Uma das coisas que me ficam do modelo inspirado no Mito de Édipo e que está descrito no último post: ter uma ferida não revelada ou mal trabalhada cria um sistema de disfuncionamento e de baixa energia em nossa Psique. Édipo tenta compensar a dor de seus pés inchados e seus tendões cortados através de um destino heróico. Não adianta estar no topo do mundo com a sua ferida cheirando mal. Não adianta ter o mundo e perder a sua alma, falou Jesus. Conquistar a própria ferida é tornar o que era disfuncional em funcional. Não precisamos da fragilidade para ganhar proteção ou piedade, precisamos de nossa fragilidade para deixar de fugir, deixar de tentar aparentar o que não somos, ou o que não temos. Quando o Reino de Tebas passa por uma seca catastrófica, o Rei Édipo vai ao grande vidente e pergunta quem está trazendo aquela desgraça e o que seria preciso fazer para trazer de volta o equilíbrio ao Reino? Tirésias aponta para rei e revela que ele havia matado o seu pai e desposado sua mãe. Enquanto nossa Psique tem um segredo não revelado, uma ferida escondida e mal curada, a energia que deveria estar disponível está sempre falha e, como tal, não circula. Esse é um dos objetivos dos tratamentos, limpar as sujeiras, separar o joio do trigo, restabelecer os canais de comunicação, internos e externos, para encontrar alguma felicidade e reparação.
A nossa mente, como os supercondutores, funciona melhor em menores temperaturas. Isso não significa que devemos colocar a cabeça no freezer, mas antes achar um estado de atenção relaxada para fazer as coisas acontecerem. O medo ou a alta atividade emocional atrapalha o processamento de informação. Já são alguns milênios em que os meditadores tentam educar a mente para o estado de não-mente, isso é, um estado onde os infinitos mi mi mis, ou os bla bla blás internos são finalmente silenciados. Criando uma espécie de consciência observadora, os monges observam os próprios saltos dos macacos do Pensamento para finalmente apaziguá-los. Entrar num estado de Atenção Relaxada é um treino diário e vital. Aprender a apaziguar os pensamentos, para entrar em contato com outros estados de Consciência.
O Rei Édipo não tem paz consigo mesmo. Não conquistou os seus medos. Não encontrou a sua Visão Interior. Na parte do mito em que ele, ao saber que desposara a própria mãe e com ela criou uma família, arranca os próprios olhos. Não há perdão para a própria Inconsciência. Parece um castigo autoimposto, mas bem que pode significar uma libertação. Lembro de um paciente que sobreviveu a um Câncer intratável e falou das maravilhas (e terrores) de passar por uma experiência que lhe jogou a própria vulnerabilidade na cara. Quando antes ele se sentia imortal, era irritável, meio paranóico com seus funcionários e esposa e, acima de tudo, vivia às turras com seu pai, a quem secretamente atribuía a culpa pela morte de sua mãe. Depois de morrer e renascer, passou a ter uma estranha noção da passagem do tempo e do mal resultado de seus ódios mal elaborados. Tudo isso havia “queimado a fiação”, segundo ele, gerando um Tumor agressivo que, ele sabia, ainda estava por lá, após três cirurgias. Cada dia passava a contar, mas, antes de tudo, contava o seu coração mais leve. Ele trocou de olhos, ou, melhor ainda, de olhar.
Uma desgraça para o destino humano não é a Ferida que nos forma, mas o medo que se forma em torno dela. A sensação de Insegurança cria seus filhotes, que é a busca de falsas fontes de Segurança. Essa é uma parte importante da tragédia de Édipo e de todos nós: quanto mais ele foge de seu Medo, maior ele fica, até se deparar com o maior de todos, que é ser o causador da desgraça de todos. Gosto de imaginá-lo, sereno e sem preocupações como um andarilho sábio, coxeando pelos vilarejos, após perder tudo o que um homem preza: dinheiro, poder, posição, influência. Provavelmente, o Édipo curado vive num estado de Atenção Plena e Relaxada, em fluxo com o caminho e com a vida.
