Para os leitores deste blog, fiéis ou eventuais, uma pergunta para abrir este post: o que tem em comum o Dr House e Bernardinho?
Estava assistindo a semifinal da Superliga de Vôlei (um sãopaulino deve procurar por outros esportes ou outros campeonatos para seguir): de um lado, o Osasco e do outro, o Rio de Janeiro. Osasco com meia seleção brasileira, e o time do Bernardinho, que sempre acaba levando o título. Parecia que neste ano seria diferente: o Osasco é um time mais maduro e alto, o time de Bernardinho tem muitas meninas. Eu moro em Cotia, então vai, Osasco! “Ganhamos” o primeiro jogo. Se Osasco ganhasse o segundo jogo, estaria na final. Ganhou o primeiro set. Agora vai. Comecei a tremer quando via o comportamento dos dois técnicos: o carequinha do Osasco calmo, ponderado, traçando as saídas táticas. Bernardinho espumando, puxando a própria gola da camisa polo (atenção senhores marqueteiros de moda masculina: uma camisa polo que resiste ao Bernardinho tem que ganhar o mercado. Basta de comerciais de seguros de casa. Bernardinho tem que vender moda masculina). Logo percebi onde iria dar. O Rio de Janeiro virou o jogo e meteu 3 a 1 no Osasco. E o carequinha afundou calmo e racional até a última bola.
Dr House passa as 8 temporadas de sua série humilhando, achincalhando e torturando a sua equipe de todas as formas. Durante a série, um de seus assistentes se suicidou e outra morreu com uma interação medicamentosa que levou seu coração à falência. Seu melhor amigo, Wilson, termina a série com um Câncer terminal. House também destruiu a sala de sua ex namorada, Cuddy, com o seu carro, em uma crise de ciúmes. Ser colaborador, amigo ou amante do Dr Gregory House é tão ruim como ser próximo do Lula.
Bernardinho e House treinam a sua equipe para um estado de Atenção Plena. Mas não é uma atenção relaxada, como da meditação. É uma atenção tensa, no fio da navalha, que inclui o medo de perder, de errar ou de tomar um berro enlouquecido na sua orelha. Nesta época do politicamente correto, onde todos são vítimas ou precisam ter a sua autoestima massageada, nesta sarabanda de pós feministas, igualdade de gêneros e cross dressers, temos que aceitar todo tipo de choradeira que impede as pessoas de simplesmente cumprir as suas tarefas e entregar o que foi pedido. Precisamos de Bernardinhos e de Houses em todos os redutos de autocomiseração. Atenção, senhoras e senhores! Quem espera que a empresa, o Estado ou a fantástica fábrica de imbecis patrocinadas pelo governo (?) do PT venha te ajudar, dar oportunidade ou reconhecer os seus direitos, prepare-se para bons anos de desemprego, choro e ranger de dentes.
Em épocas de crise, como essa que lançou a ex oitava Economia do mundo ao Inferno, o estado de Atenção Plena e de Prontidão, que são impostos por Bernardinhos e Houses, produz mais sobreviventes e mais pessoas aptas a atravessar a tempestade. De todos os fantásticos prejuízos da barbárie petistóide, talvez o mais espetacular foi ter lançado o país num lodaçal de autopiedade e autoindulgência. Todos são coitadinhos e todos são vítimas da situação. E culpado, sempre, sempre é o outro. No caso, nós, os golpistas. Ninguém responde pelos seus erros colossais. O inferno é sempre o Outro. Ou o Inferno é sempre um infinito Mi Mi Mi.
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sábado, 26 de março de 2016
domingo, 13 de março de 2016
A Mão do Artista
Chegou à consulta desesperada: tinha certeza que estava iniciando uma Demência, como a personagem Alice do filme, parada na esquina de uma rua conhecida sem conseguir achar o caminho de casa após a sua corrida. Como Alice, ela passava de seu quarto à cozinha e ficava olhando para a geladeira sem conseguir lembrar o que tinha ido fazer lá. O processo para se aprontar era quase infinito, porque interrompido dezenas de vezes para checar o celular, arrumar a almofada ou procurar por alguma coisa perdida que já não lembra o que é. Ela não percebe, mas a sua verdadeira dificuldade é de manter a Atenção às mínimas tarefas do seu dia a dia e concluí-las. A vida vira um caos se a capacidade de iniciar, perfazer e concluir as tarefas se perde, ou nunca se desenvolve.
As pessoas se queixam cada vez mais de problemas com sua Memória, quando na verdade estão perdendo a sua capacidade de Atenção. Temos dois tipos de Atenção: Focal e Difusa. A primeira, como o nome já diz, se relaciona com a capacidade de manter a atenção em determinado estímulo ou tarefa até conseguir concluí-la. A difusa funciona como uma espécie de radar que avalia o ambiente quase 360 graus, percebendo movimentos na visão periférica ou alguém sussurrando o seu nome no meio de uma infinidade de ruídos. Pessoas hiperfocadas em seus objetivos e tarefas perdem a visão do que está acontecendo à sua volta, assim como pessoas completamente desfocadas não conseguem concluir as tarefas mais simples, como no caso descrito acima.
