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domingo, 6 de março de 2016

Lula Lá e os Quarenta Ladrões

Este blog fala sobre diversos assuntos, até Psiquiatria, de vez em quando. Fiz um post pseudo machista uns dois Domingos atrás, foi um sucesso, maior número de page views e comentários. Mas não continuo provocando polêmica para gerar ibope. Hoje vou falar de Política, porque não dá para ignorar as panelas batendo. Não é meu assunto preferido neste espaço, mas vou ter que me colocar.
Jung foi (e é) chamado de antissemita por muito tempo. Seja por ter discordado de Freud, que lhe valeu a expulsão das hostes psicanalíticas, seja pela manipulação de alguns de seus escritos, ou por ter presidido uma instituição psicológica em tempos de Nazismo, Jung teve vários seguidores e amigo de origem judaica e no final da vida ficou fatigado de rebater a acusação e deixava cada um tirar as próprias conclusões.
O que ele deixou de dizer em sua defesa foi o seu papel secreto e interessante de “analista” de Hitler para o Serviço Secreto inglês. A psicopatia, a identificação delirante com a sua figura messiânica, a incapacidade de analisar e reconhecer os próprios erros, todos esses traços que levaram o Nazismo à derrocada foram apontados e traçados por Jung, que ajudava os aliados a entender e manipular a psique nazista. E tem gente que até hoje bate na tecla de que o psiquiatra suíço era simpatizante do Nazismo.
Lula não é Hitler, mas compartilha de alguns de seus erros. Sobretudo o de se identificar demais com o personagem político criado por ele ou para ele. Lula virou um arquétipo. No processo, incorporou virtudes messiânicas. Ele é o defensor dos pobres, o Robin Hood que tira dos ricos e dá, não para os pobres, mas para um Estado gigantesco e, cada vez mais, corrupto e corruptor. O roubo é santificado pela intenção de proteger os desprotegidos. Lula avaliou mal as suas possibilidades e a força de sua vontade. Ele decretou que haveria crescimento, que a fome seria zero, que a crise mundial era uma marolinha. Ele parecia dobrar a Realidade à sua vontade. Ele poderia até eleger um poste chamado Dilma Roussef que nada conseguiria derrubá-lo. Seus inimigos diziam que ele era feito de teflon, pois nada grudava nele. Como outros caudilhos, achou que seria eterno.
A guerra que se trava agora não é sobre ideias, nem projetos para nosso país. A guerra é sobre símbolos. Quem domina os símbolos e consegue gerar visões a partir deles, domina também corações e mentes. É por isso que tem tanta gente falando groselha nessa luta pelo domínio simbólico. Parece uma guerra de retardados. Lula é o defensor dos pobres e está sendo perseguido pelos coxinhas que não perdoam seu sucesso na vida. O PT é um covil de ladrões e uma Organização Criminosa que pretende se apropriar do Estado. E todo petista é ladrão (tenho um amigo petista que brinca sentir saudade quando era chamado de comuna e baderneiro. Era melhor que ladrão). Nota do autor: uma minoria de petistas cometeram atos ilícitos. E discordar do PT não significa ser um coxinha alienado.
Vou colocar meu próprio mito na brincadeira. O ciclo petista se esgotou, política, ideológica e, sobretudo, economicamente. O melhor para o petismo teria sido perder a eleição para o Aécio, que estaria agora tentando descascar o gigantesco abacaxi plantado por Dilma e Mantega. Agora Dilma vive as pragas do Egito caindo na sua cabeça. Zica Vírus, Dengue, Recessão, Impeachment, Inflação, Eduardo Cunha, Desarticulação Política, Caos Econômico, Bonecos Pixulecos, Operação Lavajato, são tantas pragas que dava para ter muita inveja do Faraó Egípcio, que tinha que lidar “só” com dez pragas bíblicas. Deve ser por isso que “Os Dez Mandamentos” virou sucesso como novela e filme. Os bispos da Record tiveram a sacada. As pragas sempre simbolizaram para mim o que acontece com um Ego apegado às suas pseudo verdades, recusando o confronto com o Real. Se alguém nega o Real acaba sendo atropelado por ele. Sejam faraós ou governantes.
Lula tenta ressuscitar a sua força messiânica. Vai viajar pelo país bradando ser a vítima das elites. Marx dizia que a história se repete como farsa ou como tragédia. Muita gente tenta se agarrar na farsa. Mas o povo que acreditou na fábula que todos ascenderiam para o paraíso do consumo, agora se bate na tragédia dos preços disparando nas gôndolas do supermercado. Esse é um símbolo difícil de disfarçar.