O antepenúltimo post deste blog falou sobre três grandes ciclos arquetípicos: o Parental, o Heróico e a Individuação. Individuação é o estado em que o velho e medroso Ego perde a sua força e a Psique se expande na direção do Infinito. Disse Jesus que muitos são chamados, poucos escolhidos, porque não é fácil deixar o velho medo para trás. Não é fácil tirar a Insegurança quanto ao futuro de centro de nossa existência.
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domingo, 23 de agosto de 2015
sábado, 22 de agosto de 2015
Ninguém Sofre nas Redes Sociais
Édipo quer dizer “Pés Inchados”, ou “O Coxo”. A sua história e a sua ferida começam quando seu pai, Laio, foi ao Oráculo de Apolo perguntar como seria o destino de seu primeiro filho. A previsão foi a mais terrível que se pudesse esperar: aquele menino estava destinado a desposar a própria mãe e matar o seu pai. Laio pegou a criança e a entregou a seus criados para morrer, no monte Cinterão. O escravo não teve coragem de matar a criança. Perfurou os seus pés e deixou-o pendurado numa árvore, para ser morta pelas feras. Pensando bem, talvez tivesse sido melhor matar a criança. Deixado à própria sorte, Édipo foi salvo por um pastor que ouviu o seu choro e tomou-o como filho. A marca dessa Ferida nunca se apagou de seus pés. Nem da sua alma.
Édipo é um herói moderno. A sua força não está na beleza nem nas glórias da batalha. Édipo vence a Esfinge com duas armas novas para os heróis: Inteligência e Astúcia. As suas armas não serão as dos X-Men nem dos Vingadores. Decifrando o Enigma da Esfinge, ele liberta Tebas e desposa a sua Rainha, Jocasta, que mais adiante ele descobrirá que assim cumpria a profecia terrível. Freud fixou-se bastante nessa parte do Mito que descreve a atração pela Mãe e a rivalidade voltada ao Pai. Eu prefiro olhar o mito por outro ângulo. Édipo descreve uma tendência muito enraizada em nossa Cultura, que já falei em outros posts, é mais helênica do que imaginamos. Como eu poderia resumir essa atitude? Fácil: ninguém aparece feio no Facebook. Todos estão lindos e com fotos desatualizadas em anos e quilos. Cultivamos beleza, simetria e perfeição. Nada de feiúra, nem de fraqueza. Ainda assim, somos descendentes dos pés inchados e tortos de Édipo. O que isso quer dizer?
Na prática clínica vemos histórias de heroísmo, de pais e mães que abraçam o sofrimento dos filhos. Doenças degenerativas, paralisias, sofrimentos que nem conseguimos imaginar. Fico pensando que esses pais fogem do erro de Laio e Jocasta. Laio ouviu que aquela criança mataria seu pai para desposar a mãe. Para fugir do próprio destino, sacrifica o seu filho e, sem saber, a própria vida. Essa é uma lei psicológica profunda do Mito: quem tenta fugir do sofrimento acaba por atraí-lo. A fragilidade humana sempre vai existir, não importam as tentativas de retificá-la. Podemos promover abortos terapêuticos quando os exames apontarem defeitos genéticos ou tentar manipular os genomas para eliminar as doenças, mas essa é exatamente o mecanismo da tragédia do Rei Édipo. O jovem machucado tenta fugir da própria Ferida através da Lógica, da Técnica, da tentativa de dominar a própria dor pela força da Razão. Isso parece mais fácil do que integrar a própria fragilidade no Todo da Psique.
Lacan dizia que o “Sintoma é Aquilo que o Sujeito tem de Mais Real”. O sintoma nos conecta com as coisas que gostamos de esconder nas redes sociais: a Fragilidade e a Dor. Isso não gera muitas curtidas...
