Mencionei em post anterior uma palestra do escritor moçambicano/português Mia Couto no Brain Congress em Porto Alegre, em Junho desse ano. O fio condutor de boa parte da sua exposição foi sua experiência, na África, com um caçador que estava perdendo a visão mas ainda assim conseguia enxergar o rastro da caça com os olhos de seu coração. Mia Couto ficou tão tomado pelo encontro que marcou uma consulta com uma oftalmologista na África do Sul, tentando socorrer o amigo. No dia da consulta, compareceu o irmão do tal homem, que “tinha os mesmos olhos”. Mia imaginou que, já que o homem falava e vivia no meio de metáforas, aquela fosse apenas mais uma verdade simbólica que não era verdade no mundo real. Mas estava enganado. A médica observou que a degeneração da Retina do homem que foi, o paciente “errado”, tinha base genética e tiraria a visão dos dois irmãos. Mia concluiu que realmente tinham os mesmos olhos, que compartilharam a luz e agora adentrariam juntos o escuro. Quando pode voltar a visitar a África, não se sabe quanto tempo depois, o escritor recebeu a notícia que o velho caçador havia morrido. Como bom ocidental e bom curioso, quis saber do que o homem tinha morrido. Como essa cultura vive por meio de metáforas, disseram que ele não havia morrido de algo, mas de “alguém”. Quando uma pessoa morre, morre pelo caminho de alguém. Como já escrevi no post, lembrei muito de meu pai nessa palestra. Meu pai morreu “de” minha avó. Minha avó morreu da morte de sua mãe. Aos oito anos de idade, seu mundo desabou com a morte prematura de sua mãe na era pré antibióticos, e a menina que seria a minha avó viu seu pai cair no mundo e foi mandada com sua irmã para o Colégio Interno. Ser mandado para o Colégio Interno era a ameaça fantasmagórica de muitas infâncias antigas. Os pais, quando perdiam a esposa, não se viam na obrigação de cuidar dos filhos. As crianças órfãs eram distribuídas entre outros familiares ou entregues para a criação de padrinhos. Chico Xavier viveu e morreu de sua mãe, também falecida precocemente. A sua mediunidade se manifestou muito cedo quando justamente conversava com a sua mãe, enquanto sofria abusos na mão de uma tia amarga e violenta. O fato é que minha avó passou a vida com medo de ser roubada, com medo de perder tudo o que tinha. Quando ela morreu, foi um grande trabalho a limpeza de seu apartamento. Ela guardava de tudo, barbantes, papeis de presente, caixas. Hoje seria medicada como acumuladora. Ela ficou a vida toda temendo que a vida lhe desse outra rasteira. Meu pai internalizou profundamente esse medo e também buscou defender-se do devir, buscar a segurança e evitar as altas e as baixas das marés da vida, que sobem e descem para todos. Esse medo teve um papel importante na sua morte prematura.
Morrer “de alguém”, então, é uma percepção profunda e metafórica da Ferida Arquetípica que nos constitui. O tal do Pecado Original, na minha opinião, é exatamente esse: é vir ao mundo com a tarefa de cuidar da ferida de seus antepassados, sua cultura, sua história. A sensação mais triste do Ego, que é a da Separação. Nosso mundo darwiniano reforça nas pessoas a sensação de solidão e de Separação. Chico Xavier encontrou em seu mundo interno o caminho de sua mãe. Teve sorte de viver em outro tempo, pois no nosso seria medicado e diagnosticado com Esquizofrenia Infantil. Eu prefiro imaginar que ele achou dentro de si o que buscamos em nossas terapias, que é cuidar da ferida para não morrer dela. Evitar de morrer da ausência de alguém que pode nunca ter partido.
Mia Couto fez uma recomendação muito séria para a plateia de psiquiatras, neurologistas e neurocientistas que bebiam de suas palavras: nunca percam a sua Alma no lidar com os seus pacientes. Nunca esqueçam da imensidão que é a vida de cada um. Eu diria para ele que a grande questão é estar junto quando se atravessa grandes desertos no escuro. Isso é clinicar com Alma.
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domingo, 6 de agosto de 2017
domingo, 10 de abril de 2016
Nossa Senhora Desatadora de Nós
Todo mundo nessa vida, inclusive esse escriba que vos tecla, tem um, ou vários nós na vida que não consegue desatar. Dilma Roussef sabe muito bem do que estou falando. A Bíblia alerta sobre o Orfão e a Viúva. Ai de quem mexer com o Orfão e com a Viúva. Sempre achei que puseram estas palavras na boca de Jeová para alertar os patrícios para cuidar da legião de órfãos e viúvas que se produzem em tempos de guerra. O Deus do Velho Testamento é frequentemente invocado para proteção dos ataques dos inimigos, para criar um escudo indestrutível contra as flechas venenosas e os animais peçonhentos. Um deus da Guerra. Cuidar de órfãos e viúvas é tarefa dos sobreviventes. Com o passar dos anos e com um capítulo em livro de Edward Edinger, comecei a perceber que Orfão e Viúva, além de uma questão social em tempos de guerra, também são arquétipos, que estão bem perto deste Arquétipo spinelliano, que é o Arquétipo do Grande Nó. Explico. Calma que eu explico.
No geral, temos os dois arquétipos em nossa Psique. Mas a tendência é que homens tenham mais a predominância do Orfão e as mulheres, da Viúva. Os livros de autoajuda e os vídeos do Youtube prometem, a grosso modo, sucesso profissional e Ferraris para os homens, e Amor Eterno com Alma Gêmea para as mulheres. O homem imagina que o Pai simbólico vai guiá-lo pelo labirinto da vida para atingir o sucesso e o poder. Quando Jesus foi tentado pelo Demônio, recebeu a oferta de abundância, de poder sobre as coisas da Terra e sobre a própria morte, e Jesus refutou todas as tentações. O PT, não. Mas esta é outra história.