domingo, 23 de agosto de 2015

Atenção Relaxada

Uma das coisas que me ficam do modelo inspirado no Mito de Édipo e que está descrito no último post: ter uma ferida não revelada ou mal trabalhada cria um sistema de disfuncionamento e de baixa energia em nossa Psique. Édipo tenta compensar a dor de seus pés inchados e seus tendões cortados através de um destino heróico. Não adianta estar no topo do mundo com a sua ferida cheirando mal. Não adianta ter o mundo e perder a sua alma, falou Jesus. Conquistar a própria ferida é tornar o que era disfuncional em funcional. Não precisamos da fragilidade para ganhar proteção ou piedade, precisamos de nossa fragilidade para deixar de fugir, deixar de tentar aparentar o que não somos, ou o que não temos. Quando o Reino de Tebas passa por uma seca catastrófica, o Rei Édipo vai ao grande vidente e pergunta quem está trazendo aquela desgraça e o que seria preciso fazer para trazer de volta o equilíbrio ao Reino? Tirésias aponta para rei e revela que ele havia matado o seu pai e desposado sua mãe. Enquanto nossa Psique tem um segredo não revelado, uma ferida escondida e mal curada, a energia que deveria estar disponível está sempre falha e, como tal, não circula. Esse é um dos objetivos dos tratamentos, limpar as sujeiras, separar o joio do trigo, restabelecer os canais de comunicação, internos e externos, para encontrar alguma felicidade e reparação.
A nossa mente, como os supercondutores, funciona melhor em menores temperaturas. Isso não significa que devemos colocar a cabeça no freezer, mas antes achar um estado de atenção relaxada para fazer as coisas acontecerem. O medo ou a alta atividade emocional atrapalha o processamento de informação. Já são alguns milênios em que os meditadores tentam educar a mente para o estado de não-mente, isso é, um estado onde os infinitos mi mi mis, ou os bla bla blás internos são finalmente silenciados. Criando uma espécie de consciência observadora, os monges observam os próprios saltos dos macacos do Pensamento para finalmente apaziguá-los. Entrar num estado de Atenção Relaxada é um treino diário e vital. Aprender a apaziguar os pensamentos, para entrar em contato com outros estados de Consciência.
O Rei Édipo não tem paz consigo mesmo. Não conquistou os seus medos. Não encontrou a sua Visão Interior. Na parte do mito em que ele, ao saber que desposara a própria mãe e com ela criou uma família, arranca os próprios olhos. Não há perdão para a própria Inconsciência. Parece um castigo autoimposto, mas bem que pode significar uma libertação. Lembro de um paciente que sobreviveu a um Câncer intratável e falou das maravilhas (e terrores) de passar por uma experiência que lhe jogou a própria vulnerabilidade na cara. Quando antes ele se sentia imortal, era irritável, meio paranóico com seus funcionários e esposa e, acima de tudo, vivia às turras com seu pai, a quem secretamente atribuía a culpa pela morte de sua mãe. Depois de morrer e renascer, passou a ter uma estranha noção da passagem do tempo e do mal resultado de seus ódios mal elaborados. Tudo isso havia “queimado a fiação”, segundo ele, gerando um Tumor agressivo que, ele sabia, ainda estava por lá, após três cirurgias. Cada dia passava a contar, mas, antes de tudo, contava o seu coração mais leve. Ele trocou de olhos, ou, melhor ainda, de olhar.
Uma desgraça para o destino humano não é a Ferida que nos forma, mas o medo que se forma em torno dela. A sensação de Insegurança cria seus filhotes, que é a busca de falsas fontes de Segurança. Essa é uma parte importante da tragédia de Édipo e de todos nós: quanto mais ele foge de seu Medo, maior ele fica, até se deparar com o maior de todos, que é ser o causador da desgraça de todos. Gosto de imaginá-lo, sereno e sem preocupações como um andarilho sábio, coxeando pelos vilarejos, após perder tudo o que um homem preza: dinheiro, poder, posição, influência. Provavelmente, o Édipo curado vive num estado de Atenção Plena e Relaxada, em fluxo com o caminho e com a vida.
O antepenúltimo post deste blog falou sobre três grandes ciclos arquetípicos: o Parental, o Heróico e a Individuação. Individuação é o estado em que o velho e medroso Ego perde a sua força e a Psique se expande na direção do Infinito. Disse Jesus que muitos são chamados, poucos escolhidos, porque não é fácil deixar o velho medo para trás. Não é fácil tirar a Insegurança quanto ao futuro de centro de nossa existência.

