Estou aqui curtindo o feriadão na praia. Trouxe livros de Neurociência, Psicoterapia Xamânica e uma edição especial do Mente e Cérebro. Bom material para blogar, pois esse blog já viu de tudo, de futebol a pães na chapa. Mas acabei comprando o livro que anda frequentando os nossos divãs, o “Cinquenta Tons de Cinza”. A família aqui reunida e acostumada com a leitura técnica, viu com grande estranheza esse que vos tecla na espreguiçadeira lendo um livro que parece reserva de mercado das luluzinhas. Será que o papai está virando o fio depois de velho? Os moleques tacharam o livro de pornografia e minha mulher chamou-o de erotismo de revista Contigo. Caramba. Um fenômeno editorial dessa monta e já amealhando tantos ataques?
Uma nova confissão: o que me interessa é tentar entender o que essas autoras Sub-Crepúsculo tem que conseguem tocar no Inconsciente Feminino Coletivo. Como que um livro em que uma menina virgem, estudante de literatura inglesa, se envolve com um milionário esquisito que vai lhe proporcionar uma relação de dominação e abuso, psicológico e sexual, pode ser tido e havido como um herói romântico, quase o homem ideal? Como a heroína dessa fábula moderna, Anastasia Steele, fala o tempo todo: Puta merda! Mudaram os príncipes ou mudaram as princesas?
A personagem principal é uma Perséfone. Para quem não conhece um dos mitos mais antigos e mais reveladores da Psique Feminina, lá vai: Deméter é uma deusa virgem, que rege os ciclos da Natureza e do plantio. Zeus, que não perdoa nenhum rabo de saia, tenta seduzi-la. Ela foge o quanto pôde, até se transformar um uma vaca para fugir do assédio. Zeus a percebe e se transforma em um Touro. O final da história é que Deméter dá a luz a uma filha, fruto desse quase estupro, que é Core. A menina vira a felicidade de Deméter. Protegida pela mãe, Core vive num mundo infantil e protegido, colhendo flores e vivendo idilicamente em comunhão com a Natureza. Zeus, sempre ele, fica incomodado com a puerilidade de sua filha. Pede ajuda a Hades, deus do Mundo Inferior, que deixa as profundezas do Tártaro para raptar a filha de Deméter. O chão se abre e o Ser das Profundezas rouba a menina. Deméter passa a vagar pelo mundo, procurando em vão por sua filha. A terra seca, as lavouras se perdem e os homens sentem fome e amaldiçoam os deuses. Zeus fica preocupado com essa perda de Ibope dos deuses olímpicos e vai encher o seu irmão nos infernos, de novo. Como é muito comum na Mitologia Grega, uma solução ambígua é promovida: Hades libera a menina, que já não é uma menina, se vocês me entendem: agora ela é Perséfone, Rainha do Mundo Inferior. Antes de devolvê-la para a Mami, Hades oferece uma romã para a moça. Ela come sem saber que seu ato a deixa presa para sempre ao Mundo Inferior. A partir daí, ela passa dois terços do ano com a mãe, deusa da agricultura e um terço (os meses do inverno e da entressafra) com Hades, deus dos Ínferos e, imagina-se, um gostosão.
Anastasia, heroína da saga, também passou a vida com a presença onipotente se sua mãe. O seu pai morreu quando era um bebê e o homem que reconhece como pai é um frágil sujeito, diluído na fieira de maridos que a mami colecionou. Ela é uma mulher bonita, desejada, mas que consegue se esquivar completamente de sua própria sexualidade. Sente-se feia, desajeitada e intimidada com homens poderosos. É virgem aos vinte um anos (qualquer semelhança com Bella, da saga Crepúsculo, não é mera coincidência). Conhece por acaso o bilionário sadomasoca Christian Grey (Grey em inglês quer dizer cinza, daí o trocadilho do título, “Cinquenta Tons de Grey”). Como Perséfone, Anastasia vai ser raptada pelo Deus dos Ínferos pósmoderno: bilionário, poderoso, com a beleza de um deus grego, absolutamente obcecado por ela, estudante de classe média, mal vestida e completamente alheia ao mundo inferior que o seu Hades vai revelar (o rapaz, além de todos esses predicados, é bastante bem dotado, para desespero do público masculino).
Grey tem vários pontos em comum com o vampiro Edward. O principal é a sua capacidade de enxergar em uma menina comum, alheia à própria beleza e sexualidade, uma deusa maravilhosa. Grey é obcecado por Ana assim como Edward é desesperado por Bella. Eles representam arquétipos adormecidos no homem pósmoderno, cada vez mais desprovido de sua própria masculinidade. Christian Grey é um Hades ferido e apaixonado, que não permite que Perséfone deixe o seu Reino. Pior ainda, ele descobre que seu Reino não vale nada sem Perséfone, digo, Ana. Isso num mundo em que os homens trocam facilmente uma noite de amor pelo controle dos videogames.
