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domingo, 28 de setembro de 2014

De Dentro Pra Fora, De Fora Pra Dentro

Estava no último Congresso Brasileiro de Psiquiatria, no taxi junto a um colega querido, quando papo vem, papo vai, percebemos que, ele lacaniano, eu junguiano, compartilhávamos a paixão pela Neurociência e pela Mindfulness. Outra amiga perguntou o que era a tal de Mindfulness, o meu amigo e muy amigo passou a pergunta para mim. Eu falei sobre a técnica de Meditação, que privilegia a sensação de hiperpresença e hiperpresente, em contraponto à nossa eterna tendência a viver numa antecipação do Futuro. Para exemplificar, contei para ela de um exercício de workshop, em que a palestrante deu para cada participante uma uva passa, que devíamos mastigar uns cinco minutos, para ver o que acontecia. Impressionante como uma uva passa pode modificar seu gosto, consistência e sensação na medida em a mastigamos sem a intenção de engolí-la. Querendo ou não, esse exercício nos obriga a prestar atenção de maneira plena no gosto e no ato de mastigar, coisa que não fazemos no dia a dia. Ela olhou a gente com aquela cara de ver os efeitos da Andropausa e dois colegas outrora mais científicos. Acabei me despedindo, lembrando a meu colega de não mencionar a Mindfulness na Reunião Clinica. Seria essa forma de Meditação e de Vida algo exótico e pouco científico?
Evidentemente que a Meditação com suas diferentes técnicas e tradições tem sido, cada vez mais estudadas e comprovadas, inclusive em estudos controlados e bem feitos, como benéficas às pessoas que as praticam. Isso já está escrito em vários posts deste blog. Mas não é essa a questão. A questão é: Como treinar este estado de Presença numa época em que tudo nos convida à dispersão? Isso parece mais uma daquelas coisas que a gente precisava fazer, mas nunca fazemos, como diminuir o glúten, viver no Presente ou maneirar a comida nos finais de semana. Todo mundo olha com aquela cara de “É verdade, é uma coisa que eu preciso fazer”. E prosseguimos nossa vida, checando os e-mails e voltando às nossas infinitas preocupações.
Estava assistindo uma aula na Internet em que o Neurocientista afirmava que o Cérebro é uma necessidade evolutiva gerada pelo movimento complexo. Deu como exemplo um bicho marinho que se reproduz enquanto está em movimento, até se fixar em um coral. Quando finalmente encontra a sua boquinha, o bicho digere o seu Cérebro e seu Sistema Nervoso e passa a funcionar como uma planta anencefálica. É como o governo Dilma, podemos exemplificar. O Cérebro se desenvolve com o seu uso, assim como as conexões e redes neurais. Isso quer dizer que a Central Telefônica cresce e se desenvolve na medida em que é alimentada pela fiação. Quanto mais estímulo vem dos fios, maior a capacidade da Central. A recíproca também é verdadeira: se a Central é mais ativa, os fios também funcionam melhor e com mais velocidade. Tem uma música antiga de Valter Franco, que adoro, que dizia: “Viver é afinar o instrumento\ De dentro pra fora, de fora pra dentro\ A toda hora, todo momento \ De dentro pra fora, de fora pra dentro”. Além de poeta, neurocientista. Das Sensações para a Cognição, da Cognição para as Sensações.
Este é o princípio da Midfulness. Não é apenas uma forma de Meditação, ou uma técnica mental. É um exercício constante de sentir cada toque, cada gosto, cada movimento respiratório no sentido de ampliar a capacidade de perceber, antes, e fazer novas conexões, depois. Criar, dessa forma, novos caminhos neuronais, que é uma definição de criatividade.