domingo, 13 de outubro de 2013

Cada Vida, Um Mistério

Campbell disse em uma de suas inúmeras entrevistas que os personagens da Mitologia estavam naquele exato momento em alguma estação de metrô, esperando o próximo vagão. Isso quer dizer que todos nós, sem excessão, vivemos dentro de histórias, de mitologias pessoais, como os personagens das velhas epopeias.
As pessoas em sua maioria, terapeutas inclusive, costumam achar que as velhas histórias da Mitologia não passam de histórias da Carochinha, feitas na aurora dos tempos, quando não havia TV a Cabo e os homens se divertiam inventando lorotas em torno da fogueira. Outro dia estava vendo o documentário sobre os seis títulos brasileiros do São Paulo, o “Soberano”. Careca descreveu o épico gol de empate na prorrogação contra o Guarani, na final do Brasileiro de 86. Para ele, Pita subiu no terceiro andar e desviou a bola epicamente, ela quicou na entrada da pequena área, ele encheu o pé como se não houvesse medo nem amanhã, levando a decisão para os pênaltis, vencida pelo tricolor. Wagner Basílio, um dos piores beques que já vestiram o manto sagrado tricolor, participou diretamente da vitória: foi ele que deu o chutão que acabou na cabeça de Pita e no chutaço de Careca. Mas não é dele que vou falar. Vendo o documentário, posso afirmar que esse Pita que subiu no terceiro andar e deu um passe magistral só existe na mitologia pessoal do grande Careca. Pita subiu todo torto, mal raspou a cabeça na bola e os deuses do futebol, que naquela noite sorriam para o São Paulo, fizeram a bola cair bem ao feitio do gênio da camisa 9 ( se fosse o Luís Fabiano, já teria sido expulso ou estaria machucado, pois o rapaz é pouco afeito aos momentos em que o time precisa dele. e bactéria chamada Affinococcus acaba por acometê-lo. Mas essa é outra história).
Apesar do exagero da narrativa mitológica, como acima demonstrado, não há nenhuma vida que não seja percorrida, todo dia, pelos mitos. Tenho mencionado muito isso nos últimos posts. Sobretudo no tema da Jornada Arquetípica, a que começa com um pequeno evento, um erro, chamado por mim de Erro Fundamental, que arremessa o candidato a herói em seu caminho, em sua peregrinação por essa vida estranha. Uma das coisas que me ajuda a acordar e continuar atendendo, estudando, atendendo, estudando, é essa certeza de que cada vida tem o seu Mistério. Mesmo as vidas trágicas, ou malogradas, ou as pessoas que se agarram a seus medos para não se moverem em nenhuma direção, ainda assim, essa vida tem o seu Mistério e não cabe nem ao médico nem ao terapeuta julgar aonde esse mistério vai dar. O terapeuta deve, antes de mais nada, ser aquele que está ali e lá fica, mesmo quando a maioria das pessoas já teriam desistido ou saído correndo dali.
Uma moça tinha acabado de terminar um casamento que não deveria ter ocorrido. Uma menina mimada como tantas que existem por aí, pequenas ninfas perdidas pelo Facebook e Youtubes, vivendo na inconsciência patrocinada por seus pais cheios de grana mas mendicantes de ideias. Ela resolveu fazer uma cirurgia plástica para celebrar a nova fase de sua vida. O procedimento não deu certo, mudou seu rosto, ela detestou. Foi em outro cara, ficou pior. Em desespero, queria ir para a mesa de novo e aí a coisa ficou realmente complicada, porque os médicos começaram a farejar o perigo. Operar a moça de novo era sinônimo de encrenca. Fisioterapias, tratamentos estéticos, medicamentos e cremes, nada traria de volta o seu rosto antigo. Contei para ela do Erro Fundamental, da ganância do último saque que lançou Ulisses no mar e o fez atrasar em dez anos a sua volta para casa. Esse erro é terrível, as consequências, no caso dela, mais terríveis ainda, mas aquilo também seria uma oportunidade de aprender a esperar, a cuidar de sua saúde estética tanto quanto de sua saúde mental. Pela primeira vez na vida, ela teria a chance de iniciar uma jornada, pois quem tem um desejo, tem um caminho. Ela não teria o seu rosto antigo de volta, mas talvez encontrasse um rosto ainda mais bonito. Ela me olhou com descrença, prometeu pensar no que eu falei. A sua mãe ligou no dia seguinte cancelando o seu retorno. Ela nunca mais voltou e deve continuar a sua peregrinação de cirurgião em cirurgião, procurando pelo rosto que não existe. Ou que talvez nunca tenha existido. Cada vida, um Mistério.

