Nesses vinte e cinco anos de Psiquiatria que eu vivi, houve uma incrível multiplicação de alternativas terapêuticas para os quadros psiquiátricos. Nem dá para se comparar o que aconteceu em termos de medicamentos e estratégias para diminuição do sofrimento psíquico. Os tratamentos foram se tornando mais rápidos e direcionados, os sistemas de neurotransmissão mais compreendidos, chegando às portas da manipulação genética. Quando a Fluoxetina foi introduzida na Rede Pública nos anos 90, o argumento da Indústria Farmacêutica é que as pessoas ficariam cada vez mais felizes e portanto adoeceriam menos. A melhora da angústia do viver levaria à economia de recursos e diminuição de gastos com a Saúde. Como se sabe, não foi isso o que aconteceu. Os quadros depressivos se tornaram mais frequentes e mais graves, os índices de suicídios estão cada vez mais prevalentes e epidêmicos. “Surtar” virou um termo corriqueiro em nossa vida diária. Entendemos melhor as doenças e elas estão ficando mais frequentes e graves. Onde estamos errando e onde está nosso ponto cego?
Desde os anos 90, o trabalho pioneiro de John Kabat-Zinn vem adaptando para o Ocidente uma série de conceitos e métodos budistas para tranquilização da mente e redução de estresse. Agrupou isso em um nome, Mindfulness. Pode ser descrito como uma forma de criação de um observador interno, que assiste à nossa própria vida, observa calmamente os pensamentos em ebulição de forma ativa e não julgadora. Isso vai produzindo uma observação serena de nosso labirinto de pensamentos, medos e desejos que ficam dando espirais e piruetas dentro de nossas redes neurais.
Temos em nosso Cérebro um Sistema de Recompensa que é ativado e está relacionado com as Dependências de Drogas, por exemplo. Nosso mundo está inflamado por vários motivos, mas um deles deriva claramente da superestimulação dos sistemas de Recompensa. Vivemos uma espécie de novo moralismo, que é o Moralismo Hedônico. Tudo deve ser intenso, todos os sentidos devem ser estimulados, todos devem transar como astros pornô ou comer como candidatos do Masterchef. Todas as fotos nas redes sociais são de Revista Caras e todos devem ser, obrigatoriamente, hiperestimulados. As crianças estão deprimindo cada vez mais cedo, as mulheres estão enfartando como os homens e uma em cada três pessoas vai ter Câncer em sua vida. Obesidade, Diabetes, Câncer e Transtornos Psiquiátricos podem estar vindo do mesmo lugar, que é a fornalha de desejos e buscas de intensidade. Tudo é muito intenso e descansar pode significar perder alguma coisa. Já atendi mais de uma pessoa que não consegue dormir ou descansar por medo de perder alguma balada, ou postagem, ou prazer que pode estar se perdendo no sono.
Mindfulness, Yoga, Pilates, Tai chi, Psicoterapias, Relaxamento, podem ser uma reação contra o mundo inflamatório. Olhar de fora os pensamentos girando em pistas ovais é uma forma de reduzir e começar a organizar a correria e a ânsia permanente de estímulo. Inicialmente pode-se dizer que essa desaceleração provoca desconforto. Muita gente sai correndo na primeira aula, no final da primeira sessão. Desacelerar parece errado. A Inflamação provoca grandes abstinências. Os benefícios demoram a aparecer e todo mundo quer as coisas resolvidas numa clicada.
Estamos perto de uma Psiquiatria, ou, mais profundamente, de uma Medicina voltada para o Positivo e o Integrado. Talvez o mundo exploda primeiro, mas vamos correndo para desinflamá-lo. Com Atenção Plena, e Relaxada.
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domingo, 3 de julho de 2016
domingo, 4 de outubro de 2015
Atenção Curativa
Já faz um bom tempo que aprendi uma técnica de relaxamento e meditação em que, em algum ponto, a dirigente convidava a escanear uma parte de seu corpo onde estivesse concentrada uma zona de tensão. Localizada a região de desconforto, o próximo passo foi apenas prestar atenção a essa parte do corpo e observar o que ocorria. A tensão começava a se esgotar, como uma pia que foi desentupida. O simples ato da Atenção simples e não julgadora voltada ao desconforto faz com que o mesmo se esvazie dentro de si.
