like, logo existo. Vou para lugar nenhum, com muitos seguidores.
A meditação é, entre outras coisas, uma disciplina para entrar na cascata infinita de aqui agoras entre uma respiração e outra. Uma boa sessão de terapia é uma tentativa de entrelaçamento delicado do que me torna e me impede. Uma trama delicada de lembranças, associações e novas sínteses. Liberamos as dores e os falsos programas de vida, revemos as crenças para construir não outro Futuro, mas outro estar no mundo. Um novo e renovado compromisso com estar no mundo.
Uma personagem da série Big Little Lies descreve o choro de seu bebê ao nascer. Ela pede perdão por tê-lo trazido ao mundo, tendo sido concebido por um estupro. Ela sente na criança um horror de vir a esse mundo, e quase se arrepende de ter levado a gestação até o fim. Na série, ele é um menino doce que sempre é acusado de estar machucando uma aluna. Uma boa terapia poderia ajudar a criança e sua mãe de desembaraçar essa fantasia, construir uma nova história fora desses territórios de violência. A mãe tem a fantasia de que o filho vai herdar a violência de seu pai, o menino sofre com isso sem perceber. A mãe constrói sem perceber tudo aquilo que pretende evitar.
Tentamos desembaraçar essas tramas de passado, esses medos do futuro, enquanto a Vida acontece indiferente a todo esse labirinto de blá blá blás. Como dizia um mestre zen, meu cachorro não está nem um pouco preocupado com o sentido da vida. E eu diria, nem como vai se enxergar daqui a cinco anos.

domingo, 20 de setembro de 2015

O Sol sobre os Guardachuvas

Em meados dos anos 90 um rapaz lançou um livro sobre a sua própria experiência com a Doença do Pânico. Para quem me perguntava, eu enfaticamente contraindicava a leitura de seu livro. Hoje a contraindicação seria absurda, já que qualquer fórum no Facebook sobre o assunto coleciona dezenas de histórias muito mais cabeludas do que a do livro. O meu mau humor derivava da descrição dos efeitos da doença na vida do rapaz: era um roteirista que trabalhava em uma rede de TV aberta, razoavelmente bem sucedido. Teve a primeira crise na estrada de Santos e o quadro foi progredindo com crises diárias. Sua carreira foi interrompida, ele deixou o trabalho e ficou praticamente seis anos enfiado no apartamento de sua mãe, visitando o psiquiatra de tempos em tempos para ele aumentar a medicação e insistir para ele enfrentar seus medos, com “’ótimos” resultados. Quem lia o livro depois de experimentar uma crise de Pânico ficava obviamente apavorado com a perspectiva de passar seis anos enclausurado e sem chance de recuperação. Como dizem os clínicos antigos (e, de Deus quiser, os novos também) “Cada caso é um caso”, mas é muito raro, pelo menos na minha experiência, que um caso evolua tão mal assim. Uma parte muito boa do livro foi um sonho que o cara teve, decisivo para a sua recuperação, que era mais ou menos assim: “Ele tinha finalmente conseguido sair de sua casa, mas carregava um pesado guardachuva, pois o tempo estava carrancudo e ameaçando chover. De repente olhou para o céu e dentre as nuvens surgiu um feixe de luz, e uma voz em off dizia que ele não precisava daquele guardachuva”. Acordou assustado com o sonho e a voz em off e, a partir desse sonho, o seu tratamento tomou um rumo completamente diferente, com melhora progressiva e recuperação de sua vida profissional, agora como autor e palestrista. Óbvio que os pacientes que liam o livro descartavam o final feliz e se atinham ao sofrimento necessário para buscar a cura.
Esse era um dos sonhos que eu tinha no colete na aula de ontem, anunciada no post anterior desse blog, mas acabei não utilizando. Aliás, obrigado a todos que foram e aos que tentaram. O sonho é um sonho especial, daqueles que nos acordam no meio da noite. A voz em off parece de Deus em pessoa, ou de um anjo de cura. A mensagem parece banal, mas gerou no paciente um salto de consciência, de um estado identificado com a doença, representada no sonho pelo guardachuva ou, como sujeito oculto, o medo profundo da vida que o deixava agarrado a guardachuvas. Esse medo infestou toda a vida do paciente até ele passar a se enxergar como o medo em pessoa. Houve a formação de uma Neuroidentidade nova, e falsa: o paciente passou a ser o medo em pessoa.
Uma coisa é ter que lidar com o medo e com nosso mundo cheio de guardachuvas, outra coisa é tampar o sol com eles. O sonho trouxe uma imagem muito intensa e carregada de afeto, que mudou fundamentalmente a vida do sonhador. Para um junguiano, o sonho causou uma Função Transcendente que lançou a Psique do sonhador para fora do campo da doença. Com uma imagem que parece bastante óbvia, a Psique do paciente pulou de um mundo escuro e carregado de medo para um sol entre as nuvens mostrando que a chuva passou e que ele não precisava mais ter medo dela. O Ser- para- o- Medo tinha sido ultrapassado. Mas o que é a Função Transcendente?
Nossa Psique se transforma em períodos de crise. Normalmente essa crise se manifesta por uma tensão interna profunda e muitas vezes dolorosa: mudar ou não de carreira? Sair ou não de um relacionamento? Casar ou comprar uma bicicleta? No dia a dia do consultório, operamos no meio do conflito. O próprio conflito está muitas vezes lá, debaixo dos sintomas da doença.
O trabalho de elaboração do conflito e a energia psíquica do paciente podem provocar esse salto, onde tudo parece igual, mas está profundamente diferente. O paciente recupera a sua identidade e o personagem apavorado sai de cena. A vida volta ao normal. A Psique encontrou o seu caminho de cura. Pena que não temos um protocolo onde esse salto de cura possa ser previsto, ou programado.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Asa de Borboleta