sábado, 31 de maio de 2014

Espelho do Medo

Um dos meus consultórios fica numa casa. Um dia desses chamei a paciente para a sua consulta, que seria realizada numa sala no andar de cima da mesma. A sua acompanhante perguntou, mais de uma vez, se a porta da frente estava trancada e disse que temia que a casa fosse invadida. Subi para a consulta com a sensação que estava subindo com a paciente errada.
Muito do que se trata em nossos consultórios tem a ver com essa percepção, muito aguda numa cidade como São Paulo, de que as casas estão prestes a serem invadidas, ou as pessoas estão sempre a um passo de ser atacadas. Muita gente sonha em se aposentar e morar em Miami, ou numa cidade em que se possa andar nas ruas à noite sem esse tipo de medo. A acompanhante já me dava uma dica sobre esse ambiente de prontidão adrenérgica, o que a consulta confirmou que esse estado também havia feito estrago no desenvolvimento da paciente. Isso quer dizer que devemos morar na Paulicéia sem ter que ficar esperto o tempo todo? O que significa esse “ficar esperto”? Significa, como no caso da senhora em minha recepção, um estado de permanente ativação adrenérgica? Coração batendo forte, respiração curta, vigilância aumentada para qualquer ameaça, real ou imaginária. Hipertensão Arterial, Glicose alta, sono perturbado à noite. Um custo alto, com benefício baixo.
Estudos com Ressonância Magnética Funcional mostram que um praticante experiente da Kundhalini Yoga tem uma ativação aumentada de áreas do Hipocampo e da Amígdala à direita. Isso se traduz por uma experiência profunda de paz e relaxamento. Em contraponto aos nossos estados de hiperativação de nosso Sistema Nervoso Simpático, uma ativação compensadora do Parassimpático.
Uma descoberta que eu considero particularmente bacana na Neurociência é a de Neurônios Espelho, ou grupos neurais que disparam em reação ao movimento do outro. Talvez esses neurônios sejam o mecanismo que torna o bocejo, ou a risada, “contagiosos”. Uma região do nosso Cérebro, a Insula, responsável pelo processamento de sentimentos viscerais, é rica nesses neurônios, o que pode estar relacionado com a empatia, ou nossa capacidade de “sentir na pele” o que está acontecendo ou causando sofrimento a um semelhante. Uma das características do que se chama de Psicopatia é justamente a incapacidade de se colocar na pele do outro ou ter empatia com o sofrimento alheio. Não deve ser por uma falta de Neurônios Espelho, mas por uma perda na sensibilidade aos seus disparos.
Não acho que aquela senhora aceitaria a ideia que o seu estado de hipervigilância vai produzir mais estrago do que benefício na sua vida e na de seus entes queridos. Mas estou começando a acreditar, de uma maneira cada vez mais consistente, em uma psicoeducação que inclua o estímulo a uma atitude mais relaxada, serena e afetiva, com relação à vida e ao devir possa realmente economizar muita medicação e muitas noites de insônia para os pacientes e seus entes queridos. O mundo reflete os nossos Neurônios Espelho. Se projetamos a imagem de um mundo selvagem e implacável, é isso que vamos viver o tempo todo. Isso equivale a deixar de viver, esperando o tempo todo pela morte.

domingo, 12 de maio de 2013

Agarrar e Repelir

Uma coisa engraçada com o Ego é que passamos metade da vida para ter um e a outra metade para nos livrarmos dele. Sei que a brincadeira é um pouco hermética e psi, mas vou tentar explicar melhor esse ponto. Uma parte importante do trabalho clínico é reparar e fundamentar a nossa Base Egóica. Já falei sobre isso em post recente. A maturidade tem muito a ver com a capacidade de tolerar frustrações, esperar o tempo das coisas, adiar a satisfação imediata de nossos impulsos. Não é um artigo fácil de se vender. Chutar o trinco do galinheiro é bem mais fácil. E voa pena para todos os lados. Passamos a vida toda dando uma polida no Ego, e lá vem aqueles malditos carequinhas budistas, com seus sorrisos de Mona Lisa, dizer que o tal do Ego não existe e é a fonte de todo sofrimento. E o pior, com toda razão. Mas é importante de se lembrar: para relativizar o Ego é preciso ter um Ego.
Estou lendo um livro dessa série de monges carecas mandando a gente esfriar as nossas ânsias. Ele escreveu algo que ajuda um pouco nessa nossa tarefa de fortalecer e relativizar o Ego ao mesmo tempo (Esses caras adoram os paradoxos, a Física Moderna também): uma grande porcentagem de nosso sofrimento deriva dos impulsos de agarrar/reter ou de ter aversão/fugir. Há algum tempo uma cliente antiga me mandou e-mail perguntando se já podia espaçar as consultas, com vistas à sua alta. O primeiro exame do trabalho é, lógico, sobre quais seriam as contraindicações da conduta: os pontos que ainda não estão sedimentados, as conquistas não realizadas, o momento pessoal difícil. Nós terapeutas temos esses instintos de mãe de querer manter os filhotes por perto. Dar alta por e-mail também é algo que arquearia as sobrancelhas de Tio Sigmund. A resposta foi sim, é claro. E por e-mail. As terapias devem ter começo, meio e fim, como todas as relações humanas. Algumas se estendem por mais tempo, mas o trabalho de encerramento é tão importante quanto uma psicoterapia longa e bem cuidada. Mas a vontade de agarrar é grande.
Recentemente a Folha deu destaque para o livro de uma eminente psicanalista (cujo trabalho e trajetória admiro), que escreveu uma carta tão longa ao filho que virou livro. O seu “bebê” tem 30 anos e sussurrou para a repórter que cortou relações com a mãe para ter um pouco de sossego. Ela não para de ligar o dia inteiro. Um “causo” bacana para contar no Dia das Mães (e dos Floristas). Veja que os terapeutas, com décadas de experiência de mandar os seus pacientes abrirem as asas e voarem para longe dos divãs, também tem as mesmas dores de verem os rebentos irem embora, de preferência com boas sementes de amor e de esperança. (As mães e os pais psicanalistas tem o direito a todos os vexames e chantagens com os filhos que analisamos na clínica. E tenho dito).
A outra fonte de sofrimento é a aversão. Esse mesmo carequinha descreveu um aluno de suas aulas de meditação que chegou ao centro em cadeira de rodas, com uma dor importante nos pés. Com o passar das meditações, ele foi trocando a cadeira de rodas pelo andador e pela bengala. A dor continuava forte, o que mudou foi a sua atitude com relação ao sofrimento. Ele parou de amaldiçoar a dor, a velhice, os remédios e a vida. Essa é a questão com relação a aversão e o medo: acabamos atraindo sempre o que tentamos repelir, ou evitar. O melhor é encarar as tarefas que a vida oferece, todo dia, com um sutil sentimento de neutralidade. Falar é fácil, viu, seu monge?