Essa técnica vem sendo trazida para a Terapia Cognitiva nos últimos anos. Olhar os pensamentos de fora, como uma Consciência separada de sua Consciência. O ato de apenas prestar atenção aos pensamentos, sem tentar controlá-los, pode esvaziar a sua potência. Os pensamentos, olhados em profundidade, revelam a sua natureza de não existência. São fabricados por nossos medos, ou nossa necessidade de antecipação, que foi discutida no último post desse blog. São, no final das contas, nada, e para o nada voltam se são apenas olhadas de fora. Ou de dentro.
Penso que a própria sessão no consultório seja antes de tudo um ato de Atenção. Não são poucos os pacientes que se queixam de médicos indiferentes, ou dispersos, ou que tiram as suas conclusões de maneira automática e sem examinar o caso com algum cuidado. Olhar para o caso com atenção é, em si, um ato terapêutico. A Atenção ao sintoma cria um caminho para a melhora. Como nessa meditação que aprendi há muito tempo. Olhar para o medo vai tirá-lo das sombras.
Muito se diz nos Congressos de Sono e de Psiquiatria que vivemos numa sociedade privada de sono. Vivemos numa sociedade privada de Atenção, com vendas recordes de Ritalinas e outros estimulantes. A falta de Atenção é irmã siamesa do desassossego. Esse blog é um tanto rabugento com as redes sociais, talvez porque elas estejam fundadas na necessidade desesperada de receber Atenção, de estar nos Trend Topics, ou romper a barreira dos milhões e milhões de almas que procuram reconhecimento e validade na forma de likes ou retweets. Disputa-se palmo a palmo o campeonato de memes e quem recebe muita atenção deste tipo não parece muito feliz com isso. Talvez oferecer a Atenção, mesmo para si, crie mais felicidade do que buscá-la desesperadamente.
Muito já se teclou aqui sobre a falta de atenção, sobretudo em reflexões sobre os deficits de atenção de garçons e garçonetes, gerando falhas na entrega de pães na chapa ou porções extras de maionese. Esse escriba se desespera com outro filhote da desatenção, que é o descuido. Ou a pressa. Ou a briga permanente com o tempo. Mesmo assim o tema não se esgota. Do garçon ao cruzamento perigoso da esquina, tudo demanda uma Atenção delicada e constante.
Pode ser que a própria evolução tenha nos selecionado para a Desatenção.Ter um radar sempre ligado para tudo o que ocorre no entorno, para tudo o que vem pela frente, para tudo o que eventualmente já nos machucou, esse tipo de Atenção provavelmente nos trouxe até aqui. Mas não deve nos levar para muito longe. Observe o (a) visitante desse blog o poder curativo da Atenção Relaxada a tudo o que importa.
Essa técnica vem sendo trazida para a Terapia Cognitiva nos últimos anos. Olhar os pensamentos de fora, como uma Consciência separada de sua Consciência. O ato de apenas prestar atenção aos pensamentos, sem tentar controlá-los, pode esvaziar a sua potência. Os pensamentos, olhados em profundidade, revelam a sua natureza de não existência. São fabricados por nossos medos, ou nossa necessidade de antecipação, que foi discutida no último post desse blog. São, no final das contas, nada, e para o nada voltam se são apenas olhadas de fora. Ou de dentro.
Penso que a própria sessão no consultório seja antes de tudo um ato de Atenção. Não são poucos os pacientes que se queixam de médicos indiferentes, ou dispersos, ou que tiram as suas conclusões de maneira automática e sem examinar o caso com algum cuidado. Olhar para o caso com atenção é, em si, um ato terapêutico. A Atenção ao sintoma cria um caminho para a melhora. Como nessa meditação que aprendi há muito tempo. Olhar para o medo vai tirá-lo das sombras.
Muito se diz nos Congressos de Sono e de Psiquiatria que vivemos numa sociedade privada de sono. Vivemos numa sociedade privada de Atenção, com vendas recordes de Ritalinas e outros estimulantes. A falta de Atenção é irmã siamesa do desassossego. Esse blog é um tanto rabugento com as redes sociais, talvez porque elas estejam fundadas na necessidade desesperada de receber Atenção, de estar nos Trend Topics, ou romper a barreira dos milhões e milhões de almas que procuram reconhecimento e validade na forma de likes ou retweets. Disputa-se palmo a palmo o campeonato de memes e quem recebe muita atenção deste tipo não parece muito feliz com isso. Talvez oferecer a Atenção, mesmo para si, crie mais felicidade do que buscá-la desesperadamente.
