Uma leitora desse blog e Coach aprendiz levantou uma questão: a relação entre Insegurança e Autoestima, sob uma perspectiva psicológica e não de autoajuda. Como não sei indicar nenhum livro ou artigo que fale diretamente sobre isso, então vou tentar fazê-lo nesse post. Não tem tu, vai tu mesmo, ou, no caso, vou eu mesmo.
Parece haver uma relação inversa entre a sensação de segurança e a capacidade de gostar de si mesmo. Mas podemos inverter a situação e olhar o lado escuro da Segurança e da Autoestima. Chego a usar nesse blog a expressão Geração Autoestima para me referir a um tipo específico de pessoa que cresceu com pais e professores muito interessados em sua autoestima e cansaram de ouvir o quanto eram especiais e únicos, mesmo sem nenhuma razão objetiva para se sentirem nem uma coisa, nem outra. Isso gera pessoas que se sentem naturalmente merecedoras de amor, entusiasmo e incentivo, e que ficam muito indignadas quando sua singularidade não é respeitada ou mesmo reconhecida. Do ponto de vista da segurança, são pessoas que aparentam muita confiança em suas infinitas possibilidades, desde que o Papai, ou o Patrão, ou o Estado, forneçam todos os recursos para a sua inata vocação à felicidade. Dar de cara com um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, em que cada um vai ser tratado como uma peça substituível é um choque de realidade que derruba muita gente para sempre. Muitos ficam vagando pelo mundo, esperando que alguém finalmente reconheça a sua capacidade incrível e original (Alguns ficam mandando mensagens ao mundo em seus blogs dominicais). Muitos querem ser ouvidos e pouca gente está disponível para escutar. A Civilização Autoestima criou uma infinidade de mi mi mis a respeito de como o mundo não é como deveria ser e como a culpa é da Globalização ou do Neoliberalismo. Ou da Operação Lavajato.
Freud disse que uma das funções da Psicanálise era de adaptação e instalação da realidade na vida dos pacientes. Talvez por isso não seja muito popular até hoje. Realidade não é um prato que se come quente. Escapar da realidade com sonhos de uma vida incrível talvez seja uma droga pesada da modernidade. Transportar nossos sonhos para o mundo virtual parece mais seguro que pegar condução e aguentar chefes e clientes permanentemente surtados.
Essa é a primeira resposta para a pergunta da querida missivista virtual: a excessiva ênfase na Autoestima e na Segurança tem criado uma multidão de órfãos de reconhecimento e de segurança fornecida pelo suor de outro alguém. Como o tal Outro oferece as duas coisas e não entrega, então temos uma indústria de busca pela sonhada Segurança e a fundamental Autoestima. Interromper essa busca pode mesmo causar o colapso do Capitalismo.
Não podemos controlar o mar, mas podemos pegar um jacaré nas ondas. Segurança e Autoestima são construções diárias, que passam pelos testes mais duros e implacáveis da tal realidade. Tem duas palavras em inglês de difícil tradução: Relatedness e Connectedness, que adoro e se referem à capacidade, ou não, de estabelecer Relações e Conexões com o Eu, o Outro e o Mundo. Segurança é a capacidade de lidar com um mundo inseguro. A segurança é um estado interno, não pode ser fornecido por papais e mamães ou outras figuras substitutas. Autoestima é um derivado da capacidade de estabelecer relações e conexões. Geralmente alguém obcecado pela própria Autoestima é também alguém muito inseguro e que gosta pouco de si e do mundo.
Nesse mundo em que nossos instintos mais baixos são cutucados em todas as mídias, em que medo, insegurança, ódio e separação estão muito em moda e até elegendo Trumps e seus filhotes, criar estima é mais importante que autoestima e adaptação é mais importante que segurança. Para ambas as tarefas, é importante um coaching de capacidades de criar relações e conexões, começando com o nosso próprio mundo interno, que é onde começa tudo. Espero que a Claudia continue mandando perguntas depois desse post.