Durante uma cirurgia, o cirurgião precisa das duas atenções operando juntas e separadas ao mesmo tempo, num balé complexo de relações. O hiperfoco tem que estar no ato cirúrgico em si: a abertura dos tecidos, a localização espacial das estruturas e do reparo que deve ser feito, a velocidade das manobras e das suturas. Tudo isso já seria bastante serviço, mas não é suficiente. É preciso estar atento aos auxiliares e pedir que os movimentos se encaixem com eficiência, além de atentar aos dados que são passados atrás dos campos pelo anestesista. Tudo isso precisa se encaixar no plano cirúrgico para produzir o menor dano e os melhores resultados. No seriado do canal Sony “Code Black”, sobre o cotidiano de um Pronto Socorro em Los Angeles, o cirurgião chefe adverte o seu aluno, que se sente perseguido e injustiçado. Quando parte para o confronto, fica de queixo caído, pois o chefe arrogante explica que está tentando, na verdade, transformá-lo num artista, não num pedreiro. Chegando do Pronto Socorro, esse aprendiz sabe ser rápido e eficaz, mas opera de forma grosseira. O chefe quer ensiná-lo a sentir a cirurgia como um violinista dedilhando a sua música, não uma cozinheira cortando seus bifes.
Vivemos num mundo onde mesmo os pedreiros não sabem fazer o seu serviço, quanto mais pensam em fazer as tarefas com arte. Não saber direcionar nem modular as capacidades de Atenção é uma tragédia moderna que afeta muitas pessoas, como a presidente Dilma, por exemplo. Suas frases desconexas, as citações erradas e tresloucadas, os coices endereçados a seus auxiliares e ministros, e, sobretudo a incapacidade de avaliação das situações dentro de um contexto amplo para escolher o melhor caminho, criaram os resultados que levaram milhões de brasileiros às ruas no dia de hoje. Como no livro “Foco”, de Daniel Goleman, temos que ser artistas para manter o foco em nossas tarefas, perceber as pessoas à nossa volta que possam ajudar ou pelo menos não atrapalhar e sentir o que está acontecendo no mundo, no mercado, na comunidade que nos acolhe. Foco em si, foco nos outros e no mundo. Isso cria os verdadeiros artistas ou a sua falta destrói projetos e vidas.
E a paciente do início deste post? Depois de um longo trabalho e do ajuste da medicação, aprendeu a se manter dentro de uma tarefa de cada vez e nunca interromper o que está fazendo se não tiver algo urgente ou muito importante. Ela não virou uma artista nem uma autora da sua vida, mas, se trabalhasse como uma pedreira, saberia preparar uma boa massa e assentar bem os tijolos de sua vida. Com o tempo que ganhou, pode voltar a fazer exercícios e organizar melhor o seu dia. O celular fica escondido na bolsa e o motivo que a fazia procrastinar o sair de casa, que era uma extrema desmotivação com o próprio trabalho, foi elaborado. A sua Memória melhorou muito e ela não sente mais medo de correr na rua e não achar mais o caminho de casa. Ela está atenta ao mundo exterior ou, melhor ainda, está atenta ao seu próprio Mundo Interno, que ela nem sabia que existia.
As pessoas se queixam cada vez mais de problemas com sua Memória, quando na verdade estão perdendo a sua capacidade de Atenção. Temos dois tipos de Atenção: Focal e Difusa. A primeira, como o nome já diz, se relaciona com a capacidade de manter a atenção em determinado estímulo ou tarefa até conseguir concluí-la. A difusa funciona como uma espécie de radar que avalia o ambiente quase 360 graus, percebendo movimentos na visão periférica ou alguém sussurrando o seu nome no meio de uma infinidade de ruídos. Pessoas hiperfocadas em seus objetivos e tarefas perdem a visão do que está acontecendo à sua volta, assim como pessoas completamente desfocadas não conseguem concluir as tarefas mais simples, como no caso descrito acima.
Durante uma cirurgia, o cirurgião precisa das duas atenções operando juntas e separadas ao mesmo tempo, num balé complexo de relações. O hiperfoco tem que estar no ato cirúrgico em si: a abertura dos tecidos, a localização espacial das estruturas e do reparo que deve ser feito, a velocidade das manobras e das suturas. Tudo isso já seria bastante serviço, mas não é suficiente. É preciso estar atento aos auxiliares e pedir que os movimentos se encaixem com eficiência, além de atentar aos dados que são passados atrás dos campos pelo anestesista. Tudo isso precisa se encaixar no plano cirúrgico para produzir o menor dano e os melhores resultados. No seriado do canal Sony “Code Black”, sobre o cotidiano de um Pronto Socorro em Los Angeles, o cirurgião chefe adverte o seu aluno, que se sente perseguido e injustiçado. Quando parte para o confronto, fica de queixo caído, pois o chefe arrogante explica que está tentando, na verdade, transformá-lo num artista, não num pedreiro. Chegando do Pronto Socorro, esse aprendiz sabe ser rápido e eficaz, mas opera de forma grosseira. O chefe quer ensiná-lo a sentir a cirurgia como um violinista dedilhando a sua música, não uma cozinheira cortando seus bifes.
Vivemos num mundo onde mesmo os pedreiros não sabem fazer o seu serviço, quanto mais pensam em fazer as tarefas com arte. Não saber direcionar nem modular as capacidades de Atenção é uma tragédia moderna que afeta muitas pessoas, como a presidente Dilma, por exemplo. Suas frases desconexas, as citações erradas e tresloucadas, os coices endereçados a seus auxiliares e ministros, e, sobretudo a incapacidade de avaliação das situações dentro de um contexto amplo para escolher o melhor caminho, criaram os resultados que levaram milhões de brasileiros às ruas no dia de hoje. Como no livro “Foco”, de Daniel Goleman, temos que ser artistas para manter o foco em nossas tarefas, perceber as pessoas à nossa volta que possam ajudar ou pelo menos não atrapalhar e sentir o que está acontecendo no mundo, no mercado, na comunidade que nos acolhe. Foco em si, foco nos outros e no mundo. Isso cria os verdadeiros artistas ou a sua falta destrói projetos e vidas.