domingo, 8 de setembro de 2013

A Maçã da Discórdia

Tenho falado nesses últimos posts de uma história particularmente cara a esse escriba, que é “A Odisséia”, épico grego escrito por Homero. Falei da jornada arquetípica do herói, Ulisses, distante muitos anos de sua terra natal, onde era rei e feliz com a amada Penélope, mas não o sabia. Nossa mitologia e nossas neuroses são tão helênicas quanto da mitologia bíblica. Ainda hoje tentamos resolver em nossas psiques os dilemas que enfrentaram os gregos. Pouca gente sabe, entretanto, como começou a encrenca que deu origem à Guerra de Tróia e à viagem de Ulisses.
Tudo começou no casamento do mortal Peleu com a deusa do mar, Tétis. Grande acontecimento no mundo da Mitologia. Éris, a deusa da Discórdia, foi barrada no baile. Parece lógico deixar de convidar uma deusa responsável pela discussão, fofoca e separação entre as pessoas, assim como é difícil imaginar uma cerimônia de casamento sem esses componentes. Éris não gostou nada nada de ter sido excluída. A sua vingança foi muito elegante: lançou no meio da festa uma maçã dourada, onde estava escrito: “Para a Mais Bela”. Hera, Athena e Afrodite imediatamente se candidataram a ficar com a maçã dourada. A primeira lição psicológica desse casamento: quando tenta-se reprimir a discórdia, ela volta com o triplo da força, bem no lugar onde menos se desejava. Hera, Athena e Afrodite representam características importantíssimas do Feminino que não podem ser dissociadas: Hera é a Grande Deusa, esposa de Zeus, a deusa do amor conjugal, a mais poderosa das deusas; Athena é a sabedoria, a capacidade de traçar estratégias com serenidade e lógica implacável; Afrodite é o princípio máximo da volúpia, do desejo, da paixão. Quando esses princípios atuam em conjunto, temos o Feminino em seu esplendor. Foi exatamente o que Éris quebrou quando lançou a sua maçã (para quem não sabe, a expressão “pomo da discórdia” deriva dessa passagem mitológica). As deusas, tomadas pelo desejo de possuir a maçã, pedem para Zeus decidir quem era a mais bela. Zeus é o mais poderoso dos deuses olímpicos, o senhor dos raios e trovões, mas não é besta. Não iria se meter em assunto desses. Recusou a tarefa, sabiamente. As deusas escolhem um mortal, o troiano Páris, que bem que tenta se esquivar da tarefa, mas, no final, acabou entrando na gelada. E sua escolha tem grandes implicações para a humanidade, até os nossos dias.
Páris poderia ter escolhido a Grande Esposa, os atributos da mulher companheira, que ajuda a construir a vida ao lado de um homem, se optasse por Hera. Escolhendo Athena, teria ao seu lado a Sabedoria e a Estratégia e poderia ser um rei conquistador e invencível. Mas como resistir à Afrodite? Afrodite ofereceu a Páris a mais bela de todas as mulheres, Helena, belíssima esposa do Menelau, que entrou para a história como corno, mas era um grande general. A escolha de Páris se parece com a escolha de muitos homens, sobretudo de uma certa idade, que trocam a esposa companheira por uma bela e jovem Afrodite. O rapto de Helena deu origem à Guerra de Tróia. Tudo por um rabo de saia.
Até hoje padecemos da escolha de Páris. Ou pior, ainda estamos presos àquela maçã. As esposas se queixam das jovens e peitudas Afrodites caçando seus maridos. As estrategistas e sábias ficam perdidas na selva de superficialidades que é nosso mundo da hipermídia. As pequenas Afrodites ficam perdidas entre lipoesculturas e toneladas de silicone, pois todo o seu poder de atração vai ser varrido pelo tempo. Os três princípios, ou atributos fenotípicos, segundo a Epigenética, quando separados, perdem a sua força e o Feminino acaba virando uma Panicat chacoalhando os quadris diante de câmeras em ângulo ginecológico.
Ulisses vai ter dez anos perdido em mares arquetípicos para encontrar em Penélope a beleza madura, a sabedoria e o companheirismo do Feminino. Ele vai ter que recuperar o estrago feito por Éris e sua maçã.