E.L. James, autora da trilogia, é ou não é um gênio, heim meninas?
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sábado, 17 de novembro de 2012
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Núpcias Alquímicas
Cheguei atrasado hoje ao consultório por conta de ficar vendo a cerimônia do casamento de Kate e William. Hilária era a quantidade de palpiteiros na transmissão, em todos os canais. Analistas de moda, bispos anglicanos, cronistas e fofoqueiros em geral que abafavam o maravilhosos coro e suas músicas reverberando na Abadia de Westminster. Felizmente eu tenho TV a cabo e consegui ver a cerimônia pela BBC, deu até para ouvir a música sem precisar ouvir falar da família da noiva e sua empresa de festas e banquetes. Lógico que se ouve uma série de comentários azedos, sobretudo de intelectuais arrotando coisas sobre a sociedade do espetáculo e a monarquia pop. Confesso que cheguei a me emocionar com a força do ritual e a evocação da Tradição em todos os detalhes, do vestido da noiva à carruagem, culminando com o beijo na sacada, com certeza um must em todas as publicações tipo Revista Caras a partir de amanhã, nas bancas. Como terapeuta junguiano sou bastante ciente da importância dos ritos de passagem, a importância da Tradição que serve de referência às novas gerações, da emoção que um casamento Real provoca em pessoas que nada tem e nada terão a ver com a Monarquia Inglesa.
Nossa sociedade tecnicista transforma tudo em bem de consumo e em valor agregado, subtraindo do Símbolo a sua força expressiva. No programa do Pânico, no Domingo de Páscoa, os comediantes (?) do programa perguntavam para aquelas meninas de carroceria avantajada se sabiam o que se comemorava na Páscoa. As respostas se dividiram em "comemoramos o coelhinho da Páscoa" até "O nascimento de Jesus". Ter um bumbum malhado não garante um Cérebro malhado, meninas. A Páscoa não comemora o nascimento de Jesus. Nem do coelho Pernalonga.
Os símbolos perdendo o seu valor perdem também a sua função principal, que é a de serem fatores de estruturação da consciência.
O casamento de Kate e William, como já postei ontem, dá um alento à mitologia evocada por Príncipes e Princesas no imaginário coletivo. A Casa dos Windsor foi bastante maltratada nas últimas décadas por divórcios, crises de anorexia, a morte trágica e estranha de Lady Di, sem dúvida a mais midiática das princesas. A última imagem que ficou foi dos funerais de Diana, que já não era uma princesa mas foi levada pela mesma carruagem de cem anos usada na cerimônia de hoje. Uma imagem de profunda tristeza seguida, treze anos depois, pela imagem das núpcias.
O casamento da Príncipe herdeiro e a Princesa significa, nos símbolos alquímicos, muito estudados por Carl Jung, a união dos opostos, dos Princípios Masculino e Feminino formando a quintaessência, a substância da vida. Renovação, esperança, recomeço, retomada do caminho da transformação nesses tempos bicudos, onde todos parecem perder contato com a sua essência humana. Tempos de massacres escolares, pedófilos e criminosos virtuais. O símbolo do Casamento, das Núpcias alquímicas, renova a esperança e o orgulho em Ser Humano, nessa época em que estamos tão desumanizados. É muita responsabilidade para aqueles dois, recém saídos da adolescência.
O casamento alquímico é uma tarefa de todos, a união da alma e do corpo, do epírito e da matéria. os símbolos, os rituais, as tradições nos ajudam, quem sabe, a reavivá-los.
Nossa sociedade tecnicista transforma tudo em bem de consumo e em valor agregado, subtraindo do Símbolo a sua força expressiva. No programa do Pânico, no Domingo de Páscoa, os comediantes (?) do programa perguntavam para aquelas meninas de carroceria avantajada se sabiam o que se comemorava na Páscoa. As respostas se dividiram em "comemoramos o coelhinho da Páscoa" até "O nascimento de Jesus". Ter um bumbum malhado não garante um Cérebro malhado, meninas. A Páscoa não comemora o nascimento de Jesus. Nem do coelho Pernalonga.
Os símbolos perdendo o seu valor perdem também a sua função principal, que é a de serem fatores de estruturação da consciência.
O casamento de Kate e William, como já postei ontem, dá um alento à mitologia evocada por Príncipes e Princesas no imaginário coletivo. A Casa dos Windsor foi bastante maltratada nas últimas décadas por divórcios, crises de anorexia, a morte trágica e estranha de Lady Di, sem dúvida a mais midiática das princesas. A última imagem que ficou foi dos funerais de Diana, que já não era uma princesa mas foi levada pela mesma carruagem de cem anos usada na cerimônia de hoje. Uma imagem de profunda tristeza seguida, treze anos depois, pela imagem das núpcias.