O Orfão talvez represente a grande ferida do Masculino. Édipo é abandonado para morrer por seu próprio pai, Laio. E carrega sua dor pelo resto da vida, mancando. Ele tenta superar a sua orfandade através de um destino heróico. Ser o Rei, vencer os monstros, ser campeão, ter o carrão, tudo é uma busca, interminável, pelo Pai. Aquele que se perdeu.
A Viúva espera, muitas vezes com o marido vivo, que as promessas dos desenhos de Walt Disney finalmente se cumpram. Se ela fizer tudo certo, o Príncipe virá resgatá-la do calabouço da vida diária. Ela pode mudar tudo, fazer musculação, colocar silicone em todas as curvas, caprichar no perfil das redes sociais e dos aplicativos de encontros, sempre esperando pelo amor que vai preencher todas as lacunas e redimir todas as caixas de lenços e de chocolates consumidos na infinita espera. A Viúva espera, em sua dor, pelo marido que vai voltar do Silêncio.
O Arquétipo do Grande Nó é o que traz as pessoas para os divãs ou mesas de cirurgia estética. A Física Quântica Pop jura que criamos a própria realidade e basta mentalizar, acreditar e agradecer que tudo vai se manifestar em nossa vida: um carrão, um grande amor, um prêmio de loteria. O Nó está lá, como que rindo das tentativas de ignorá-lo. Amanhã começamos o regime, começaremos a fazer exercícios regulares, meus sonhos vão se realizar, vou dar a grande tacada, a sorte vai mudar. Dilma sonha com a derrota do Impeachment, Lula quer voltar a ser presidente, todos os problemas serão superados.
O problema do Nó é que, se ignorado, ele fica cada vez maior. Se tentamos desatá-lo na marra, ele fica cada vez mais apertado. Aqui entre Nós (sem trocadilho), não adianta ignorá-lo nem tentar desatá-lo à força.
Quando a questão é o Grande Nó, saiba que o Nó abre sempre um caminho. Este caminho, se trilhado, é o da compreensão. Compreender a natureza da própria limitação é o começo. Desatar o nó demanda atenção, criatividade e muita, muita aceitação. Esse é o longo trabalho de uma análise e de uma vida. É desatar um nó de cada vez.
No geral, temos os dois arquétipos em nossa Psique. Mas a tendência é que homens tenham mais a predominância do Orfão e as mulheres, da Viúva. Os livros de autoajuda e os vídeos do Youtube prometem, a grosso modo, sucesso profissional e Ferraris para os homens, e Amor Eterno com Alma Gêmea para as mulheres. O homem imagina que o Pai simbólico vai guiá-lo pelo labirinto da vida para atingir o sucesso e o poder. Quando Jesus foi tentado pelo Demônio, recebeu a oferta de abundância, de poder sobre as coisas da Terra e sobre a própria morte, e Jesus refutou todas as tentações. O PT, não. Mas esta é outra história.
O Orfão talvez represente a grande ferida do Masculino. Édipo é abandonado para morrer por seu próprio pai, Laio. E carrega sua dor pelo resto da vida, mancando. Ele tenta superar a sua orfandade através de um destino heróico. Ser o Rei, vencer os monstros, ser campeão, ter o carrão, tudo é uma busca, interminável, pelo Pai. Aquele que se perdeu.
A Viúva espera, muitas vezes com o marido vivo, que as promessas dos desenhos de Walt Disney finalmente se cumpram. Se ela fizer tudo certo, o Príncipe virá resgatá-la do calabouço da vida diária. Ela pode mudar tudo, fazer musculação, colocar silicone em todas as curvas, caprichar no perfil das redes sociais e dos aplicativos de encontros, sempre esperando pelo amor que vai preencher todas as lacunas e redimir todas as caixas de lenços e de chocolates consumidos na infinita espera. A Viúva espera, em sua dor, pelo marido que vai voltar do Silêncio.
O Arquétipo do Grande Nó é o que traz as pessoas para os divãs ou mesas de cirurgia estética. A Física Quântica Pop jura que criamos a própria realidade e basta mentalizar, acreditar e agradecer que tudo vai se manifestar em nossa vida: um carrão, um grande amor, um prêmio de loteria. O Nó está lá, como que rindo das tentativas de ignorá-lo. Amanhã começamos o regime, começaremos a fazer exercícios regulares, meus sonhos vão se realizar, vou dar a grande tacada, a sorte vai mudar. Dilma sonha com a derrota do Impeachment, Lula quer voltar a ser presidente, todos os problemas serão superados.
O problema do Nó é que, se ignorado, ele fica cada vez maior. Se tentamos desatá-lo na marra, ele fica cada vez mais apertado. Aqui entre Nós (sem trocadilho), não adianta ignorá-lo nem tentar desatá-lo à força.
Quando a questão é o Grande Nó, saiba que o Nó abre sempre um caminho. Este caminho, se trilhado, é o da compreensão. Compreender a natureza da própria limitação é o começo. Desatar o nó demanda atenção, criatividade e muita, muita aceitação. Esse é o longo trabalho de uma análise e de uma vida. É desatar um nó de cada vez.
sábado, 22 de agosto de 2015
Ninguém Sofre nas Redes Sociais
Édipo quer dizer “Pés Inchados”, ou “O Coxo”. A sua história e a sua ferida começam quando seu pai, Laio, foi ao Oráculo de Apolo perguntar como seria o destino de seu primeiro filho. A previsão foi a mais terrível que se pudesse esperar: aquele menino estava destinado a desposar a própria mãe e matar o seu pai. Laio pegou a criança e a entregou a seus criados para morrer, no monte Cinterão. O escravo não teve coragem de matar a criança. Perfurou os seus pés e deixou-o pendurado numa árvore, para ser morta pelas feras. Pensando bem, talvez tivesse sido melhor matar a criança. Deixado à própria sorte, Édipo foi salvo por um pastor que ouviu o seu choro e tomou-o como filho. A marca dessa Ferida nunca se apagou de seus pés. Nem da sua alma.