E a paciente do início deste post? Depois de um longo trabalho e do ajuste da medicação, aprendeu a se manter dentro de uma tarefa de cada vez e nunca interromper o que está fazendo se não tiver algo urgente ou muito importante. Ela não virou uma artista nem uma autora da sua vida, mas, se trabalhasse como uma pedreira, saberia preparar uma boa massa e assentar bem os tijolos de sua vida. Com o tempo que ganhou, pode voltar a fazer exercícios e organizar melhor o seu dia. O celular fica escondido na bolsa e o motivo que a fazia procrastinar o sair de casa, que era uma extrema desmotivação com o próprio trabalho, foi elaborado. A sua Memória melhorou muito e ela não sente mais medo de correr na rua e não achar mais o caminho de casa. Ela está atenta ao mundo exterior ou, melhor ainda, está atenta ao seu próprio Mundo Interno, que ela nem sabia que existia.
domingo, 23 de agosto de 2015
Atenção Relaxada
Uma das coisas que me ficam do modelo inspirado no Mito de Édipo e que está descrito no último post: ter uma ferida não revelada ou mal trabalhada cria um sistema de disfuncionamento e de baixa energia em nossa Psique. Édipo tenta compensar a dor de seus pés inchados e seus tendões cortados através de um destino heróico. Não adianta estar no topo do mundo com a sua ferida cheirando mal. Não adianta ter o mundo e perder a sua alma, falou Jesus. Conquistar a própria ferida é tornar o que era disfuncional em funcional. Não precisamos da fragilidade para ganhar proteção ou piedade, precisamos de nossa fragilidade para deixar de fugir, deixar de tentar aparentar o que não somos, ou o que não temos. Quando o Reino de Tebas passa por uma seca catastrófica, o Rei Édipo vai ao grande vidente e pergunta quem está trazendo aquela desgraça e o que seria preciso fazer para trazer de volta o equilíbrio ao Reino? Tirésias aponta para rei e revela que ele havia matado o seu pai e desposado sua mãe. Enquanto nossa Psique tem um segredo não revelado, uma ferida escondida e mal curada, a energia que deveria estar disponível está sempre falha e, como tal, não circula. Esse é um dos objetivos dos tratamentos, limpar as sujeiras, separar o joio do trigo, restabelecer os canais de comunicação, internos e externos, para encontrar alguma felicidade e reparação.
A nossa mente, como os supercondutores, funciona melhor em menores temperaturas. Isso não significa que devemos colocar a cabeça no freezer, mas antes achar um estado de atenção relaxada para fazer as coisas acontecerem. O medo ou a alta atividade emocional atrapalha o processamento de informação. Já são alguns milênios em que os meditadores tentam educar a mente para o estado de não-mente, isso é, um estado onde os infinitos mi mi mis, ou os bla bla blás internos são finalmente silenciados. Criando uma espécie de consciência observadora, os monges observam os próprios saltos dos macacos do Pensamento para finalmente apaziguá-los. Entrar num estado de Atenção Relaxada é um treino diário e vital. Aprender a apaziguar os pensamentos, para entrar em contato com outros estados de Consciência.
O Rei Édipo não tem paz consigo mesmo. Não conquistou os seus medos. Não encontrou a sua Visão Interior. Na parte do mito em que ele, ao saber que desposara a própria mãe e com ela criou uma família, arranca os próprios olhos. Não há perdão para a própria Inconsciência. Parece um castigo autoimposto, mas bem que pode significar uma libertação. Lembro de um paciente que sobreviveu a um Câncer intratável e falou das maravilhas (e terrores) de passar por uma experiência que lhe jogou a própria vulnerabilidade na cara. Quando antes ele se sentia imortal, era irritável, meio paranóico com seus funcionários e esposa e, acima de tudo, vivia às turras com seu pai, a quem secretamente atribuía a culpa pela morte de sua mãe. Depois de morrer e renascer, passou a ter uma estranha noção da passagem do tempo e do mal resultado de seus ódios mal elaborados. Tudo isso havia “queimado a fiação”, segundo ele, gerando um Tumor agressivo que, ele sabia, ainda estava por lá, após três cirurgias. Cada dia passava a contar, mas, antes de tudo, contava o seu coração mais leve. Ele trocou de olhos, ou, melhor ainda, de olhar.
Uma desgraça para o destino humano não é a Ferida que nos forma, mas o medo que se forma em torno dela. A sensação de Insegurança cria seus filhotes, que é a busca de falsas fontes de Segurança. Essa é uma parte importante da tragédia de Édipo e de todos nós: quanto mais ele foge de seu Medo, maior ele fica, até se deparar com o maior de todos, que é ser o causador da desgraça de todos. Gosto de imaginá-lo, sereno e sem preocupações como um andarilho sábio, coxeando pelos vilarejos, após perder tudo o que um homem preza: dinheiro, poder, posição, influência. Provavelmente, o Édipo curado vive num estado de Atenção Plena e Relaxada, em fluxo com o caminho e com a vida.
O antepenúltimo post deste blog falou sobre três grandes ciclos arquetípicos: o Parental, o Heróico e a Individuação. Individuação é o estado em que o velho e medroso Ego perde a sua força e a Psique se expande na direção do Infinito. Disse Jesus que muitos são chamados, poucos escolhidos, porque não é fácil deixar o velho medo para trás. Não é fácil tirar a Insegurança quanto ao futuro de centro de nossa existência.