O casamento da Príncipe herdeiro e a Princesa significa, nos símbolos alquímicos, muito estudados por Carl Jung, a união dos opostos, dos Princípios Masculino e Feminino formando a quintaessência, a substância da vida. Renovação, esperança, recomeço, retomada do caminho da transformação nesses tempos bicudos, onde todos parecem perder contato com a sua essência humana. Tempos de massacres escolares, pedófilos e criminosos virtuais. O símbolo do Casamento, das Núpcias alquímicas, renova a esperança e o orgulho em Ser Humano, nessa época em que estamos tão desumanizados. É muita responsabilidade para aqueles dois, recém saídos da adolescência.
O casamento alquímico é uma tarefa de todos, a união da alma e do corpo, do epírito e da matéria. os símbolos, os rituais, as tradições nos ajudam, quem sabe, a reavivá-los.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Juntando os Pontos
O outro título deste post seria: "A Individuação segundo Steve Jobs". Vou explicar por que.
Acho abominável essa proliferação de mensagens edificantes que recebemos em nossas Caixas de Entrada de emails. Chegam mesmo a serem piores que as piadas e as correntes de denúncia e de alarmes falsos. Um colega me enviou um e-mail histérico dizendo que as vacinas contra a Gripe A tinham toxinas terríveis e tal e coisa. Receber aquilo de um paranóico de carteirinha, tudo bem. Tem um tiozinho no supermercado da minha esquina que está sempre cheio de teorias de conspiração: o que o governo faz com os dados da Nota Fiscal Paulista, os roubos da Mega Sena e os venenos que colocam nos remédios e na TV. OK. Eu sempre dou corda para ouvir as suas teorias. Mas um médico repassar um alerta desses, pelo amor de Deus, nem sendo ortopedista. Pois há uns dois anos recebi um link de um vídeo, com um discurso de Steve Jobs numa formatura de Stanford, onde ele foi patrono, mesmo sem ter concluído nenhum curso superior em sua vida. Acho que eu o assisti ums cinco vezes e pior, o repassei para um monte de gente que não tomou conhecimento da indicação. Finalmente, entrei no grupo dos repassadores de mensagens edificantes de "Lições de Vida".
Como costuma acontecer com as apresentações de Steve Jobs, ele limitou-se a contar três pequenas histórias a respeito de sua vida. Nessas pequenas historietas ele enunciou coisas muito caras ao pensamento Junguiano, por isso o subtítulo:"Steve Jobs e a Individuação". Mas não vou falar de individuação nesse post, só do princípio da Sincronicidade, que está na primeira historinha do Sr Jobs: tudo começa em seu nascimento, quando a sua mãe biológica resolve dar aquele bebê para adoção, já que precisava terminar a sua Pós Graduação. Como estudar era uma coisa muito importante para ela (espero que ainda seja, porque ela deu para adoção o que viria a ser um dos homens mais ricos e bem sucedidos do planeta), a moça exigiu que o bebê fosse adotado por um casal de escolaridade Superior. Por um capricho da vida, o bebê caiu nas mãos de um casal humilde de trabalhadores sem Nível Superior de escolaridade, que entretanto prometeram que fariam de tudo para pagar a faculdade daquele menino. Juntaram dinheiro a vida toda e com sacrifício mandaram o adolescente Steve para uma faculdade cara. Ele detestou a faculdade (uma vingança contra a sua mãe biológica?), acabando por abandonar os seus estudos. Ficou à toa no campus por alguns meses, dormindo no chão do alojamento e aproveitando o dinheiro já gasto para fazer os cursos que lhe desse na telha. Matriculou-se num curso de Caligrafia. Ora vejam. Jogando o dinheiro suado de seus pais para fazer cursos bizarros. Ele adorou o curso. Era histórico, artístico, estimulante. Alguns anos depois, quando começou a projetar o computador pessoal da Apple, o Mac Intosh, adivinha quem projetou todos os caracteres, todas as letras e tipos do Mac? Como a Microsoft copiou esses caracteres, então os tipos que eu estou digitando e você leitor está lendo saíram de algumas forma do curso de Caligrafia do jovem Steve Jobs. Ele conclui essa primeira short story dizendo que esse tipo de coisa a gente não percebe quando está acontecendo, só depois de alguns anos. Só a passagem do tempo pode nos dar a capacidade de "juntar os pontos" e ver a mão de tecedeira da vida construindo nosso caminhos e descaminhos.
Steve Jobs recomenda que sejamos intuitivos, que estejamos abertos às infinitas possibilidades de cada situação e que juntemos os pontos depois, para percebermos essa mão invisível ajudando a escrever nossa história, mesmo que certo, mas com linhas muito tortas. Isso parece muito simples de formular, mas se pensarmos com calma, acreditar nisso é acreditar numa Inteligência intrínseca à vida, criando coincidências que nos apontam um caminho. Tem gente que chama isso de Deus. Os junguianos, como esse que vos tecla, chamam de SELF. Um bom ano a todos. Cheio de coincidências.