Sempre gostei muito, e sempre tive uma suave intuição de entender o conceito do “Efeito Borboleta”, enunciado pela primeira vez nos anos setenta, em um seminário de Meteorologia. O princípio é de que um pequeno ou microscópico evento, como o bater das asas de uma borboleta na floresta tropical pode provocar um furacão na costa do Pacífico, no Hemisfério Norte. Um evento ínfimo, imperceptível, pode atuar em escala produzindo mudanças globais. Essa é a percepção que tudo está interconectado.
Onde o Micro e o Macro interagem é uma grande questão. O filme “A Teoria de Tudo” deu o Oscar de melhor ator para o rapaz que interpretou o físico britânico Stephen Hawking, mostra a trajetória desse homem através de uma doença degenerativa devastadora, a Esclerose Amiotrófica Lateral, o que criou um homem sem corpo e uma cabeça fantasticamente pensante. A própria tentativa, de Hawking e da Física Moderna, de achar um vínculo, um sistema que englobe o Universo em expansão com os eventos subatômicos, tem uma sutil e delicada ironia: qual o efeito subatômico que gera essa e outras doenças degenerativas? Por que é uma doença que acomete muitos ex atletas de alto desempenho, que sofrem muitos traumas e muitos microtraumas? Qual será o Efeito Borboleta que vai produzir essa doença catastrófica, que deixa de joelhos a Medicina? Onde o micro da comunicação entre as células leva a uma doença que destrói o organismo como um todo?
Já escrevi em alguns posts sobre a eterna tensão entre Micro e Macro na nossa vida. Atendo diariamente pessoas doentes das macro expectativas não realizadas: o candidato a Steve Jobs torturado numa pequena empresa de TI; a candidata ao amor cinematográfico e eterno torturada entre casos que não viram relacionamento e homens que não criam vínculo, e assim por diante. Muita gente esperando que algo que faça sentido entre voando pela sua janela, porque não conseguem sair de casa para procurar. Autores procurando pelo grande livro, místicos buscando a iluminação, doentes procurando a cura definitiva, todo mundo está procurando por alguma coisa, diz a velha música do Eurytmics.
Um lugar da Medicina que procura juntar os efeitos subatômicos com as mudanças multissistêmicas é a Homeopatia, onde quantidades subatômicas de determinadas substâncias podem produzir mudanças profundas da resposta de um organismo, como a Resposta Imune, por exemplo. Lá é um lugar onde se pode examinar o Efeito Borboleta. Estranhamente, eu nunca me mobilizei para estudar esse tipo de abordagem e continuei com meus medicamentos alopáticos. Muito provavelmente porque essa medicação, quando bem empregada e associada a outras abordagens terapêuticas, pode trazer imenso alívio para o sofrimento humano. Mas há outro motivo: há uma imensa gama de interações e de efeitos macro e micro de um tratamento. A intervenção macro produz efeitos profundos, de dentro para fora, de fora para dentro. Mesmo a Alopatia produz esses efeitos.
Dizem os místicos que uma de nossas tarefas na vida é tornar sutil o grosseiro, libertar a energia presa na matéria na direção da Luz. Perceber o sutil e a sua infinita cadeia de relações é uma tarefa dos seres em busca de sua consciência e do significado. Outro dia recebi o e-mail de uma esposa preocupada, que atribui as variações de humor e angústias de seu marido à uma possível bipolaridade. Ele tem uma profunda angústia de Vazio e de Não Sentido, não tem achados compatíveis com a Doença Bipolar, embora tem muita gente graúda que diria que ele é um Bipolar. É bem difícil traduzir para ambos que o significado pode estar no Micro, não no Macro. Ele queria ser um homem de negócios poderoso, mas pode fazer diferença num pequeno comércio. Um pequeno ato de boa vontade pode melhorar a crise hídrica. Um trabalho honesto pode ser uma alternativa para a sensação de avacalhação que acomete o povo brasileiro que entende as notícias. O problema é que, se eu disser isso, posso acabar diante de um psiquiatra, que vai me achar um pouco Bipolar.