sábado, 1 de junho de 2013

O Herói e o Trickster

Ontem estava me perguntando ao final do terceiro episódio da franquia “Homem de Ferro” (filmes não são mais filmes, mas franquias em vários episódios e possibilidades de consumo), o que eu estava fazendo lá e como gastei mais de duas horas da minha vida com aquilo. Além da falta impressionante de opções, acho que estava afim de ver Robert Downey Jr e sua perspectiva torta/irônica que nos salva dos heróis musculosos e inquebrantáveis do cinemão americano. Olhando para ele sem pressa, podemos notar que é o completo antiherói: não é musculoso como o Capitão América, não é indestrutível como o SuperHomem, não tem a beleza nórdica do Thor.
Robert Downey Jr é um cinquentão bonitão e malhado, mas está longe da Testosterona exigida para ser um superherói. Ele tinha tudo para ser tragado, como tantas jovens promessas, pelo labirinto de drogas, escândalos e prisões que tornou-o personagem mais comum em páginas policiais do que nos cadernos de Cinema ou Entretenimento. Depois de muitos anos lutando contra a dependência química e os problemas com a justiça, que lhe valeram alguns períodos na prisão, Robert voltou com o dobro do ímpeto para virar um ator de um tipo só: o Tony Stark do Homem de Ferro muito se parece com o Sherlock Holmes, que se parece com o bonitão folgado de outros filmes que eu não vou citar porque não merecem ser recordados. Os personagens de Robert Downey Jr são viris, mas desengonçados com as mulheres, são inteligentíssimos, mas temerários e sempre fazem lambanças por desconsiderarem qualquer norma de segurança. Na Mitologia Grega, que talvez seja a maior base arquetípica do Inconsciente Holywoodiano, seus personagens significam a troca do modelo apolíneo por um herói mais dionisíaco. Isso significa a troca do herói reto e proporcionado pelo herói dado a excessos e erros, sempre pronto a enxergar a verdade na franja desses erros e derrotas. Parece pouco, mas representa a troca do indestrutível Aquiles pelo safo e não tão belo Ulisses, que tira da astúcia mais vitórias do que da força física. Para quem não sabe, na Guerra de Tróia, Aquiles era o mais forte e imbatível dos guerreiros, mas sua condição humana lhe reservava uma fragilidade, que era no seu calcanhar. Os heróis fortões sempre vão ter essa fragilidade oculta, que vai ser mais perigosa na medida que não for considerada. Quando Aquiles foi morto em batalha, Ulisses se aproveitou da sensação de vitória dos troianos para fazer o Cavalo de Tróia. Venceu a guerra com um artifício pouco heróico, mas muito malicioso.
Vivemos num mundo em que a padronização da subjetividade humana é atroz. Os filmes que os cinemas de circuito passam, as cores das roupas que a moda impõe, os check lists de procedimentos em todas as profissões obrigam as pessoas a essa passividade bovina diante do que é ditado pelo “Grande Irmão”. Pouco nos apercebemos, mas vivemos sob a bota dessa subjetividade. Robert Downey Jr voltou das cinzas para ser o herói manhoso, o Trickster arquetípico porque provou do sucesso, do ocaso, da derrota e da tragédia pessoal para voltar pleno de sua capacidade de ser o bom ator que é, mas capaz de traduzir com malícia o cara que aparentemente se rende e representa o Sistema, ao mesmo tempo que ri e despreza os cordeiros que acreditam nesse mesmo Sistema.
O filme começa com um aforisma que caberia muito bem em um texto junguiano: Tony Stark,o bilionário do bem que é assumidamente o Homem de Ferro, afirma que somos sempre os criadores de nossos próprios monstros. Nossa vaidade e nossos medos produzem as dificuldades que teremos que enfrentar todo santo dia. Sua necessidade de multiplicar a força humana através da estrutura de metal vai produzir um inimigo criador de aberrações em sua busca pelo superhumano. O Herói brincalhão vai demorar muito para ele descobrir que o que nos torna superhumanos é nossa própria fragilidade. Aquiles não sabia disso e se deu mal.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Do Amor e do Caos