Édipo é um herói moderno. A sua força não está na beleza nem nas glórias da batalha. Édipo vence a Esfinge com duas armas novas para os heróis: Inteligência e Astúcia. As suas armas não serão as dos X-Men nem dos Vingadores. Decifrando o Enigma da Esfinge, ele liberta Tebas e desposa a sua Rainha, Jocasta, que mais adiante ele descobrirá que assim cumpria a profecia terrível. Freud fixou-se bastante nessa parte do Mito que descreve a atração pela Mãe e a rivalidade voltada ao Pai. Eu prefiro olhar o mito por outro ângulo. Édipo descreve uma tendência muito enraizada em nossa Cultura, que já falei em outros posts, é mais helênica do que imaginamos. Como eu poderia resumir essa atitude? Fácil: ninguém aparece feio no Facebook. Todos estão lindos e com fotos desatualizadas em anos e quilos. Cultivamos beleza, simetria e perfeição. Nada de feiúra, nem de fraqueza. Ainda assim, somos descendentes dos pés inchados e tortos de Édipo. O que isso quer dizer?
Na prática clínica vemos histórias de heroísmo, de pais e mães que abraçam o sofrimento dos filhos. Doenças degenerativas, paralisias, sofrimentos que nem conseguimos imaginar. Fico pensando que esses pais fogem do erro de Laio e Jocasta. Laio ouviu que aquela criança mataria seu pai para desposar a mãe. Para fugir do próprio destino, sacrifica o seu filho e, sem saber, a própria vida. Essa é uma lei psicológica profunda do Mito: quem tenta fugir do sofrimento acaba por atraí-lo. A fragilidade humana sempre vai existir, não importam as tentativas de retificá-la. Podemos promover abortos terapêuticos quando os exames apontarem defeitos genéticos ou tentar manipular os genomas para eliminar as doenças, mas essa é exatamente o mecanismo da tragédia do Rei Édipo. O jovem machucado tenta fugir da própria Ferida através da Lógica, da Técnica, da tentativa de dominar a própria dor pela força da Razão. Isso parece mais fácil do que integrar a própria fragilidade no Todo da Psique.
Lacan dizia que o “Sintoma é Aquilo que o Sujeito tem de Mais Real”. O sintoma nos conecta com as coisas que gostamos de esconder nas redes sociais: a Fragilidade e a Dor. Isso não gera muitas curtidas...
Édipo termina a sua vida disputado por todas as cidades vizinhas. Outra profecia dizia que onde ele morresse seria um território sagrado? Não seria outro paradoxo? O portador da desgraça, a família que atravessou três gerações de tragédias (como os Kennedys), e ainda assim ele passa a ser um homem sagrado. Como outros grandes heróis, Édipo não vai passar pela morte física, e ele é engolido pela terra. Ele é o homem que conquistou a própria ferida, em vez de fugir a vida toda da própria fragilidade. A Razão vira Sabedoria e a Força deriva de sua fraqueza... E aí? Vai encarar?
Édipo é um herói moderno. A sua força não está na beleza nem nas glórias da batalha. Édipo vence a Esfinge com duas armas novas para os heróis: Inteligência e Astúcia. As suas armas não serão as dos X-Men nem dos Vingadores. Decifrando o Enigma da Esfinge, ele liberta Tebas e desposa a sua Rainha, Jocasta, que mais adiante ele descobrirá que assim cumpria a profecia terrível. Freud fixou-se bastante nessa parte do Mito que descreve a atração pela Mãe e a rivalidade voltada ao Pai. Eu prefiro olhar o mito por outro ângulo. Édipo descreve uma tendência muito enraizada em nossa Cultura, que já falei em outros posts, é mais helênica do que imaginamos. Como eu poderia resumir essa atitude? Fácil: ninguém aparece feio no Facebook. Todos estão lindos e com fotos desatualizadas em anos e quilos. Cultivamos beleza, simetria e perfeição. Nada de feiúra, nem de fraqueza. Ainda assim, somos descendentes dos pés inchados e tortos de Édipo. O que isso quer dizer?
Na prática clínica vemos histórias de heroísmo, de pais e mães que abraçam o sofrimento dos filhos. Doenças degenerativas, paralisias, sofrimentos que nem conseguimos imaginar. Fico pensando que esses pais fogem do erro de Laio e Jocasta. Laio ouviu que aquela criança mataria seu pai para desposar a mãe. Para fugir do próprio destino, sacrifica o seu filho e, sem saber, a própria vida. Essa é uma lei psicológica profunda do Mito: quem tenta fugir do sofrimento acaba por atraí-lo. A fragilidade humana sempre vai existir, não importam as tentativas de retificá-la. Podemos promover abortos terapêuticos quando os exames apontarem defeitos genéticos ou tentar manipular os genomas para eliminar as doenças, mas essa é exatamente o mecanismo da tragédia do Rei Édipo. O jovem machucado tenta fugir da própria Ferida através da Lógica, da Técnica, da tentativa de dominar a própria dor pela força da Razão. Isso parece mais fácil do que integrar a própria fragilidade no Todo da Psique.
Lacan dizia que o “Sintoma é Aquilo que o Sujeito tem de Mais Real”. O sintoma nos conecta com as coisas que gostamos de esconder nas redes sociais: a Fragilidade e a Dor. Isso não gera muitas curtidas...