Édipo termina a sua vida disputado por todas as cidades vizinhas. Outra profecia dizia que onde ele morresse seria um território sagrado? Não seria outro paradoxo? O portador da desgraça, a família que atravessou três gerações de tragédias (como os Kennedys), e ainda assim ele passa a ser um homem sagrado. Como outros grandes heróis, Édipo não vai passar pela morte física, e ele é engolido pela terra. Ele é o homem que conquistou a própria ferida, em vez de fugir a vida toda da própria fragilidade. A Razão vira Sabedoria e a Força deriva de sua fraqueza... E aí? Vai encarar?
Édipo é um herói moderno. A sua força não está na beleza nem nas glórias da batalha. Édipo vence a Esfinge com duas armas novas para os heróis: Inteligência e Astúcia. As suas armas não serão as dos X-Men nem dos Vingadores. Decifrando o Enigma da Esfinge, ele liberta Tebas e desposa a sua Rainha, Jocasta, que mais adiante ele descobrirá que assim cumpria a profecia terrível. Freud fixou-se bastante nessa parte do Mito que descreve a atração pela Mãe e a rivalidade voltada ao Pai. Eu prefiro olhar o mito por outro ângulo. Édipo descreve uma tendência muito enraizada em nossa Cultura, que já falei em outros posts, é mais helênica do que imaginamos. Como eu poderia resumir essa atitude? Fácil: ninguém aparece feio no Facebook. Todos estão lindos e com fotos desatualizadas em anos e quilos. Cultivamos beleza, simetria e perfeição. Nada de feiúra, nem de fraqueza. Ainda assim, somos descendentes dos pés inchados e tortos de Édipo. O que isso quer dizer?
Na prática clínica vemos histórias de heroísmo, de pais e mães que abraçam o sofrimento dos filhos. Doenças degenerativas, paralisias, sofrimentos que nem conseguimos imaginar. Fico pensando que esses pais fogem do erro de Laio e Jocasta. Laio ouviu que aquela criança mataria seu pai para desposar a mãe. Para fugir do próprio destino, sacrifica o seu filho e, sem saber, a própria vida. Essa é uma lei psicológica profunda do Mito: quem tenta fugir do sofrimento acaba por atraí-lo. A fragilidade humana sempre vai existir, não importam as tentativas de retificá-la. Podemos promover abortos terapêuticos quando os exames apontarem defeitos genéticos ou tentar manipular os genomas para eliminar as doenças, mas essa é exatamente o mecanismo da tragédia do Rei Édipo. O jovem machucado tenta fugir da própria Ferida através da Lógica, da Técnica, da tentativa de dominar a própria dor pela força da Razão. Isso parece mais fácil do que integrar a própria fragilidade no Todo da Psique.
Lacan dizia que o “Sintoma é Aquilo que o Sujeito tem de Mais Real”. O sintoma nos conecta com as coisas que gostamos de esconder nas redes sociais: a Fragilidade e a Dor. Isso não gera muitas curtidas...
Édipo termina a sua vida disputado por todas as cidades vizinhas. Outra profecia dizia que onde ele morresse seria um território sagrado? Não seria outro paradoxo? O portador da desgraça, a família que atravessou três gerações de tragédias (como os Kennedys), e ainda assim ele passa a ser um homem sagrado. Como outros grandes heróis, Édipo não vai passar pela morte física, e ele é engolido pela terra. Ele é o homem que conquistou a própria ferida, em vez de fugir a vida toda da própria fragilidade. A Razão vira Sabedoria e a Força deriva de sua fraqueza... E aí? Vai encarar?