domingo, 23 de novembro de 2014

Dependentes

Estava conversando numa sessão sobre a possibilidade de aumentar o número de sessões, já que o assunto estava ficando mais bacana e as visões internas, as introvisões que chamamos de Insight, estavam se tornando mais ricos e mais presentes no trabalho. Veio a dúvida se aumentar a frequência das sessões não seria criar uma dependência do terapeuta. Esta é uma questão que vira e mexe aparece em nossos sofás terapêuticos: a indústria da terapia, seja medicamentosa ou psicoterápica, busca, pelo menos a nível inconsciente, induzir uma espécie de dependência nas pessoas? Essa indústria é uma máfia silenciosa que captura as pessoas para dentro de uma bolha onde o remédio e a sessão serão drogas pesadas, que induzem mais e mais uso (e abuso)?
Assisti recentemente um documentário sobre o que aconteceu em nossa sociedade com a substituição da dieta vegetal de nossa vida agrícola para a dieta com forte presença da proteína animal, ou da alimentação baseada na carne. Os livros de Medicina do início do Século Vinte nem tinham capítulos sobre Infarto do Miocárdio e a Doença Coronariana era praticamente inexistente. Era quase um evento raro, assim como a Obesidade. Com a troca da dieta baseada em vegetais e grãos para o senso comum que não há como eliminar a carne da dieta e quanto mais carne melhor, as doenças cardiovasculares foram se tornando as superestrelas da Medicina. Vamos chegar à idade madura com pílulas para baixar o Colesterol, controlar o Diabetes e a Hipertensão, e tudo isso está fortemente correlacionado com a nossa dieta. O uso progressivo de antidepressivos e ansiolíticos também deve estar correlacionado com esse tipo de alimentação, que nas últimas décadas ainda foi se tornado cada vez mais industrializada e acrescentada de gorduras Trans, doses industriais de Sódio e alimentos cada vez mais desprovidos de nutrientes. Para isso, temos outras pílulas, de vitaminas, para devolver o que foi retirado da alimentação. Estou falando tudo isso para demonstrar que estamos imersos em mais dependências e mais indústrias produtoras de pseudociências e necessidades. Estou tentando diminuir ao máximo o consumo de carne e outros pró inflamatórios de minha dieta. O resultado é, se parar para fazer um lanche numa padaria, não tenho o que pedir. Estamos enfiados em vários circuitos de dependência, os consultórios não estão livres disso. Em alguns países desenvolvidos, se o médico suspende o tratamento antidepressivo e o paciente tem uma recaída e, por exemplo, perde o emprego, o médico pode ser questionado e mesmo processado. Retirar a medicação envolve um acordo de mútua vigilância e cuidado entre médico e paciente. Sem esse cuidado, sem essa confiança, é melhor manter a medicação. Recebo algumas vezes pessoas que estavam mantendo a prescrição de antidepressivos por alguns anos pelo simples fato de não terem mantido o seu seguimento. Dava para ter suspendido ou trocado a medicação, que o sujeito preferiu manter quase como automedicação. Tudo isso para “não ficar dependente” do tratamento.
O Budismo tem um conceito que eu adoro, que é a Interdependência. Não somos apenas dependentes, mas interdependentes. Um tratamento deveria fortalecer esses laços de interdependência e enfraquecer os nós da codependência. É bem mais fácil falar do que fazer. Aumentar o número de sessões porque o processo está se aprofundando e se tornando mais rico é exatamente o contrário de criar Dependência. Significa aprofundar o Silêncio, numa época que somos dependentes do Ruído.

domingo, 27 de julho de 2014

A Incidência do Tempo

Uma estratégia de marketing eficaz para um médico é se tornar referência em algum assunto ou doença. Uma espécie de Top of Mind é sempre boa maneira de ser lembrado ou referendado. Durante um curto espaço de tempo, há mais de uma década, eu tive uma assessora de imprensa que ficava meio louca com a minha falta de definição de produto. No que eu era especialista, afinal? Bom, eu faço uma psiquiatria junguiana e não tem muita gente disposta a aproximar essas áreas de conhecimento. Ela percebeu, meio horrorizada, que Jung não era popular nem entre os psicoterapeutas, quanto mais no respeitável público. Eu era e continuo sendo um generalista, como se pode perceber pelo leque de assuntos desse blog Uma das delícias de ser generalista é atender diversas faixas de idade, dos 15 aos 90 anos.
Lembro de uma interconsulta, isto é uma consulta de um especialista em outra clínica que não a sua de origem; no caso, estava atendendo um velhinho na UTI. O pedido de interconsulta, como de costume, era vago e impreciso, o tal senhor estava depressivo por conta de seu estado clínico. Falava constantemente que preferia morrer. Fui atendê-lo e não era nada disso. Este senhor apresentava uma Insuficiência Renal que a equipe tentava reverter. Um dos tratamentos era a restrição hídrica, ou seja, ele não podia beber nenhum líquido, apenas molhava os lábios quando o desconforto era demais. Ele era o mais doce dos suicidas: disse para mim que queria morrer afogado numa piscina de água mineral, que queria beber água gelada até morrer, mas não aguentava mais aquela restrição. Logo ficou claro que o paciente não estava deprimido e não tinha ideias de morte. Se o colega tivesse dedicado cinco minutos de seu precioso tempo para fazer algumas perguntas, saberia que o vozinho estava poeticamente desejando se afogar em água fresca, precioso líquido. Como eu já estava lá aproveitei para esticar a conversa com o objeto de minha interconsulta. Papo vem, papo vai, ele me contou que a sua esposa havia falecido recentemente, após décadas de casamento feliz. Ele já estava sem ela há cerca de três anos. Subitamente o psiquiatra retornou à conversa. Perguntei para ele se a sua ideia de morrer bebendo uma piscina não tinha a ver com o desejo de reencontrar a sua esposa. Ele olhou para mim com o mais doce dos sorrisos e me perguntou “Como eu posso reencontrar alguém de quem nunca me separei?”. Fiquei com aquela cara de bobo, com a caneta pendurada na mão e o carimbo dentro do bolso. Quase pedi para ele me atender. O seu assunto não era a morte, mas a vida. Para ele, a sua esposa era uma experiência viva. Como uma piscina de água fresca.
Uma senhora, que veio ao consultório por um quadro de luto complicado após a morte de um companheiro de décadas, ficou embasbacada quando o seu filho, depois de alguns casamentos, avaliou o seu casamento de Bodas de Ouro como neurótico. Ela ficou com o mesmo homem durante todo aquele tempo porque teve o azar de casar antes da Revolução Sexual, senão teria tido a liberdade de casar mais vezes. O casamento dura enquanto dura o tesão, disse ele.
Nossa sociedade de hiperconsumo criou um bem de consumo, que é o sexo de consumo. Uma vantagem de atender diversas idades é aprender com esses pacientes de pele vincada pelo tempo o que acontece com a incidência do tempo em sua vida e vivência. Falei para aquela senhora que seu filho talvez fosse muito jovem para entender um amor que resiste ao teste do tempo, que se aprofunda e cresce dentro da alma do jeito que ela sentiu. O seu amor não era um sintoma neurótico. “Psicologizar” o amor é um sintoma neurótico. Uma queixa das pessoas de ambos os sexos no consultório é exatamente a falta de tempo para uma relação crescer e se desenvolver. Estão todos muito ocupados com sua autoestima. Não dá para provar de um amor que cresça em si, sob os efeitos dos anos.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Placebo é a Mãe

