Tenho falado nesses últimos posts de uma história particularmente cara a esse escriba, que é “A Odisséia”, épico grego escrito por Homero. Falei da jornada arquetípica do herói, Ulisses, distante muitos anos de sua terra natal, onde era rei e feliz com a amada Penélope, mas não o sabia. Nossa mitologia e nossas neuroses são tão helênicas quanto da mitologia bíblica. Ainda hoje tentamos resolver em nossas psiques os dilemas que enfrentaram os gregos. Pouca gente sabe, entretanto, como começou a encrenca que deu origem à Guerra de Tróia e à viagem de Ulisses.
Tudo começou no casamento do mortal Peleu com a deusa do mar, Tétis. Grande acontecimento no mundo da Mitologia. Éris, a deusa da Discórdia, foi barrada no baile. Parece lógico deixar de convidar uma deusa responsável pela discussão, fofoca e separação entre as pessoas, assim como é difícil imaginar uma cerimônia de casamento sem esses componentes. Éris não gostou nada nada de ter sido excluída. A sua vingança foi muito elegante: lançou no meio da festa uma maçã dourada, onde estava escrito: “Para a Mais Bela”. Hera, Athena e Afrodite imediatamente se candidataram a ficar com a maçã dourada. A primeira lição psicológica desse casamento: quando tenta-se reprimir a discórdia, ela volta com o triplo da força, bem no lugar onde menos se desejava. Hera, Athena e Afrodite representam características importantíssimas do Feminino que não podem ser dissociadas: Hera é a Grande Deusa, esposa de Zeus, a deusa do amor conjugal, a mais poderosa das deusas; Athena é a sabedoria, a capacidade de traçar estratégias com serenidade e lógica implacável; Afrodite é o princípio máximo da volúpia, do desejo, da paixão. Quando esses princípios atuam em conjunto, temos o Feminino em seu esplendor. Foi exatamente o que Éris quebrou quando lançou a sua maçã (para quem não sabe, a expressão “pomo da discórdia” deriva dessa passagem mitológica). As deusas, tomadas pelo desejo de possuir a maçã, pedem para Zeus decidir quem era a mais bela. Zeus é o mais poderoso dos deuses olímpicos, o senhor dos raios e trovões, mas não é besta. Não iria se meter em assunto desses. Recusou a tarefa, sabiamente. As deusas escolhem um mortal, o troiano Páris, que bem que tenta se esquivar da tarefa, mas, no final, acabou entrando na gelada. E sua escolha tem grandes implicações para a humanidade, até os nossos dias.
Páris poderia ter escolhido a Grande Esposa, os atributos da mulher companheira, que ajuda a construir a vida ao lado de um homem, se optasse por Hera. Escolhendo Athena, teria ao seu lado a Sabedoria e a Estratégia e poderia ser um rei conquistador e invencível. Mas como resistir à Afrodite? Afrodite ofereceu a Páris a mais bela de todas as mulheres, Helena, belíssima esposa do Menelau, que entrou para a história como corno, mas era um grande general. A escolha de Páris se parece com a escolha de muitos homens, sobretudo de uma certa idade, que trocam a esposa companheira por uma bela e jovem Afrodite. O rapto de Helena deu origem à Guerra de Tróia. Tudo por um rabo de saia.
Até hoje padecemos da escolha de Páris. Ou pior, ainda estamos presos àquela maçã. As esposas se queixam das jovens e peitudas Afrodites caçando seus maridos. As estrategistas e sábias ficam perdidas na selva de superficialidades que é nosso mundo da hipermídia. As pequenas Afrodites ficam perdidas entre lipoesculturas e toneladas de silicone, pois todo o seu poder de atração vai ser varrido pelo tempo. Os três princípios, ou atributos fenotípicos, segundo a Epigenética, quando separados, perdem a sua força e o Feminino acaba virando uma Panicat chacoalhando os quadris diante de câmeras em ângulo ginecológico.
Ulisses vai ter dez anos perdido em mares arquetípicos para encontrar em Penélope a beleza madura, a sabedoria e o companheirismo do Feminino. Ele vai ter que recuperar o estrago feito por Éris e sua maçã.
