Um dos meus consultórios fica numa casa. Um dia desses chamei a paciente para a sua consulta, que seria realizada numa sala no andar de cima da mesma. A sua acompanhante perguntou, mais de uma vez, se a porta da frente estava trancada e disse que temia que a casa fosse invadida. Subi para a consulta com a sensação que estava subindo com a paciente errada.
Muito do que se trata em nossos consultórios tem a ver com essa percepção, muito aguda numa cidade como São Paulo, de que as casas estão prestes a serem invadidas, ou as pessoas estão sempre a um passo de ser atacadas. Muita gente sonha em se aposentar e morar em Miami, ou numa cidade em que se possa andar nas ruas à noite sem esse tipo de medo. A acompanhante já me dava uma dica sobre esse ambiente de prontidão adrenérgica, o que a consulta confirmou que esse estado também havia feito estrago no desenvolvimento da paciente. Isso quer dizer que devemos morar na Paulicéia sem ter que ficar esperto o tempo todo? O que significa esse “ficar esperto”? Significa, como no caso da senhora em minha recepção, um estado de permanente ativação adrenérgica? Coração batendo forte, respiração curta, vigilância aumentada para qualquer ameaça, real ou imaginária. Hipertensão Arterial, Glicose alta, sono perturbado à noite. Um custo alto, com benefício baixo.
Estudos com Ressonância Magnética Funcional mostram que um praticante experiente da Kundhalini Yoga tem uma ativação aumentada de áreas do Hipocampo e da Amígdala à direita. Isso se traduz por uma experiência profunda de paz e relaxamento. Em contraponto aos nossos estados de hiperativação de nosso Sistema Nervoso Simpático, uma ativação compensadora do Parassimpático.
Uma descoberta que eu considero particularmente bacana na Neurociência é a de Neurônios Espelho, ou grupos neurais que disparam em reação ao movimento do outro. Talvez esses neurônios sejam o mecanismo que torna o bocejo, ou a risada, “contagiosos”. Uma região do nosso Cérebro, a Insula, responsável pelo processamento de sentimentos viscerais, é rica nesses neurônios, o que pode estar relacionado com a empatia, ou nossa capacidade de “sentir na pele” o que está acontecendo ou causando sofrimento a um semelhante. Uma das características do que se chama de Psicopatia é justamente a incapacidade de se colocar na pele do outro ou ter empatia com o sofrimento alheio. Não deve ser por uma falta de Neurônios Espelho, mas por uma perda na sensibilidade aos seus disparos.
Não acho que aquela senhora aceitaria a ideia que o seu estado de hipervigilância vai produzir mais estrago do que benefício na sua vida e na de seus entes queridos. Mas estou começando a acreditar, de uma maneira cada vez mais consistente, em uma psicoeducação que inclua o estímulo a uma atitude mais relaxada, serena e afetiva, com relação à vida e ao devir possa realmente economizar muita medicação e muitas noites de insônia para os pacientes e seus entes queridos. O mundo reflete os nossos Neurônios Espelho. Se projetamos a imagem de um mundo selvagem e implacável, é isso que vamos viver o tempo todo. Isso equivale a deixar de viver, esperando o tempo todo pela morte.
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sábado, 31 de maio de 2014
terça-feira, 11 de maio de 2010
Dúvida, Insegurança, Hesitação
Há alguns meses atendi uma moça com um quadro de manejo extremamente difícil: após um longo período de Depressão, que chegou a causar a sua demissão, apresentava um quadro de Fobia a praticamente todos os estímulos externos. Tinha medo de sair de casa, medo do tratamento, medo de ler notícias trágicas, portanto tomava distância do noticiário, de revistas e de sua participação no mundo. Óbvio que este medo também se estendia aos medicamentos que poderiam aliviá-lo, com reações extremas a qualquer mudança de dose. Outra característica, talvez a mais sofrida, era a sua incapacidade de tomar as decisões mais simples, ficando sempre presa entre alternativas cuja decisão não tomaria mais de alguns segundos quando ela estava "normal". Após uma desadaptação já esperada aos medicamentos tentados, mesmo com a orientação sobre a natureza traiçoeira de seus sintomas fóbicos, ela acabou desistindo do tratamento. Espero que tenha encontrado alívio em outro serviço, mas não tenho tanta certeza sobre isso. Não é a primeira vez que um tratamento se interrompe assim, embora seja sempre doloroso. A parte mais frustrante é perceber que a doença cria uma espécie de círculo do medo em torno do paciente que, como um bicho ferido, morde a mão de quem tenta se aproximar e ajudar.Em alguns casos, parece que a pessoa fica dependente da angústia e do medo, como alguém que assiste muitos filmes de terror porque "é gostoso ter medo". Existe uma região de nosso Sistema Nervoso implicada em nossa capacidade de tomar iniciativas e explorar o ambiente. Outra região próxima (ambas próximas de estruturas subcorticais chamadas Gânglios da Base) cuida do processamento de informações menos importantes, funcionando como um radar para situações não usuais. É como um sistema de alarme. Muitas situações em nossa vida deixam esse sistema de alarme em atividade excessiva, gerando uma dificuldade de diferenciar