Já faz um bom tempo que aprendi uma técnica de relaxamento e meditação em que, em algum ponto, a dirigente convidava a escanear uma parte de seu corpo onde estivesse concentrada uma zona de tensão. Localizada a região de desconforto, o próximo passo foi apenas prestar atenção a essa parte do corpo e observar o que ocorria. A tensão começava a se esgotar, como uma pia que foi desentupida. O simples ato da Atenção simples e não julgadora voltada ao desconforto faz com que o mesmo se esvazie dentro de si.
Essa técnica vem sendo trazida para a Terapia Cognitiva nos últimos anos. Olhar os pensamentos de fora, como uma Consciência separada de sua Consciência. O ato de apenas prestar atenção aos pensamentos, sem tentar controlá-los, pode esvaziar a sua potência. Os pensamentos, olhados em profundidade, revelam a sua natureza de não existência. São fabricados por nossos medos, ou nossa necessidade de antecipação, que foi discutida no último post desse blog. São, no final das contas, nada, e para o nada voltam se são apenas olhadas de fora. Ou de dentro.
Penso que a própria sessão no consultório seja antes de tudo um ato de Atenção. Não são poucos os pacientes que se queixam de médicos indiferentes, ou dispersos, ou que tiram as suas conclusões de maneira automática e sem examinar o caso com algum cuidado. Olhar para o caso com atenção é, em si, um ato terapêutico. A Atenção ao sintoma cria um caminho para a melhora. Como nessa meditação que aprendi há muito tempo. Olhar para o medo vai tirá-lo das sombras.
Muito se diz nos Congressos de Sono e de Psiquiatria que vivemos numa sociedade privada de sono. Vivemos numa sociedade privada de Atenção, com vendas recordes de Ritalinas e outros estimulantes. A falta de Atenção é irmã siamesa do desassossego. Esse blog é um tanto rabugento com as redes sociais, talvez porque elas estejam fundadas na necessidade desesperada de receber Atenção, de estar nos Trend Topics, ou romper a barreira dos milhões e milhões de almas que procuram reconhecimento e validade na forma de likes ou retweets. Disputa-se palmo a palmo o campeonato de memes e quem recebe muita atenção deste tipo não parece muito feliz com isso. Talvez oferecer a Atenção, mesmo para si, crie mais felicidade do que buscá-la desesperadamente.
Muito já se teclou aqui sobre a falta de atenção, sobretudo em reflexões sobre os deficits de atenção de garçons e garçonetes, gerando falhas na entrega de pães na chapa ou porções extras de maionese. Esse escriba se desespera com outro filhote da desatenção, que é o descuido. Ou a pressa. Ou a briga permanente com o tempo. Mesmo assim o tema não se esgota. Do garçon ao cruzamento perigoso da esquina, tudo demanda uma Atenção delicada e constante.
Pode ser que a própria evolução tenha nos selecionado para a Desatenção.Ter um radar sempre ligado para tudo o que ocorre no entorno, para tudo o que vem pela frente, para tudo o que eventualmente já nos machucou, esse tipo de Atenção provavelmente nos trouxe até aqui. Mas não deve nos levar para muito longe. Observe o (a) visitante desse blog o poder curativo da Atenção Relaxada a tudo o que importa.
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domingo, 4 de outubro de 2015
domingo, 4 de janeiro de 2015
Viajar na Maionese
Nem bem o ano começou e já arrumo uma pendenga com o quadro descrito e diagnosticado neste blog, o Deficit de Atenção e Memória de Garçons e Garçonetes (associado ou não a Surdez Seletiva). Desta vez o problema não foi com meu Pão na Chapa. Foi com meu Beirute, numa lanchonete de Shopping. Desta vez, eu nem estava com muita fome, mas a demora foi me deixando inquieto. Aquela orgia de batatas, onion rings e milk shakes que íam sendo distribuídos pelas mesas adjacentes estimulou mesmo a fome adormecida. Lembro bem da garçonete que nos atendeu, uma moça com o rosto bonito e um excesso de peso que se concentrava na região abaixo de sua cintura. Finalmente, saí de minha passividade brasileira e reclamei para outra mocinha que as mesas ocupadas depois de nossa chegada já estavam servidas e a nossa, nada. O que estava acontecendo? A moça se apressou em confirmar que estavam com problemas na impressora, e que a garçonete que anotou nosso pedido deveria ter notado o engano e refeito a ordem. Veio o gerente suado se desculpar e o pedido levou finalmente quarenta minutos após a solicitação inicial para chegar à mesa. Quem veio entregá-la foi a mocinha popozuda que havia originalmente anotado o pedido. Ela não notou o atraso e nem a nossa cara de bunda quando a comida finalmente chegou. Perguntou se tudo tinha vindo de maneira correta e saiu ventando para atender mal outra mesa. Olhando mais detidamente, pude perceber a expressão de desagrado discreto da moça, além de um ar meio distante, de quem faz tudo no piloto automático. Piloto automático que causa o esquecimento de bebês no banco de trás dos carros.