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domingo, 5 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
O Coração do Homem Bomba
Os textos desse blog frequentemente dirigem as suas várias estocadas para dois males correlatos de nossa modernidade (?): a Civilização Inflamatória e a Geração Autoestima, irmãs gêmeas na geração de doença e sofrimento. A Civilização Inflamatória se baseia na criação constante de fissuras e dependências: comer muito, beber até a embriaguez, consumir desenfreadamente. Tudo sofre dessa inflamação: a alimentação, as relações humanas, o envenenamento da natureza. Lembro de uma cena de "Wall Street: o Dinheiro Nunca Dorme", em que o jovem aspirante ao mercado financeiro pergunta ao seu chefe inescrupuloso: Qual o seu número? Qual a quantidade de dinheiro que finalmente vai deixá-lo saciado? Ou vai tirá-lo dessa roda viva? Mais. Essa é a resposta da Civilização Inflamatória: Mais. Mais dinheiro, mais poder, mais comida industrializada, mais estímulo, mais acúmulo de coisas, trecos, brinquedos para dar uma fugaz sensação de saciedade, que vai ser substituída pela busca do Mais. Quero Mais. As células respondem a essas mensagens. Acumulam gorduras, multiplicam-se, tornam-se indiferenciadas, os anticorpos se voltam contra elas. As Mentes inflamatórias criam as células inflamadas.
A geração autoestima tem também seus Egos insaciáveis. Egos siliconados e acelerados. Não interessam as capacidades de Ser, mas o que Parece. O teatro de Personas nas fotos fotoshopadas das redes sociais. Ninguém pode se frustrar. Toda Autoestima deve ser burilada e maquiada. As frustrações são punidas aos berros, imagina alguém interferir e arranhar a minha autoestima.
Engraçado como nas livrarias as prateleiras de Psicologia estão sendo tomadas pelos livros de Autoajuda: Livre-se de Seus Medos, O Seu Ser Magnificado, Essa sou Eu, Homens Gostam das Mulheres Poderosas. E por aí vai. Manuais para encontrar a Riqueza ou a Alma Gêmea. Salve-se quem puder: cuide de seus sonhos e corra dos vampiros de sua energia.
As pessoas vem ao consultório com medo de dependências: medo de ficar dependente dos medicamentos, do terapeuta, medo de não dormir mais sem remédio. Carregam cinco celulares, checam os e-mails, almoçam as bolachas da recepção e não conseguem silenciar os pensamentos, que dão infinitas voltas dentro de sua cabeça. Mas os remédios podem ser muito perigosos.
A Psiquiatria tenta acompanhar a Civilização Inflamatória com seus medicamentos. Medica demais, e mal. Todos estão acelerados, então explodem os diagnósticos de Bipolaridade e Deficit de Atenção e Hiperatividade. Não é por acaso que estes diagnósticos explodiram. Junto com os Transtornos de Sono. Tudo gira em torno da correria e das células inflamadas. Todos correm atrás de suas fissuras e dependências. Mas fazer terapia é coisa de maluco.
Os atentados terroristas do Estado Islâmico na França foram feitos por cidadãos franceses, recrutados pelos fundamentalistas. Fico pensando no tipo de desespero que move essas pessoas. O que elas estão querendo explodir? Para o que estão tentando chamar a Atenção? Nesse mundo em que todos cuidam do próprio prazer e do perfil no Face, essas pessoas vivem uma grande crise de nosso tempo, que é uma crise de Significado: o trabalho perdeu o significado, os políticos e os governos são esta piada, as próprias famílias se afundam nas telas dos smartphones. O líder fundamentalista nada de braçada no desespero e na exclusão. Oferece ao homem bomba significado, uma causa para viver e morrer por ela. Estou justificando os atos terroristas desses caras? Pelo amor de Deus... Estou tentando entender onde navegam esses recrutadores de jovens mártires. E posso dizer sem medo: eles navegam na Exclusão e na Indiferença. Essa é a nossa doença, que a Psiquiatria e a Psicologia devem arregaçar as suas mangas para tratar. É fácil plantar o ódio onde ninguém presta atenção ao Outro. O curador deve dar o seu olhar. A sua Atenção. E deve trabalhar as fissuras infinitas e os Egos vorazes. Está na hora de desacelerar e ter um Mundo Interno, para recuperar o Significado.
A geração autoestima tem também seus Egos insaciáveis. Egos siliconados e acelerados. Não interessam as capacidades de Ser, mas o que Parece. O teatro de Personas nas fotos fotoshopadas das redes sociais. Ninguém pode se frustrar. Toda Autoestima deve ser burilada e maquiada. As frustrações são punidas aos berros, imagina alguém interferir e arranhar a minha autoestima.