Estava lendo uma matéria publicada na Carta Capital, se não me engano, já que a matéria foi impressa por um amigo que queria me provocar, no bom sentido de uma provocação: aquela que estimula o debate. A jornalista se baseou em dois livros que atacavam a atual epidemia de doenças, diagnósticos e tratamentos psiquiátricos. Na primeira metade da matéria, discutiu-se longamente o efeito dos medicamentos, notadamente os antidepressivos, comparando-os com os placebos. Na verdade, chega a propor que uma grande parte dos efeitos dessas medicações sejam Placebo, isto é, reações que derivam na crença que as pessoas tem nas medicações. Na segunda parte, a argumentação era mais devastadora: se os medicamentos psicotrópicos mudam o funcionamento cerebral, então quem garante que uma parte importante das atuais doenças psiquiátricas não sejam causadas pelos medicamentos em si, em vez de melhoradas por eles?
Eu poderia inverter a brincadeira e a provocação: e se fizéssemos um levantamento de quantas pessoas adoecem e morrem pelos efeitos colaterais da hipermídia? Os meios de comunicação estimulam muito mais os sentimentos tóxicos do que os bons. Exploração do Medo e do Desejo é o que vemos em todos os lados. As pessoas estão cada vez mais medrosas e cada vez consomem com mais ferocidade, graças aos estímulos onipresentes da Mídia. Essa matéria mesmo está estimulando o leitor a acreditar numa máfia de avental que está à espreita nos consultórios para prescrever remédios desnecessários, que vão te fazer engordar e ficar sem libido e dos quais você nunca vai se libertar. E o pior: apesar dos bilhões de dólares gastos na indústria dos transtornos psiquiátricos, as pessoas estão cada vez mais doentes e infelizes. Podemos retrucar que, apesar de estarmos na época de maior disponibilidade e acesso à informação, as pessoas nunca foram tão preguiçosas intelectualmente e desinformadas do que acontece em nosso mundo. Estou fazendo esse exercício apenas para demonstrar que essa coisa de ficar apontando dedos não leva o debate muito longe.
Nesta semana atendi o retorno de uma moça, empregada doméstica, cuja patroa cansou de ver sofrendo com crises de Pânico e sofrimento recorrente por meses. Em vez de trocar de empregada, teve a bondade e a compaixão de pedir a indicação de um psiquiatra e mandar a moça para uma consulta. Ela tinha passado por consulta em hospital público e a médica deu-lhe um remédio que já havia tomado, para tomar antes de dormir. O remédio em questão não deve ser tomado à noite, porque atrapalha o sono. Muitos dos sintomas, então, eram causados pela privação do sono. Trocando o horário da medicação, ela já melhorou bastante. Depois de alguns meses, a patroa está querendo marcar consulta, pelas melhoras que está vendo em sua empregada. Uso este exemplo para responder às questões levantadas nesta matéria: venha o jornalista, que nunca tratou nem unha encravada, observar o que aconteceu na vida dessa moça quando tinha crises de Pânico todo dia, e agora. Placebo é a pqp. Se não é para pressupor que os médicos são sociopatas e os pacientes idiotas e crédulos, a melhor medida de qualquer diagnóstico e tratamento é de extrema simplicidade: o paciente tem um sintoma que lhe causa incômodo e atrapalha toda a sua vida; ele dirige-se a um profissional que deve conhecer a natureza do quadro e do tratamento para melhorá-lo. Inicia-se um tratamento que visa aliviar os sintomas e devolver o paciente â sua vida normal. Se isso não acontecer, troca-se o profissional, a abordagem, os medicamentos. Até o paciente se sentir melhor.
Acredito, sim, na mitificação da doença e no uso exagerado de medicamentos em quase todas as especialidades. Em Psiquiatria, padecemos, como em outras especialidades, de profissionais que prescrevem demais, prescrevem de menos, prescrevem errado. Mas as doenças são melhor e mais facilmente identificadas e vida das pessoas melhora com os tratamentos, que ninguém é burro de usar uma medicação cara que não traga nenhum benefício.