Muito já se teclou aqui sobre a falta de atenção, sobretudo em reflexões sobre os deficits de atenção de garçons e garçonetes, gerando falhas na entrega de pães na chapa ou porções extras de maionese. Esse escriba se desespera com outro filhote da desatenção, que é o descuido. Ou a pressa. Ou a briga permanente com o tempo. Mesmo assim o tema não se esgota. Do garçon ao cruzamento perigoso da esquina, tudo demanda uma Atenção delicada e constante.
Pode ser que a própria evolução tenha nos selecionado para a Desatenção.Ter um radar sempre ligado para tudo o que ocorre no entorno, para tudo o que vem pela frente, para tudo o que eventualmente já nos machucou, esse tipo de Atenção provavelmente nos trouxe até aqui. Mas não deve nos levar para muito longe. Observe o (a) visitante desse blog o poder curativo da Atenção Relaxada a tudo o que importa.
domingo, 23 de agosto de 2015
Atenção Relaxada
Uma das coisas que me ficam do modelo inspirado no Mito de Édipo e que está descrito no último post: ter uma ferida não revelada ou mal trabalhada cria um sistema de disfuncionamento e de baixa energia em nossa Psique. Édipo tenta compensar a dor de seus pés inchados e seus tendões cortados através de um destino heróico. Não adianta estar no topo do mundo com a sua ferida cheirando mal. Não adianta ter o mundo e perder a sua alma, falou Jesus. Conquistar a própria ferida é tornar o que era disfuncional em funcional. Não precisamos da fragilidade para ganhar proteção ou piedade, precisamos de nossa fragilidade para deixar de fugir, deixar de tentar aparentar o que não somos, ou o que não temos. Quando o Reino de Tebas passa por uma seca catastrófica, o Rei Édipo vai ao grande vidente e pergunta quem está trazendo aquela desgraça e o que seria preciso fazer para trazer de volta o equilíbrio ao Reino? Tirésias aponta para rei e revela que ele havia matado o seu pai e desposado sua mãe. Enquanto nossa Psique tem um segredo não revelado, uma ferida escondida e mal curada, a energia que deveria estar disponível está sempre falha e, como tal, não circula. Esse é um dos objetivos dos tratamentos, limpar as sujeiras, separar o joio do trigo, restabelecer os canais de comunicação, internos e externos, para encontrar alguma felicidade e reparação.
A nossa mente, como os supercondutores, funciona melhor em menores temperaturas. Isso não significa que devemos colocar a cabeça no freezer, mas antes achar um estado de atenção relaxada para fazer as coisas acontecerem. O medo ou a alta atividade emocional atrapalha o processamento de informação. Já são alguns milênios em que os meditadores tentam educar a mente para o estado de não-mente, isso é, um estado onde os infinitos mi mi mis, ou os bla bla blás internos são finalmente silenciados. Criando uma espécie de consciência observadora, os monges observam os próprios saltos dos macacos do Pensamento para finalmente apaziguá-los. Entrar num estado de Atenção Relaxada é um treino diário e vital. Aprender a apaziguar os pensamentos, para entrar em contato com outros estados de Consciência.
O Rei Édipo não tem paz consigo mesmo. Não conquistou os seus medos. Não encontrou a sua Visão Interior. Na parte do mito em que ele, ao saber que desposara a própria mãe e com ela criou uma família, arranca os próprios olhos. Não há perdão para a própria Inconsciência. Parece um castigo autoimposto, mas bem que pode significar uma libertação. Lembro de um paciente que sobreviveu a um Câncer intratável e falou das maravilhas (e terrores) de passar por uma experiência que lhe jogou a própria vulnerabilidade na cara. Quando antes ele se sentia imortal, era irritável, meio paranóico com seus funcionários e esposa e, acima de tudo, vivia às turras com seu pai, a quem secretamente atribuía a culpa pela morte de sua mãe. Depois de morrer e renascer, passou a ter uma estranha noção da passagem do tempo e do mal resultado de seus ódios mal elaborados. Tudo isso havia “queimado a fiação”, segundo ele, gerando um Tumor agressivo que, ele sabia, ainda estava por lá, após três cirurgias. Cada dia passava a contar, mas, antes de tudo, contava o seu coração mais leve. Ele trocou de olhos, ou, melhor ainda, de olhar.
