Já assisti a algumas entrevistas do ator Lima Duarte. Não muitas, seja porque ele não as concede, seja porque vejo pouca TV aberta. Mas posso me lembrar que, nas três vezes em que ouvi o grande ator falando de sua vida, em todas ele mencionou que sua carreira começou quando foi expulso de casa por seu pai, um matuto sem muita vocação para a paternidade. Ele tinha apenas dezesseis anos, e botou o pé na estrada, foi para o Rio de Janeiro, sobreviveu de subempregos até começar a trabalhar na nascente e mambembe TV brasileira, e o resto é uma página gloriosa de sua história. Pois em todas as entrevistas ele conta a mesma história e, ao perceber o olhar constrangido do entrevistador, ele remenda: “Ele sabia que eu estava pronto”. Conversa mole. Sabia nada. Só queria ter uma boca a menos para alimentar, ou vai saber se o homem amargou esse erro por toda a sua vida. Lima Duarte, monstro sagrado da televisão e das novelas brasileiras, vive sozinho e meio recluso em seu sítio, no interior do Rio de Janeiro.
As pessoas normalmente ficam constrangidas quando são apresentadas a um psiquiatra. Geralmente a conversa é entremeada de risos amarelos, mas a pior parte é quando o gelo é quebrado e a conversa se volta para a curiosidade do interlocutor: aquele menino matou mesmo a família e se suicidou? O rapaz que empurrou a moça nos trilhos do metrô é esquizofrênico? O remédio que a minha tia toma para o Pânico é mesmo o melhor? As pessoas imaginam que o psiquiatra tem uma espécie de visão de raio X e que vai descobrir todos os esqueletos que ficaram ganhando poeira no armário. Não sei se tenho ou não essa visão de super herói, mas garanto que tenho pouca disposição para usá-la fora do meu consultório. Mas posso confirmar que às vezes, como no caso das entrevistas do Lima Duarte, posso ter uma percepção quase visceral de sua dor e de sua ferida. Posso sentir essa dor empurrando o homem para a solidão. Como Édipo, que teve os tendões cortados e foi abandonado na montanha para servir de lanche aos predadores, a expulsão de casa e a necessidade de sobreviver sozinho calaram fundo na alma do grande ator, e pode mesmo ser a origem de sua capacidade impressionante de encarnar personagens cômicos ou trágicos. Dá para sentir a dor de longe, bem de longe.
Édipo tentou superar a sua dor tornando-se o salvador e o Rei de Tebas. Lima transformou a sua dor em Zeca Diabo e Sinhozinho Malta. Somos feitos dessa sensação de ferida e de falta, tão descrita e analisada pela Psicologia e a Arte. Procuramos o tempo todo alívio para essa coceira que pode virar uma chaga. Ou fingimos que ela não existe. Quem entra nas redes sociais pensa que o mundo virou um imenso Castelo de Caras. Ninguém sofre, ninguém passa por decepções e fracassos, ou discute os próprios erros. No Novo Testamento, Jesus observa que a pessoa vê um cisco no olho do Outro, mas não percebe uma trave tampando a própria visão. O mesmo vale para a ferida. Olhamos e identificamos muito bem a do vizinho. A sua própria, é melhor fingir que ela nem existe. Ou só existe nos outros, que são o Inferno, como disse Sartre. Poucas são as pessoas que identificam e conhecem a própria ferida. E o que é pior, ficam jogando a sua dor na cara dos outros para ver se melhora. Um dica para todos: não melhora. Mas o que melhora? Cuidar da própria ferida pode ser um bom começo.
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domingo, 2 de março de 2014
sábado, 4 de dezembro de 2010
Harry Potter e o Herói Ferido
Quando Sidarta Gautama atingiu a iluminação sob a árvore Bodhi, teve alguns momentos de dúvida, mesmo sendo o Iluminado: como transmitir ao mundo das pessoas perdidas na roda infinita de nascimentos e morte a Verdade que encontrara? Com certeza, as Quatro Nobres Verdades foram um método compacto e didático de ensinar o caminho da Libertação. Vamos nos concentrar na primeira Nobre Verdade: a natureza de nossa vida é o Sofrimento. A boa notícia é que podemos cuidar do sofrimento, alcançando através dele a nossa transformação.
Freud redescobriu essa Nobre Verdade quando descreveu a sensação de Falta, de insatisfação na base de todo ato ou pensamento humano. É como uma coceira que nunca termina, como uma sensação permanente de incompletude que impulsiona nossos melhores e piores atos.