domingo, 21 de abril de 2013

Aleluia, Hare Rhama

Na Quarta Feira os sãopaulinos tiveram o seu dia de Palmeiras. O tricolor venceu o Atlético Mineiro, façanha vital para continuar na Libertadores. Ganhou no peito, na raça e no tranco, de um time melhor, mais técnico, mais eficiente. Não foram poucos os tricolores à beira de um ataque de nervos naquele jogo tenso. Confesso que estou um pouco preocupado com o estado mental do Rogério Ceni. Liga lá no consultório, Rogério. Você anda papando uns frangos e suas declarações estão dramáticas e um tanto histéricas. Eu dou uma regulada nesse seu estado de luto pelo fim da sua gloriosa carreira. Mas esse não é o assunto desse post.
Confesso que não assisti um bom pedaço do jogo, que estava mais para Rugby do que Futebol. Fiquei zapeando um documentário que passou na TV a cabo, sobre a vida do guitarrista dos Beatles, George Harrisson. O filme tem quatro horas de duração, divididas em duas partes. A segunda parte, que eu assisti durante o jogo, é bem mais interessante. George foi muito mais interessante como ex Beatle, embora tenha feito algumas das mais belas canções da história do Pop como Beatle. Por exemplo, “Something” e “Here Comes the Sun”. Como os outros ex Beatles, depois do fim da banda, nunca mais encaixou uma música como no tempo dos quatros rapazes de Liverpool. Mas há um depoimento particularmente impressionante, de um amigo e músico que gravou com George. Uma infinidade de bons músicos o fizeram, sobretudo nos anos setenta. O cara relatou que estava muito bravo, muito magoado com algum assunto que nem se lembra. George estava ao seu lado. De repente, ele sentiu que sua alma estava sendo tocada pela alma de George, como se ele estivesse entrado dentro do amigo para descobrir o que estava magoando-o tão profundamente. Quase esqueci de vez do jogo.
George teve uma profunda e longa busca espiritual, desde o tempo dos Beatles. Não foi o iluminado que o documentário quis vender, mas sem dúvida encontrou uma paz interna bem incomum para uma celebridade e um pop star. A compaixão, a amizade, o campo psíquico favorável à criação, eram algumas das qualidades. Não tenho a menor dúvida que a sensação do amigo era real. George tentou “entrar dentro” dele e curar a sua ferida. No momento de maior quietude.
Nosso mundo é completamente voltado para o espaço exterior, a conquista desse espaço. A imagem, o consumo, o domínio da matéria. Fui a um simpósio ontem em que assisti a algumas aulas lamentáveis, que partem sempre da premissa do quantificável. Fiquei com vontade de pegar o microfone e falar que a boa cura tem que partir dessa capacidade de George, de entrar profundamente dentro do Outro para sentir, em profundidade, onde está a ferida. E onde está o vazamento. Era um simpósio sobre Psicogeriatria e falou-se muito mais sobre o medo do idoso de levar um tombo do que na presença inquebrantável da Morte, uma grande e omitida questão em toda consulta com um idoso. Na minha cabeça tocava uma música de George no período pós Beatle, “My Sweet Lord”, em que ele canta que queria conhecer de verdade essa presença divina doce. O coro nessa música de sua voz mistura Aleluia, com Hare Rhama, um cântico Hare Khrishna. Amen e Aleluia com Khishna Krishna. E o gaiato lá na frente fazendo discurso para medicar adequadamente a angústia das pessoas, sem entrar dentro delas. Eu pegaria no microfone e diria: não há cura sem Quietude. Não há diagnóstico sem entrar dentro do outro, guardem as suas entrevistas padronizadas. Seria divertido, embora levaria à minha internação.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Nova Adolescência

Na minha formação como Psiquiatra, dei a preferência por uma especialização que na verdade é uma não especialização, que é a Psiquiatria de Interconsulta, ou Hospitalar, se preferirem. Um psiquiatra no hospital geral é, antes de tudo, um generalista. Atende a menina que tomou os remédios da mãe porque brigou com o namorado, no PS, e o velhinho que, por conta de uma Infecção Urinária está confuso na UTI. É uma Psiquiatria de Interface e os leitores desse blog já devem ter notado que eu adoro as questões que estão na interface de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência. O IBAMA está concluindo estudos para me tombar, já que a tendência, nas últimas décadas, é de hiperespecialização. Outro dia fiquei novamente emputecido com essa tendência. Uma pessoa muito próxima estava iniciando um tratamento à base de Hormônios Tireoidianos e passou a apresentar taquicardias eventuais, seguidas de desconforto ansioso. Ao apresentar a queixa para a médica Endocrinologista, foi encaminhada ao Cardiologista para investigação. O quê, Cara Pálida? A taquicardia é um sintoma desencadeado pelo uso do Hormônio Tireoidiano, o quadro coincidiu com o aumento da dose, e agora vamos passar pela floresta de testes cardiológicos por conta de efeitos colaterais perfeitamente manejáveis? Não foi ao Cardiologista, o quadro se estabilizou gradativamente e eu, psiquiatra, tive que explicar os efeitos colaterais da medicação endocrinológica. Continuo um psiquiatra de interfaces, não é mesmo?
Uma coisa que vem me impressionando é o que está acontecendo com essa geração Facebook, que está chegando à casa dos vinte anos. É uma geração de excessos: excessos de Internet, de games, de Álcool, de intensidade. Acho que levaram a sério o mito apocalíptico da vez, que é prevê o final do mundo agora em Dezembro. Tudo é vivido com pressa e intensidade e os resultados dessa velocidade acompanhamos todo dia no noticiário. Acidentes, bebedeiras, overdoses. São todos os pós adolescentes que atropelam corredores de rua, bebem até o coma alcoólico e caem de ribanceiras? Não, é claro que não. Mas há um estranho deslocamento dos quadros antes vistos pela Psiquiatria da Adolescência nessa geração, como se a Adolescência agora estivesse de estendendo até os trinta anos (ou mais). Nossa Geração Autoestima, hedonista e narcísica, exacerbou a busca incessante do excesso e do compulsivo, gerando comportamentos que deixam os pais desnorteados.
No Prólogo de minha Dissertação de Mestrado, eu fiz uma alusão a uma deusa grega, protetora dessa transição da infância para a idade adulta, Ártemis. Ela é uma deusa sempre menina, sempre jovem, sem plástica nem uso de hormônios esteróides. Ártemis anda sempre com uma saia curtinha, é a precursora da minissaia, para poder correr mais rápido. É eximia no manejo do arco e flexa. Hoje em dia, Ártemis seria a deusa das Redes Sociais e da volta para casa depois das baladas, onde o risco de acidentes é 8 vezes o normal. Essa pequena deusa tem sido muito invocada nesse consultório. Ela protege o jovem na jornada que separa a infância da idade adulta. Ajuda o jovem a passar pela noite escura na selva sem se contaminar pela bestialidade das feras.
Ártemis anda muito ocupada com essa geração, filmando baladas e sexo e colocando no Youtube, capotando carros ou fugindo de Blitz, para serem metralhados na esquina.
A parte mais difícil é trazer os pais para a posição de pais. Estamos numa época em que todos querem permanecer ou voltar, para a adolescência. Envelhecer é o maior pecado. Que a pequena deusa Ártemis ilumine e proteja os jovens e suas famílias em sua jornada e que nada destrua esse caminho. Salve, Ártemis.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Blogstórias 1 As Asas de Ícaro