A nossa mente, como os supercondutores, funciona melhor em menores temperaturas. Isso não significa que devemos colocar a cabeça no freezer, mas antes achar um estado de atenção relaxada para fazer as coisas acontecerem. O medo ou a alta atividade emocional atrapalha o processamento de informação. Já são alguns milênios em que os meditadores tentam educar a mente para o estado de não-mente, isso é, um estado onde os infinitos mi mi mis, ou os bla bla blás internos são finalmente silenciados. Criando uma espécie de consciência observadora, os monges observam os próprios saltos dos macacos do Pensamento para finalmente apaziguá-los. Entrar num estado de Atenção Relaxada é um treino diário e vital. Aprender a apaziguar os pensamentos, para entrar em contato com outros estados de Consciência.
O Rei Édipo não tem paz consigo mesmo. Não conquistou os seus medos. Não encontrou a sua Visão Interior. Na parte do mito em que ele, ao saber que desposara a própria mãe e com ela criou uma família, arranca os próprios olhos. Não há perdão para a própria Inconsciência. Parece um castigo autoimposto, mas bem que pode significar uma libertação. Lembro de um paciente que sobreviveu a um Câncer intratável e falou das maravilhas (e terrores) de passar por uma experiência que lhe jogou a própria vulnerabilidade na cara. Quando antes ele se sentia imortal, era irritável, meio paranóico com seus funcionários e esposa e, acima de tudo, vivia às turras com seu pai, a quem secretamente atribuía a culpa pela morte de sua mãe. Depois de morrer e renascer, passou a ter uma estranha noção da passagem do tempo e do mal resultado de seus ódios mal elaborados. Tudo isso havia “queimado a fiação”, segundo ele, gerando um Tumor agressivo que, ele sabia, ainda estava por lá, após três cirurgias. Cada dia passava a contar, mas, antes de tudo, contava o seu coração mais leve. Ele trocou de olhos, ou, melhor ainda, de olhar.
Uma desgraça para o destino humano não é a Ferida que nos forma, mas o medo que se forma em torno dela. A sensação de Insegurança cria seus filhotes, que é a busca de falsas fontes de Segurança. Essa é uma parte importante da tragédia de Édipo e de todos nós: quanto mais ele foge de seu Medo, maior ele fica, até se deparar com o maior de todos, que é ser o causador da desgraça de todos. Gosto de imaginá-lo, sereno e sem preocupações como um andarilho sábio, coxeando pelos vilarejos, após perder tudo o que um homem preza: dinheiro, poder, posição, influência. Provavelmente, o Édipo curado vive num estado de Atenção Plena e Relaxada, em fluxo com o caminho e com a vida.
O antepenúltimo post deste blog falou sobre três grandes ciclos arquetípicos: o Parental, o Heróico e a Individuação. Individuação é o estado em que o velho e medroso Ego perde a sua força e a Psique se expande na direção do Infinito. Disse Jesus que muitos são chamados, poucos escolhidos, porque não é fácil deixar o velho medo para trás. Não é fácil tirar a Insegurança quanto ao futuro de centro de nossa existência.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Viajar na Maionese
Nem bem o ano começou e já arrumo uma pendenga com o quadro descrito e diagnosticado neste blog, o Deficit de Atenção e Memória de Garçons e Garçonetes (associado ou não a Surdez Seletiva). Desta vez o problema não foi com meu Pão na Chapa. Foi com meu Beirute, numa lanchonete de Shopping. Desta vez, eu nem estava com muita fome, mas a demora foi me deixando inquieto. Aquela orgia de batatas, onion rings e milk shakes que íam sendo distribuídos pelas mesas adjacentes estimulou mesmo a fome adormecida. Lembro bem da garçonete que nos atendeu, uma moça com o rosto bonito e um excesso de peso que se concentrava na região abaixo de sua cintura. Finalmente, saí de minha passividade brasileira e reclamei para outra mocinha que as mesas ocupadas depois de nossa chegada já estavam servidas e a nossa, nada. O que estava acontecendo? A moça se apressou em confirmar que estavam com problemas na impressora, e que a garçonete que anotou nosso pedido deveria ter notado o engano e refeito a ordem. Veio o gerente suado se desculpar e o pedido levou finalmente quarenta minutos após a solicitação inicial para chegar à mesa. Quem veio entregá-la foi a mocinha popozuda que havia originalmente anotado o pedido. Ela não notou o atraso e nem a nossa cara de bunda quando a comida finalmente chegou. Perguntou se tudo tinha vindo de maneira correta e saiu ventando para atender mal outra mesa. Olhando mais detidamente, pude perceber a expressão de desagrado discreto da moça, além de um ar meio distante, de quem faz tudo no piloto automático. Piloto automático que causa o esquecimento de bebês no banco de trás dos carros.
Vivemos uma mitologia hollywoodiana que todos seremos especiais, teremos nosso talento único reconhecido ou seremos descobertos em meio à nossa labuta para finalmente termos o destaque e o reconhecimento merecidos. Quem sabe quais são os sonhos que passam na cabeça daquela moça enquanto ela erra alguns pedidos? Será que ela sonha com um grande amor, faz faculdade pela manhã e trabalha à noite para sustentar a sua filha ou uma mãe doente? O fato é que sonhamos com o dia em que a sorte vai virar e teremos direito aos nossos quinze minutos de fama, e isso transforma o trabalho anônimo e repetitivo uma espécie de não vida, um hiato de sofrimento, até finalmente poder soltar o cabelo, passar um batom e pegar a condução para casa.
Não tenho dúvida que o trabalho está perdendo a sua dignidade, mas, acima de tudo, o seu sentido. É um estorvo que deve ser eliminado como uma coceira da qual se deve eliminar com a unha. A má notícia é que, por mais livros de autoajuda consumidos, não criamos a nossa própria realidade. Freud dizia que uma tarefa da Psicanálise é fazer, justamente, o sujeito aceitar e lidar com essa instância do Real, em vez de se manter em estado de Negação, esperando que as abóboras se transformem em carruagens ou que o que o bilhete da Mega Sena esteja premiado, finalmente.