Vivemos uma mitologia hollywoodiana que todos seremos especiais, teremos nosso talento único reconhecido ou seremos descobertos em meio à nossa labuta para finalmente termos o destaque e o reconhecimento merecidos. Quem sabe quais são os sonhos que passam na cabeça daquela moça enquanto ela erra alguns pedidos? Será que ela sonha com um grande amor, faz faculdade pela manhã e trabalha à noite para sustentar a sua filha ou uma mãe doente? O fato é que sonhamos com o dia em que a sorte vai virar e teremos direito aos nossos quinze minutos de fama, e isso transforma o trabalho anônimo e repetitivo uma espécie de não vida, um hiato de sofrimento, até finalmente poder soltar o cabelo, passar um batom e pegar a condução para casa.
Não tenho dúvida que o trabalho está perdendo a sua dignidade, mas, acima de tudo, o seu sentido. É um estorvo que deve ser eliminado como uma coceira da qual se deve eliminar com a unha. A má notícia é que, por mais livros de autoajuda consumidos, não criamos a nossa própria realidade. Freud dizia que uma tarefa da Psicanálise é fazer, justamente, o sujeito aceitar e lidar com essa instância do Real, em vez de se manter em estado de Negação, esperando que as abóboras se transformem em carruagens ou que o que o bilhete da Mega Sena esteja premiado, finalmente.
O que eu proporia para a moça, além de ficar muito atenta ao meu Beirute de Filé de Frango? Eu diria para ela que é muito provável que ela não vai virar uma estrela de novela, nem vai encontrar a curto prazo um emprego de seus sonhos. O melhor que ela tem a fazer é anotar os pedidos, servir as mesas e distribuir sorrisos com Atenção Plena, como se a sua vida dependesse disso. Essa nova atitude não deve mudar muita coisa nos aspectos externos de sua vida. O gerente pode nem notar a mudança de atitude. Alguns clientes continuarão grosseiros e terão algum gosto em tentar tirar o sorriso de seus lábios. Mas garanto que, no final do dia, as coisas vão estar mais leves e quase com algum sentido. Talvez a responsabilidade de devolver o sentido ao trabalho não deva ser do RH, nem de alguma consultoria, nem de um guru motivacional urrando os seus “Vamo´lá” em alguma palestra encomendada. Talvez a motivação seja fazer as coisas redondas e corretas. Pelo simples prazer de fazer.
Gostaria de deixar registrado que pedi, ao final do lanche, um X-Salada para viagem, com maionese no sanduíche, não separada. O pedido veio errado, e fui embora com o passo apertado e a maionese separada.
Vivemos uma mitologia hollywoodiana que todos seremos especiais, teremos nosso talento único reconhecido ou seremos descobertos em meio à nossa labuta para finalmente termos o destaque e o reconhecimento merecidos. Quem sabe quais são os sonhos que passam na cabeça daquela moça enquanto ela erra alguns pedidos? Será que ela sonha com um grande amor, faz faculdade pela manhã e trabalha à noite para sustentar a sua filha ou uma mãe doente? O fato é que sonhamos com o dia em que a sorte vai virar e teremos direito aos nossos quinze minutos de fama, e isso transforma o trabalho anônimo e repetitivo uma espécie de não vida, um hiato de sofrimento, até finalmente poder soltar o cabelo, passar um batom e pegar a condução para casa.
Não tenho dúvida que o trabalho está perdendo a sua dignidade, mas, acima de tudo, o seu sentido. É um estorvo que deve ser eliminado como uma coceira da qual se deve eliminar com a unha. A má notícia é que, por mais livros de autoajuda consumidos, não criamos a nossa própria realidade. Freud dizia que uma tarefa da Psicanálise é fazer, justamente, o sujeito aceitar e lidar com essa instância do Real, em vez de se manter em estado de Negação, esperando que as abóboras se transformem em carruagens ou que o que o bilhete da Mega Sena esteja premiado, finalmente.
O que eu proporia para a moça, além de ficar muito atenta ao meu Beirute de Filé de Frango? Eu diria para ela que é muito provável que ela não vai virar uma estrela de novela, nem vai encontrar a curto prazo um emprego de seus sonhos. O melhor que ela tem a fazer é anotar os pedidos, servir as mesas e distribuir sorrisos com Atenção Plena, como se a sua vida dependesse disso. Essa nova atitude não deve mudar muita coisa nos aspectos externos de sua vida. O gerente pode nem notar a mudança de atitude. Alguns clientes continuarão grosseiros e terão algum gosto em tentar tirar o sorriso de seus lábios. Mas garanto que, no final do dia, as coisas vão estar mais leves e quase com algum sentido. Talvez a responsabilidade de devolver o sentido ao trabalho não deva ser do RH, nem de alguma consultoria, nem de um guru motivacional urrando os seus “Vamo´lá” em alguma palestra encomendada. Talvez a motivação seja fazer as coisas redondas e corretas. Pelo simples prazer de fazer.
Gostaria de deixar registrado que pedi, ao final do lanche, um X-Salada para viagem, com maionese no sanduíche, não separada. O pedido veio errado, e fui embora com o passo apertado e a maionese separada.
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