Harry Potter tem uma cicatriz bem no topo de sua testa. Ela é o resultado do pior momento de sua vida, do qual nem se recorda: o arquivilão, Voldemort, tentou matá-lo quando era bebê, a sua mãe se colocou na sua frente e esse ato levou à morte de seus pais e à dissolução do corpo de Voldemort, que levou bem uns quatro livros para ir se materializando de novo. No último livro da saga, dividido em duas partes nos últimos filmes da série, J.K. Rowling vai descortinar a ferida de um grande personagem, Alvo Dumbledore. Aparece também as dores de um vilão que não era tão vilão assim, Severo Snape. Dumbledore, na sua fúria de bruxo brilhante e sedento de poder, causou não intencionalmente a morte de sua irmã. Snape perdeu a mulher de sua vida, a única que verdadeiramente amou, a mãe de Harry. Tom Ridle, que viria a ser o Lorde das Trevas, passou a sua infância em orfanatos. J.K. Rowling maneja com elegância a saga desses heróis, trágicos e feridos. Durante toda a saga, vemos os medos, as dores e a busca inconsciente de redenção de todos eles. Sucesso, poder, reconhecimento, reparação, tudo isso desfila na tela e nas páginas como parte intrínseca do drama humano. O futuro ameaçador, o medo desse futuro, perpassa também todos os episódios e todos os anos da vida desse personagem Harry Potter que, como nós, vai ter que tolerar a frustração e o medo de não cumprir a sua missão, falhar diante de seus amigos e diante de si mesmo. No momento de seu confronto final, Harry vai oferecer um sacrifício. Voldemort, que representa nosso Ego prepotente, tentando impor a sua vontade ao mundo, não cosegue entender o amor, sobretudo o amor de quem pode oferecer a própria vida para salvar a vida de quem nem conhecemos. Nesse momento, Harry ultrapassa a própria ferida e a transforma em via de transformação. Talvez este seja o caminho menos percorrido: o caminho de se encontrar, finalmente, a paz de espírito, depois de uma longa jornada.
Freud redescobriu essa Nobre Verdade quando descreveu a sensação de Falta, de insatisfação na base de todo ato ou pensamento humano. É como uma coceira que nunca termina, como uma sensação permanente de incompletude que impulsiona nossos melhores e piores atos.
Harry Potter tem uma cicatriz bem no topo de sua testa. Ela é o resultado do pior momento de sua vida, do qual nem se recorda: o arquivilão, Voldemort, tentou matá-lo quando era bebê, a sua mãe se colocou na sua frente e esse ato levou à morte de seus pais e à dissolução do corpo de Voldemort, que levou bem uns quatro livros para ir se materializando de novo. No último livro da saga, dividido em duas partes nos últimos filmes da série, J.K. Rowling vai descortinar a ferida de um grande personagem, Alvo Dumbledore. Aparece também as dores de um vilão que não era tão vilão assim, Severo Snape. Dumbledore, na sua fúria de bruxo brilhante e sedento de poder, causou não intencionalmente a morte de sua irmã. Snape perdeu a mulher de sua vida, a única que verdadeiramente amou, a mãe de Harry. Tom Ridle, que viria a ser o Lorde das Trevas, passou a sua infância em orfanatos. J.K. Rowling maneja com elegância a saga desses heróis, trágicos e feridos. Durante toda a saga, vemos os medos, as dores e a busca inconsciente de redenção de todos eles. Sucesso, poder, reconhecimento, reparação, tudo isso desfila na tela e nas páginas como parte intrínseca do drama humano. O futuro ameaçador, o medo desse futuro, perpassa também todos os episódios e todos os anos da vida desse personagem Harry Potter que, como nós, vai ter que tolerar a frustração e o medo de não cumprir a sua missão, falhar diante de seus amigos e diante de si mesmo. No momento de seu confronto final, Harry vai oferecer um sacrifício. Voldemort, que representa nosso Ego prepotente, tentando impor a sua vontade ao mundo, não cosegue entender o amor, sobretudo o amor de quem pode oferecer a própria vida para salvar a vida de quem nem conhecemos. Nesse momento, Harry ultrapassa a própria ferida e a transforma em via de transformação. Talvez este seja o caminho menos percorrido: o caminho de se encontrar, finalmente, a paz de espírito, depois de uma longa jornada.
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