Freud formulou um modelo de princípios antagônicos. Por exemplo, logo nos seus trabalhos iniciais já descrevia o ser humano dividido entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade. Mário de Andrade construiu um anti herói arquetípico para nós, brasileiros, Macunaíma, um ser movido exclusivamente pelo Princípio do Prazer: folgado, preguiçoso, avesso ao trabalho, esperando ser alimentado e cuidado sem precisar dispender nenhum esforço. Macunaíma está no noticiário todo dia, nos mensalões, obras superfaturadas e dólares na cueca. Esse é o Princípio do Prazer em contraponto ao Princípio da Realidade, manifesta nesta época em São Paulo pelas enchentes e o abandono legado pela administração macunaímica de Gilberto Kassab.
Freud também opôs, já numa fase mais adiantada de sua obra os princípios da vida e da morte, Eros e Tânatos, como formadores de nosso ser psíquico e da nossa vida. Falou mesmo de um Instinto de Morte, que se manifesta de forma inconsciente mas muito palpável no dia a dia, em motoristas bêbados em alta velocidade, em tiroteios nos botecos, em comportamentos de risco e descuido que vemos e temos quase todo dia. A morte é tão reverenciada e cortejada quanto temida.
Eu, particularmente, gosto dos princípios que estão na Teogonia, Mito da Criação dos gregos que foi abordado no penúltimo post: o Caos e Eros. O Princípio da Criação versus o Princípio não da Destruição, mas o da absoluta desorganização, o Caos. A própria eclosão da vida é um princípio que contraria a tendência natural da desorganização. Até hoje a Ciência tenta entender o evento absolutamente raro e estatísticamente impossível da criação da vida em nosso planeta. A Lei da Entropia descreve que todos os sistemas físicos tendem à desorganização; há a necessidade de uma carga imensa de energia para organizar e estabilizar um sistema de uma única célula. A tendência é que ele volte, sempre, para o Caos.
Os chineses chamam esse princípio organizador de Chi, a energia vital que mantém nosso organismo coeso. Quando termina a Energia Vital, o sistema todo se desorganiza e vem a morte. As diversas doenças representam o desequilíbrio no Chi. Na Medicina Ocidental, falamos de Homeostase, a capacidade de nosso organismo se manter equilibrado com o ambiente e com o funcionamento necessário para a sobrevivência. A doença vem da sobrecarga que o tempo e os estressores ambientais depositam em nosso organismo, gerando o desequilíbrio.
Acho que é por isso que a Alquimia descreve a Obra como um Opus contra Naturam, uma obra contra a natureza. Sempre achei isso uma ideia estranha: se estamos na natureza e fazemos parte de seu corpo, como podemos realizar uma Obra contra ela? Engraçado que pelos princípios da Entropia da para entender a intuição dos alquimistas pré e pós medievais: a obra alquímica, como a obra de nossa vida, é a luta para transformar o Caos em Criação, a tendência à bestialidade em humanidade. Deve ser por isso que seja necessário tanto dispêndio de energia para mudarmos velhos hábitos e velhos sistemas de comportamento. Vou dar um exemplo mais fácil, para esse post não ficar tão complicado: é muito mais “fácil” uma alimentação desregrada, ou soltar as amarras da voracidade, do que aprender a comer de forma consciente, regrada. Toda vez que vamos começar um regime, cutucamos as áreas da voracidade e do caos que repousam em nosso Cérebro, lá onde ainda residem a fúria e a destruição de nossas ganas de paleoprimata. É mais fácil, sempre, destruir do que construir.
Em todas as Mitologias, Deus é o princípio criador que se opõe às Trevas. É o Princípio do Amor que não se opõe ao Ódio: se opõe à dissolução no Caos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Deusa da Balada