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domingo, 8 de setembro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Os Deuses e o Invisível
Os deuses nas Mitologias, inclusive a cristã, se dividem em três, representando fases, princípios complementares, formas de manifestação do que não se manifesta, do reino do Invisível. Uma tríade fundadora e importante para mim é a da Teogonia, que funda uma das mais ricas e criativas das Mitologias, que é a Grega. O mito começa como o Genesis, pela separação entre o Céu e a Terra, depois de um início onde tudo era o Caos e o Vácuo. Em nossa atual mitologia, que é a Ciência, esse Vácuo é o estado de potencial absoluto que precede o Big Bang. O Big Bang é a formação da primeira polaridade, entre vácuo e matéria/energia, ou, na visão dos gregos, entre o Céu e a Terra, entre Urano e Gaia. Urano fecunda a Terra e dela saem seus filhotes, que ele não deixa sair à luz. Urano para mim sempre representou a dinâmica dos casos mais graves de psicose: uma psique que não consegue se diferenciar do inconsciente e todos os seus pequenos brotos de desenvolvimento são engolidos pela força irresistível da Mãe Devoradora. Urano representa essa indiferenciação. Mas, como toda opressão, um dia vai chegar ao fim. Gaia esconde de Urano um de seus filhos, Cronos, que cresce e espera a hora exata para destronar seu Pai, castrando-o e jogando seus testículos no mar. Da espuma dessa união entre o deus castrado e o mar, nasce Afrodite, princípio do Amor e de União. Será que os gregos intuíram exatamente o momento na evolução em que a reprodução passa a ser sexuada, marca do organismos mais complexos e das variações genéticas infinitas que vieram culminar em nós, humanos? Afrodite representa o fim dessa fase evolutiva e o início das forças de atração e repulsão que regem a formação da vida?
Cronos não foi um pai muito melhor do que Urano. Em vez de empurrar os seus filhos para o ventre materno, o que já não tinha funcionado com Urano, pegava os filhos de sua esposa, Réia, e devorava-os, um por um. Cronos sempre me lembrou as famílias e as estruturas perversas, que negam aos seus membros a individualidade. Na hora de se diferenciar e criar vida própria, o filho tem a sua cabeça devorada pela estrutura. Vejo isso todo dia, em estruturas familiares em que toda a independência, econômica, ideológica, existencial, é atacada como errada, pecaminosa, herege. Como o Capitalismo, por exemplo, grande representante de Cronos em nosso tempo. Todo mundo está preso em sua rede e quem sair é um maldito, ou um terrorista.
Réia também ocultou do esposo devorador um de seus filhos, Zeus, que depois de crescido também derrubou seu pai do poder, com métodos mais suaves. Cronos é enviado para uma ilha, onde vai ser reeducado e virar um Pai Senex, um Pai de Sabedoria. Zeus passa a me lembrar as estruturas neuróticas: é o mais poderoso dos deuses, mas não põe a cara com seus irmãos, Poseidon e Hades. Precisa mesmo é lutar contra os Titãs libertados das entranhas da Terra, mas essa é outra história. Zeus quer espalhar a sua semente, representa um psincípio criativo e fecundante. No Genesis, Zeus está no “Crescei e multiplicai-vos” que Elohim permite aos seus filhos, Adão e Eva. Zeus também não é lá grande figura paterna, mas espalha os seus filhos pelo mundo, inclusive com as mortais. Zeus permite a diversidade e o crescimento de todas formas de vida, e permite aos deuses um lugar no Monte Olimpo. Zeus sabe que os deuses precisam do homem e de suas fraquezas para existirem. No seu reinado há a percepção entre a interpenetração entre o mundo dos homens, dentro do tempo e do espaço e o mundo dos deuses, que é invisível e existe fora do tempo. Não sabia ele que isso inauguraria uma das maiores divisões da alma humana: aqueles que acreditam que só existe esse mundo, de Cronos, onde nós ainda vivemos, onde a Realidade e o Tempo são lineares, onde disputamos os frutos da Terra e descuidamos dela, porque acreditamos que temos pouco tempo, o tempo de nossa permanência aqui, como seres biológicos. Não acreditamos que existe um não tempo, que muitas vezes irrompe em nosso mundo e nossa vida como manifestações do Imanifesto.