terça-feira, 4 de março de 2014
Responsabilidade
Esse post vai ser um pouco diferente da variedade algo caótica de assuntos desse blog. Ele vai ser uma continuação do tema anterior, então convido o visitante que tiver tempo e paciência a ler o post anterior, de dois dias atrás. Retomo: Laio, Rei de Tebas, vai a um oráculo e lá recebe a terrível profecia que o seu filho recém nascido iria matá-lo e desposar a própria mãe. Laio, como Freud, levou o assunto um pouco ao pé da letra e mandou matar o bebê. Como costuma acontecer nas fábulas e nos filmes de ação, a ordem não foi cumprida diretamente. Os executores cortaram os tendões do menino e o deixaram para ser devorado pelas feras. Uma forma um tanto estranha de cumprir, ou não cumprir, a ordem. O menino foi encontrado por camponeses e criado com amor no lar adotivo, mas mancou o resto da vida por conta do aleijão que lhe foi imposto.
Lembro de uma senhora que compareceu a meu consultório apenas uma vez e nunca mais voltou. Uma frase de sua consulta me ficou marcada para sempre: “Eu sou um aborto que anda”. Como no caso de Édipo, sua vida tinha sido ameaçada por seu pai, que insistia para sua mãe fazer um aborto. Teve depois o péssimo gosto de contar o fato à sua filha, ou talvez algum parente ressentido tenha revelado a história. Ela se agarrou a esse mito familiar e construiu para si uma história de isolamento, rancor e, se olharmos mais profundamente, uma história de não vida. Ao contrário de Édipo, que com certeza nunca seria um atleta profissional, então tratou de ser o mais inteligente e astuto homem de seu tempo, essa senhora abraçou a própria ferida e a transformou numa segunda pele. Nada poderia ser cobrado ou se esperar dela, já que era um aborto vivo. Conheço outra senhora que vive torturada pela filha, que alega que tudo deu errado porque ela “não foi amamentada”. Como podem notar o leitor e a leitora desse blog, viver do próprio aleijão não é especialidade só dos coxos nos semáforos, mas de muita gente de posse e de pose. Talvez por isso que o troféu da vítima seja sempre tão disputado.
Para os coitados de plantão, aqui vai a má notícia: somos compostos em nossa Psique, por alguma ferida. Freud chamou isso de Cena Primária, os junguianos a chamam de Ferida Arquetípica. Os Budistas dizem que toda vida senciente se caracteriza pelo sofrimento. Não parece uma visão muito otimista, mas tem muita gente dizendo e descrevendo essa estrutura. A outra má notícia é que a Ferida é uma responsabilidade pessoal. Não adianta tentar terceirizá-la, ou passar a vida cobrando o suposto autor da ferida. Não adianta fingir que ela não existe, nem jogá-la na cara dos outros, nem castigar quem não fez nada para tentar fugir da dor.
Essa é lei de Spinelli número 33 (acho): “Ou você dá conta da ferida, ou a ferida dá conta de você”. A única boa notícia é que, quando você para de fugir e assume a responsabilidade de cuidar de sua ferida, uma linha é atravessada: a linha que separa a infância da idade adulta. Tem gente que nunca faz essa passagem, e sua vida vira um aborto de si mesma.
Lembro de uma senhora que compareceu a meu consultório apenas uma vez e nunca mais voltou. Uma frase de sua consulta me ficou marcada para sempre: “Eu sou um aborto que anda”. Como no caso de Édipo, sua vida tinha sido ameaçada por seu pai, que insistia para sua mãe fazer um aborto. Teve depois o péssimo gosto de contar o fato à sua filha, ou talvez algum parente ressentido tenha revelado a história. Ela se agarrou a esse mito familiar e construiu para si uma história de isolamento, rancor e, se olharmos mais profundamente, uma história de não vida. Ao contrário de Édipo, que com certeza nunca seria um atleta profissional, então tratou de ser o mais inteligente e astuto homem de seu tempo, essa senhora abraçou a própria ferida e a transformou numa segunda pele. Nada poderia ser cobrado ou se esperar dela, já que era um aborto vivo. Conheço outra senhora que vive torturada pela filha, que alega que tudo deu errado porque ela “não foi amamentada”. Como podem notar o leitor e a leitora desse blog, viver do próprio aleijão não é especialidade só dos coxos nos semáforos, mas de muita gente de posse e de pose. Talvez por isso que o troféu da vítima seja sempre tão disputado.