O que eu proporia para a moça, além de ficar muito atenta ao meu Beirute de Filé de Frango? Eu diria para ela que é muito provável que ela não vai virar uma estrela de novela, nem vai encontrar a curto prazo um emprego de seus sonhos. O melhor que ela tem a fazer é anotar os pedidos, servir as mesas e distribuir sorrisos com Atenção Plena, como se a sua vida dependesse disso. Essa nova atitude não deve mudar muita coisa nos aspectos externos de sua vida. O gerente pode nem notar a mudança de atitude. Alguns clientes continuarão grosseiros e terão algum gosto em tentar tirar o sorriso de seus lábios. Mas garanto que, no final do dia, as coisas vão estar mais leves e quase com algum sentido. Talvez a responsabilidade de devolver o sentido ao trabalho não deva ser do RH, nem de alguma consultoria, nem de um guru motivacional urrando os seus “Vamo´lá” em alguma palestra encomendada. Talvez a motivação seja fazer as coisas redondas e corretas. Pelo simples prazer de fazer.
Gostaria de deixar registrado que pedi, ao final do lanche, um X-Salada para viagem, com maionese no sanduíche, não separada. O pedido veio errado, e fui embora com o passo apertado e a maionese separada.
Vivemos uma mitologia hollywoodiana que todos seremos especiais, teremos nosso talento único reconhecido ou seremos descobertos em meio à nossa labuta para finalmente termos o destaque e o reconhecimento merecidos. Quem sabe quais são os sonhos que passam na cabeça daquela moça enquanto ela erra alguns pedidos? Será que ela sonha com um grande amor, faz faculdade pela manhã e trabalha à noite para sustentar a sua filha ou uma mãe doente? O fato é que sonhamos com o dia em que a sorte vai virar e teremos direito aos nossos quinze minutos de fama, e isso transforma o trabalho anônimo e repetitivo uma espécie de não vida, um hiato de sofrimento, até finalmente poder soltar o cabelo, passar um batom e pegar a condução para casa.
Não tenho dúvida que o trabalho está perdendo a sua dignidade, mas, acima de tudo, o seu sentido. É um estorvo que deve ser eliminado como uma coceira da qual se deve eliminar com a unha. A má notícia é que, por mais livros de autoajuda consumidos, não criamos a nossa própria realidade. Freud dizia que uma tarefa da Psicanálise é fazer, justamente, o sujeito aceitar e lidar com essa instância do Real, em vez de se manter em estado de Negação, esperando que as abóboras se transformem em carruagens ou que o que o bilhete da Mega Sena esteja premiado, finalmente.
O que eu proporia para a moça, além de ficar muito atenta ao meu Beirute de Filé de Frango? Eu diria para ela que é muito provável que ela não vai virar uma estrela de novela, nem vai encontrar a curto prazo um emprego de seus sonhos. O melhor que ela tem a fazer é anotar os pedidos, servir as mesas e distribuir sorrisos com Atenção Plena, como se a sua vida dependesse disso. Essa nova atitude não deve mudar muita coisa nos aspectos externos de sua vida. O gerente pode nem notar a mudança de atitude. Alguns clientes continuarão grosseiros e terão algum gosto em tentar tirar o sorriso de seus lábios. Mas garanto que, no final do dia, as coisas vão estar mais leves e quase com algum sentido. Talvez a responsabilidade de devolver o sentido ao trabalho não deva ser do RH, nem de alguma consultoria, nem de um guru motivacional urrando os seus “Vamo´lá” em alguma palestra encomendada. Talvez a motivação seja fazer as coisas redondas e corretas. Pelo simples prazer de fazer.
Gostaria de deixar registrado que pedi, ao final do lanche, um X-Salada para viagem, com maionese no sanduíche, não separada. O pedido veio errado, e fui embora com o passo apertado e a maionese separada.
domingo, 3 de agosto de 2014
Carpe Diem
Há uma série de pequenas palestras no Youtube e outros canais da web, chamadas TED Talks. O subtítulo é “Ideias que Vale a Pena Espalhar” (tradução livre). São inserções curtas, de até 20 minutos, sobre os temas mais diversos. Num post anterior eu falei sobre uma palestra que abordou a Não Violência. Hoje assisti um novo TED, de um garoto de 17 anos chamado Sam Berns. Há um contraste entre a sua imagem, pré humana, a sua voz de criança e a sua aparência de idoso com alguma doença terminal e a força de sua fala. Sam tem Progeria, uma doença rara onde o processo de envelhecimento celular é acelerado pela síntese de uma proteína defeituosa que afeta a membrana das células. Sam tem a aparência de um homem de mais de cem anos, pesa 23 quilos e perde o fôlego em frases mais longas. Ele imediatamente nos transmite a sensação de vergonha por nossas preocupações mesquinhas e medo da vida. Sam sabe que não vai atingir idade para materializar muitos de seus sonhos. A sua filosofia para lidar com tudo isso inclui focar o que pode fazer, não o que nunca vai poder; cercar-se sempre de pessoas que ama e olhar para frente, não gastando energia com preocupações sobre o seu futuro e, ele não menciona mas é óbvio, sua morte prematura.