Essa é a briga entre os que acreditam e não acreditam numa ordem de coisas fora do tempo. Os leitores desse blog já sabem qual o time que eu pertenço nessa questão.
Cronos não foi um pai muito melhor do que Urano. Em vez de empurrar os seus filhos para o ventre materno, o que já não tinha funcionado com Urano, pegava os filhos de sua esposa, Réia, e devorava-os, um por um. Cronos sempre me lembrou as famílias e as estruturas perversas, que negam aos seus membros a individualidade. Na hora de se diferenciar e criar vida própria, o filho tem a sua cabeça devorada pela estrutura. Vejo isso todo dia, em estruturas familiares em que toda a independência, econômica, ideológica, existencial, é atacada como errada, pecaminosa, herege. Como o Capitalismo, por exemplo, grande representante de Cronos em nosso tempo. Todo mundo está preso em sua rede e quem sair é um maldito, ou um terrorista.
Réia também ocultou do esposo devorador um de seus filhos, Zeus, que depois de crescido também derrubou seu pai do poder, com métodos mais suaves. Cronos é enviado para uma ilha, onde vai ser reeducado e virar um Pai Senex, um Pai de Sabedoria. Zeus passa a me lembrar as estruturas neuróticas: é o mais poderoso dos deuses, mas não põe a cara com seus irmãos, Poseidon e Hades. Precisa mesmo é lutar contra os Titãs libertados das entranhas da Terra, mas essa é outra história. Zeus quer espalhar a sua semente, representa um psincípio criativo e fecundante. No Genesis, Zeus está no “Crescei e multiplicai-vos” que Elohim permite aos seus filhos, Adão e Eva. Zeus também não é lá grande figura paterna, mas espalha os seus filhos pelo mundo, inclusive com as mortais. Zeus permite a diversidade e o crescimento de todas formas de vida, e permite aos deuses um lugar no Monte Olimpo. Zeus sabe que os deuses precisam do homem e de suas fraquezas para existirem. No seu reinado há a percepção entre a interpenetração entre o mundo dos homens, dentro do tempo e do espaço e o mundo dos deuses, que é invisível e existe fora do tempo. Não sabia ele que isso inauguraria uma das maiores divisões da alma humana: aqueles que acreditam que só existe esse mundo, de Cronos, onde nós ainda vivemos, onde a Realidade e o Tempo são lineares, onde disputamos os frutos da Terra e descuidamos dela, porque acreditamos que temos pouco tempo, o tempo de nossa permanência aqui, como seres biológicos. Não acreditamos que existe um não tempo, que muitas vezes irrompe em nosso mundo e nossa vida como manifestações do Imanifesto.
Essa é a briga entre os que acreditam e não acreditam numa ordem de coisas fora do tempo. Os leitores desse blog já sabem qual o time que eu pertenço nessa questão.
sábado, 17 de novembro de 2012
Cinquenta Tons de Hades
Estou aqui curtindo o feriadão na praia. Trouxe livros de Neurociência, Psicoterapia Xamânica e uma edição especial do Mente e Cérebro. Bom material para blogar, pois esse blog já viu de tudo, de futebol a pães na chapa. Mas acabei comprando o livro que anda frequentando os nossos divãs, o “Cinquenta Tons de Cinza”. A família aqui reunida e acostumada com a leitura técnica, viu com grande estranheza esse que vos tecla na espreguiçadeira lendo um livro que parece reserva de mercado das luluzinhas. Será que o papai está virando o fio depois de velho? Os moleques tacharam o livro de pornografia e minha mulher chamou-o de erotismo de revista Contigo. Caramba. Um fenômeno editorial dessa monta e já amealhando tantos ataques?