Acho abominável essa proliferação de mensagens edificantes que recebemos em nossas Caixas de Entrada de emails. Chegam mesmo a serem piores que as piadas e as correntes de denúncia e de alarmes falsos. Um colega me enviou um e-mail histérico dizendo que as vacinas contra a Gripe A tinham toxinas terríveis e tal e coisa. Receber aquilo de um paranóico de carteirinha, tudo bem. Tem um tiozinho no supermercado da minha esquina que está sempre cheio de teorias de conspiração: o que o governo faz com os dados da Nota Fiscal Paulista, os roubos da Mega Sena e os venenos que colocam nos remédios e na TV. OK. Eu sempre dou corda para ouvir as suas teorias. Mas um médico repassar um alerta desses, pelo amor de Deus, nem sendo ortopedista. Pois há uns dois anos recebi um link de um vídeo, com um discurso de Steve Jobs numa formatura de Stanford, onde ele foi patrono, mesmo sem ter concluído nenhum curso superior em sua vida. Acho que eu o assisti ums cinco vezes e pior, o repassei para um monte de gente que não tomou conhecimento da indicação. Finalmente, entrei no grupo dos repassadores de mensagens edificantes de "Lições de Vida".
Como costuma acontecer com as apresentações de Steve Jobs, ele limitou-se a contar três pequenas histórias a respeito de sua vida. Nessas pequenas historietas ele enunciou coisas muito caras ao pensamento Junguiano, por isso o subtítulo:"Steve Jobs e a Individuação". Mas não vou falar de individuação nesse post, só do princípio da Sincronicidade, que está na primeira historinha do Sr Jobs: tudo começa em seu nascimento, quando a sua mãe biológica resolve dar aquele bebê para adoção, já que precisava terminar a sua Pós Graduação. Como estudar era uma coisa muito importante para ela (espero que ainda seja, porque ela deu para adoção o que viria a ser um dos homens mais ricos e bem sucedidos do planeta), a moça exigiu que o bebê fosse adotado por um casal de escolaridade Superior. Por um capricho da vida, o bebê caiu nas mãos de um casal humilde de trabalhadores sem Nível Superior de escolaridade, que entretanto prometeram que fariam de tudo para pagar a faculdade daquele menino. Juntaram dinheiro a vida toda e com sacrifício mandaram o adolescente Steve para uma faculdade cara. Ele detestou a faculdade (uma vingança contra a sua mãe biológica?), acabando por abandonar os seus estudos. Ficou à toa no campus por alguns meses, dormindo no chão do alojamento e aproveitando o dinheiro já gasto para fazer os cursos que lhe desse na telha. Matriculou-se num curso de Caligrafia. Ora vejam. Jogando o dinheiro suado de seus pais para fazer cursos bizarros. Ele adorou o curso. Era histórico, artístico, estimulante. Alguns anos depois, quando começou a projetar o computador pessoal da Apple, o Mac Intosh, adivinha quem projetou todos os caracteres, todas as letras e tipos do Mac? Como a Microsoft copiou esses caracteres, então os tipos que eu estou digitando e você leitor está lendo saíram de algumas forma do curso de Caligrafia do jovem Steve Jobs. Ele conclui essa primeira short story dizendo que esse tipo de coisa a gente não percebe quando está acontecendo, só depois de alguns anos. Só a passagem do tempo pode nos dar a capacidade de "juntar os pontos" e ver a mão de tecedeira da vida construindo nosso caminhos e descaminhos.
Steve Jobs recomenda que sejamos intuitivos, que estejamos abertos às infinitas possibilidades de cada situação e que juntemos os pontos depois, para percebermos essa mão invisível ajudando a escrever nossa história, mesmo que certo, mas com linhas muito tortas. Isso parece muito simples de formular, mas se pensarmos com calma, acreditar nisso é acreditar numa Inteligência intrínseca à vida, criando coincidências que nos apontam um caminho. Tem gente que chama isso de Deus. Os junguianos, como esse que vos tecla, chamam de SELF. Um bom ano a todos. Cheio de coincidências.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
O Animal Simbólico
Há uns dois anos encontrei um antigo conhecido e atual psquiatra estrelado e frequentador das páginas da Veja em um Congresso de Psiquiatria. Ele me saudou de forma entusiástica (o que não é muito comum no seu caso, por ser uma pessoa contida) e perguntou, nos corredores do evento, de bate pronto: " E aí, Spinelli, continua Junguiano?". Anos dedicados ao ofício me deram um certo treino para a resposta rápida. A primeira que me ocorreu foi: "E você, continua um Papagaio de Pirata da Indústria Farmacêutica?". Felizmente o treino inclue deter algumas respostas antes que elas sejam cuspidas boca à fora. Limitei-me a sorrir e a falar que estava para montar uma clínica de Psiquiatria Junguiana, se é que isso existe. Seguimos nosso caminho nos corredores, coincidentemente em direções opostas. No hard feelings. O interessante da pergunta é a questão implícita de que ser junguiano para a soberana Psiquiatria é algo como escrever em máquinas Olivetti, chupar balas Juquinha ou imprimir em impressoras matriciais esperando efeitos em 3D. Vou dar um exemplo das visões díspares, óbvio que puxando a brasa para a sardinha da Psiquiatria que eu gosto. Mas vou manter alguma imparcialidade, já que sou Psiquiatra Clínico também. Isso também me coloca em posição interessante: para os psicoterapeutas, eu sou um clínico. Para os clínicos, eu sou psicoterapeuta. Isso é um duplo exílio, mas felizmente eu o aceito com algum bom humor (e algum sofrimento, também).