Hoje acabam as “férias do blog”. Continuarei os textos em forma de diálogo em outro espaço. A tragédia de Santa Maria, que hoje completa uma semana, me puxou de volta para os textos em primeira pessoa.
Ontem eu ouvia no rádio do carro entrevistas com familiares que foram buscar pertences das vítimas do incêndio. Um pai falou sobre a sensação de irrealidade que uma perda dessas provoca. Mesmo assim ele sentia a necessidade de compartilhar todas as suas sensações com outros pais, outros filhos, outras bandas que tentam ampliar a sensação de euforia com pirotecnia em locais fechados. A única coisa que pode dar sentido a esse não sentido é alertar, espalhar pelo mundo todo essa dor em vazio que ele estava sentindo. Uma dor que ultrapassa em muito o limite das lágrimas. As lágrimas não podem expressá-la. O tio de uma menina de 27 anos que trabalhava como caixa da boate Kiss observou que aquela era a última noite de trabalho de sua sobrinha. Ela precisava de 35 reais para pagar o conserto da bicicleta de seu filho de onze anos. Entre lágrimas ele murmurou que a sua sobrinha havia morrido por 35 reais.
Eu estava voltando de viagem quando ouvi no rádio a notícia pavorosa. Passei o último Domingo colado na TV, coletando informações, tentando entender o que havia acontecido, que mão invisível determinou quem conseguiu sair e quem perdeu a vida naquela câmera de gás que virou uma casa noturna no interior gaúcho. Foi lá, mas poderia ter sido em qualquer lugar. Os donos da boate ou os moleques que soltaram os fogos são genocidas, assassinos irresponsáveis e merecem o linchamento moral e o horror da opinião pública? São os bodes expiatórios de nossa inconsciência? Essa tragédia, como outras, repousa em um mecanismo de defesa tão antigo como universal: o autoengano. O discurso inconsciente que cria uma sensação agradável de “comigo não vai acontecer”. As tragédias ocorrem só com aqueles personagens distantes dos noticiários. Não há risco em pegar o carro do namorado e guiar pelas ruas, ambos bêbados. Não tem problema dirigir com seu bólido a 130 km por hora dentro de uma rua pequena. Soltar rojões em ambientes fechados? Sem problemas. Colocar um isolamento acústico com uma espuma que, ao ser queimada, solta gases tóxicos e causa morte instantânea em quem estiver no recinto? Mas eu não sabia, meu Deus. O revestimento parecia tão bom e sobretudo, barato.
Ano passado eu invoquei num post a deusa da Adolescência, Ártemis e pedi a sua proteção a essa molecada que atravessa essa noite de iniciação e que pode se perder no excesso, no desespero de aproveitar cada momento. Parece que a balada é o templo onde se celebra essa passagem, essa euforia de que sou jovem e não preciso ser escravo do trabalho, nem das responsabilidades, nem preciso trabalhar em dois empregos para pagar a bicicleta quebrada de meu filho. Pensando bem a adolescência é o lugar em que todos querem estar; as mulheres de cinquenta e tantos anos querem se vestir como suas filhas, os gordinhos carecas da minha geração querem pegar as ninfetas e o mundo quer se transformar à noite, numa gigantesca, infinita balada onde todos se divertem e todos os excessos são perdoados.
Ártemis era a deusa da caça, conhecida pelos romanos como Diana. Como um Peter Pan da Mitologia Grega, nunca envelhecia. A sua imagem é sempre de uma menina, ou moça, empunhando o seu arco e flecha. Nos tempos antigos um jovem começava a ser adulto passando uma noite escura na selva, tentando trazer a caça para o seu bando. Uns conseguiam atravessar essa noite, outros se perdiam na selvageria, ou no medo e não passavam pela prova. Hoje, nossos jovens vão atravessar a sua noite de iniciação dentro das baladas infinitas. Oramos por eles em sua jornada, que sejam protegidos e completem a travessia, com o arco protetor da deusa.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Coagulatio