Isso bem que pode terminar como um vídeo viral na Internet, daqueles que recebemos de tias e de pessoas bem intencionadas e isso seria uma verdadeira pena. A fala de Sam é muito mais profunda e delicada que um testemunho de Revista Seleções ou entrevistas em programas de variedades; Sam dá um testemunho de vida carregada de Atenção Plena, ou Mindfullness. O exercício do Carpe Diem (algo como “Aproveite o Dia, ele pode ser o seu último) para ele é um fato e um exercício diário. Olhar para frente e ter planos para o futuro é uma forma de contornar a sensação de que o futuro é um beco sem saída. Mas Sam dribla o maior risco de sua apresentação, que era de cair num otimismo bobalhóide respaldado por sua condição terrível. Ele escapa bem dessa cilada. Fala abertamente sobre os dias ruins, as crises de angústia e as ideias sombrias que o acometem, como acometem a todos nós. Essa, para mim, é a parte mais genial de sua fala: Sam sabe que não adianta ignorar nem fugir desses pensamentos. Pensamentos que com certeza devem incluir desistir de tudo e ficar em casa, esperando pela morte. Sam descreve o processo de lidar com esses pensamentos em 3 fases: Reconhecer o sentimento ruim, acolher o pensamento, deixá-lo por lá até descobrir um jeito de lidar com aquilo e superá-lo. Uma verdadeira aula de manobras cognitivas para resolver crises de angústia e pensamentos reverberantes sobre o futuro.
Pesquisas em Neurociência mostram que se macacos criados em isolamento passam a comer compulsivamente e se automutilarem. Quando colocados com outros de sua espécie, podem lutar até a morte e não conseguem fazer parte do grupo. Qualquer semelhança com humanos não é mera coincidência.
Sam aprendeu a manter a sua humanidade sendo parte de seu grupo. Ele pode causar tanto a piedade quanto o horror nos que o cercam e não conhecem. Mas a sua luta mais do que corajosa é para se manter dentro do âmbito de sua condição humana. Por isso, a sua última recomendação é “Nunca perca uma festa, se puder ir”. Essa me acertou na boca do Estômago.
Isso bem que pode terminar como um vídeo viral na Internet, daqueles que recebemos de tias e de pessoas bem intencionadas e isso seria uma verdadeira pena. A fala de Sam é muito mais profunda e delicada que um testemunho de Revista Seleções ou entrevistas em programas de variedades; Sam dá um testemunho de vida carregada de Atenção Plena, ou Mindfullness. O exercício do Carpe Diem (algo como “Aproveite o Dia, ele pode ser o seu último) para ele é um fato e um exercício diário. Olhar para frente e ter planos para o futuro é uma forma de contornar a sensação de que o futuro é um beco sem saída. Mas Sam dribla o maior risco de sua apresentação, que era de cair num otimismo bobalhóide respaldado por sua condição terrível. Ele escapa bem dessa cilada. Fala abertamente sobre os dias ruins, as crises de angústia e as ideias sombrias que o acometem, como acometem a todos nós. Essa, para mim, é a parte mais genial de sua fala: Sam sabe que não adianta ignorar nem fugir desses pensamentos. Pensamentos que com certeza devem incluir desistir de tudo e ficar em casa, esperando pela morte. Sam descreve o processo de lidar com esses pensamentos em 3 fases: Reconhecer o sentimento ruim, acolher o pensamento, deixá-lo por lá até descobrir um jeito de lidar com aquilo e superá-lo. Uma verdadeira aula de manobras cognitivas para resolver crises de angústia e pensamentos reverberantes sobre o futuro.
Pesquisas em Neurociência mostram que se macacos criados em isolamento passam a comer compulsivamente e se automutilarem. Quando colocados com outros de sua espécie, podem lutar até a morte e não conseguem fazer parte do grupo. Qualquer semelhança com humanos não é mera coincidência.
Sam aprendeu a manter a sua humanidade sendo parte de seu grupo. Ele pode causar tanto a piedade quanto o horror nos que o cercam e não conhecem. Mas a sua luta mais do que corajosa é para se manter dentro do âmbito de sua condição humana. Por isso, a sua última recomendação é “Nunca perca uma festa, se puder ir”. Essa me acertou na boca do Estômago.
domingo, 21 de outubro de 2012
Atenção, Memória e Pão na Chapa
Ontem fiz um pequeno ensaio sobre o a Amnésia dos Garçons, um quadro particularmente dramático quando a minha Média e meu Pão na Chapa estão em jogo. Um comentário anônimo brincou com meu mau humor paulistano e me mandou tomar café da manhã em casa. Lembro de uma entrevista de Chico Buarque em que ele dizia que colocar uma música no disco é como ver um filho cair na vida: ela pode virar tema de comercial de sabão em pó, pode ser mal interpretada, pode virar objeto de culto; não há como saber. Mal comparando, também não pretendo querer dizer como o post deve, ou não, ser lido. Respeito a leitura de cada visitante, pois a postagem é de domínio público na hora que se dá um click para publicá-la. Mas o texto de ontem é humorístico. O uso do palavrão é um recurso humorístico e mostra o cidadão comum perdido na selva das desatenções que vão desde o garçon à mocinha que ligou na veia de uma paciente uma carga de café com leite, levando a vovozinha de oitenta anos à uma morte estúpida e dolorosa. Estamos perdidos numa selva de Atenção difusa e de Amnésias seletivas.
A padoca que eu frequento e tomo café quando vou para o consultório do Itaim tem um fabuloso Pão na Chapa: crocante, cheio de manteiga fresca e não rançosa, dá água na boca só de pensar. A atendente de minha mesa é a Ilza, que tem o mesmo nome de minha mãe. Espero não procurá-la por alguma tensão edípica. Ela já sabe que eu gosto de meu pão na chapa sem prensar. Quando ela falta é que preciso ensinar a sua substituta, que me olha como se eu fosse o mais obsessivo dos fregueses. Dessa cena que eu tirei a cena humorística e pseudo irritada de ontem.