Engraçado como nas livrarias as prateleiras de Psicologia estão sendo tomadas pelos livros de Autoajuda: Livre-se de Seus Medos, O Seu Ser Magnificado, Essa sou Eu, Homens Gostam das Mulheres Poderosas. E por aí vai. Manuais para encontrar a Riqueza ou a Alma Gêmea. Salve-se quem puder: cuide de seus sonhos e corra dos vampiros de sua energia.
As pessoas vem ao consultório com medo de dependências: medo de ficar dependente dos medicamentos, do terapeuta, medo de não dormir mais sem remédio. Carregam cinco celulares, checam os e-mails, almoçam as bolachas da recepção e não conseguem silenciar os pensamentos, que dão infinitas voltas dentro de sua cabeça. Mas os remédios podem ser muito perigosos.
A Psiquiatria tenta acompanhar a Civilização Inflamatória com seus medicamentos. Medica demais, e mal. Todos estão acelerados, então explodem os diagnósticos de Bipolaridade e Deficit de Atenção e Hiperatividade. Não é por acaso que estes diagnósticos explodiram. Junto com os Transtornos de Sono. Tudo gira em torno da correria e das células inflamadas. Todos correm atrás de suas fissuras e dependências. Mas fazer terapia é coisa de maluco.
Os atentados terroristas do Estado Islâmico na França foram feitos por cidadãos franceses, recrutados pelos fundamentalistas. Fico pensando no tipo de desespero que move essas pessoas. O que elas estão querendo explodir? Para o que estão tentando chamar a Atenção? Nesse mundo em que todos cuidam do próprio prazer e do perfil no Face, essas pessoas vivem uma grande crise de nosso tempo, que é uma crise de Significado: o trabalho perdeu o significado, os políticos e os governos são esta piada, as próprias famílias se afundam nas telas dos smartphones. O líder fundamentalista nada de braçada no desespero e na exclusão. Oferece ao homem bomba significado, uma causa para viver e morrer por ela. Estou justificando os atos terroristas desses caras? Pelo amor de Deus... Estou tentando entender onde navegam esses recrutadores de jovens mártires. E posso dizer sem medo: eles navegam na Exclusão e na Indiferença. Essa é a nossa doença, que a Psiquiatria e a Psicologia devem arregaçar as suas mangas para tratar. É fácil plantar o ódio onde ninguém presta atenção ao Outro. O curador deve dar o seu olhar. A sua Atenção. E deve trabalhar as fissuras infinitas e os Egos vorazes. Está na hora de desacelerar e ter um Mundo Interno, para recuperar o Significado.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
O Vencedor e as Batatas
Caetano Veloso, já num período de maturidade artística, fez uma incompreensível música sobre Alexandre, o Grande, o que não será objeto de análise desse blog. A música era muito ruim e não deve figurar nas antologias de sua impressionante obra. A parte que interessa a este post é uma passagem dessa música em que menciona que o mestre de Alexandre era o filósofo Aristóteles, “cuja cabeça até hoje sustenta o Ocidente”.
Tenho a impressão que a cabeça que sustenta o Ocidente e grande parte do mundo, em nossos dias, é de Charles Darwin. Estou lendo um livro que menciona que Darwin deu de presente uma cópia do seu - “Origem das Espécies”- para um tio, que recusou o mesmo de maneira pouco polida. A sua justificativa é que Darwin tinha abolido a ideia de um Universo ordenado e moral, colocando no trono da divindade o Acaso selvagem. Pois o velho tinha toda razão e nenhuma Razão, podemos assim dizer: desde então, a Física Quântica e a Ciência foram destruindo gradativamente a noção de que há alguma ordem em nosso mundo. Tudo é mutação aleatória de nossos genes, que nos torna mais ou menos aptos a perpetuar nosso Genoma. Vivemos então sob a metáfora do “Gene Egoísta”, isto é, a única moralidade possível é a sua capacidade de sobreviver e perpetuar o nosso material genético (ou perpetuar nossos “genes egoístas”). Prevalecer ou morrer, essa é a lei (lembro quando escrevo isso de Quincas Borba, personagem do incrível Machado de Assis: Ao vencedor, as batatas).
O mundo darwiniano nos legou, paradoxalmente, um mundo mais primitivo do ponto de vista do afeto. Presenciamos um mundo onde grupos, ideias, empresas, pessoas, vivem e morrem com a intenção de prevalecer, superar, eliminar os concorrentes pelos nichos de poder. O mundo está dominado por paleoprimatas que vivem correndo para conseguir as melhores fatias do bolo, ou, de preferência, deter os meios de produção de todos os seus ingredientes. Corremos, corremos com medo da falência, da fome ou, pior do que as alternativas anteriores, do esquecimento. O Inferno é o silêncio.