Voltando à uma Psiquiatria Junguiana: imaginemos um vovozinho passando por um monte de dificuldades. Uso o exemplo porque o colega em questão é Psicogeriatra. Imaginemos um vovozinho que perdeu recentemente a sua companheira. Para piorar, uma Arritmia Cardíaca causou uma internação de sete dias em uma UTI. Após alguns poucos dias, ele começa a ter novas palpitações, mas o Eletrocardiograma não indica nova arritmia. Ele está triste e depois de algum tempo de entrevista começa a chorar. O Psicogeriatra é chamado, diagnostica uma depressão e dá o antidepressivo mais recomendado pela Literatura Médica. O vovozinho chega em meu consultório algumas semanas mais tarde. O antidepressivo da moda está lhe causando sintomas de pânico. O psicogeriatra da moda pede para ele aguente firme, que os sintomas iriam começar a melhorar. Ele não está melhorando e dá a impressão quase palpável de ter uma pedra no sapato de sua alma. Temos uma longa conversa sobre a velhice, a perda e a morte (temas normalmente muito agradáveis à nossa cultura, não é mesmo?). Ele chora e pede desculpas por isso. Vem pensando em suicídio. Coversamos sobre o suicídio e como ele é um risco real em situações em que a pessoa não vê perspectivas de futuro. Ele sai aliviado. Troco a medicação, uso um remédio fora de moda. Naquela noite, ele volta a dormir. Alguns dias depois, tem fome. Na semana seguinte, vai a um almoço de família e conta piadas. O psiquiatra biológico diria que eu acertei melhor os neurotransmissores do vovozinho. Eu diria que o homem é um animal simbólico. A morte, a perda, a velhice, são fatos biológicos e simbólicos que fazem parte da vida. Compreendê-los em profundidade dá a pessoa que está passando por esse momento uma sensação de conforto e, quem sabe, de aceitação dessa transformação. É isso que eu diria ao colega: continuo junguiano. Mais ortodoxo do que ficha telefônica, ou filme fotográfico.
Um ótima e simbólica passagem de ano a todos.
Voltando à uma Psiquiatria Junguiana: imaginemos um vovozinho passando por um monte de dificuldades. Uso o exemplo porque o colega em questão é Psicogeriatra. Imaginemos um vovozinho que perdeu recentemente a sua companheira. Para piorar, uma Arritmia Cardíaca causou uma internação de sete dias em uma UTI. Após alguns poucos dias, ele começa a ter novas palpitações, mas o Eletrocardiograma não indica nova arritmia. Ele está triste e depois de algum tempo de entrevista começa a chorar. O Psicogeriatra é chamado, diagnostica uma depressão e dá o antidepressivo mais recomendado pela Literatura Médica. O vovozinho chega em meu consultório algumas semanas mais tarde. O antidepressivo da moda está lhe causando sintomas de pânico. O psicogeriatra da moda pede para ele aguente firme, que os sintomas iriam começar a melhorar. Ele não está melhorando e dá a impressão quase palpável de ter uma pedra no sapato de sua alma. Temos uma longa conversa sobre a velhice, a perda e a morte (temas normalmente muito agradáveis à nossa cultura, não é mesmo?). Ele chora e pede desculpas por isso. Vem pensando em suicídio. Coversamos sobre o suicídio e como ele é um risco real em situações em que a pessoa não vê perspectivas de futuro. Ele sai aliviado. Troco a medicação, uso um remédio fora de moda. Naquela noite, ele volta a dormir. Alguns dias depois, tem fome. Na semana seguinte, vai a um almoço de família e conta piadas. O psiquiatra biológico diria que eu acertei melhor os neurotransmissores do vovozinho. Eu diria que o homem é um animal simbólico. A morte, a perda, a velhice, são fatos biológicos e simbólicos que fazem parte da vida. Compreendê-los em profundidade dá a pessoa que está passando por esse momento uma sensação de conforto e, quem sabe, de aceitação dessa transformação. É isso que eu diria ao colega: continuo junguiano. Mais ortodoxo do que ficha telefônica, ou filme fotográfico.