Édipo termina a sua vida disputado por todas as cidades vizinhas. Outra profecia dizia que onde ele morresse seria um território sagrado? Não seria outro paradoxo? O portador da desgraça, a família que atravessou três gerações de tragédias (como os Kennedys), e ainda assim ele passa a ser um homem sagrado. Como outros grandes heróis, Édipo não vai passar pela morte física, e ele é engolido pela terra. Ele é o homem que conquistou a própria ferida, em vez de fugir a vida toda da própria fragilidade. A Razão vira Sabedoria e a Força deriva de sua fraqueza... E aí? Vai encarar?
domingo, 7 de junho de 2015
Indícios de Ferida
Borges escreveu uma cena em que Dante Alighieri finalmente chega ao Paraíso e compreende toda a sua vida, marcada pelo sofrimento e separação de sua amada Beatrice, morta prematuramente como era comum na época. Dante observa a sua obra colossal e sua busca a partir daquela ferida e pode, finalmente, agradecer à vida por ter passado por tudo aquilo.
Assisti a uma palestra de um monge budista, há muitos anos, que afirmou em suas últimas palavras que só estaríamos prontos para o caminho da Iluminação quando pudéssemos agradecer profundamente pelos pais que a vida tinha nos dado. Lembro até hoje de uma moça na cadeira da frente que ficou profundamente emocionada com aquela frase tão singela quanto incompreensível para um jovem terapeuta. Uma parte importante da Psicoterapia é levantar as dores e as lacunas legadas por nossos pais, nossos avós, nossas culturas. Uma simples frase de um pai, do tipo “Você não vai ser nada na vida” pode custar anos de trabalho interno para ser compreendida, recontextualizada e, finalmente, transformada em outra coisa, de preferência, numa coisa melhor. Agradecer por isso? Bem, me parece uma manobra psíquica mais radical.
Lembro de uma passagem que, salvo engano, já citei em algum desses 500 posts deste blog, do livro de Victor Franckl, “Em Busca de Sentido”, que descreve a saga deste homem, preso dentro do início da Segunda Guerra em um campo de concentração. Franckl salvou-se cuidando de perseguidores e perseguidos, olhando desde a sua condição de psiquiatra para entender o coração do absurdo. Muitas histórias incríveis ficaram dessa observação. Numa delas, uma moça confessava para ele, poucas horas antes de morrer de desnutrição e infecções repetidas, que era muito grata aos nazistas por tudo o que aprendera naquele lugar. Confessou que vivera, até então, uma vida de futilidade e proteção em sua família, que era muito rica e fora despojada de tudo por sua origem judaica. Naquele lugar de horror ela aprendeu sobre suas capacidades e vínculos que nunca teria conhecido em sua vida de mocinha mimada.
Agradecer pelas dificuldades, as perdas e as mágoas que a vida impõe a todo mundo exige um trabalho interno e externo muito profundo, como dessa moça, contemplando a própria vida poucas horas antes de terminar sua jornada. Vivemos num mundo onde antes as pessoas ficam obcecadas pelas próprias feridas e gostam de imputá-las ao Outro: o abuso sofrido, a indiferença velada, a falta ou excesso de empenho de nossos pais, ou mestres, ou de quem deveria servir como mentores mas acabaram servindo como obstáculos em nossa jornada de desenvolvimento. Abençoar o sofrimento está muito longe de sermos masoquistas ou usar a ferida como um manto de glória. Significa encontrar nesses eventos a sua característica de totalidade. Somos feitos das coisas que deram certo e errado.
Reagir contra as adversidades é uma parte importante de nosso crescimento. É muito difícil ajudar quem acha que a vida lhe deveria ser servida numa bandeja, sem demandar nenhum esforço, nenhuma aprendizagem.
Transformar a Ferida em Pedra de Toque é um trabalho e tanto para as terapias e para nosso desenvolvimento pessoal. A parte mais difícil é o Perdão.
Assisti a uma palestra de um monge budista, há muitos anos, que afirmou em suas últimas palavras que só estaríamos prontos para o caminho da Iluminação quando pudéssemos agradecer profundamente pelos pais que a vida tinha nos dado. Lembro até hoje de uma moça na cadeira da frente que ficou profundamente emocionada com aquela frase tão singela quanto incompreensível para um jovem terapeuta. Uma parte importante da Psicoterapia é levantar as dores e as lacunas legadas por nossos pais, nossos avós, nossas culturas. Uma simples frase de um pai, do tipo “Você não vai ser nada na vida” pode custar anos de trabalho interno para ser compreendida, recontextualizada e, finalmente, transformada em outra coisa, de preferência, numa coisa melhor. Agradecer por isso? Bem, me parece uma manobra psíquica mais radical.
Lembro de uma passagem que, salvo engano, já citei em algum desses 500 posts deste blog, do livro de Victor Franckl, “Em Busca de Sentido”, que descreve a saga deste homem, preso dentro do início da Segunda Guerra em um campo de concentração. Franckl salvou-se cuidando de perseguidores e perseguidos, olhando desde a sua condição de psiquiatra para entender o coração do absurdo. Muitas histórias incríveis ficaram dessa observação. Numa delas, uma moça confessava para ele, poucas horas antes de morrer de desnutrição e infecções repetidas, que era muito grata aos nazistas por tudo o que aprendera naquele lugar. Confessou que vivera, até então, uma vida de futilidade e proteção em sua família, que era muito rica e fora despojada de tudo por sua origem judaica. Naquele lugar de horror ela aprendeu sobre suas capacidades e vínculos que nunca teria conhecido em sua vida de mocinha mimada.
Agradecer pelas dificuldades, as perdas e as mágoas que a vida impõe a todo mundo exige um trabalho interno e externo muito profundo, como dessa moça, contemplando a própria vida poucas horas antes de terminar sua jornada. Vivemos num mundo onde antes as pessoas ficam obcecadas pelas próprias feridas e gostam de imputá-las ao Outro: o abuso sofrido, a indiferença velada, a falta ou excesso de empenho de nossos pais, ou mestres, ou de quem deveria servir como mentores mas acabaram servindo como obstáculos em nossa jornada de desenvolvimento. Abençoar o sofrimento está muito longe de sermos masoquistas ou usar a ferida como um manto de glória. Significa encontrar nesses eventos a sua característica de totalidade. Somos feitos das coisas que deram certo e errado.