Para os coitados de plantão, aqui vai a má notícia: somos compostos em nossa Psique, por alguma ferida. Freud chamou isso de Cena Primária, os junguianos a chamam de Ferida Arquetípica. Os Budistas dizem que toda vida senciente se caracteriza pelo sofrimento. Não parece uma visão muito otimista, mas tem muita gente dizendo e descrevendo essa estrutura. A outra má notícia é que a Ferida é uma responsabilidade pessoal. Não adianta tentar terceirizá-la, ou passar a vida cobrando o suposto autor da ferida. Não adianta fingir que ela não existe, nem jogá-la na cara dos outros, nem castigar quem não fez nada para tentar fugir da dor.
Essa é lei de Spinelli número 33 (acho): “Ou você dá conta da ferida, ou a ferida dá conta de você”. A única boa notícia é que, quando você para de fugir e assume a responsabilidade de cuidar de sua ferida, uma linha é atravessada: a linha que separa a infância da idade adulta. Tem gente que nunca faz essa passagem, e sua vida vira um aborto de si mesma.
sábado, 18 de agosto de 2012
Édipo e Jonas
Ontem estava relendo o gibi “Entendendo Jung”, do qual gosto muito, mas não sei se recomendo. Esse gibi faz parte de uma série da Editora Leya, e parece que vai tentar facilitar o acesso de não iniciados a autores e conhecimento especializado. Tem um gibi sobre Freud, Física Quântica, Filosofia e agora um número sobre Jung. Apesar de ter a aparência de facilitar a vida do leitor, esses gibis não dão mole não. O saber é comprimido nas páginas e o leitor tem que se virar para acompanhar o ritmo. Eu fui lendo o material assim como quem vai degustar um gibi da Turma da Mônica, depois de um tempo estava com a sensação de ter comido uma feijoada teórica, de tão empanturrado de conceitos. O que dá para sentir é a enormidade da obra do psiquiatra suíço, que não dá para enfiar em um gibi. Mas para quem quer tomar contato, pode ser uma boa leitura.
Ontem acabei fazendo uma leitura junguiana de um Mito muito caro aos freudianos, que é o Édipo. Lógico que usei essa leitura para dar mais uma espetada em Juvenal Juvêncio, presidente do outrora glorioso São Paulo Futebol Clube. Lembrei de uma conversa alcoólica e canábica que tive na faculdade, com um japa dado a conversas briacas e filosóficas. Ele fez, depois da quinta cerveja, uma leitura sobre um filme dos anos 80, “Angel Heart”, ou “Coração Satânico”. Nesse filme, um detetive procura pelo autor de uma série de crimes bizarros na Nova Orleans dos anos 40. A trilha sonora é maravilhosa e o filme também. O japa observava, naquela conversa, que o filme é o próprio mito de Édipo, pois o detetive vai procurar pelo assassino para no final descobrir que é ele próprio o autor dos crimes. Juvenal, de tanto procurar por culpados pelos fracassos sucessivos do São Paulo, talvez encontre o causador da desgraça quando olhar o espelho. Mas o mito de Édipo não serve só para o tricolor.
Jung estranhava muito a literalidade de algumas leituras de Freud. Entender o Complexo de Édipo como um desejo inconsciente e incestuoso pela mãe, além de uma rivalidade assassina pelo pai, era um pouco excessivo para ele. Essa é uma velha querela entre as linhas e não vou me aprofundar na mesma. Vou antes falar do significado simbólico de matar o Pai e desposar a Mãe. O gibi que citei acima fala sobre isso de uma forma bacana, citando a história bíblica do profeta Jonas.