Uma desgraça para o destino humano não é a Ferida que nos forma, mas o medo que se forma em torno dela. A sensação de Insegurança cria seus filhotes, que é a busca de falsas fontes de Segurança. Essa é uma parte importante da tragédia de Édipo e de todos nós: quanto mais ele foge de seu Medo, maior ele fica, até se deparar com o maior de todos, que é ser o causador da desgraça de todos. Gosto de imaginá-lo, sereno e sem preocupações como um andarilho sábio, coxeando pelos vilarejos, após perder tudo o que um homem preza: dinheiro, poder, posição, influência. Provavelmente, o Édipo curado vive num estado de Atenção Plena e Relaxada, em fluxo com o caminho e com a vida.
O antepenúltimo post deste blog falou sobre três grandes ciclos arquetípicos: o Parental, o Heróico e a Individuação. Individuação é o estado em que o velho e medroso Ego perde a sua força e a Psique se expande na direção do Infinito. Disse Jesus que muitos são chamados, poucos escolhidos, porque não é fácil deixar o velho medo para trás. Não é fácil tirar a Insegurança quanto ao futuro de centro de nossa existência.
A nossa mente, como os supercondutores, funciona melhor em menores temperaturas. Isso não significa que devemos colocar a cabeça no freezer, mas antes achar um estado de atenção relaxada para fazer as coisas acontecerem. O medo ou a alta atividade emocional atrapalha o processamento de informação. Já são alguns milênios em que os meditadores tentam educar a mente para o estado de não-mente, isso é, um estado onde os infinitos mi mi mis, ou os bla bla blás internos são finalmente silenciados. Criando uma espécie de consciência observadora, os monges observam os próprios saltos dos macacos do Pensamento para finalmente apaziguá-los. Entrar num estado de Atenção Relaxada é um treino diário e vital. Aprender a apaziguar os pensamentos, para entrar em contato com outros estados de Consciência.
O Rei Édipo não tem paz consigo mesmo. Não conquistou os seus medos. Não encontrou a sua Visão Interior. Na parte do mito em que ele, ao saber que desposara a própria mãe e com ela criou uma família, arranca os próprios olhos. Não há perdão para a própria Inconsciência. Parece um castigo autoimposto, mas bem que pode significar uma libertação. Lembro de um paciente que sobreviveu a um Câncer intratável e falou das maravilhas (e terrores) de passar por uma experiência que lhe jogou a própria vulnerabilidade na cara. Quando antes ele se sentia imortal, era irritável, meio paranóico com seus funcionários e esposa e, acima de tudo, vivia às turras com seu pai, a quem secretamente atribuía a culpa pela morte de sua mãe. Depois de morrer e renascer, passou a ter uma estranha noção da passagem do tempo e do mal resultado de seus ódios mal elaborados. Tudo isso havia “queimado a fiação”, segundo ele, gerando um Tumor agressivo que, ele sabia, ainda estava por lá, após três cirurgias. Cada dia passava a contar, mas, antes de tudo, contava o seu coração mais leve. Ele trocou de olhos, ou, melhor ainda, de olhar.
Uma desgraça para o destino humano não é a Ferida que nos forma, mas o medo que se forma em torno dela. A sensação de Insegurança cria seus filhotes, que é a busca de falsas fontes de Segurança. Essa é uma parte importante da tragédia de Édipo e de todos nós: quanto mais ele foge de seu Medo, maior ele fica, até se deparar com o maior de todos, que é ser o causador da desgraça de todos. Gosto de imaginá-lo, sereno e sem preocupações como um andarilho sábio, coxeando pelos vilarejos, após perder tudo o que um homem preza: dinheiro, poder, posição, influência. Provavelmente, o Édipo curado vive num estado de Atenção Plena e Relaxada, em fluxo com o caminho e com a vida.
O antepenúltimo post deste blog falou sobre três grandes ciclos arquetípicos: o Parental, o Heróico e a Individuação. Individuação é o estado em que o velho e medroso Ego perde a sua força e a Psique se expande na direção do Infinito. Disse Jesus que muitos são chamados, poucos escolhidos, porque não é fácil deixar o velho medo para trás. Não é fácil tirar a Insegurança quanto ao futuro de centro de nossa existência.
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