No seminário que fui, na semana passada, garimpei uma aula particularmente interessante, de uma geneticista que procurava pela diferença genética entre saúde e doença, quais genes “causariam” as doenças. Angelina Jolie à parte, não existem genes projetados pela Mãe Natureza com a finalidade específica de causar doenças. O que ela descobriu é que determinadas doenças tem uma característica em comum de causar problemas e erros de multiplicação e função celular. Doenças como a Hipertensão Arterial, diversos tipos de Câncer e o Diabetes estão associados a esse problema na função das células, o que, por sua vez, está associado à ativação de determinado grupo de genes. Isso, na modesta opinião do escriba desse blog, confirma a origem e o funcionamento comum de diversas doenças de base inflamatória, como as doenças cardiovasculares, neoplásicas, autoimunes e mesmo nas doenças psiquiátricas como as geradas pelo estresse físico e psíquico, como Ansiedade e Depressão. Tudo pode ter uma fonte comum.
Nosso mundo darwiniano glorifica os campeões do correcorre de genes e memes egoístas. Isso produz nas pessoas um estado de urgência e o estímulo aos afetos negativos, como o medo, a raiva, o ressentimento. A sensação de insegurança, o medo do futuro, a alimentação e o estilo de vida inflamatórios estão completamente associados às doenças que tentamos e não conseguimos curar. Já há evidências científicas que cultivar emoções e sentimentos positivos cause um impacto mais profundo em nossa saúde do que nossas emoções darwinistas de luta por territórios e transmissão de genes. O homem sobreviveu às diversas fases de sua acidentada evolução pela capacidade de estabelecer alianças e proteção mútua. A comunicação e a cooperação nos salvaram nessa jornada. Foi isso que nos salvou da Seleção Natural e aumentou a complexidade e a capacidade de nosso Cérebro: fazer amor, não a guerra.
Tenho a impressão que a cabeça que sustenta o Ocidente e grande parte do mundo, em nossos dias, é de Charles Darwin. Estou lendo um livro que menciona que Darwin deu de presente uma cópia do seu - “Origem das Espécies”- para um tio, que recusou o mesmo de maneira pouco polida. A sua justificativa é que Darwin tinha abolido a ideia de um Universo ordenado e moral, colocando no trono da divindade o Acaso selvagem. Pois o velho tinha toda razão e nenhuma Razão, podemos assim dizer: desde então, a Física Quântica e a Ciência foram destruindo gradativamente a noção de que há alguma ordem em nosso mundo. Tudo é mutação aleatória de nossos genes, que nos torna mais ou menos aptos a perpetuar nosso Genoma. Vivemos então sob a metáfora do “Gene Egoísta”, isto é, a única moralidade possível é a sua capacidade de sobreviver e perpetuar o nosso material genético (ou perpetuar nossos “genes egoístas”). Prevalecer ou morrer, essa é a lei (lembro quando escrevo isso de Quincas Borba, personagem do incrível Machado de Assis: Ao vencedor, as batatas).
O mundo darwiniano nos legou, paradoxalmente, um mundo mais primitivo do ponto de vista do afeto. Presenciamos um mundo onde grupos, ideias, empresas, pessoas, vivem e morrem com a intenção de prevalecer, superar, eliminar os concorrentes pelos nichos de poder. O mundo está dominado por paleoprimatas que vivem correndo para conseguir as melhores fatias do bolo, ou, de preferência, deter os meios de produção de todos os seus ingredientes. Corremos, corremos com medo da falência, da fome ou, pior do que as alternativas anteriores, do esquecimento. O Inferno é o silêncio.
No seminário que fui, na semana passada, garimpei uma aula particularmente interessante, de uma geneticista que procurava pela diferença genética entre saúde e doença, quais genes “causariam” as doenças. Angelina Jolie à parte, não existem genes projetados pela Mãe Natureza com a finalidade específica de causar doenças. O que ela descobriu é que determinadas doenças tem uma característica em comum de causar problemas e erros de multiplicação e função celular. Doenças como a Hipertensão Arterial, diversos tipos de Câncer e o Diabetes estão associados a esse problema na função das células, o que, por sua vez, está associado à ativação de determinado grupo de genes. Isso, na modesta opinião do escriba desse blog, confirma a origem e o funcionamento comum de diversas doenças de base inflamatória, como as doenças cardiovasculares, neoplásicas, autoimunes e mesmo nas doenças psiquiátricas como as geradas pelo estresse físico e psíquico, como Ansiedade e Depressão. Tudo pode ter uma fonte comum.