sábado, 4 de maio de 2013

AutoEmbaço

De vez em quando eu me meto a ler os livros hoje um pouco fora de moda de Carlos Castañeda. As suas experiências psíquicas psicodélicas com um feiticeiro e xamã foram uma verdadeira febre nos anos sessenta e setenta, época da geração hippie e da contracultura. Hoje eles não são tão conhecidos e sempre que vou falar sobre algum ensinamento do mago Don Juan para o seu protegido, Carlos, em alguma consulta, tenho que fazer um longo preâmbulo para explicar a sua história. Como estou fazendo agora, aliás. Mas não vou me estender em seus ensinamentos. Vou falar de um conceito apenas. Don Juan tentava ensinar o seu pupilo, um antropólogo argentino radicado nos Estados Unidos e encharcado de nossa cultura materialista, a “Cessar o Diálogo Interior”para entrar em um estado mental apropriado para explorar outras formas de consciência. Gostaria de ver o velho bruxo em nossos consultórios, tentando ensinar as pessoas a diminuir esse verdadeiro palavrório interno que nunca parece cessar.
Estava acompanhando um trabalho que mostra o efeito devastador desse “Self-talk”, que eu traduziria como blábláblá interno que produz sintomas e pior, destrói vidas. É como um livro da autoajuda às avessas. Um livro de autoembaço. Tinha vontade de escrever um livro de autoembaço, que iria se chamar “Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Infelizes”. Difícil seria selecionar apenas sete, mas seria um assunto para discutir com meu editor, preferencialmente quando tiver um. Mas um dos hábitos criadores de infelicidade na certa seria a Automaldição. Querem um exemplo? Fácil. “Estou consciente que nunca vou emagrecer”; “Os homens são todos assim”; “Pobre não tem sorte”; “A culpa é do meu marido”; “Eu nasci para ser sozinha”. A lista é interminável.
O fracasso é um cobertor curto, mas protetor. Se o fracasso puder ser projetado numa causa externa a nossa vida, melhor ainda. Eu chamo de cabides de infelicidade. Maridos e esposas são cabides quase perfeitos. Basta pendurar toda a infelicidade no Outro: “O meu marido me impediu de trabalhar”; “A minha mulher gasta todo o dinheiro no shopping”. Além do diálogo interior obsessivo, temos a recriminação circular do outro ou de nós mesmos como uma modalidade eficaz de se atingir a infelicidade. Não sei por que se consumir tanta literatura, tantas comédias romântica s sobre a busca da felicidade se gastamos tanto tempo e tanto diálogo interior para o aperfeiçoamento da infelicidade.
Uma coisa que é difícil de se ensinar e, sobretudo, de aprender, é que a responsabilidade por nossas escolhas e desencontros é pessoal e intransferível. Henry Ford disse que se você pensa que consegue, ou que não consegue, provavelmente está certo em ambos os casos. Ele nunca escreveu livro de autoajuda.