Reagir contra as adversidades é uma parte importante de nosso crescimento. É muito difícil ajudar quem acha que a vida lhe deveria ser servida numa bandeja, sem demandar nenhum esforço, nenhuma aprendizagem.
Transformar a Ferida em Pedra de Toque é um trabalho e tanto para as terapias e para nosso desenvolvimento pessoal. A parte mais difícil é o Perdão.
terça-feira, 4 de março de 2014
Responsabilidade
Esse post vai ser um pouco diferente da variedade algo caótica de assuntos desse blog. Ele vai ser uma continuação do tema anterior, então convido o visitante que tiver tempo e paciência a ler o post anterior, de dois dias atrás. Retomo: Laio, Rei de Tebas, vai a um oráculo e lá recebe a terrível profecia que o seu filho recém nascido iria matá-lo e desposar a própria mãe. Laio, como Freud, levou o assunto um pouco ao pé da letra e mandou matar o bebê. Como costuma acontecer nas fábulas e nos filmes de ação, a ordem não foi cumprida diretamente. Os executores cortaram os tendões do menino e o deixaram para ser devorado pelas feras. Uma forma um tanto estranha de cumprir, ou não cumprir, a ordem. O menino foi encontrado por camponeses e criado com amor no lar adotivo, mas mancou o resto da vida por conta do aleijão que lhe foi imposto.
Lembro de uma senhora que compareceu a meu consultório apenas uma vez e nunca mais voltou. Uma frase de sua consulta me ficou marcada para sempre: “Eu sou um aborto que anda”. Como no caso de Édipo, sua vida tinha sido ameaçada por seu pai, que insistia para sua mãe fazer um aborto. Teve depois o péssimo gosto de contar o fato à sua filha, ou talvez algum parente ressentido tenha revelado a história. Ela se agarrou a esse mito familiar e construiu para si uma história de isolamento, rancor e, se olharmos mais profundamente, uma história de não vida. Ao contrário de Édipo, que com certeza nunca seria um atleta profissional, então tratou de ser o mais inteligente e astuto homem de seu tempo, essa senhora abraçou a própria ferida e a transformou numa segunda pele. Nada poderia ser cobrado ou se esperar dela, já que era um aborto vivo. Conheço outra senhora que vive torturada pela filha, que alega que tudo deu errado porque ela “não foi amamentada”. Como podem notar o leitor e a leitora desse blog, viver do próprio aleijão não é especialidade só dos coxos nos semáforos, mas de muita gente de posse e de pose. Talvez por isso que o troféu da vítima seja sempre tão disputado.
Para os coitados de plantão, aqui vai a má notícia: somos compostos em nossa Psique, por alguma ferida. Freud chamou isso de Cena Primária, os junguianos a chamam de Ferida Arquetípica. Os Budistas dizem que toda vida senciente se caracteriza pelo sofrimento. Não parece uma visão muito otimista, mas tem muita gente dizendo e descrevendo essa estrutura. A outra má notícia é que a Ferida é uma responsabilidade pessoal. Não adianta tentar terceirizá-la, ou passar a vida cobrando o suposto autor da ferida. Não adianta fingir que ela não existe, nem jogá-la na cara dos outros, nem castigar quem não fez nada para tentar fugir da dor.
Essa é lei de Spinelli número 33 (acho): “Ou você dá conta da ferida, ou a ferida dá conta de você”. A única boa notícia é que, quando você para de fugir e assume a responsabilidade de cuidar de sua ferida, uma linha é atravessada: a linha que separa a infância da idade adulta. Tem gente que nunca faz essa passagem, e sua vida vira um aborto de si mesma.
Lembro de uma senhora que compareceu a meu consultório apenas uma vez e nunca mais voltou. Uma frase de sua consulta me ficou marcada para sempre: “Eu sou um aborto que anda”. Como no caso de Édipo, sua vida tinha sido ameaçada por seu pai, que insistia para sua mãe fazer um aborto. Teve depois o péssimo gosto de contar o fato à sua filha, ou talvez algum parente ressentido tenha revelado a história. Ela se agarrou a esse mito familiar e construiu para si uma história de isolamento, rancor e, se olharmos mais profundamente, uma história de não vida. Ao contrário de Édipo, que com certeza nunca seria um atleta profissional, então tratou de ser o mais inteligente e astuto homem de seu tempo, essa senhora abraçou a própria ferida e a transformou numa segunda pele. Nada poderia ser cobrado ou se esperar dela, já que era um aborto vivo. Conheço outra senhora que vive torturada pela filha, que alega que tudo deu errado porque ela “não foi amamentada”. Como podem notar o leitor e a leitora desse blog, viver do próprio aleijão não é especialidade só dos coxos nos semáforos, mas de muita gente de posse e de pose. Talvez por isso que o troféu da vítima seja sempre tão disputado.
Para os coitados de plantão, aqui vai a má notícia: somos compostos em nossa Psique, por alguma ferida. Freud chamou isso de Cena Primária, os junguianos a chamam de Ferida Arquetípica. Os Budistas dizem que toda vida senciente se caracteriza pelo sofrimento. Não parece uma visão muito otimista, mas tem muita gente dizendo e descrevendo essa estrutura. A outra má notícia é que a Ferida é uma responsabilidade pessoal. Não adianta tentar terceirizá-la, ou passar a vida cobrando o suposto autor da ferida. Não adianta fingir que ela não existe, nem jogá-la na cara dos outros, nem castigar quem não fez nada para tentar fugir da dor.