Nosso mundo darwiniano glorifica os campeões do correcorre de genes e memes egoístas. Isso produz nas pessoas um estado de urgência e o estímulo aos afetos negativos, como o medo, a raiva, o ressentimento. A sensação de insegurança, o medo do futuro, a alimentação e o estilo de vida inflamatórios estão completamente associados às doenças que tentamos e não conseguimos curar. Já há evidências científicas que cultivar emoções e sentimentos positivos cause um impacto mais profundo em nossa saúde do que nossas emoções darwinistas de luta por territórios e transmissão de genes. O homem sobreviveu às diversas fases de sua acidentada evolução pela capacidade de estabelecer alianças e proteção mútua. A comunicação e a cooperação nos salvaram nessa jornada. Foi isso que nos salvou da Seleção Natural e aumentou a complexidade e a capacidade de nosso Cérebro: fazer amor, não a guerra.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Altro Estima
Sempre achei que a frase de Jesus, para amar o próximo como a si mesmo, fosse uma via de duas mãos. A sua capacidade de ser amoroso com o Outro é diretamente proporcional à sua capacidade de amar a si mesmo, como um próximo.
Não é comum, entretanto, nem gostar de si nem muito menos olhar no espelho e encontrar alguém com quem se queira alguma proximidade. Olhamos os sinais da idade e do tempo avançando, os quilos ganhos nas férias e depois de mais alguns anos tememos o que se vai encontrar no espelho. Compaixão e delicadeza não deveriam ser exercícios praticados apenas com o Outro, ou o Necessitado, ou o menos afortunado, como ensinam as vozes carolas e os guias do Politicamente Correto. Delicadeza e compaixão consigo deveria ser a primeira lição de casa. E vem com um pacote de benefícios para o Outro, sobretudo o de deixar de conviver com alguém falsamente bondoso, mas que fica esperando o tempo todo que uma fanfarra de anjos celebre a sua bondade, ou, no caso, a sua falsa bondade.
A tal da autoestima não é mandar beijocas para a sua imagem no espelho, nem se presentear com cervejas e caixas de bombons, nem marcar um jantar em um lugar bacana consigo mesmo. Autoestima é diretamente proporcional à sua Altro Estima, inclusive a capacidade de se tratar a si próprio como outro. E tratar esse outro, que sou eu mesmo, significa ter uma relação de respeito, delicadeza e compaixão atuante sobre a própria vida e o próprio ser. Essa é a condição inicial para podermos exercitar essas mesmas qualidades com os que nos cercam, ou os que estão longe.
A tal da autoestima proposta nos programas de variedades ensinam, de uma forma direta ou indireta, como inflar o próprio ego positiva ou negativamente. Pode parecer estranho, mas qualquer um pode parar e imaginar quantas pessoas conhecemos que glorificam o próprio Ego sendo as piores, mais fracassadas e mais infelizes pessoas do mundo. Socar o próprio peito gritando “mea culpa”, ou mais recente “eu sou uma bosta” produzem o mesmo resultado de gritar a plenos pulmões um “eu me amo”: ficar andando em círculos de afetos condicionais e autorreferentes, em vez de praticar, todo dia, algum tipo de delicadeza com nossos quilinhos a mais, nossa preguiça quase diária ou a ida para a Academia que foi enforcada mais uma semana. Emagrecimento e mudança de hábitos estão sempre condenadas ao fracasso se dependerem apenas da tal “força de vontade”. A força de vontade dura uns cinco dias ou o próximo churrasco, o que vier antes. Mudanças de hábitos alimentares ou de qualquer hábito, sobretudo os maus hábitos, dependem de mudança de consciência, inclusive da consciência do que é amar, o que é comer e que tipo de exercício queremos, ou não, fazer, física e mentalmente.
Imagino que seja isso. Autoestima começa e termina na capacidade de seu autoconhecimento e de relacionamento. Isso vale para o Sujeito e para o Outro. A delicadeza é para as duas mãos do “Amar o Próximo como a Si mesmo”.