domingo, 25 de novembro de 2012

Autismo Virtual

Na década de 40 do século passado, um psiquiatra infantil, uma especialidade nascente na época, chamado Kanner, pegou um termo emprestado à Esquizofrenia, o Autismo, para descrever um transtorno extremamente grave em crianças. Ele usou o termo por observar que as crianças com esse quadro viviam em uma espécie de mundo próprio, com pouco ou nenhum contato ou interesse no mundo exterior. Kanner, influenciado pela Psicanálise da época, acabou levantando uma hipótese que fez muito estrago durante décadas: ele imaginou que o Autismo fosse causado por mães muito duras ou indiferentes a seus filhos: as “Mães Geladeira”. Fico imaginando gerações e gerações de mães se torturando por achar que uma doença que hoje é entendida como um transtorno pervasivo e devastador do desenvolvimento fosse causado por alguma falha em seu afeto ou sentimento pelo filho ou filha portadora dessa condição.
Hoje o autismo é um espectro diagnóstico que abrange muitas causas diferentes, mas nenhuma delas deriva de mães pouco calorosas afetivamente. O que Kanner deve ter notado foi a baixa interação entre a mãe e a criança, muitas vezes derivada da dificuldade da própria criança em se interessar afetivamente pelo mundo exterior.
Não sou psiquiatra infantil e pouco atendi ou mesmo diagnostiquei casos de Autismo em minha vida como médico. Tenho uma opinião que a principal dificuldade ou deficiência de uma criança autista seja a de exploração do ambiente. A presença de um comportamento exploratório é nuclear para todo o nosso processo de aprendizagem. Quem já conviveu com bebês já pode ter observado uma cena inusitada, o bebês brincando e contemplando o movimento da própria mão. Pode passar muito tempo explorando a mistura de visão com a sensação de estar mexendo os dedos, que nessa fase estão completamente desacoplados. Para desenvolvermos qualquer capacidade e aprendizado, precisamos explorar, tentar, errar, tentar de novo, até desenvolver esquemas motores, na infância e mentais, quando adultos, para encontrar saídas para problemas e excelência em nossas capacidades. Uma criança que trabalhe para o tráfico em uma favela pode ter uma capacidade superior a de um arquiteto ou motorista de taxi para construir mapas mentais de caminhos e rotas de fuga dentro dos labirintos de barracos. É um conhecimento muito útil para fugir de perseguidores e salvar a própria vida, além de fazer entregas ou dar recados. A criança pode ser semianalfabeta ou não saber nada sobre a Geografia de seu país, mas domina a Geografia do morro como ninguém. O interesse de fazer parte do grupo, ganhar dinheiro e poder dentro da hierarquia social desenvolve essas capacidades até o nível da mestria.
Há um filme de alguns anos atrás da Pixar - “Wall-E”, sobre um robô obsoleto num planeta Terra que virou um depósito de sucata. A Civilização passou a viver em naves estelares, cada pessoa tem o seu computador e passa o tempo todo em jogos e facebooks interplanetários. As pessoas não se interessam mais por nada que não seja a telinha, estão obesas e sedentárias mas, sobretudo, alienadas dos processos da vida.
A ilusão de que tudo está a distância de um clique pode estar tornando as pessoas mais parecidas do que deviam com a humanidade de Wall-E. O estranho é que nunca tivemos tanta ferramentas para ajudar o nosso comportamento exploratório. Podemos usar as mesmas redes para procurarmos informações, empregos, amor incondicional ou a cara metade, mas isso provoca o efeito paradoxal de sedação de nossa capacidade exploratória, numa espécie de autismo virtual.
Os especialistas, consultores e educadores deveriam virar experts no desenvolvimento dessa ferramenta, fundamental para todo o desenvolvimento da raça humana: a curiosidade.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Dieta do Melão e do Abacaxi


Ontem estava na praia, participando de forma involuntária da conversa de algumas tias da barraca ao lado. Não dava para não saber do que falavam, já que o faziam em tom de voz progressivamente alto e exaltado. Não, não estavam brigando. Estavam contando casos de sua vida cotidiana. Soube que uma delas iria ser madrinha de casamento de um sobrinho que a detesta. A noiva, entretanto, a adora. A sua irmã, mãe do rebento, não havia sido comunicada sobre o casamento. A sua irmã, segundo ela, “é uma pessoa horrível”. Não era possível, dada a proximidade das barracas e dificuldade de encontrar outra longe da conversa, deixar de notar a quantidade de cerveja e petiscos que animavam o já animado convescote. Pastéizinhos, sequinhos mas com pouco recheio, segundo uma senhora com formas avantajadas, salgadinhos, lula frita e sorvetinhos. Outra senhora conclamava o grupo a iniciar, na Terça Feira, a dieta do Melão e do Abacaxi. Por que não do Mamão e da Jabuticaba, minha senhora? Uma outra segredava, já depois de algumas latinhas de cerveja, que fora amante do marido por muitos anos e que ainda ficava insegura se ele “iria assumi-la” de verdade. Um velho professor me dizia que não há pior negócio na vida de um homem do que transformar a amante em esposa e a mocinha parecia confirmar a regra. Falava das intimidades do casal em um tom audível em um raio de cinco metros de barracas. Era a mais jovem do grupo e pode-se dizer que a tal insegurança não estava fazendo bem à sua forma, entre alguns pastéis e um pacote de Doritos. Aderiu entusiasticamente à ideia da dieta do Melão e do Abacaxi, antes de pedir mais alguma porção de frituras de praia, naquele óleo de boa aparência.
Eu li com interesse o capítulo sobre autoengano em um livro de Neurociência Cognitiva. Qual seria a circuitaria límbica responsável pela capacidade das pessoas serem completamente sem noção a respeito de seu próprio comportamento? O comportamento alimentar, por exemplo? O capítulo foi uma decepção. Fala do autoengano como uma capacidade quase ilimitada que temos de contar uma historinha para nós mesmos que vai apaziguar, temporariamente, as nossas culpas. Pode-se notar isso com muita clareza na barraca ao lado. A mocinha que conta para si mesmo uma historinha de que, agora que é “a oficial” e não a amante, deve ser amada por seus predicados todos (?) e não só por um rostinho bonito. A outra que enxugou algumas latinhas de cerveja, mas vai começar a dieta após o feriado. Vai enxugar alguns quilinhos com vistas às Festas do final de ano. A sua curva de ganho de peso deve ser progressiva nos últimos anos, mas ela é boa pessoa, ao contrário de sua irmã, que “é horrível”.
O autoengano é um mecanismo baseado me nossa capacidade, dada pelo nosso Córtex Pré Frontal, de traçar e projetar cenários para o futuro, possibilitando ignorar um presente pouco promissor. É como um mecanismo do jogador que já apostou e perdeu tudo, mas continua jogando baseado na visão de que a sorte vai virar e ele sairá da atual situação para a riqueza e o reconhecimento que nunca teve na vida. Ou do desempregado que recusa a proposta de emprego, após meses fora do mercado, porque “agora quer dar um upgrade na carreira e não vai aceitar qualquer coisa”. É fundamental para os mecanismos de autoengano essa capacidade de criar uma narrativa e um cenário para o seu futuro onde tudo vai dar certo.
Quem está lendo esse post poderia argumentar que esse mesmo mecanismo de projetar futuros improváveis e se lançar em jornadas temerárias são a base de todo o progresso humano, de todo ser visionário que acreditou no inacreditável e o fez acontecer, geralmente com muito sacrifício. Pois essa é a diferença fundamental entre o visionário e o autoenganador: o primeiro se lança no futuro que projetou. O último fica esperando o dia em que a sorte vai mudar, ou que a dieta do Melão e do Abacaxi vai funcionar, sem necessidade de mudança de seus hábitos alimentares e padrão de consumo de pastéis de praia.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Vídeogames e o Quarto Cérebro