Essa é lei de Spinelli número 33 (acho): “Ou você dá conta da ferida, ou a ferida dá conta de você”. A única boa notícia é que, quando você para de fugir e assume a responsabilidade de cuidar de sua ferida, uma linha é atravessada: a linha que separa a infância da idade adulta. Tem gente que nunca faz essa passagem, e sua vida vira um aborto de si mesma.
domingo, 2 de março de 2014
Leva no Coração uma Ferida Acesa
Já assisti a algumas entrevistas do ator Lima Duarte. Não muitas, seja porque ele não as concede, seja porque vejo pouca TV aberta. Mas posso me lembrar que, nas três vezes em que ouvi o grande ator falando de sua vida, em todas ele mencionou que sua carreira começou quando foi expulso de casa por seu pai, um matuto sem muita vocação para a paternidade. Ele tinha apenas dezesseis anos, e botou o pé na estrada, foi para o Rio de Janeiro, sobreviveu de subempregos até começar a trabalhar na nascente e mambembe TV brasileira, e o resto é uma página gloriosa de sua história. Pois em todas as entrevistas ele conta a mesma história e, ao perceber o olhar constrangido do entrevistador, ele remenda: “Ele sabia que eu estava pronto”. Conversa mole. Sabia nada. Só queria ter uma boca a menos para alimentar, ou vai saber se o homem amargou esse erro por toda a sua vida. Lima Duarte, monstro sagrado da televisão e das novelas brasileiras, vive sozinho e meio recluso em seu sítio, no interior do Rio de Janeiro.
As pessoas normalmente ficam constrangidas quando são apresentadas a um psiquiatra. Geralmente a conversa é entremeada de risos amarelos, mas a pior parte é quando o gelo é quebrado e a conversa se volta para a curiosidade do interlocutor: aquele menino matou mesmo a família e se suicidou? O rapaz que empurrou a moça nos trilhos do metrô é esquizofrênico? O remédio que a minha tia toma para o Pânico é mesmo o melhor? As pessoas imaginam que o psiquiatra tem uma espécie de visão de raio X e que vai descobrir todos os esqueletos que ficaram ganhando poeira no armário. Não sei se tenho ou não essa visão de super herói, mas garanto que tenho pouca disposição para usá-la fora do meu consultório. Mas posso confirmar que às vezes, como no caso das entrevistas do Lima Duarte, posso ter uma percepção quase visceral de sua dor e de sua ferida. Posso sentir essa dor empurrando o homem para a solidão. Como Édipo, que teve os tendões cortados e foi abandonado na montanha para servir de lanche aos predadores, a expulsão de casa e a necessidade de sobreviver sozinho calaram fundo na alma do grande ator, e pode mesmo ser a origem de sua capacidade impressionante de encarnar personagens cômicos ou trágicos. Dá para sentir a dor de longe, bem de longe.
Édipo tentou superar a sua dor tornando-se o salvador e o Rei de Tebas. Lima transformou a sua dor em Zeca Diabo e Sinhozinho Malta. Somos feitos dessa sensação de ferida e de falta, tão descrita e analisada pela Psicologia e a Arte. Procuramos o tempo todo alívio para essa coceira que pode virar uma chaga. Ou fingimos que ela não existe. Quem entra nas redes sociais pensa que o mundo virou um imenso Castelo de Caras. Ninguém sofre, ninguém passa por decepções e fracassos, ou discute os próprios erros. No Novo Testamento, Jesus observa que a pessoa vê um cisco no olho do Outro, mas não percebe uma trave tampando a própria visão. O mesmo vale para a ferida. Olhamos e identificamos muito bem a do vizinho. A sua própria, é melhor fingir que ela nem existe. Ou só existe nos outros, que são o Inferno, como disse Sartre. Poucas são as pessoas que identificam e conhecem a própria ferida. E o que é pior, ficam jogando a sua dor na cara dos outros para ver se melhora. Um dica para todos: não melhora. Mas o que melhora? Cuidar da própria ferida pode ser um bom começo.
As pessoas normalmente ficam constrangidas quando são apresentadas a um psiquiatra. Geralmente a conversa é entremeada de risos amarelos, mas a pior parte é quando o gelo é quebrado e a conversa se volta para a curiosidade do interlocutor: aquele menino matou mesmo a família e se suicidou? O rapaz que empurrou a moça nos trilhos do metrô é esquizofrênico? O remédio que a minha tia toma para o Pânico é mesmo o melhor? As pessoas imaginam que o psiquiatra tem uma espécie de visão de raio X e que vai descobrir todos os esqueletos que ficaram ganhando poeira no armário. Não sei se tenho ou não essa visão de super herói, mas garanto que tenho pouca disposição para usá-la fora do meu consultório. Mas posso confirmar que às vezes, como no caso das entrevistas do Lima Duarte, posso ter uma percepção quase visceral de sua dor e de sua ferida. Posso sentir essa dor empurrando o homem para a solidão. Como Édipo, que teve os tendões cortados e foi abandonado na montanha para servir de lanche aos predadores, a expulsão de casa e a necessidade de sobreviver sozinho calaram fundo na alma do grande ator, e pode mesmo ser a origem de sua capacidade impressionante de encarnar personagens cômicos ou trágicos. Dá para sentir a dor de longe, bem de longe.