Crucial para a história de Ícaro é a figura de seu pai, Dédalo. Quando a rainha traiu o rei Minos com uma divindade do Olimpo, nasceu uma figura monstruosa, o Minotauro. Meio homem, meio touro, o Minotauro era um ser de força das bestas, impossível de ser enfrentado. Mas foi Dédalo, engenheiro e conselheiro do rei, que propôs tirar proveito da situação. Construindo um labirinto perfeito, Minos poderia ter em sua vergonha uma grande arma para oprimir o povo. Na realidade, a maior arma de um tirano, o medo. Todo ano os atenienses mandariam seus belos jovens para alimentar o apetite infinito do monstro, ou dos dois monstros, Minos e seu touro. Dédalo, tão sedento de poder quanto, usava de sua astúcia para agradar os poderosos na mesma medida em que, bajulando-os ou ocultando a sua monstruosidade, acabava por dominá-los. Diz um ditado mineiro que esperteza, quando é muita, acaba engolindo o seu dono, e foi o que aconteceu com Dédalo. O labirinto era tão perfeito que acabou prendendo em suas entranhas o perverso engenheiro e seu filho, Ícaro. Os dois acabariam por se tornar as primeiras ovelhas de sacrifício do Minotauro.
Dédalo, entretanto, continuava sendo astuto e engenhoso, conseguiu construir para si e para o seu filho asas de cera e penas dos pássaros que caíam no labirinto. As asas permitiriam voar por sobre a própria maldade e vencer o destino. O pai pediu a Ícaro que não voasse para perto do sol, pois as asas de cera poderiam derreter e o filho, preso dentro da prisão construída pela sede de poder de seu pai, prometeu ser cuidadoso. Mas quando conseguiu finalmente alçar o vôo, Ícaro ficou completamente embriagado pelo vôo. Nunca um homem gozara daquela sensação, a mesma dos pássaros. Ícaro voou cada vez mais alto, insensível ao desespero de seu pai, que implorava para que voltasse. Chegando perto do sol, percebeu que não era um pássaro, que as suas asas eram muito frágeis para sustentar o seu vôo. O sol derreteu a cera e Ícaro caiu, para nunca mais se levantar, nas profundezas do mar.
Nosso Ícaro moderno há muito não falava com seu pai. Dele se ressentia por sua ausência e, sobretudo, por seu desinteresse. O seu pai nunca teve nos filhos algo diferente de uma boa moldura para a foto de homem respeitável, homem público, chefe de família sedento de poder, mas aparentemente um homem amoroso e atencioso aos seus. Com os anos, a sua carreira não foi tão longe, a família se desmanchou e o jovem Ícaro foi morar com os avós, estudar e trabalhar, tentando construir uma vida de verdade, longe da loucura de seu pai. Da fortuna que o mesmo juntara, seja por quais meios, ele recebera apenas um carro importado, dos mais caros e possantes. Sensível à nossa época de aparências, Dédalo recebeu o carro como parte de uma de suas negociatas. Sabia que aquele carro impressionaria as meninas e os colegas de seu filho, além de ser um símbolo de seu poder. Pedia para o filho que o usasse com cuidado, era um carro muito caro e possante (ao contrário dele próprio).
Foi no meio de uma balada que Ícaro viu a luz do sol. Um sol enganador. Misturou álcool e balas que um amigo levou, umas balas que crianças não chupam. A mistura de álcool e drogas deixou-o exaltado, logo ele saiu, depois de levar um toco da menina desejada, que não se impressionava com suas asas de cera. Logo na primeira avenida, bateu em alta velocidade em três carros, tentando enfiar o carro num vão que só a sua imaginação exaltada viu. Fugiu em desespero, correndo à esmo pelas ruas da cidade. Ninguém poderia alcançá-lo com aquele carro. Depois de muitos e muitos quilômetros de ferocidade, fez mais um strike em um cruzamento, batendo em vários carros. O Ícaro moderno, ao contrário do mitológico, não morreu. Matou um senhor em sua van que saía para o trabalho de madrugada. Foi ele que morreu queimado. Ícaro teve a assistência de advogados caros e pagou uma fiança astronômica. Mas leva, para toda a sua vida, a imagem do homem gritando entre as ferragens e labaredas. Disso ele não vai conseguir fugir.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Solidão