Os vídeogames e sua metástase temível, os jogos online, colonizaram os corações e mentes das crianças, adolescentes e adultos que passaram por eles. Já não é possível ficar perto deles sem notar algum tipo de conexão, com tablets, smartphones, i-pods e quejandos. Como que essas drogas altamente indutoras de abuso e dependência capturam mais e mais adeptos?
Estava falando no último post do Cérebro de Réptil, o Primeiro Cérebro, que mantém as nossas funções vegetativas, fundamentais para o desenvolvimento e manutenção da vida. Falei também do Segundo Cérebro, também chamado para fins de compreensão de Cérebro Emocional. É um Cérebro visto em Mamíferos ou Paleo Primatas, que coordena as nossas reações de Medo, de Desejo, de busca pela adaptação ao meio ambiente e sobrevivência.
O Terceiro Cérebro, ou, didaticamente, o Cérebro Racional, é bem mais jovem evolutivamente mas permitiu aos hominídeos o domínio desse planeta como raça dominante. As capacidades básicas desse Cérebro, que é o Planejamento das Ações, a Execução, a capacidade de Avaliação dos Resultados e Correção dos Erros não é inédita entre os Primatas, mas estendeu-se ao infinito com a aquisição da Linguagem Falada e Escrita. Não é à toa que os quadros de transtornos de desenvolvimento tem uma evolução dramaticamente melhor ou pior se o paciente desenvolve a capacidade de Linguagem.
Falei no último post sobre Michael Jordan, que de jogador de basquete mediano na escola tornou-se o maior jogador de todos os tempos assim que encasquetou que queria sê-lo. O treino, a repetição e as curvas de aprendizagem progressivas, com uma capacidade de Concentração inacreditável, levaram Michael a um entendimento complexo e uma leitura ampla e instantânea do jogo e da ação do adversário, levando a uma perfomance difícil de repetir. Ele estava usando sem saber o Quarto Cérebro, que talvez faça a integração simultânea de várias camadas e estruturas cerebrais. Passar do Terceiro para o Quarto Cérebro é como passar desse meu notebook para um computador quântico. Estranhamente há pouca gente estudando essa passagem. Ainda pensamos nos gênios como seres estranhos que nascem do nada, como saltos da Natureza que são aleatórios e inexplicáveis, não fruto do trabalho e do suor de pessoas que se apaixonaram pela sua área de atuação e atingiram a completa excelência.
Os videogames e os jogos online estão escravizando nossos jovens com essa paixão em dominar esquemas motores e perceptuais complexos, na tentativa de atingir a excelência e a maior pontuação. Para isso, integram um sistema de recompensa/punição/aprendizagem que tem esse efeito em quem joga. Dominar o repertório de manobras, conhecer os atalhos e os bugs do jogo é a via de comunicação e pertencimento dessa comunidade virtual. Ouço meus filhos gritando nos headsets com colegas australianos, japoneses e europeus em mais um jogo online. A derrota não vai gerar depressão nem luto, mas vai antes, levar a mais excitação e novas tentativas de atingir a excelência no jogo. Está na hora de aprendermos com esses caras.