Evolutivamente, precisamos de uma Atenção Multifocal, uma espécie de radar para antenar o ambiente o tempo todo. Ataques de predadores, répteis ou acidentes demandam esse tipo de Atenção desde que descemos das árvores e viramos bípedes. A maturação de nosso Córtex Pré Frontal e sobretudo o milagre evolutivo da Linguagem e da Fala possibilitaram aos hominídeos uma capacidade progressiva de Atenção e Concentração, com grandes vantagens para a aquisição de novas Memórias. Para criar novas memórias, precisamos estar com a atenção focada e de repetição, para fortalecimento das redes neurais que vão formar conceitos, memórias e estratégias adaptativas.
Quando uma auxiliar de enfermagem coloca café com leite ou sopa dentro de um equipo de soro, deve estar com a cabeça no post do Facebook ou na briga que teve com o namorado. Vivemos na barbárie da civilização autoestima, todos estão tão focados nas suas próprias necessidades e demandas, o Outro é apenas um ser que deve suprir as carências e necessidades do ser narcísico que a pósmodernidade nos legou. A Atenção desatenta faz parte desse contexto. Fica engraçado com a garçonete amnésica e trágico com a menina mal treinada e cabeça de vento, que ceifou uma vida.
O que o texto de ontem tenta vincular é a relação íntima e importante entre a capacidade de Atenção/Concentração e a formação de novas memórias. Todas as disciplinas meditativas trabalham na intensificação dessas capacidades e por tabela, na ampliação da Consciência.
Estou aberto para financiadores que queiram pagar um projeto de pesquisa e implantação de programas de Atenção Plena em todos os setores da sociedade. Começando não pelos garçons, mas pelas pessoas que tem a vida do Outro em suas mãos e não estão atentas a isso.
A padoca que eu frequento e tomo café quando vou para o consultório do Itaim tem um fabuloso Pão na Chapa: crocante, cheio de manteiga fresca e não rançosa, dá água na boca só de pensar. A atendente de minha mesa é a Ilza, que tem o mesmo nome de minha mãe. Espero não procurá-la por alguma tensão edípica. Ela já sabe que eu gosto de meu pão na chapa sem prensar. Quando ela falta é que preciso ensinar a sua substituta, que me olha como se eu fosse o mais obsessivo dos fregueses. Dessa cena que eu tirei a cena humorística e pseudo irritada de ontem.
Evolutivamente, precisamos de uma Atenção Multifocal, uma espécie de radar para antenar o ambiente o tempo todo. Ataques de predadores, répteis ou acidentes demandam esse tipo de Atenção desde que descemos das árvores e viramos bípedes. A maturação de nosso Córtex Pré Frontal e sobretudo o milagre evolutivo da Linguagem e da Fala possibilitaram aos hominídeos uma capacidade progressiva de Atenção e Concentração, com grandes vantagens para a aquisição de novas Memórias. Para criar novas memórias, precisamos estar com a atenção focada e de repetição, para fortalecimento das redes neurais que vão formar conceitos, memórias e estratégias adaptativas.
Quando uma auxiliar de enfermagem coloca café com leite ou sopa dentro de um equipo de soro, deve estar com a cabeça no post do Facebook ou na briga que teve com o namorado. Vivemos na barbárie da civilização autoestima, todos estão tão focados nas suas próprias necessidades e demandas, o Outro é apenas um ser que deve suprir as carências e necessidades do ser narcísico que a pósmodernidade nos legou. A Atenção desatenta faz parte desse contexto. Fica engraçado com a garçonete amnésica e trágico com a menina mal treinada e cabeça de vento, que ceifou uma vida.
O que o texto de ontem tenta vincular é a relação íntima e importante entre a capacidade de Atenção/Concentração e a formação de novas memórias. Todas as disciplinas meditativas trabalham na intensificação dessas capacidades e por tabela, na ampliação da Consciência.
Estou aberto para financiadores que queiram pagar um projeto de pesquisa e implantação de programas de Atenção Plena em todos os setores da sociedade. Começando não pelos garçons, mas pelas pessoas que tem a vida do Outro em suas mãos e não estão atentas a isso.
sábado, 26 de maio de 2012
Warren Buffet e a Atenção Plena
O que me chamou a atenção sobre o bilionário Warren Buffet foi o lançamento do livro "O TAO de Warren Buffet". Um pequeno livro sobre o método que transformou o homem em um dos homens mais ricos do mundo. Não li o livro, mas gostei do título, que sugere que o megainvestidor procura em seu dia a dia o ponto de equilíbrio, sempre, uma característica do Taoísmo.
Assisti a umas micro biografias de Warren, dessas feitas para a TV e fico googando o seu nome para entender, não o caminho do sucesso em investimentos, mas a força da Atenção Simples em nossa vida.
Warren Buffet acordava às 4 da manhã e saía vendendo jornais quando criança. Voltou a sua atenção e sua paixão a fazer bons investimentos e acumular dinheiro. Tem pouca ou nenhuma intimidade com seus filhos e foi abandonado por sua esposa, a mulher de sua vida. Não é um exemplo de alguém que enriqueceu amplamente a sua vida e a de quem estava à sua volta. Fala das coisas com uma simplicidade ingênua de quem passou 60 anos de sua vida estudando balancetes e comprando/vendendo ações. Não é um cara que eu levaria para uma ilha deserta. Mas há algo em seu sucesso que pode servir de exemplo para todos. Warren desenvolveu uma capacidade impressionante de Metaconsciência. Uma capacidade de olhar as coisas de fora, com uma Atenção serena, e aprender sobre elas. Antes de ser um megainvestidor, aprendeu, aprendeu muito sobre como funcionava o mundo dos investimentos. Como diferenciar uma boa empresa de uma barca furada. Como montar uma equipe que trabalha para ele em regime de semi escravidão buscando sempre aumentar os seus ganhos com um mínimo de gasto. Warren Buffet é a personificação pósmoderna do Tio Patinhas. Falando assim, parece que eu não gosto do homem. Nada mais falso. Ele é um livro vivo de Autoajuda.