Não é comum, entretanto, nem gostar de si nem muito menos olhar no espelho e encontrar alguém com quem se queira alguma proximidade. Olhamos os sinais da idade e do tempo avançando, os quilos ganhos nas férias e depois de mais alguns anos tememos o que se vai encontrar no espelho. Compaixão e delicadeza não deveriam ser exercícios praticados apenas com o Outro, ou o Necessitado, ou o menos afortunado, como ensinam as vozes carolas e os guias do Politicamente Correto. Delicadeza e compaixão consigo deveria ser a primeira lição de casa. E vem com um pacote de benefícios para o Outro, sobretudo o de deixar de conviver com alguém falsamente bondoso, mas que fica esperando o tempo todo que uma fanfarra de anjos celebre a sua bondade, ou, no caso, a sua falsa bondade.
A tal da autoestima não é mandar beijocas para a sua imagem no espelho, nem se presentear com cervejas e caixas de bombons, nem marcar um jantar em um lugar bacana consigo mesmo. Autoestima é diretamente proporcional à sua Altro Estima, inclusive a capacidade de se tratar a si próprio como outro. E tratar esse outro, que sou eu mesmo, significa ter uma relação de respeito, delicadeza e compaixão atuante sobre a própria vida e o próprio ser. Essa é a condição inicial para podermos exercitar essas mesmas qualidades com os que nos cercam, ou os que estão longe.
A tal da autoestima proposta nos programas de variedades ensinam, de uma forma direta ou indireta, como inflar o próprio ego positiva ou negativamente. Pode parecer estranho, mas qualquer um pode parar e imaginar quantas pessoas conhecemos que glorificam o próprio Ego sendo as piores, mais fracassadas e mais infelizes pessoas do mundo. Socar o próprio peito gritando “mea culpa”, ou mais recente “eu sou uma bosta” produzem o mesmo resultado de gritar a plenos pulmões um “eu me amo”: ficar andando em círculos de afetos condicionais e autorreferentes, em vez de praticar, todo dia, algum tipo de delicadeza com nossos quilinhos a mais, nossa preguiça quase diária ou a ida para a Academia que foi enforcada mais uma semana. Emagrecimento e mudança de hábitos estão sempre condenadas ao fracasso se dependerem apenas da tal “força de vontade”. A força de vontade dura uns cinco dias ou o próximo churrasco, o que vier antes. Mudanças de hábitos alimentares ou de qualquer hábito, sobretudo os maus hábitos, dependem de mudança de consciência, inclusive da consciência do que é amar, o que é comer e que tipo de exercício queremos, ou não, fazer, física e mentalmente.
Imagino que seja isso. Autoestima começa e termina na capacidade de seu autoconhecimento e de relacionamento. Isso vale para o Sujeito e para o Outro. A delicadeza é para as duas mãos do “Amar o Próximo como a Si mesmo”.
domingo, 21 de outubro de 2012
Atenção, Memória e Pão na Chapa
Ontem fiz um pequeno ensaio sobre o a Amnésia dos Garçons, um quadro particularmente dramático quando a minha Média e meu Pão na Chapa estão em jogo. Um comentário anônimo brincou com meu mau humor paulistano e me mandou tomar café da manhã em casa. Lembro de uma entrevista de Chico Buarque em que ele dizia que colocar uma música no disco é como ver um filho cair na vida: ela pode virar tema de comercial de sabão em pó, pode ser mal interpretada, pode virar objeto de culto; não há como saber. Mal comparando, também não pretendo querer dizer como o post deve, ou não, ser lido. Respeito a leitura de cada visitante, pois a postagem é de domínio público na hora que se dá um click para publicá-la. Mas o texto de ontem é humorístico. O uso do palavrão é um recurso humorístico e mostra o cidadão comum perdido na selva das desatenções que vão desde o garçon à mocinha que ligou na veia de uma paciente uma carga de café com leite, levando a vovozinha de oitenta anos à uma morte estúpida e dolorosa. Estamos perdidos numa selva de Atenção difusa e de Amnésias seletivas.
A padoca que eu frequento e tomo café quando vou para o consultório do Itaim tem um fabuloso Pão na Chapa: crocante, cheio de manteiga fresca e não rançosa, dá água na boca só de pensar. A atendente de minha mesa é a Ilza, que tem o mesmo nome de minha mãe. Espero não procurá-la por alguma tensão edípica. Ela já sabe que eu gosto de meu pão na chapa sem prensar. Quando ela falta é que preciso ensinar a sua substituta, que me olha como se eu fosse o mais obsessivo dos fregueses. Dessa cena que eu tirei a cena humorística e pseudo irritada de ontem.