Édipo tentou superar a sua dor tornando-se o salvador e o Rei de Tebas. Lima transformou a sua dor em Zeca Diabo e Sinhozinho Malta. Somos feitos dessa sensação de ferida e de falta, tão descrita e analisada pela Psicologia e a Arte. Procuramos o tempo todo alívio para essa coceira que pode virar uma chaga. Ou fingimos que ela não existe. Quem entra nas redes sociais pensa que o mundo virou um imenso Castelo de Caras. Ninguém sofre, ninguém passa por decepções e fracassos, ou discute os próprios erros. No Novo Testamento, Jesus observa que a pessoa vê um cisco no olho do Outro, mas não percebe uma trave tampando a própria visão. O mesmo vale para a ferida. Olhamos e identificamos muito bem a do vizinho. A sua própria, é melhor fingir que ela nem existe. Ou só existe nos outros, que são o Inferno, como disse Sartre. Poucas são as pessoas que identificam e conhecem a própria ferida. E o que é pior, ficam jogando a sua dor na cara dos outros para ver se melhora. Um dica para todos: não melhora. Mas o que melhora? Cuidar da própria ferida pode ser um bom começo.
sábado, 28 de janeiro de 2012
A face verdadeira
Hoje recebi mais um spam de livrarias Psi (que já me localizaram), com o seu novo lançamento: "Por que sofremos tanto?". O Budismo repsonde essa questão há dois mil e seiscentos anos, mas continuamos reescrevendo as respostas. A Bíblia também fala bastante sobre o assunto. Somos seres expulsos do Paraíso, maculados pelo Pecado Original, o que ainda é ensinado em algumas escolas americanas como conhecimento estabelecido e verdade. Somos filhos de um erro de uma dupla de seres, Adão e Eva, que caíram na conversa da Serpente.
Não há pecado em nascer. Mas há a dor de nascer. Consciência, do latim Cum Ciencia (desculpem se a grafia estiver errada) descreve a capacidade de experimentar culpa pelos nossos atos e, portanto, assumir a responsabilidade sobre eles. Se a hipótese que estão levantando para a tragédia do Rio de Janeiro, de que os prédios vieram abaixo, matando estimadas trinta pessoas, por reformas que comprometeram a estrutura de sustentação, reformas feitas de forma irresponsável e sem a supervisão de um engenheiro, se provar correta, será que alguém vai bater no peito e falar, fui eu, eu sou o assassino? O capitão do navio italiano, que mudou a rota, bateu nos recifes, afundou o navio e se empirulitou deixando velhos e deficientes se afogando nos escombros, será que ele vai declarar, em tempo real- Sim, fui eu? Eu errei, eu matei aquela gente, eu sou o responsável?
Uma das coisas que o estudo da mente humana pode desencadear, nesse século e meio de estudo sistemático, é que somos todos inimputáveis. Todos queriam um pônei, ou uma Caloi Dez, mas o papai não deu. Todos sofremos abusos, verbais ou físicos, em nossa trajetória. Uma mocinha que foi condenada depois de enforcar o amante com a própria cinta no Motel, ficava dando um dedo para a imprensa (numa medida pouco estudada, recomenda-se uma melhor "media training"no próximo julgamento), foi defendida com a alegação de abuso sexual por parte de seu pai. Quando o amante mais velho e trintão ameaçou abandoná-la, ela se lembrou do pai abusador e enforcou o amante, abalando as estruturas de nossos casamentos burgueses. Coitadinha, sofreu abusos, por isso fez o que fez. Quer dizer que nossa feridas nos absolvem de tudo? Mas estou me desviando da Consciência.
Adão e Eva já haviam descoberto, ter Consciência dói. A separação do estado de pureza original é definitiva, e dolorosa. A infância vai perdendo o seu olhar de ingenuidade e crença para entrarmos progressivamente no jogo selvagem da sobrevivência. A Metapsicologia Freudiana já afirmava, há mais de um século: a perda dessa unidade original é dolorosa. É uma expulsão do Paraíso. Quanto mais brusca, menos cuidada, mais violenta essa separação, maior a dor que essa consciência em formação vai experimentar. Por isso que Sidarta Gautama, o Buda, descobriu debaixo da árvore Bodhi que a natureza essencial da vida é o sofrimento.
A nossa tarefa na vida, é a transformação dessa dor original. O caminho régio, de todas as psicologias que se prezam, é fazer o sujeito identificar, reconhecer e enfrentar a própria dor, para depois compreendê-la e transformá-la. Muita gente desiste muito antes de chegar na própria ferida. outros procuram saltar por cima da ferida com algum livro de autoajuda ou alguma droga anestésica. Mas, dizia Nelson Rodriguea, o homem só se salva se encarar a própria hediondez.
Não há pecado em nascer. Mas há a dor de nascer. Consciência, do latim Cum Ciencia (desculpem se a grafia estiver errada) descreve a capacidade de experimentar culpa pelos nossos atos e, portanto, assumir a responsabilidade sobre eles. Se a hipótese que estão levantando para a tragédia do Rio de Janeiro, de que os prédios vieram abaixo, matando estimadas trinta pessoas, por reformas que comprometeram a estrutura de sustentação, reformas feitas de forma irresponsável e sem a supervisão de um engenheiro, se provar correta, será que alguém vai bater no peito e falar, fui eu, eu sou o assassino? O capitão do navio italiano, que mudou a rota, bateu nos recifes, afundou o navio e se empirulitou deixando velhos e deficientes se afogando nos escombros, será que ele vai declarar, em tempo real- Sim, fui eu? Eu errei, eu matei aquela gente, eu sou o responsável?
Uma das coisas que o estudo da mente humana pode desencadear, nesse século e meio de estudo sistemático, é que somos todos inimputáveis. Todos queriam um pônei, ou uma Caloi Dez, mas o papai não deu. Todos sofremos abusos, verbais ou físicos, em nossa trajetória. Uma mocinha que foi condenada depois de enforcar o amante com a própria cinta no Motel, ficava dando um dedo para a imprensa (numa medida pouco estudada, recomenda-se uma melhor "media training"no próximo julgamento), foi defendida com a alegação de abuso sexual por parte de seu pai. Quando o amante mais velho e trintão ameaçou abandoná-la, ela se lembrou do pai abusador e enforcou o amante, abalando as estruturas de nossos casamentos burgueses. Coitadinha, sofreu abusos, por isso fez o que fez. Quer dizer que nossa feridas nos absolvem de tudo? Mas estou me desviando da Consciência.