Jonas é convocado por Deus para levar a Sua Palavra para os seus inimigos. Ele não gosta nem um pouco da tarefa e faz uma viagem de navio em outra direção, diferente da apontada pela divindade. No meio do caminho, o navio naufraga e Jonas é engolido por uma baleia. Lá ele vai ter tempo para refletir profundamente sobre o significado de seu infortúnio. Ele havia traído o Desígnio que a vida tinha lhe imposto. Tinha matado o seu Deus interior e por isso estava preso dentro daquela situação terrível. Quando tomou consciência de seu erro e entendeu simbolicamente a sua prisão, Jonas foi entregue pela baleia, são e salvo, para cumprir a sua tarefa.
Esse Mito, ou Fábula, representa melhor o drama de Édipo e, mais ainda, o drama interno de nosso desenvolvimento. Em vários momento de nossa vida, perdemos o contato ou afrontamos o nosso Pai Simbólico. Édipo mata o seu pai, Laio, sem saber que era seu pai, apenas para não dar passagem a seus cavalos numa estrada. Ele desposa a própria mãe, Jocasta e tenta ser um Rei justo e adequado. Quando tudo começa a dar errado, Édipo vai ao Oráculo, os terapeutas da época, para conhecer o seu Orgulho, sua Arrogância e, mais ainda, a sua Ferida. Édipo arranca os próprios olhos para recuperar a sua Visão Interior, não para pagar os seus pecados.
Na vida, tomamos várias vezes os caminhos errados, fugimos do que nosso sentimento de missão e de sacrifício nos pede. O Casamento Incestuoso significa tomar o caminho mais fácil e trapacear a própria vida. É o que representam os mitos de Édipo e de Jonas. É por isso que, depois de muito penar, alguém vem bater em nossa porta e pergunta: por que tudo está dando errado? E como eu faço para sair de dentro dessa baleia?
O Casamento Incestuoso também significa o período da vida em que ficamos mergulhados na Noite Escura, onde nada vai para a frente enquanto não houver a reflexão e a correção do rumo, em um nível profundo. Em outro registro, o processo permite o desenvolvimento da Visão Interior, o que Jonas descobriu sem precisar arrancar os olhos. As pessoas não sabem, mas é isso que as traz à terapia.
sábado, 8 de outubro de 2011
Steve Jobs e o Herói Ferido
No ano passado eu postei uns três textos sobre o discurso de Steve Jobs em Stanford. Cara, que discurso. Simples, conciso, com uma carga extra de dinamite em cada frase. Depois descobri que ele ensaiava longamente cada trecho, cada inflexão de voz de suas apresentações, até elas parecerem feitas de puro improviso. Nunca vou conseguir esse nível de perfeição. Sempre vou para as minhas poucas aulas com um roteiro na cabeça que pode ir para um lado e para outro, de acordo com a reação das pessoas e o perfil do público. Não se pode dizer que sempre me dou bem nessa empreitada, ou que as pessoas gostem, mas esse é um outro assunto. Steve Jobs, em seu discurso na formatura de Stanford, usou uma regra que sempre norteava as suas apresentações, que é a regra dos três (não a regra de três). Ele sempre dividia as apresentações em três tópicos principais, se concentrava numa quantidade limitada de assimilação da platéia. Dessa forma, Steve dividiu a sua apresentação em três pequenas histórias. Acrescentou até um "no big deal" (não é nada demais) para esvaziar a expectativa das pessoas. Penso que ele resumiu três importantes ciclos de uma vida com essas histórias. O que um Junguiano chamaria de três grandes ciclos arquetípicos: A Criação do Herói, A Sagração do Herói e A Queda.