Há um único tema em todo consultório de Psiquiatria e Psicoterapia desse planeta. O tema é a Falta. Sidarta Gautama, o Buda, já dizia há 26 séculos que a grande origem do sofrimento humano é a Falta. As pessoas estão sempre procurando, procurando algo que preencha essa sensação inesgotável de vazio. Uns procuram por amor, por um Príncipe, por dinheiro, por Poder, por Influência e, mais do que tudo, as pessoas, como as crianças, buscam desesperadamente pela sensação de serem importantes e terem a Atenção do Outro. A busca é recortada de decepções, fracassos, desilusão. Refazemos os sonhos, buscamos novos caminhos, alguns até começam a perceber que olhando para o Vazio perdemos o medo dele, paramos de fugir do que não está nos perseguindo.
Gosto do método Buffet de perseguir um sonho: crie um campo de desejo, aprenda sobre ele, aperfeiçoe a sua busca, não se deixe derrubar pelos erros. O campo do desejo vai crescer, sempre que for alimentado por sua Atenção Serena. Não precisa de nenhum gurú motivacional, só da capacidade de manter a atenção e o aprendizado. É um método que pode ser aplicado a toda área de atividade humana, inclusive à Psicoterapia.
sábado, 16 de julho de 2011
Livro de AutoAjuda
Dando sequência a essa fase do "que me der na telha", vou fazer mais uma pérola de autoironia, que é escrever textos de suposta autoajuda. Quem andou acompanhando os meus últimos posts deve lembrar de um em que eu contrapunha um livro budista que eu comprei numa bookstore de Orlando com os livros de "Faça Assim, Faça Assado" que dominam as prateleiras de Autoajuda. O livro budista enfatiza a importãncia de se respeitar a experiência individual e a capacidade pessoal de uma pessoa se desenvolver e achar as próprias respostas, o que deveria ser uma das metas da Psicologia Profunda. Fiz naquele post um contraponto com os livros em que o autor descreve a própria experiência como universal e a si próprio como Mestre do Bem Viver. "Faça desse jeito e os resultados não vão demorar". Uma espécie de Polishop da Felicidade Humana. Deve estar ficando claro nesse, como no outro post, qual o tipo de trabalho, e livro, me agrada mais. O fato é que eu e quem mais acredita na capacidade humana de criar sistemas de aprendizagem e desenvolvimento pessoal a partir da própria capacidade, estamos perdendo de goleada. Basta dar um pulo nas bookstores brasileiras para ver que não só as prateleiras de autoajuda ocupam o triplo do espaço das de Psicologia, como as próprias prateleiras de Psicologia estão dominadas por psicólogas(os) que incorporaram o discurso Faça Você Mesmo, Ou Faça O Que Eu Digo, Não o que EU Faço, dos livros de Autoajuda. "Ame-se e tenha os homens aos seus pés". Esse seria um bom título para meu livro, não?
O fato é que ficar na beira da estrada bancando o crítico rabugento não vai funcionar. Se existe demanda e mercado para os livros de Autoajuda é porque tem uma grande quantidade de pessoas precisando de respostas, mesmo que de respostas simplificadas e simplificadoras. Nunca na história da humanidade tivemos tanto acesso a informação e qualquer tema que "googarmos" na internet vai produzir dezenas de especialistas falando alhos, contra outra dezena falando bugalhos. Não sabemos mais em quem confiar e como filtrar opiniões tão conflitantes.
Vou basear as minhas primeiras incursões no reino de Autoajuda no livro "Mindfullness" escrito por uma psicóloga pesquisadora, Ellen J. Langer, Merloyd-Lawrence Books, 1989. O livro vai ter a forma de diálogos e pequenas histórias ilustrativas, pois sou um autor de limitados recursos literários e aprendi a me expressar razoavelmente nessa estrutura dialógica. Se for ficando chato, acabo logo com esse caminho e volto a escrever sobre filmes. Posso até incluir o novo filme de Woody Allen, viu Ana? (vide comentários do blog). Posso até mudar de idéia amanhã, que ando meio instável ultimamente. Ou se os meus leitores mandarem parar. Acho que vou começar hoje mesmo.
O fato é que ficar na beira da estrada bancando o crítico rabugento não vai funcionar. Se existe demanda e mercado para os livros de Autoajuda é porque tem uma grande quantidade de pessoas precisando de respostas, mesmo que de respostas simplificadas e simplificadoras. Nunca na história da humanidade tivemos tanto acesso a informação e qualquer tema que "googarmos" na internet vai produzir dezenas de especialistas falando alhos, contra outra dezena falando bugalhos. Não sabemos mais em quem confiar e como filtrar opiniões tão conflitantes.
Vou basear as minhas primeiras incursões no reino de Autoajuda no livro "Mindfullness" escrito por uma psicóloga pesquisadora, Ellen J. Langer, Merloyd-Lawrence Books, 1989. O livro vai ter a forma de diálogos e pequenas histórias ilustrativas, pois sou um autor de limitados recursos literários e aprendi a me expressar razoavelmente nessa estrutura dialógica. Se for ficando chato, acabo logo com esse caminho e volto a escrever sobre filmes. Posso até incluir o novo filme de Woody Allen, viu Ana? (vide comentários do blog). Posso até mudar de idéia amanhã, que ando meio instável ultimamente. Ou se os meus leitores mandarem parar. Acho que vou começar hoje mesmo.
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