situações de perigo real e imaginário. Quando esse sistema se desbalança, temos pessoas permanentemente assustadas, angustiadas, esperando que algo de ruim aconteça imediatamente. Como a minha ex paciente, não se consegue mais distinguir a mão que afaga da que fere e sai furtiva, como dizia Frejat. O trabalho de recuperação desses microtraumas e medos reverberantes passa por medicamentos, sim, e com a conquista da participação do paciente para dia após dia recuperar a sua confiança em si e na vida. Isso passa, sempre, pelo enfrentamento desses medos e dessa falta de confiança. Esse pedaço, obviamente, não é fácil. Muitas vezes, portanto, as dúvidas insolúveis, a insegurança paralisante e a hesitação para tomar as menores decisões são sinais de esgotamento e desbalanço dessas regiões do Cérebro e tem tratamento, embora muitas vezes longos e com resultados iniciais desanimadores. Cabe ao médico orientar bem o paciente nessa jornada, para que o mesmo não sucumba ao desânimo. Assim podemos colher resultados cada vez mais animadores em nossa prática.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Os Pontos de Vazamento
Há muito tempo que se houve falar de profecias autorrealizáveis, sobretudo as negativas. Lidamos com elas nos consultórios todos os dias: " Não te falei? Os homens não prestam mesmo..."; "Não tem jeito, a vida é uma merda!"; "Para ficar rico, é preciso ser um ladrão". Dia após dia, as circunstãncias parecem sempre comprovar as nossas previsões mais pessimistas. O pior é que o discurso pessimista sempre traz sobre si uma aura de "Realismo". "Veja como sou realista, tudo o que eu falo sempre acontece". Não precisamos de grandes doses de conhecimento da natureza humana para perceber que as pessoas que se refugiam em seus medos tem sempre para conforto de sua covardia o amparo dos fatos. Há um trecho do Velho Testamento que observa que se o homem olhar para o céu, nunca vai plantar. Sempre haverá a ameaça de estiagem, ou de chuva excessiva, ou de pobreza da terra para nos fazer hesitar e esperar mais um pouco, mais um pouco.
Há cerca de duas décadas que a Psiquiatria vem tornando os seus diagnósticos Dimensionais. Isso quer dizer que os trasntornos tem uma continuidade direta com comportamentos normais, representando uma escala de gravidade que vai do traço neurótico à doença psiquiátrica. Todos temos variações de humor, mesmo dentro do mesmo dia e não por isso nos tornamos bipolares. Todos temos dúvidas circulares que vão e voltam dentro de nossas cabeças e não por isso somos obsessivos; entretanto, em vários momentos da vida, ficamos presos em impasses que em muito lembram os fóbicos ou os obsessivos compulsivos. Talvez tenhamos uma subpopulação de genes que determinam a necessidade de ter medo em determinadas situações. O medo é uma característica evolutiva que está diretamente relacionada com a preservação da espécie. O nosso problema é que medo vende jornal, vende revista, um quase atentado amadorístico em New York cancela milhares de viagens, pois todos tem a sensação de que o perigo mora ao lado. O trabalho terapêutico tenta sempre criar rotas alternativas de crenças, para estimular nos pacientes a participação na vida, na experiência de estarmos vivos, que podemos renovar todos os dias. por isso precisamos cuidar de nossos pontos de vazamento, onde a energia para prosseguir vaza, vaza, até cairmos no meio do caminho, quando, necessariamente, precisamos procurar ajuda. Precisamos de softwares de Não Dúvida rodando em nossos Cérebros. como instalá-los? Vamos tentar desvendar esse mistério em nossos próximos capítulos.
Há cerca de duas décadas que a Psiquiatria vem tornando os seus diagnósticos Dimensionais. Isso quer dizer que os trasntornos tem uma continuidade direta com comportamentos normais, representando uma escala de gravidade que vai do traço neurótico à doença psiquiátrica. Todos temos variações de humor, mesmo dentro do mesmo dia e não por isso nos tornamos bipolares. Todos temos dúvidas circulares que vão e voltam dentro de nossas cabeças e não por isso somos obsessivos; entretanto, em vários momentos da vida, ficamos presos em impasses que em muito lembram os fóbicos ou os obsessivos compulsivos. Talvez tenhamos uma subpopulação de genes que determinam a necessidade de ter medo em determinadas situações. O medo é uma característica evolutiva que está diretamente relacionada com a preservação da espécie. O nosso problema é que medo vende jornal, vende revista, um quase atentado amadorístico em New York cancela milhares de viagens, pois todos tem a sensação de que o perigo mora ao lado. O trabalho terapêutico tenta sempre criar rotas alternativas de crenças, para estimular nos pacientes a participação na vida, na experiência de estarmos vivos, que podemos renovar todos os dias. por isso precisamos cuidar de nossos pontos de vazamento, onde a energia para prosseguir vaza, vaza, até cairmos no meio do caminho, quando, necessariamente, precisamos procurar ajuda. Precisamos de softwares de Não Dúvida rodando em nossos Cérebros. como instalá-los? Vamos tentar desvendar esse mistério em nossos próximos capítulos.
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