Evolutivamente, precisamos de uma Atenção Multifocal, uma espécie de radar para antenar o ambiente o tempo todo. Ataques de predadores, répteis ou acidentes demandam esse tipo de Atenção desde que descemos das árvores e viramos bípedes. A maturação de nosso Córtex Pré Frontal e sobretudo o milagre evolutivo da Linguagem e da Fala possibilitaram aos hominídeos uma capacidade progressiva de Atenção e Concentração, com grandes vantagens para a aquisição de novas Memórias. Para criar novas memórias, precisamos estar com a atenção focada e de repetição, para fortalecimento das redes neurais que vão formar conceitos, memórias e estratégias adaptativas.
Quando uma auxiliar de enfermagem coloca café com leite ou sopa dentro de um equipo de soro, deve estar com a cabeça no post do Facebook ou na briga que teve com o namorado. Vivemos na barbárie da civilização autoestima, todos estão tão focados nas suas próprias necessidades e demandas, o Outro é apenas um ser que deve suprir as carências e necessidades do ser narcísico que a pósmodernidade nos legou. A Atenção desatenta faz parte desse contexto. Fica engraçado com a garçonete amnésica e trágico com a menina mal treinada e cabeça de vento, que ceifou uma vida.
O que o texto de ontem tenta vincular é a relação íntima e importante entre a capacidade de Atenção/Concentração e a formação de novas memórias. Todas as disciplinas meditativas trabalham na intensificação dessas capacidades e por tabela, na ampliação da Consciência.
Estou aberto para financiadores que queiram pagar um projeto de pesquisa e implantação de programas de Atenção Plena em todos os setores da sociedade. Começando não pelos garçons, mas pelas pessoas que tem a vida do Outro em suas mãos e não estão atentas a isso.
A padoca que eu frequento e tomo café quando vou para o consultório do Itaim tem um fabuloso Pão na Chapa: crocante, cheio de manteiga fresca e não rançosa, dá água na boca só de pensar. A atendente de minha mesa é a Ilza, que tem o mesmo nome de minha mãe. Espero não procurá-la por alguma tensão edípica. Ela já sabe que eu gosto de meu pão na chapa sem prensar. Quando ela falta é que preciso ensinar a sua substituta, que me olha como se eu fosse o mais obsessivo dos fregueses. Dessa cena que eu tirei a cena humorística e pseudo irritada de ontem.
Evolutivamente, precisamos de uma Atenção Multifocal, uma espécie de radar para antenar o ambiente o tempo todo. Ataques de predadores, répteis ou acidentes demandam esse tipo de Atenção desde que descemos das árvores e viramos bípedes. A maturação de nosso Córtex Pré Frontal e sobretudo o milagre evolutivo da Linguagem e da Fala possibilitaram aos hominídeos uma capacidade progressiva de Atenção e Concentração, com grandes vantagens para a aquisição de novas Memórias. Para criar novas memórias, precisamos estar com a atenção focada e de repetição, para fortalecimento das redes neurais que vão formar conceitos, memórias e estratégias adaptativas.
Quando uma auxiliar de enfermagem coloca café com leite ou sopa dentro de um equipo de soro, deve estar com a cabeça no post do Facebook ou na briga que teve com o namorado. Vivemos na barbárie da civilização autoestima, todos estão tão focados nas suas próprias necessidades e demandas, o Outro é apenas um ser que deve suprir as carências e necessidades do ser narcísico que a pósmodernidade nos legou. A Atenção desatenta faz parte desse contexto. Fica engraçado com a garçonete amnésica e trágico com a menina mal treinada e cabeça de vento, que ceifou uma vida.
O que o texto de ontem tenta vincular é a relação íntima e importante entre a capacidade de Atenção/Concentração e a formação de novas memórias. Todas as disciplinas meditativas trabalham na intensificação dessas capacidades e por tabela, na ampliação da Consciência.
Estou aberto para financiadores que queiram pagar um projeto de pesquisa e implantação de programas de Atenção Plena em todos os setores da sociedade. Começando não pelos garçons, mas pelas pessoas que tem a vida do Outro em suas mãos e não estão atentas a isso.
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