Um ótima e simbólica passagem de ano a todos.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Magnificat
Fiquei reconfortado com uma notícia da Folha de São Paulo, no suplemento Folha Teen, dando conta de um movimento de repúdio ao consumismo, o movimento dos Sem Compras, pessoas que estão boicotando o corre corre e a loucura consumista que transforma um dos mais belos mitos cristãos em um festival de pacotes de presentes que lamentamos receber todos os anos. Tem sempre um presente mala que abrimos entre sorrisos amarelos e alegria de plástico, não é mesmo?
O aniversário de Jesus foi arbitrariamente colocado no dia 25 de Dezembro para coincidir com o Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. A história do nascimento do menino Jesus é a história de um percurso problemático. Começando pelo momento da Anunciação, o Magnificat, quando surge o anjo do Senhor para uma menina recém saída da adolescência, dizendo que o Espírito Santo seria manifesto em seu ser, na forma de um filho. Bendita és tu entre as mulheres, disse o anjo. A menina estremece diante da visão e da Revelação do Mistério, como estremecemos diante do novo e do não conhecido. Com a coragem instintiva de uma mulher ela aceita, incondicionalmente, a tarefa. Para as pessoas da época, o que inclue o seu futuro marido, a menina que aceitava o Mistério incompreensível era uma adúltera, crime punido na época (e ainda hoje no Irã) com a morte por apedrejamento. Ela aceitou a tarefa, mesmo que isso custasse a sua vida, como muitas mulheres no decorrer da história arriscaram e arriscam a própria vida por seus bebês. A Concepção Imaculada representa o nascimento do menino-Deus sem que o mesmo passe pela corrupção de nossa vida encarnada. Apesar da concepção feita na perfeição, o nascimento do menino Jesus será problemático, mostrando as feridas da condição humana. Maria tem medo, José tem dúvidas, Herodes ouve falar do menino-Luz e quer matá-lo. Como as nossas jornadas, nossos processos de transformação, aquela gravidez vai enfrentar o medo, a dúvida, o cansaço impedindo nossa chegada a Belém.
Na Mitologia Grega, o deus Eros é filho da Artimanha e da Pobreza. O menino Jesus na manjedoura representa o nascimento na pobreza, no improviso, no meio dos perigos que atravessamos e da Graça necessária para que as coisas corram bem. Nessas semanas eu tentava explicar para um cliente cujo filho estava para nascer o significado desse nascimento conturbado. Nos meses que antecederam o nascimento de seu filho, aconteceu um pouco de tudo em sua vida: mudança de emprego, internação e cirurgia de urgência, crises de ansiedade e medo de não dar conta daquele pequeno milagre envolvido pelos lençóis hospitalares. O bebê nasceu, mesmo depois de um percurso tão cheio de sustos. Os recursos para criá-lo também vão surgir. O caminho se faz ao caminhar, disse o poeta.
Ficamos vendo os Papais Noéis sorridentes, as famílias felizes em torno dos perús Sadias nas propagandas, tudo parece tão bom e fácil em tempos de Natal, não é ? O que esquecemos é que por trás daquelas luzinhas e pacotes de presentes, celebramos uma menina que há mais de vinte séculos falou um gigantesco Sim, Seja feito segundo a Tua vontade.
O aniversário de Jesus foi arbitrariamente colocado no dia 25 de Dezembro para coincidir com o Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. A história do nascimento do menino Jesus é a história de um percurso problemático. Começando pelo momento da Anunciação, o Magnificat, quando surge o anjo do Senhor para uma menina recém saída da adolescência, dizendo que o Espírito Santo seria manifesto em seu ser, na forma de um filho. Bendita és tu entre as mulheres, disse o anjo. A menina estremece diante da visão e da Revelação do Mistério, como estremecemos diante do novo e do não conhecido. Com a coragem instintiva de uma mulher ela aceita, incondicionalmente, a tarefa. Para as pessoas da época, o que inclue o seu futuro marido, a menina que aceitava o Mistério incompreensível era uma adúltera, crime punido na época (e ainda hoje no Irã) com a morte por apedrejamento. Ela aceitou a tarefa, mesmo que isso custasse a sua vida, como muitas mulheres no decorrer da história arriscaram e arriscam a própria vida por seus bebês. A Concepção Imaculada representa o nascimento do menino-Deus sem que o mesmo passe pela corrupção de nossa vida encarnada. Apesar da concepção feita na perfeição, o nascimento do menino Jesus será problemático, mostrando as feridas da condição humana. Maria tem medo, José tem dúvidas, Herodes ouve falar do menino-Luz e quer matá-lo. Como as nossas jornadas, nossos processos de transformação, aquela gravidez vai enfrentar o medo, a dúvida, o cansaço impedindo nossa chegada a Belém.