domingo, 28 de outubro de 2012

Fenômeno

Adoro pescar na TV a cabo uns filmes que sumiram na transição do VHS para o DVD. Um deles, do final da década de 90 é o “Fenômeno”, com John Travolta, que provavelmente foi a origem do apelido do hoje rechonchudo Ronaldo Fenômeno. Para quem na viu, é a história de um mecânico de uma pequena cidade americana da Califórnia que, após um evento estranho, em que ele vê uma luz intensa, passa a desenvolver uma capacidade quase ilimitada de aprendizagem e memória, virando objeto de medo e de especulação dos habitantes, que acham que foi abduzido por aliens, e que pode ser perigoso.
O personagem de Travolta, George Maley, passa a apresentar uma curva de aprendizagem assustadoramente alta, chegando a aprender língua exótica, o Português, em vinte minutos. Os problemas não demoram a aparecer, quando ele começa a ficar acelerado, pensando e tendo novas ideias o tempo todo, gerando novos conhecimentos sobre Agricultura, Sismologia, Energia Solar e qualquer assunto em que se debruçasse. No final do filme, lamento revelar, George é diagnosticado com um Tumor Cerebral, um Astrocitoma que envolveu todo o tecido nervoso e passou a superestimulá-lo. Esse estímulo constante aumenta a sua capacidade de concentração, os pensamentos fluem livremente e a formação de memória foi se tornando cada vez mais rápida e eficiente. Ele fica num estado de excitação que em Psiquiatria é chamado de Mania, um estado de aceleração em que a pessoas fica em estado de Humor expansivo, com uma euforia contagiante em que todas as possibilidades parecem ao alcance da mão. Não há necessidade de comer, nem de dormir, todas as associações de ideias são rápidas e parecem infalíveis. O portador do quadro normalmente sente-se muito bem e tudo parece muito bom, mas na verdade os quadros de mania podem ser catastróficos e difíceis de tratar. Estão geralmente vinculados à Doença Bipolar e devem ser tratados com vigor e por muito tempo. Confesso que sempre me intriguei sobre como poderia desenvolver uma Mania controlável, que não levasse o paciente à insanidade e à depressões graves quando a neurotransmissão entra em exaustão. Alguns mecanismos para essa otimização estão sendo esclarecidos.
Estudos de memória demonstram que o filme não está tão errado, embora não exista um Tumor que hiperestimule o Cérebro dessa forma, aumentando as capacidades de atenção e a retenção de novas aprendizagens. Mas outros estudos demonstram que as pessoas que atingem vários níveis de excelência no que fazem são os que conseguem estabelecer esse looping de retroestimulação e aprendizagem constante. Grandes pianistas, o violoncelista Yo Yo Ma e os gênios da Matemática compartilham desse mecanismo de estímulo constante, levando a níveis cada vez mais assustadores de excelência no que fazem. Isso depende menos da carga genética e mais na capacidade de estabelecer sistemas de aprendizagem e reforço de redes neurais. É como se as conexões neurais ganhasse uma musculatura cada vez mais sólida, na medida em que são mais usados e solicitados. Isso também deve ter um papel importante na origem de alguns quadros demenciais. As demências são muitas vezes desencadeadas pela aposentadoria ou por uma perda importante na vida do paciente. Isso pode gerar um ciclo vicioso de desuso. O Cérebro é um órgão como outro qualquer, precisa de exercícios.
No final do filme, George fica estranhamente grato por haver uma explicação científica para as suas capacidades extraordinárias. Ele aponta para o Neurocirurgião que quer estudar o seu Sistema Nervoso in vivo que todos podem desenvolver essas capacidades, essa é uma capacidade humana desconhecida, mas acessível. Vai demorar algumas centenas de anos, mas estamos a caminho. Muita gente diagnosticada com a Doença Bipolar pode ter, na verdade, um Cérebro que se autoestimula demais. Precisamos de redes neurais que façam isso.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Do Medo e Memória