Uma nova confissão: o que me interessa é tentar entender o que essas autoras Sub-Crepúsculo tem que conseguem tocar no Inconsciente Feminino Coletivo. Como que um livro em que uma menina virgem, estudante de literatura inglesa, se envolve com um milionário esquisito que vai lhe proporcionar uma relação de dominação e abuso, psicológico e sexual, pode ser tido e havido como um herói romântico, quase o homem ideal? Como a heroína dessa fábula moderna, Anastasia Steele, fala o tempo todo: Puta merda! Mudaram os príncipes ou mudaram as princesas?
A personagem principal é uma Perséfone. Para quem não conhece um dos mitos mais antigos e mais reveladores da Psique Feminina, lá vai: Deméter é uma deusa virgem, que rege os ciclos da Natureza e do plantio. Zeus, que não perdoa nenhum rabo de saia, tenta seduzi-la. Ela foge o quanto pôde, até se transformar um uma vaca para fugir do assédio. Zeus a percebe e se transforma em um Touro. O final da história é que Deméter dá a luz a uma filha, fruto desse quase estupro, que é Core. A menina vira a felicidade de Deméter. Protegida pela mãe, Core vive num mundo infantil e protegido, colhendo flores e vivendo idilicamente em comunhão com a Natureza. Zeus, sempre ele, fica incomodado com a puerilidade de sua filha. Pede ajuda a Hades, deus do Mundo Inferior, que deixa as profundezas do Tártaro para raptar a filha de Deméter. O chão se abre e o Ser das Profundezas rouba a menina. Deméter passa a vagar pelo mundo, procurando em vão por sua filha. A terra seca, as lavouras se perdem e os homens sentem fome e amaldiçoam os deuses. Zeus fica preocupado com essa perda de Ibope dos deuses olímpicos e vai encher o seu irmão nos infernos, de novo. Como é muito comum na Mitologia Grega, uma solução ambígua é promovida: Hades libera a menina, que já não é uma menina, se vocês me entendem: agora ela é Perséfone, Rainha do Mundo Inferior. Antes de devolvê-la para a Mami, Hades oferece uma romã para a moça. Ela come sem saber que seu ato a deixa presa para sempre ao Mundo Inferior. A partir daí, ela passa dois terços do ano com a mãe, deusa da agricultura e um terço (os meses do inverno e da entressafra) com Hades, deus dos Ínferos e, imagina-se, um gostosão.
Anastasia, heroína da saga, também passou a vida com a presença onipotente se sua mãe. O seu pai morreu quando era um bebê e o homem que reconhece como pai é um frágil sujeito, diluído na fieira de maridos que a mami colecionou. Ela é uma mulher bonita, desejada, mas que consegue se esquivar completamente de sua própria sexualidade. Sente-se feia, desajeitada e intimidada com homens poderosos. É virgem aos vinte um anos (qualquer semelhança com Bella, da saga Crepúsculo, não é mera coincidência). Conhece por acaso o bilionário sadomasoca Christian Grey (Grey em inglês quer dizer cinza, daí o trocadilho do título, “Cinquenta Tons de Grey”). Como Perséfone, Anastasia vai ser raptada pelo Deus dos Ínferos pósmoderno: bilionário, poderoso, com a beleza de um deus grego, absolutamente obcecado por ela, estudante de classe média, mal vestida e completamente alheia ao mundo inferior que o seu Hades vai revelar (o rapaz, além de todos esses predicados, é bastante bem dotado, para desespero do público masculino).
Grey tem vários pontos em comum com o vampiro Edward. O principal é a sua capacidade de enxergar em uma menina comum, alheia à própria beleza e sexualidade, uma deusa maravilhosa. Grey é obcecado por Ana assim como Edward é desesperado por Bella. Eles representam arquétipos adormecidos no homem pósmoderno, cada vez mais desprovido de sua própria masculinidade. Christian Grey é um Hades ferido e apaixonado, que não permite que Perséfone deixe o seu Reino. Pior ainda, ele descobre que seu Reino não vale nada sem Perséfone, digo, Ana. Isso num mundo em que os homens trocam facilmente uma noite de amor pelo controle dos videogames.
E.L. James, autora da trilogia, é ou não é um gênio, heim meninas?