Adão e Eva já haviam descoberto, ter Consciência dói. A separação do estado de pureza original é definitiva, e dolorosa. A infância vai perdendo o seu olhar de ingenuidade e crença para entrarmos progressivamente no jogo selvagem da sobrevivência. A Metapsicologia Freudiana já afirmava, há mais de um século: a perda dessa unidade original é dolorosa. É uma expulsão do Paraíso. Quanto mais brusca, menos cuidada, mais violenta essa separação, maior a dor que essa consciência em formação vai experimentar. Por isso que Sidarta Gautama, o Buda, descobriu debaixo da árvore Bodhi que a natureza essencial da vida é o sofrimento.
A nossa tarefa na vida, é a transformação dessa dor original. O caminho régio, de todas as psicologias que se prezam, é fazer o sujeito identificar, reconhecer e enfrentar a própria dor, para depois compreendê-la e transformá-la. Muita gente desiste muito antes de chegar na própria ferida. outros procuram saltar por cima da ferida com algum livro de autoajuda ou alguma droga anestésica. Mas, dizia Nelson Rodriguea, o homem só se salva se encarar a própria hediondez.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
O Eu e a Ferida
Há um filme de Win Wenders de vinte anos atrás, chamado "Até o Fim do Mundo", um filme que deu origem a um período ruim de sua carreira, após a sua obra prima, "Asas do Desejo". A história era de um homem que criara uma interface entre uma microcâmera e a retina de pessoas deficientes visuais. O personagem principal, interpretado por William Hurt, atravessa o planeta para encontrar esse cientista, pois tem um filho deficiente visual. A máquina também possibilita às pessoas gravarem e reverem os próprios sonhos. O efeito colateral mostrado no filme é que todas as pessoas ficam viciadas nos próprios sonhos e passam o dia inteiro revendo-os e lembrando de sua infância e suas feridas. Choravam pelos abandonos, queriam voltar ao passado para recuperarem o que se perdeu no caminho. Todos viravam dependentes de suas memórias, sobretudo as traumáticas.
Pouco ou nada se fala sobre os efeitos colaterais do processo terapêutico, a psicoterapia de orientação analítica já é tão atacada e achincalhada que os seus praticantes não ficam acrescentando mais pedras ao linchamento. Mas uma das coisas que pode acontecer quando fazemos as nossas viagens no tempo, nas psicoterapias, é exatamente o que é retratado no filme de Win Wenders: uma fascinação e uma fixação às próprias feridas e às feridas do mundo.
Outro dia apontei para uma cliente querida esse efeito horrível, quando a Doença de Pânico virou para ela uma verdadeira obsessão, tudo gira em torno dos pensamentos e da antecipação da doença ou dos sintomas. Como no filme, ela passa muito tempo de seu dia atenta às sensações corporais que possam ensejar ou lembrar uma crise de Pânico. Tudo virou uma sombra de sua doença.
Os jornais de hoje trazem matérias sobre o aumento dos casos de afastamento e de licenças médicas por doenças psiquiátricas. Hoje estamos sempre ouvindo que fulana anda muito "estressada", sicrano está muito "deprimido" ou que a namorada "surtou" com o namorado por uma razão fútil. Os termos antes reservados às doenças psiquiátricas invadiram o senso comum. Irritação, cansaço, fadiga e, sobretudo, uma fascinação cada vez mais crescente com a própria ferida, ou com a delicada autoestima, são drogas pesadas, que as pessoas usam cada vez mais.
Revelar a própria ferida , compreendê-la e transformá-la, são os passos de qualquer psicoterapia bem sucedida. O passo mais importante, talvez, seja parar de procurar culpados e perseguidores, devedores e cobradores, para assumir a responsabilidade pela própria ferida. Como diz a Lei de Spinelli número catorze, ou você dá conta de sua ferida, ou a ferida dá conta de você. (Se parece uma frase de Monteiro Lobato, sobre Brasil e saúvas, não é mera coincidência).
Pouco ou nada se fala sobre os efeitos colaterais do processo terapêutico, a psicoterapia de orientação analítica já é tão atacada e achincalhada que os seus praticantes não ficam acrescentando mais pedras ao linchamento. Mas uma das coisas que pode acontecer quando fazemos as nossas viagens no tempo, nas psicoterapias, é exatamente o que é retratado no filme de Win Wenders: uma fascinação e uma fixação às próprias feridas e às feridas do mundo.
Outro dia apontei para uma cliente querida esse efeito horrível, quando a Doença de Pânico virou para ela uma verdadeira obsessão, tudo gira em torno dos pensamentos e da antecipação da doença ou dos sintomas. Como no filme, ela passa muito tempo de seu dia atenta às sensações corporais que possam ensejar ou lembrar uma crise de Pânico. Tudo virou uma sombra de sua doença.
Os jornais de hoje trazem matérias sobre o aumento dos casos de afastamento e de licenças médicas por doenças psiquiátricas. Hoje estamos sempre ouvindo que fulana anda muito "estressada", sicrano está muito "deprimido" ou que a namorada "surtou" com o namorado por uma razão fútil. Os termos antes reservados às doenças psiquiátricas invadiram o senso comum. Irritação, cansaço, fadiga e, sobretudo, uma fascinação cada vez mais crescente com a própria ferida, ou com a delicada autoestima, são drogas pesadas, que as pessoas usam cada vez mais.
Revelar a própria ferida , compreendê-la e transformá-la, são os passos de qualquer psicoterapia bem sucedida. O passo mais importante, talvez, seja parar de procurar culpados e perseguidores, devedores e cobradores, para assumir a responsabilidade pela própria ferida. Como diz a Lei de Spinelli número catorze, ou você dá conta de sua ferida, ou a ferida dá conta de você. (Se parece uma frase de Monteiro Lobato, sobre Brasil e saúvas, não é mera coincidência).
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