Peço desculpas aos poucos e fiéis leitores desse blog. Passei o fim de semana fazendo mudança de consultório, é impressionante a quantidade de tranqueira que conseguimos acumular em poucos anos. Não tive força física nem para teclar sobre as pessoas que odeiam o Dia do Namorados e como essas datas comerciais exacerbam nas pessoas o sentimento de solidão. Impressionante como a vida pós moderna reforça nas pessoas a sensação de acesso absoluto e isolamento ao mesmo tempo. No filme "Ele não está afim de você", a personagem observa que o seu desencontro amoroso estava rolando no celular, computador, telefone fixo, secretária eletrônica. Ela estava sendo rejeitada em sete diferentes tecnologias e isso é muito cansativo. Essa é uma cena para odiar os dias de Namorados.
No almoço de Domingo, entre um embarque de uma estante e o empacotamento de amostras de remédios, encontrei uma querida amiga e colega que mora lá perto. Ela foi minha supervisora na residência e ainda me chama de "menino", o que é muito confortável com esse bigode ficando branco. Ela é uma psiquiatra respeitada que é solicitada a dar entrevistas na mídia. Perguntou para mim se pode me passar algumas pautas mico, como "Solidão". O que tem um psiquiatra para falar de solidão? Vamos citar as estatísticas, que a prevalência de transtornos psiquiátricos é muito maior em pessoas solitárias? Que o isolamento social é frequentemente uma complicação e fator de agravamento de quadros psiquiátricos? É um jeito chato de abordar a questão, não acham? Nos despedimos para eu voltar à arrumação do novo consultório, ela prometeu me passar essas entrevistas (Uma vez dei uma entrevista no Jornal da Record, no dia seguinte a atendente do restaurante por quilo chamou todas as cozinheiras para ver o "médico que estava na televisão". Virei uma celebridade do quilão. Meus quinze minutos de fama).
Jung estudou os tipos psicológicos em uma fase de sua carreira. Dividiu, para começar, duas tendências principais: Introversão e Extroversão. Ao contrário do que pensa o senso comum, Introversão não significa timidez e Extroversão não significa uma pessoa comunicativa. O Introvertido é alguém que experimenta o mundo internamente. Ele vê, por exemplo, um Disco Voador e observa, estuda, compara com os filmes B que assistiu em sua infância, aí vai se aproximar. O Extrovertido vê a nave alienígena e corre para ir puxar papo, sendo prontamente pulverizado por canhões de raios gama. Essa é a diferença. O introvertido vive internamente e aí se move, o extrovertido se orienta pelo mundo exterior, vai ver o que é, provar, testar. É claro qe vivemos num mundo em que a atitude extrovertida é mais valorizada do que a introversão. Inclusive no jogo do amor. E na solidão. A pessoa introvertida, até por tolerar mais a própria companhia, acaba tendendo mais à solidão. Mas isso não é uma regra.
No dia a dia do consultório, peço muito para os pacientes com diferentes quadros clínicos para não fugir ao convívio humano.O nosso Cérebro é relacional, precisa de contao com as coisas e as pessoas. Se possível, um bom jeito de sair da solidão é cuidar de alguma coisa. Cuidar de um bicho, de uma samambaia ( o Dentinho do Corinthians que o diga), de um projeto. Uma das coisas que perpetua a solidão é o excessivo zelo por si, que torna a pessoa egocêntrica, outra fonte inesgotável de solidão. A vida precisa de cuidado, e isso afasta a solidão para introvertidos e extrovertidos. Os introvertidos cuidam melhor, por isso, por estranho que pareça, sentem-se menos solitários.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Tempo das Coisas

Hoje logo cedo já recebi um e-mail algo malcriado e respondi com outro mais malcriado ainda. Vinha de um executivo, desses já acostumados a pressões inviáveis, prazos impossíveis e chefes sádicos; dirigiu-se a mim no mesmo tom que acostumou-se a receber. A sua esposa está com uma quadro depressivo, ele pergunta quando vai responder ao tratamento e fica exigindo telefonemas, prazos, reuniões. Estou sem voz há uma semana e já avisei que não haverá telefonemas, nem reuniões. Apesar de ver nessas últimas décadas a melhora dos pacientes se dar de uma forma cada vez mais rápida, às vezes de forma dramática, no mais das vezes o processo de adoecimento leva um tempo para se instalar, um tempo para piorar e um tempo para melhora e volta ao equilíbrio, isso se o diagnóstico é correto e a medicação bem aplicada. No começo do tratamento isso é particularmente estressante, porque o paciente sente os efeitos colaterais , mas não os efeitos terapêuticos dos medicamentos, gerando adjetivos pouco elogiosos aos psiquiatras e suas respectivas mães.
Tem uma música que eu adoro, do Renato Teixeira, "Tocando em Frente", que já foi gravada com vários intérpretes de peso. Uma das estrofes é particularmente bonita: "Penso que viver a vida seja simplesmente descobrir o ritmo e ir tocando em frente/Como um velho boiadeiro levando a boiada eu vou levando a vida pela mesma estrada, eu vou". Já citei essa passagem em outro post e não vou cansar de fazê-lo. É um trecho que fala profundamente dos processos da vida e como lidar com eles.
Kant, no pouco que consigo entender de sua obra filosófica, dizia que toda a nossa experiência consciente e de conhecimento parte de dois pressupostos fundamentais, que nos organizam: o Tempo e o Espaço. Descobrir o ritmo e ir tocando em frente é uma tarefa de todos, então. Compreender as limitações de nosso tempo e espaço tridimensionais é outra tarefa imensa. A natureza é composta de ritmos, o corpo humano é composto de ritmos, o planeta dança em seus ritmos. Toda vez que tentamos atropelá-los, o resultado é mais atraso, é mais desequilíbrio. E desequilíbrio, temos de sobra.
A minha voz vai demorar um tempo para voltar. A paciente vai levar um tempo para melhorar. O bom curador procura sintonizar com esses ritmos e conduzir o tratamento de forma segura. Como um velho boiadeiro levando a boiada.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Crises e Jornadas