Na Mitologia Grega, o deus Eros é filho da Artimanha e da Pobreza. O menino Jesus na manjedoura representa o nascimento na pobreza, no improviso, no meio dos perigos que atravessamos e da Graça necessária para que as coisas corram bem. Nessas semanas eu tentava explicar para um cliente cujo filho estava para nascer o significado desse nascimento conturbado. Nos meses que antecederam o nascimento de seu filho, aconteceu um pouco de tudo em sua vida: mudança de emprego, internação e cirurgia de urgência, crises de ansiedade e medo de não dar conta daquele pequeno milagre envolvido pelos lençóis hospitalares. O bebê nasceu, mesmo depois de um percurso tão cheio de sustos. Os recursos para criá-lo também vão surgir. O caminho se faz ao caminhar, disse o poeta.
Ficamos vendo os Papais Noéis sorridentes, as famílias felizes em torno dos perús Sadias nas propagandas, tudo parece tão bom e fácil em tempos de Natal, não é ? O que esquecemos é que por trás daquelas luzinhas e pacotes de presentes, celebramos uma menina que há mais de vinte séculos falou um gigantesco Sim, Seja feito segundo a Tua vontade.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
O (Quase Amargo) Regresso
O assunto da semana no consultório foi o resgate dos trinta e três mineiros da mina de San Jose, no Chile. A vida virou um reality show, e o processo todo de descida ao ventre da terra para trazer os renascidos trabalhadores, o choro do filho e a patriotada brega de bandeiras e gritos futebolísticos de Chi-chi-chi/Le-le-le forneceu a todos uma imagem de esperança no ser humano e sua capacidade de reagir a situações extremas. Hoje já começam a circular os podres dos mineiros e o delicado tecido social que se formou sob a terra, onde, como sempre, o melhor e o pior da natureza humana se manifestam nessas situações.
Uma cliente ficou particularmente tocada pelo episódio, que só ao ser mencionado já mareja os seus olhos. Ela me trouxe um belo artigo publicado na Folha de ontem, de autoria da psicanalista Marion Minerbo, um primor de lucidez e pegada analítica. Entre outras coisas, Marion destacou o duro caminho de volta à vida comum que esses homens experimentarão quando o clima de Big Brother arrefecer e o episódio for caindo no esqueciemnto dos quinze finitos minutos de fama que terão direito.
A cliente em questão também passou nesse ano por um experiência extrema: o diagnóstico e tratamento de uma doença oncológica, um Câncer de Ovário, recidivado após quatro anos. Como os mineiros chilenos, ela ficou sequestrada de sua vida normal, com cirurgia extensa e quimioterapias em seguidos e dolorosos ciclos. Ela compreende muito bem como é difícil o caminho de volta, como é angustiante rever as pessoas que vão solicitá-la da mesma forma, pedir as mesmas coisas, reclamar das mesmas mesquinharias que compõe o nosso dia a dia. Ela não vai ter a imprensa à sua volta destacando o heroísmo das pessoas que passam por essa experiência, assim como a equipe de resgate, a incrível equipe de terapia oncológica, não vai entrar e sair de cápsulas subterrâneas sobre os aplausos e as orações de todos nós. Eles vão continuar lutando pela vida, que foi um dos pontos de emoção profunda no resgate da mina de San Jose. Ela vem voltando para o dia a dia e, como os mineiros, vai sentir falta dos dias de angústia onde lutava pela própria vida. Pois, como destacou o artigo de Marion, as experiências extremas nos colocam diante das coisas que valem (e não valem) a pena nessa vida.
Uma cliente ficou particularmente tocada pelo episódio, que só ao ser mencionado já mareja os seus olhos. Ela me trouxe um belo artigo publicado na Folha de ontem, de autoria da psicanalista Marion Minerbo, um primor de lucidez e pegada analítica. Entre outras coisas, Marion destacou o duro caminho de volta à vida comum que esses homens experimentarão quando o clima de Big Brother arrefecer e o episódio for caindo no esqueciemnto dos quinze finitos minutos de fama que terão direito.