No primeiro ciclo, ou na primeira das três histórias, ele chamou de "juntando os pontos". Nela, o CEO da Apple descreveu a sua adoção, quando recém nascido. A sua mãe biológica exigia que fosse adotado por um casal com nível superior. Os seus pais adotivos eram simples trabalhadores, bons e honestos, mas prometeram que dariam ao menino um diploma. Steve Jobs entrou numa faculdade cara, mas nunca completou o curso. Preferiu seguir os seus instintos e interesses, o que criaria, anos depois, uma das maiores corporações da era dos computadores, na garagem de seus pais. Ele não entendia as suas escolhas na época, nós as entendemos hoje. Ele chamou essa parte do discurso de "juntando os pontos" porque as linhas tortas com que escrevemos (junto com Deus) as nossas vidas só são mais compreensíveis quando olhamos para trás, alguns anos depois. Só depois de algumas décadas podemos entender onde nossos erros e acertos nos levaram. Steve aconselhou as pessoas a seguirem os próprios instintos. Na segunda parte do discurso, ele descreveu o momento em que foi demitido da empresa que ele mesmo havia criado. Um moleque de vinte e poucos anos com milhões de dólares em sua conta, meteu os pés pelas mãos e acabou na lona, rico e longe de seu brinquedo. Levou alguns bons anos para ele se reerguer e retomar, mais maduro, salvando e tornando a Apple uma das mais valiosas corporações do planeta. Steve avisou aos formandos que em algum momento a vida vai te dar uma tijolada que vai te deixar grogue. Ame o que você faz, e o faça com intensidade. Não se acomode. Prossiga na sua jornada até encontrar o que procura.
Na terceira parte do discurso, ele mencionou o diagnóstico recente de um Câncer de Pâncreas, um dos mais agressivos e mortais que existem na Oncologia. Chegando aos cinquenta anos, Steve Jobs deparou-se com a Morte e a necessidade de dizer em poucos meses o que ele pensava dizer em algumas décadas. O tipo do Câncer era raro e menos agressivo do que pensava, naquele momento, um dos homens mais poderosos do planeta julgava-se a salvo. Sabemos hoje que não estava. A suprema ironia é que os bilhões de dólares que ele tinha na conta não foram nada diante dessa doença devastadora.
Como acontece nessas situações, Steve Jobs foi incensado como um homem que inventou a nossa era, com I-Pods, I-Phones e I-Pads. Foi chamado de gênio para cima. Eu, que sou evidentemente um fã do homem, penso meio tristemente no destino de Édipo. Édipo é um mito tão caro aos psicanalistas, mas é um junguiano que vai utilizá-lo: Quando o menino que viria a ser o rei de Tebas nasceu, o seu pai, Laio, foi a um oráculo que lhe alertou que aquele menino mataria o próprio pai e desposaria a própria mãe. Laio tomou o seu filho e mandou deixá-lo para as feras, após cortar os tendões dos seus pés. Édipo significa "Pés Inchados", por conta dessa mutilação. Como Steve Jobs, Édipo foi salvo por um casal de camponeses, uma gente simples que o acolheu e criou, dando tudo o que estava a seu alcance para aquele menino. Édipo cresceu e tornou-se um rei às custas de sua incrível inteligência, vencendo a Esfinge (A Microsoft? A concorrência?). Depois de feito rei, descobriu-se filho da sua esposa, Jocasta, e sucumbiu à própria ferida, arrancando os próprios olhos.
Édipo representa o Herói Ferido, que usa a própria genialidade para suplantar a sensação de seus pés inchados. Olhando de novo para o discurso de Stanford, tenho a incômoda impressão que aquele era o momento de Steve Jobs descer do trono, pedir o boné e se dedicar profundamente ao curtíssimo último trecho de sua vida. Mas não é fácil deixar de ser Rei. Todos lamentam a morte prematura de um homem que triunfou na selva do mercado. Eu lamento a morte de um homem que soube viver o seu mito pessoal.