Não é incomum as pessoas virem a um consultório de Psiquiatria ou qualquer outra especialidade Psi com uma grande tensão e algum azedume. Uma vez a mãe de uma paciente querida, conhecida por seu mau humor, estava na recepção. A paciente veio alegremente apresentar o seu psiquiatra para ela. Essa senhora rosnou para o psiquiatra, no caso, esse que vos tecla, dizendo algo como: “Oi. Eu sou a mãe. A culpada”. Respondi de batepronto: “Culpada, não. Fornecedora”. Até hoje não sei se o seu olhar perplexo significava que ela tentava entender se aquilo era uma brincadeira, o que eu queria dizer com aquilo, se devia ou não me mandar para aquele lugar, etc. O fato é que a filha foi empurrando a senhora para fora do consultório antes que o caldo entornasse. O psiquiatra manteve um sorriso amigável, reforçando a confusão. A senhora irritável não voltou mais à minha recepção. Se estiver lendo esse post, deixe-me esclarecer: foi uma brincadeira. A senhora nem é culpada nem fornecedora. Mas pare de se levar tão a sério. Isso não faz bem para o Fígado.
As mães se queixam que os filhos só lembram das coisas ruins de sua infância. E elas tem razão. Eric Kandel ganhou um Nobel de Medicina pesquisando um molusco gigante, a Aplysia, que aprendia, rapidamente, a encolher a sua cauda se sentisse a mão do pesquisador se aproximar, após tomar alguns pequenos choques durante um tempo. Kandel descobriu muita coisa sobre mecanismos de Memória estudando esses belos moluscos, uma delas o próprio experimento deixa muito claro: uma função óbvia da Memória é aprender e evitar sobre mecanismos de injúria e risco para o ser vivo que tem a obrigação de escanear e aprender sobre tudo o que possa trazer risco à sua vida. Lembramos, sim, melhor das experiências desagradáveis do que das boas. Quanto mais profundos e primitivos são essas memórias de medo, mais isso vai perturbar o funcionamento futuro daquele ser. Uma amiga que trabalha com Proteção de cachorros estava chorando quando um cachorrinho teve que ser sacrificado, depois de ficar amarrado no mato e sob a chuva por cerca de três dias. O medo, muito mais do que a fome e o maus tratos causaram uma lesão definitiva no bichinho. Ele tronou-se agressivo, hiperagitado, destruía tudo o que estivesse na sua frente. Três famílias tentaram adotá-lo, mas foi completamente impossível. O bichinho virou um pequeno sociopata, principalmente por um medo impossível de dominar que ele internalizou.
Com o bicho homem, o medo pode também causar um grande estrago. Qualquer um pode constatá-lo, não precisa ser da área. Saber aprender com ele e transformá-lo é um grande X da questão terapêutica. Talvez seja um dos motivos que os manuais de Neurolinguística não conseguem erradicar do mundo o comportamento irracional, os medos profundos e injustificados que estão plantados em nosso Cérebro Emocional. É por isso que é necessário tempo e habilidade para operar nesse campo minado.

domingo, 3 de junho de 2012

Sobre Aulas e Supositórios

Bem sei que não deve ser fácil ser seguidor desse blog. Não há um tema que o caracterize, mas a superposição de vários temas que se me aparecem no dia a dia de estudos e consultório. Assuntos como futebol, relacionamentos, busca do amor, Neurociência, Psicologia Junguiana, Mitologias e por aí vai. De vez em quando, falo até de Psiquiatria. Não há como criar um público específico, mas dá para observar, agora que eu aprendi, quantas pessoas entraram em cada texto. Ontem, que eu falei de Memória Celular e Cognição do Sistema Imune, devo ter uma meia dúzia de page views. Hoje vamos fazer outra mudança de assunto, embora dentro do mesmo tema, que vou explicar. Os dois posts tem a ver com uma aula de vinte minutos que eu dei para o meu filho, sobre Método de Estudo. É bem difícil dar essa aula para o seu filho, que pode achar que é uma aula com críticas embutidas ou a tentativa do pai psiquiatra de fazer uma lavagem cerebral ou impor as suas verdades. Diante de todos esses perigos, acho que me saí bem, falei por cerca de 25 minutos, rabiscando o que falava num caderno, para alinhavar e frisar o núcleo da comunicação. Foi bem legal, pelo menos para mim. Difícil foi ouvir que as aulas que ele tem na escola não repetem de forma nenhuma a forma de transmissão de conhecimento que foi usada. Eu tenho um amigo que é professor universitário e durante algum tempo foi coordenador de curso. Ele tem um humor com aquela acidez gaúcha deliciosa, e cunhou um termo tão grosso quanto realista: a “Aula–Supositório”, que como o nome sugere, é uma aula em que o professor comprime uma grande quantidade de saber em seus slides e enfia esse conhecimento goela (para sermos delicados) abaixo dos alunos. Como coordenador de curso, ele fez o que pôde e o que não pôde para combater, sem sucesso, a Aula-Supositório. Pois meu filho, com aquela capacidade adolescente de transferir responsabilidades para o professor, descreveu exatamente a Aula-Supositório; uma aula em que o professor soca uma quantidade X de matéria de forma rápida e sem destaques dos pontos principais, comprimidos em uma série de slides e bola pra frente (ou supositório para frente, quer dizer, para trás). As aulas devem ter exposições claras e que vão construindo o saber. Os pontos principais devem ser sublinhados e repetidos. O aluno deve ser mapeado o tempo todo qual é o campo de saber que está sendo abordado e onde o professor quer chegar com aquela exposição. No final, o professor deve seguir a regra dos três, ou seja, resumir os três pontos principais que devam ser base para o estudo e possível aprofundamento dos temas. Sobretudo, há um quantum de conteúdo que o aluno deve levar para casa. Ele não deve nem sair empanturrado, nem oco de conceitos, mas deve acompanhar o encadeamento de idéias como uma história com começo, meio e fim. O relativo anonimato desse blog me garante imunidade. Se esse texto cair nas mãos de alguns professores, diriam que estou ensinando o padre a rezar a missa e que não faço idéia de como é impossível prender a atenção desses "aborrecentes" em tempos de Redes Sociais e Internet em todos os lugares. Ninguém consegue captar mais conteúdo do que um tweet de 140 letras. Posso imaginar. Mas a droga mais utilizada no planeta é a autopiedade. As aulas tem que captar o interesse, depois a Atenção, para depois chegar aos arquivos de Memória. Essa é a tarefa. Está na hora de dedicarmos mais tempo tentando cumprí-la e menos tempo analisando por que não conseguimos fazê-lo.