Uma nova confissão: o que me interessa é tentar entender o que essas autoras Sub-Crepúsculo tem que conseguem tocar no Inconsciente Feminino Coletivo. Como que um livro em que uma menina virgem, estudante de literatura inglesa, se envolve com um milionário esquisito que vai lhe proporcionar uma relação de dominação e abuso, psicológico e sexual, pode ser tido e havido como um herói romântico, quase o homem ideal? Como a heroína dessa fábula moderna, Anastasia Steele, fala o tempo todo: Puta merda! Mudaram os príncipes ou mudaram as princesas?
A personagem principal é uma Perséfone. Para quem não conhece um dos mitos mais antigos e mais reveladores da Psique Feminina, lá vai: Deméter é uma deusa virgem, que rege os ciclos da Natureza e do plantio. Zeus, que não perdoa nenhum rabo de saia, tenta seduzi-la. Ela foge o quanto pôde, até se transformar um uma vaca para fugir do assédio. Zeus a percebe e se transforma em um Touro. O final da história é que Deméter dá a luz a uma filha, fruto desse quase estupro, que é Core. A menina vira a felicidade de Deméter. Protegida pela mãe, Core vive num mundo infantil e protegido, colhendo flores e vivendo idilicamente em comunhão com a Natureza. Zeus, sempre ele, fica incomodado com a puerilidade de sua filha. Pede ajuda a Hades, deus do Mundo Inferior, que deixa as profundezas do Tártaro para raptar a filha de Deméter. O chão se abre e o Ser das Profundezas rouba a menina. Deméter passa a vagar pelo mundo, procurando em vão por sua filha. A terra seca, as lavouras se perdem e os homens sentem fome e amaldiçoam os deuses. Zeus fica preocupado com essa perda de Ibope dos deuses olímpicos e vai encher o seu irmão nos infernos, de novo. Como é muito comum na Mitologia Grega, uma solução ambígua é promovida: Hades libera a menina, que já não é uma menina, se vocês me entendem: agora ela é Perséfone, Rainha do Mundo Inferior. Antes de devolvê-la para a Mami, Hades oferece uma romã para a moça. Ela come sem saber que seu ato a deixa presa para sempre ao Mundo Inferior. A partir daí, ela passa dois terços do ano com a mãe, deusa da agricultura e um terço (os meses do inverno e da entressafra) com Hades, deus dos Ínferos e, imagina-se, um gostosão.
Anastasia, heroína da saga, também passou a vida com a presença onipotente se sua mãe. O seu pai morreu quando era um bebê e o homem que reconhece como pai é um frágil sujeito, diluído na fieira de maridos que a mami colecionou. Ela é uma mulher bonita, desejada, mas que consegue se esquivar completamente de sua própria sexualidade. Sente-se feia, desajeitada e intimidada com homens poderosos. É virgem aos vinte um anos (qualquer semelhança com Bella, da saga Crepúsculo, não é mera coincidência). Conhece por acaso o bilionário sadomasoca Christian Grey (Grey em inglês quer dizer cinza, daí o trocadilho do título, “Cinquenta Tons de Grey”). Como Perséfone, Anastasia vai ser raptada pelo Deus dos Ínferos pósmoderno: bilionário, poderoso, com a beleza de um deus grego, absolutamente obcecado por ela, estudante de classe média, mal vestida e completamente alheia ao mundo inferior que o seu Hades vai revelar (o rapaz, além de todos esses predicados, é bastante bem dotado, para desespero do público masculino).
Grey tem vários pontos em comum com o vampiro Edward. O principal é a sua capacidade de enxergar em uma menina comum, alheia à própria beleza e sexualidade, uma deusa maravilhosa. Grey é obcecado por Ana assim como Edward é desesperado por Bella. Eles representam arquétipos adormecidos no homem pósmoderno, cada vez mais desprovido de sua própria masculinidade. Christian Grey é um Hades ferido e apaixonado, que não permite que Perséfone deixe o seu Reino. Pior ainda, ele descobre que seu Reino não vale nada sem Perséfone, digo, Ana. Isso num mundo em que os homens trocam facilmente uma noite de amor pelo controle dos videogames.
E.L. James, autora da trilogia, é ou não é um gênio, heim meninas?
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