A cliente em questão também passou nesse ano por um experiência extrema: o diagnóstico e tratamento de uma doença oncológica, um Câncer de Ovário, recidivado após quatro anos. Como os mineiros chilenos, ela ficou sequestrada de sua vida normal, com cirurgia extensa e quimioterapias em seguidos e dolorosos ciclos. Ela compreende muito bem como é difícil o caminho de volta, como é angustiante rever as pessoas que vão solicitá-la da mesma forma, pedir as mesmas coisas, reclamar das mesmas mesquinharias que compõe o nosso dia a dia. Ela não vai ter a imprensa à sua volta destacando o heroísmo das pessoas que passam por essa experiência, assim como a equipe de resgate, a incrível equipe de terapia oncológica, não vai entrar e sair de cápsulas subterrâneas sobre os aplausos e as orações de todos nós. Eles vão continuar lutando pela vida, que foi um dos pontos de emoção profunda no resgate da mina de San Jose. Ela vem voltando para o dia a dia e, como os mineiros, vai sentir falta dos dias de angústia onde lutava pela própria vida. Pois, como destacou o artigo de Marion, as experiências extremas nos colocam diante das coisas que valem (e não valem) a pena nessa vida.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Diablogs 3 - Outro pedido
Nesta série, vamos utilizar de diálogos em "short cuts" para falar de temas relacionados com angústias, medos e formar de lidar com essas dificuldades. Espero que gostem.
Percebeu com alguma estranheza que ela não estava angustiada ou sofrendo naquela manhã quase ensolarada. Cumprimentou-a com os olhos.
- E aí?
- Tudo bem.
- Estou melhor hoje.
- Bacana.
- Fazia tempo que eu não ouvia essa.
- Essa o que?
- Essa expressão, "bacana".
Esboçou um sorriso.
- Hoje vai ter de novo?
- O que?
- Aquela coisa lá que você fez ontem?
- Aquele exercício?
- Aquele negócio do "Não consigo". Foi bem legal.
- Ué, hoje a gente pode fazer o contrário.
- Como assim?
- Hoje você pode começar a fazer uma lista de "Consigos".
(Suspiro, fundo).
- Não tenho muitos consigos, não.
- Você consegue falar, não consegue?
Assentiu com os olhos.
- Você consegue reclamar e se lamentar, não é mesmo?
Olhou, com um esboço de sorriso.
- Acho que estou entendendo.
- Feche os olhos e faça uma lista de consigos, por favor.
- Não consigo (risos).
- Muito engraçado.
- Posso fazer, então?
- ...
- Eu consigo respirar... Eu consigo sonhar...Eu consigo escolher... Eu consigo até estar viva, veja só (risos).
- Pensa em todos os seus consigos. Você consegue vê-los?
- Como assim?
- Você consegue colocá-los em um carrinho de mão?
- Pode ser um caminhão (risos).
- Melhor ainda. Enche um caminhão de "consigos".
- ...
- Já fez?
- Espera.
- Ok.
- (...) Pronto.
- Agora coloca este caminhão no meio do Silêncio.
- Deixa lá, junto com os "Não consigos"?
- Não. Deixe que os "Não consigo" abracem os "Consigo".
Sorriu, quase maravilhada.
- Eles estão se abraçando, mesmo.
- Que bom. Deixe-os assim, abraçados.
A sua expressão era de paz. E de alívio.
Percebeu com alguma estranheza que ela não estava angustiada ou sofrendo naquela manhã quase ensolarada. Cumprimentou-a com os olhos.
- E aí?
- Tudo bem.
- Estou melhor hoje.
- Bacana.
- Fazia tempo que eu não ouvia essa.
- Essa o que?
- Essa expressão, "bacana".
Esboçou um sorriso.
- Hoje vai ter de novo?
- O que?
- Aquela coisa lá que você fez ontem?
- Aquele exercício?
- Aquele negócio do "Não consigo". Foi bem legal.
- Ué, hoje a gente pode fazer o contrário.
- Como assim?
- Hoje você pode começar a fazer uma lista de "Consigos".
(Suspiro, fundo).
- Não tenho muitos consigos, não.
- Você consegue falar, não consegue?
Assentiu com os olhos.
- Você consegue reclamar e se lamentar, não é mesmo?
Olhou, com um esboço de sorriso.
- Acho que estou entendendo.
- Feche os olhos e faça uma lista de consigos, por favor.
- Não consigo (risos).
- Muito engraçado.
- Posso fazer, então?
- ...
- Eu consigo respirar... Eu consigo sonhar...Eu consigo escolher... Eu consigo até estar viva, veja só (risos).
- Pensa em todos os seus consigos. Você consegue vê-los?
- Como assim?
- Você consegue colocá-los em um carrinho de mão?
- Pode ser um caminhão (risos).
- Melhor ainda. Enche um caminhão de "consigos".
- ...
- Já fez?
- Espera.
- Ok.
- (...) Pronto.
- Agora coloca este caminhão no meio do Silêncio.
- Deixa lá, junto com os "Não consigos"?
- Não. Deixe que os "Não consigo" abracem os "Consigo".
Sorriu, quase maravilhada.
- Eles estão se abraçando, mesmo.
- Que bom. Deixe-os assim, abraçados.
A sua expressão era de paz. E de alívio.
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