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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Segurança e Autoestima

Uma leitora desse blog e Coach aprendiz levantou uma questão: a relação entre Insegurança e Autoestima, sob uma perspectiva psicológica e não de autoajuda. Como não sei indicar nenhum livro ou artigo que fale diretamente sobre isso, então vou tentar fazê-lo nesse post. Não tem tu, vai tu mesmo, ou, no caso, vou eu mesmo.
Parece haver uma relação inversa entre a sensação de segurança e a capacidade de gostar de si mesmo. Mas podemos inverter a situação e olhar o lado escuro da Segurança e da Autoestima. Chego a usar nesse blog a expressão Geração Autoestima para me referir a um tipo específico de pessoa que cresceu com pais e professores muito interessados em sua autoestima e cansaram de ouvir o quanto eram especiais e únicos, mesmo sem nenhuma razão objetiva para se sentirem nem uma coisa, nem outra. Isso gera pessoas que se sentem naturalmente merecedoras de amor, entusiasmo e incentivo, e que ficam muito indignadas quando sua singularidade não é respeitada ou mesmo reconhecida. Do ponto de vista da segurança, são pessoas que aparentam muita confiança em suas infinitas possibilidades, desde que o Papai, ou o Patrão, ou o Estado, forneçam todos os recursos para a sua inata vocação à felicidade. Dar de cara com um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, em que cada um vai ser tratado como uma peça substituível é um choque de realidade que derruba muita gente para sempre. Muitos ficam vagando pelo mundo, esperando que alguém finalmente reconheça a sua capacidade incrível e original (Alguns ficam mandando mensagens ao mundo em seus blogs dominicais). Muitos querem ser ouvidos e pouca gente está disponível para escutar. A Civilização Autoestima criou uma infinidade de mi mi mis a respeito de como o mundo não é como deveria ser e como a culpa é da Globalização ou do Neoliberalismo. Ou da Operação Lavajato.
Freud disse que uma das funções da Psicanálise era de adaptação e instalação da realidade na vida dos pacientes. Talvez por isso não seja muito popular até hoje. Realidade não é um prato que se come quente. Escapar da realidade com sonhos de uma vida incrível talvez seja uma droga pesada da modernidade. Transportar nossos sonhos para o mundo virtual parece mais seguro que pegar condução e aguentar chefes e clientes permanentemente surtados.
Essa é a primeira resposta para a pergunta da querida missivista virtual: a excessiva ênfase na Autoestima e na Segurança tem criado uma multidão de órfãos de reconhecimento e de segurança fornecida pelo suor de outro alguém. Como o tal Outro oferece as duas coisas e não entrega, então temos uma indústria de busca pela sonhada Segurança e a fundamental Autoestima. Interromper essa busca pode mesmo causar o colapso do Capitalismo.
Não podemos controlar o mar, mas podemos pegar um jacaré nas ondas. Segurança e Autoestima são construções diárias, que passam pelos testes mais duros e implacáveis da tal realidade. Tem duas palavras em inglês de difícil tradução: Relatedness e Connectedness, que adoro e se referem à capacidade, ou não, de estabelecer Relações e Conexões com o Eu, o Outro e o Mundo. Segurança é a capacidade de lidar com um mundo inseguro. A segurança é um estado interno, não pode ser fornecido por papais e mamães ou outras figuras substitutas. Autoestima é um derivado da capacidade de estabelecer relações e conexões. Geralmente alguém obcecado pela própria Autoestima é também alguém muito inseguro e que gosta pouco de si e do mundo.
Nesse mundo em que nossos instintos mais baixos são cutucados em todas as mídias, em que medo, insegurança, ódio e separação estão muito em moda e até elegendo Trumps e seus filhotes, criar estima é mais importante que autoestima e adaptação é mais importante que segurança. Para ambas as tarefas, é importante um coaching de capacidades de criar relações e conexões, começando com o nosso próprio mundo interno, que é onde começa tudo. Espero que a Claudia continue mandando perguntas depois desse post.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Dúvida, Insegurança, Hesitação

Há alguns meses atendi uma moça com um quadro de manejo extremamente difícil: após um longo período de Depressão, que chegou a causar a sua demissão, apresentava um quadro de Fobia a praticamente todos os estímulos externos. Tinha medo de sair de casa, medo do tratamento, medo de ler notícias trágicas, portanto tomava distância do noticiário, de revistas e de sua participação no mundo. Óbvio que este medo também se estendia aos medicamentos que poderiam aliviá-lo, com reações extremas a qualquer mudança de dose. Outra característica, talvez a mais sofrida, era a sua incapacidade de tomar as decisões mais simples, ficando sempre presa entre alternativas cuja decisão não tomaria mais de alguns segundos quando ela estava "normal". Após uma desadaptação já esperada aos medicamentos tentados, mesmo com a orientação sobre a natureza traiçoeira de seus sintomas fóbicos, ela acabou desistindo do tratamento. Espero que tenha encontrado alívio em outro serviço, mas não tenho tanta certeza sobre isso. Não é a primeira vez que um tratamento se interrompe assim, embora seja sempre doloroso. A parte mais frustrante é perceber que a doença cria uma espécie de círculo do medo em torno do paciente que, como um bicho ferido, morde a mão de quem tenta se aproximar e ajudar.Em alguns casos, parece que a pessoa fica dependente da angústia e do medo, como alguém que assiste muitos filmes de terror porque "é gostoso ter medo". Existe uma região de nosso Sistema Nervoso implicada em nossa capacidade de tomar iniciativas e explorar o ambiente. Outra região próxima (ambas próximas de estruturas subcorticais chamadas Gânglios da Base) cuida do processamento de informações menos importantes, funcionando como um radar para situações não usuais. É como um sistema de alarme. Muitas situações em nossa vida deixam esse sistema de alarme em atividade excessiva, gerando uma dificuldade de diferenciar situações de perigo real e imaginário. Quando esse sistema se desbalança, temos pessoas permanentemente assustadas, angustiadas, esperando que algo de ruim aconteça imediatamente. Como a minha ex paciente, não se consegue mais distinguir a mão que afaga da que fere e sai furtiva, como dizia Frejat. O trabalho de recuperação desses microtraumas e medos reverberantes passa por medicamentos, sim, e com a conquista da participação do paciente para dia após dia recuperar a sua confiança em si e na vida. Isso passa, sempre, pelo enfrentamento desses medos e dessa falta de confiança. Esse pedaço, obviamente, não é fácil. Muitas vezes, portanto, as dúvidas insolúveis, a insegurança paralisante e a hesitação para tomar as menores decisões são sinais de esgotamento e desbalanço dessas regiões do Cérebro e tem tratamento, embora muitas vezes longos e com resultados iniciais desanimadores. Cabe ao médico orientar bem o paciente nessa jornada, para que o mesmo não sucumba ao desânimo. Assim podemos colher resultados cada vez mais animadores em nossa prática.