Um ofício que realmente me dá inveja é o de vidente, cartomante ou diversos tipos de aconselhamento que graçam pelo mercado. Lembro aos leitores que sou junguiano, então está muito longe de mim esse nariz torto de cientista fazendo pouco caso dos fenômenos psíquicos paranormais, vidência incluída. Não estou falando de gente séria e com capacidades notáveis de percepção, que já vi mudarem muitas vidas. Estou falando de uma indútria de palpiteiras que se utilizam de cartas, búzios e bolas de cristal para fazer previsões e sugestões que realmente podem causar estrago. O último filme de Woody Allen, que eu não recomendo, "Você vai conhecer o homem da sua vida" tem uma personagem central, uma senhorinha cuja vida é literalmente dirigida por uma dessas palpiteiras intuitivas que sempre vão dizer para a consulente do homem maravilhoso que vai entrar na sua vida.A simpática e roliça senhora acaba conhecendo um homem e mudando a sua vida, numa dessas ironias Allenianas, não antes de deixar completamente louca a sua filha e genro.O roteiro é conhecido: no futuro todas as mazelas e desencontros serão redimidos e as peças, finalmente vão todas se encaixar: dinheiro, sucesso, felicidade, tudo isso a cinquenta reais a hora.
Para determinados tipos de consulta, o roteiro se estende e se aprofunda: quando uma querida e desesperada obsessiva amorosa vai pedir ajuda para conseguir finalmente uma relação estável com o homem amado, sempre vai haver uma ex namorada ou um ex namorado que fez um trabalho, impedindo que os pombinhos encontrem seu happy ending. Lógico que o trabalho pode ser desfeito, por uns dois mil reais e algumas oferendas às divindades iradas. Longe de mim o desrespeito à essas crenças, mas não é bom espetáculo ver a pessoa que sempre professou outra religião cuspindo farofa sem entender o ritual.
Há alguns anos eu publiquei um e-book no site de um amigo, que falava na crise como jornada de transformação. Havia uma personagem, a Vovó, que contava para a neta algumas historinhas com uma visão arquetípica, de Forrest Gump a Branca de Neve. Se o leitor tiver curiosidade, pode entrar no site que eu não atualizo há noventa anos, o www.marcospinelli.com.br para ver alguns textos da Vovó. Tem dias que eu tenho vontade de tirar a velhinha do baú e fazê-la conversar com as netinhas sobre seus problemas amorosos.Nos textos antigos, a Vovó falava de um momento que sempre inicia uma jornada de transformação: o momento do Erro Fundamental, termo que eu pequei emprestado de uma grande autora, Jean Houston. Vou falar sobre isso nos próximos posts, mas o erro fundamental é o evento, catastrófico ou não, que faz a nossa vida mudar para sempre. É como o caçador apontando a faca para Branca de Neve, obrigando-a a entrar na floresta escura e começar a sua própria jornada. Acho que as videntes de fundo de quintal tem uma particular capacidade de pegar esse momento do erro fundamental e mostrar que, a partir de daquele ponto, tudo mudou para pior. Um namorado magoado, a perda de um emprego, uma doença. Responsabilizar a bruxa, ou o bruxo malvado pelo ocorrido é fácil. Difícil é o ofício do terapeuta, que vai apontar a ferida e comunicar ao cliente que a ferida é de sua inteira responsabilidade. Ficar procurando ou elegendo culpados só vai aumentar o sofrimento de todos. Mas é sempre mais fácil imaginar que as coisas não dão certo por conta de um trabalho de uma ex enlouquecida. Difícil é tentar entender as linhas tortas onde a vida tenta escrever certo. E refazer o caminho quando pegamos mais um atalho errado.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Animal Simbólico

Há uns dois anos encontrei um antigo conhecido e atual psquiatra estrelado e frequentador das páginas da Veja em um Congresso de Psiquiatria. Ele me saudou de forma entusiástica (o que não é muito comum no seu caso, por ser uma pessoa contida) e perguntou, nos corredores do evento, de bate pronto: " E aí, Spinelli, continua Junguiano?". Anos dedicados ao ofício me deram um certo treino para a resposta rápida. A primeira que me ocorreu foi: "E você, continua um Papagaio de Pirata da Indústria Farmacêutica?". Felizmente o treino inclue deter algumas respostas antes que elas sejam cuspidas boca à fora. Limitei-me a sorrir e a falar que estava para montar uma clínica de Psiquiatria Junguiana, se é que isso existe. Seguimos nosso caminho nos corredores, coincidentemente em direções opostas. No hard feelings. O interessante da pergunta é a questão implícita de que ser junguiano para a soberana Psiquiatria é algo como escrever em máquinas Olivetti, chupar balas Juquinha ou imprimir em impressoras matriciais esperando efeitos em 3D. Vou dar um exemplo das visões díspares, óbvio que puxando a brasa para a sardinha da Psiquiatria que eu gosto. Mas vou manter alguma imparcialidade, já que sou Psiquiatra Clínico também. Isso também me coloca em posição interessante: para os psicoterapeutas, eu sou um clínico. Para os clínicos, eu sou psicoterapeuta. Isso é um duplo exílio, mas felizmente eu o aceito com algum bom humor (e algum sofrimento, também).
Voltando à uma Psiquiatria Junguiana: imaginemos um vovozinho passando por um monte de dificuldades. Uso o exemplo porque o colega em questão é Psicogeriatra. Imaginemos um vovozinho que perdeu recentemente a sua companheira. Para piorar, uma Arritmia Cardíaca causou uma internação de sete dias em uma UTI. Após alguns poucos dias, ele começa a ter novas palpitações, mas o Eletrocardiograma não indica nova arritmia. Ele está triste e depois de algum tempo de entrevista começa a chorar. O Psicogeriatra é chamado, diagnostica uma depressão e dá o antidepressivo mais recomendado pela Literatura Médica. O vovozinho chega em meu consultório algumas semanas mais tarde. O antidepressivo da moda está lhe causando sintomas de pânico. O psicogeriatra da moda pede para ele aguente firme, que os sintomas iriam começar a melhorar. Ele não está melhorando e dá a impressão quase palpável de ter uma pedra no sapato de sua alma. Temos uma longa conversa sobre a velhice, a perda e a morte (temas normalmente muito agradáveis à nossa cultura, não é mesmo?). Ele chora e pede desculpas por isso. Vem pensando em suicídio. Coversamos sobre o suicídio e como ele é um risco real em situações em que a pessoa não vê perspectivas de futuro. Ele sai aliviado. Troco a medicação, uso um remédio fora de moda. Naquela noite, ele volta a dormir. Alguns dias depois, tem fome. Na semana seguinte, vai a um almoço de família e conta piadas. O psiquiatra biológico diria que eu acertei melhor os neurotransmissores do vovozinho. Eu diria que o homem é um animal simbólico. A morte, a perda, a velhice, são fatos biológicos e simbólicos que fazem parte da vida. Compreendê-los em profundidade dá a pessoa que está passando por esse momento uma sensação de conforto e, quem sabe, de aceitação dessa transformação. É isso que eu diria ao colega: continuo junguiano. Mais ortodoxo do que ficha telefônica, ou filme fotográfico.
Um ótima e simbólica passagem de ano a todos.