Vou adiar por um dia o início das férias desse blog. Ainda não decidi como serão os textos nesse período de "férias" desses escritos em primeira pessoa. Agradeço muito as mensagens de final de ano e recomendo a quem interessar dar uma olhada no setor de Comentários desse blog, onde há contribuições e dúvidas bem legais para se ver.
Um desses comentários eu vou responder nesse post. É sobre um termo em latim que eu usei justamente para desejar um bom ano de forma junguiana e alquímica. O termo é Coagulatio, o que levantou essa lebre. Vamos por partes, então.
O psiquiatra suiço C.G.Jung passou por uma série dolorosa de rompimentos em sua trajetória. Primeiro, rompeu com o maior centro de Psiquiatria de sua época, onde teve experiências e contatos que deram origem a suas mais importantes teorias. Quando ele aderiu ao movimento nascente da psicanálise freudiana, foi se distanciando dos psiquiatras tradicionais até se desligar do mestre Bleuler. Após ser recebido como um príncipe herdeiro por Freud, Jung foi discordando de forma cada vez mais contundente do pai da Psicanálise, o que o levou a tomar mais um contundente pé na bunda, dessa vez da patota aboletada em torno de Freud. Jung teve o que hoje seria diagnosticado como um quadro depressivo, passando muito tempo só, em sua torre, estudando, desenhando, rabiscando o que viria a ser a sua obra nas décadas que se seguiram. Nesse período, ele foi muito ajudado por Tony Wolff, uma paciente que virou aluna, amante e terapeuta de Jung. Com a ajuda de Tony, Jung sedimentou a sua Psicologia Arquetípica. O que não se esperava é que Jung, ao começar a estudar a Alquimia Medieval, acabaria por ser abandonado pela própria Tony Wolff, que achava que esse estudo iria acabar por desacreditá-lo de vez. Tony continuou com Jung até a sua morte, mas nunca aderiu ao babado alquímico. Até hoje Jung é classificado como um místico, um esotérico, o que em circuitos científicos ou acadêmicos é um xingamento muito grave. O estudo de Mitologia e Religião comparada e da Alquimia acabaram por deixá-lo ainda mais só.
Nos dias de hoje, meio século após a morte de Jung, sabemos que seu estudo e coragem trouxeram à luz a riqueza psicológica profunda dos escritos alquímicos. O processo de Individuação, o núcleo de todo trabalho terapêutico junguiano, foi finalmente descrito e estabelecido nesses estudos da Alquimia. Nos comentários do blog, há uma alusão às fases do Opus Alquímico, à Pedra Filosofal e ao título desse post, Coagulatio. São temas que dão um livro para cada um deles, portanto vou me deter no Solve et Coagula dos alquimistas. o que isso significa, para a obra alquímica e para o trabalho de psicoterapia?
O Dissolve e Coagula era um procedimento padrão nos laboratórios dos velhos alquimistas. Isso representava o trabalho de separar as impurezas da matéria prima, as sujeiras e as contaminações desse material para encontrar a matéria pura, a Pedra, o Lapis Alchemicum, com o poder de transformar tudo à sua volta. Para isso, a matéria seria tratada com paciência infinita até atingir essa pureza absoluta. Quando eu leio o tratado Budista do Sutra do Diamante, lembro da obra alquímica. Através da meditação e do trabalho de purificação interna profunda, cria-se um núcleo psíquico indestrutível, como um diamante. É muito parecido com a Pedra Filosofal e a busca do Ouro indestrutível, um tesouro interior.
No trabalho psicoterápico, somos herdeiros dos velhos alquimistas, dissolvendo as dores, as decepções, as feridas das psiques em suas jornadas individuantes. O trabalho do psicoterapeuta, ou do psiquiatra na busca da melhora das depressões, das angústias e do profundo sentimento de solidão que uma pessoa experimenta quando quer se diferenciar e crescer passa por vários momentos de Solutio, momentos em que toda a energia parece ter desaparecido. Recentemente eu comparei o filme "As Aventuras de Pi" com essa jornada arquetípica, onde as adversidades vão criando uma capacidade quase ilimitada de resistir e sobreviver no personagem principal. Essa jornada é interior, não apenas uma aventura de filme edificante.
O Coagulatio é a operação de consolidação desse núcleo de nossa consciência e do Inconsciente, de transformar o Imanifesto em Manifesto, o Potencial em Realização. Quando eu desejo para uma pessoa um ano de Coagulatio, isso significa que imagino que tudo o que foi trabalhado, purificado, transformado com sangue, suor e lágrimas vai começar a se manifestar na vida da pessoa como algo visível. Uma confiança maior na própria alma como guia e na própria capacidade de colocar no mundo o que ainda está por vir. Portanto, um ano de Coagulatio para todos os leitores desse blog.