domingo, 6 de maio de 2012

Religião , Ateísmo, Compaixâo

Eu gosto e compartilho o entusiasmo com a Neurociência Cognitiva. A parte mais engraçada é que quanto mais eles metem o pau no Freud, mais validam os seus insights. Mas isso é assunto para outro post. Como todo ramo novo da Ciência, a Neurociência está um pouco inflada, metendo o bedelho em tudo. Está se achando mesmo. Ontem, no Congresso que já mencionei no post anterior, eles foram cutucar na Religião. Felizmente não havia nenhum terrorista ou fundamentalista presente. Ou, melhor dizendo, havia alguns fundamentalistas, mas da nova religião, o Materialismo Científico.
Renato Flores, pesquisador gaúcho que adoro, antropólogo e neurobiólogo, foi cutucando os males causados pela Religião, um subproduto de nossa cultura e de outras. Com um certo sotaque freudiano (tio Sigmund vive mais no Inconsciente das pessoas do que elas gostam de reconhecer), levantou a hipótese que a crença em divindades começa com a percepção da morte. Já há indícios de cuidados com os mortos e os túmulos em fases muito primitivas do Homo sapiens e seus precursores. A angústia diante da vida e da morte que criou uma Mitologia sobre para onde iria o espírito que se desprendeu do corpo. Deuses com formato mais ou menos humanos seriam a manifestação das incertezas e da necessidade de proteção de todos nós. Foi ficando clara a posição algo irônica do Renato sobre as crenças religiosas. Mas vou abrir um parênteses a respeito disso.
No Congresso de dois anos atráz, Renato Flores contou sobre o seu trabalho junto à prefeitura de Porto Alegre, com crianças e famílias vítimas de violência doméstica, inclusive com arbitragem de perda da guarda parental e Conselho Tutelar. Deve ser um charme ter um Neuroantropólogo chefiando esse grupo. Nessa palestra, Renato contou a história de um grande terapeuta desse núcleo: o cachorrinho meio viralata, meio salsicha, chamado Alegria. O nome é por razões óbvias. Alegria tinha uma particular sensibilidade para se achegar a crianças encolhidas de medo e presidiários violentos que lá passavam por avaliação. Uma grande psiquiatra e terapeuta brasileira, Nise da Silveira, também trabalhou com uma equipe de cachorros terapeutas, com resultados incríveis. Alegria fez festa para assassinos, crianças e mulheres espancadas, sorriu para as dores e as almas despedaçadas. Uma semana antes da apresentação, Alegria foi morto à pauladas em um final de semana, provavelmente por uma retaliação ou ameaça de alguma família em risco de perda de guarda. Quando voltei do congresso e contei a história para meus filhos, foi com lágrimas de esguicho, pela morte desse meu queridíssimo "colega". Aliás, anualmente profissionais de saúde mental são agredidos e eventualmente mortos em sua luta anônima para diminuir o sofrimento humano. Nessa aula de dois anos depois, Renato contou que acrescentou ao seu trabalho um Grupo de acolhimento e proteção de cachorros abandonados. É, sem dúvida, a única forma de se lidar com a violência e a estupidez humana: transformar o ato violento em mais compaixão, em mais cuidado. Que outra homenagem Alegria iria querer?(no momento que escrevo isso, emocionado, minha cachorrinha bebê, Scarlett, começou a lamber a minha mão. Mistérios que a Neurociência não consegue explicar).
O cara deu a aula alfinetando o uso que os grupos fazem da Religião em uma ferramenta de guerra e de intolerância, criando dinâmicas de "Nós" contra "Os Outros". Ou, "O meu Deus é melhor do que o Teu". Ao mesmo tempo, trabalha com os massacrados, os abandonados, os feridos pela vida e pela violência humanas. Como Jesus faria.