No primeiro ciclo, ou na primeira das três histórias, ele chamou de "juntando os pontos". Nela, o CEO da Apple descreveu a sua adoção, quando recém nascido. A sua mãe biológica exigia que fosse adotado por um casal com nível superior. Os seus pais adotivos eram simples trabalhadores, bons e honestos, mas prometeram que dariam ao menino um diploma. Steve Jobs entrou numa faculdade cara, mas nunca completou o curso. Preferiu seguir os seus instintos e interesses, o que criaria, anos depois, uma das maiores corporações da era dos computadores, na garagem de seus pais. Ele não entendia as suas escolhas na época, nós as entendemos hoje. Ele chamou essa parte do discurso de "juntando os pontos" porque as linhas tortas com que escrevemos (junto com Deus) as nossas vidas só são mais compreensíveis quando olhamos para trás, alguns anos depois. Só depois de algumas décadas podemos entender onde nossos erros e acertos nos levaram. Steve aconselhou as pessoas a seguirem os próprios instintos. Na segunda parte do discurso, ele descreveu o momento em que foi demitido da empresa que ele mesmo havia criado. Um moleque de vinte e poucos anos com milhões de dólares em sua conta, meteu os pés pelas mãos e acabou na lona, rico e longe de seu brinquedo. Levou alguns bons anos para ele se reerguer e retomar, mais maduro, salvando e tornando a Apple uma das mais valiosas corporações do planeta. Steve avisou aos formandos que em algum momento a vida vai te dar uma tijolada que vai te deixar grogue. Ame o que você faz, e o faça com intensidade. Não se acomode. Prossiga na sua jornada até encontrar o que procura.
Na terceira parte do discurso, ele mencionou o diagnóstico recente de um Câncer de Pâncreas, um dos mais agressivos e mortais que existem na Oncologia. Chegando aos cinquenta anos, Steve Jobs deparou-se com a Morte e a necessidade de dizer em poucos meses o que ele pensava dizer em algumas décadas. O tipo do Câncer era raro e menos agressivo do que pensava, naquele momento, um dos homens mais poderosos do planeta julgava-se a salvo. Sabemos hoje que não estava. A suprema ironia é que os bilhões de dólares que ele tinha na conta não foram nada diante dessa doença devastadora.
Como acontece nessas situações, Steve Jobs foi incensado como um homem que inventou a nossa era, com I-Pods, I-Phones e I-Pads. Foi chamado de gênio para cima. Eu, que sou evidentemente um fã do homem, penso meio tristemente no destino de Édipo. Édipo é um mito tão caro aos psicanalistas, mas é um junguiano que vai utilizá-lo: Quando o menino que viria a ser o rei de Tebas nasceu, o seu pai, Laio, foi a um oráculo que lhe alertou que aquele menino mataria o próprio pai e desposaria a própria mãe. Laio tomou o seu filho e mandou deixá-lo para as feras, após cortar os tendões dos seus pés. Édipo significa "Pés Inchados", por conta dessa mutilação. Como Steve Jobs, Édipo foi salvo por um casal de camponeses, uma gente simples que o acolheu e criou, dando tudo o que estava a seu alcance para aquele menino. Édipo cresceu e tornou-se um rei às custas de sua incrível inteligência, vencendo a Esfinge (A Microsoft? A concorrência?). Depois de feito rei, descobriu-se filho da sua esposa, Jocasta, e sucumbiu à própria ferida, arrancando os próprios olhos.
Édipo representa o Herói Ferido, que usa a própria genialidade para suplantar a sensação de seus pés inchados. Olhando de novo para o discurso de Stanford, tenho a incômoda impressão que aquele era o momento de Steve Jobs descer do trono, pedir o boné e se dedicar profundamente ao curtíssimo último trecho de sua vida. Mas não é fácil deixar de ser Rei. Todos lamentam a morte prematura de um homem que triunfou na selva do mercado. Eu lamento a morte de um homem que soube viver o seu mito pessoal.
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