Uma coisa engraçada com o Ego é que passamos metade da vida para ter um e a outra metade para nos livrarmos dele. Sei que a brincadeira é um pouco hermética e psi, mas vou tentar explicar melhor esse ponto. Uma parte importante do trabalho clínico é reparar e fundamentar a nossa Base Egóica. Já falei sobre isso em post recente. A maturidade tem muito a ver com a capacidade de tolerar frustrações, esperar o tempo das coisas, adiar a satisfação imediata de nossos impulsos. Não é um artigo fácil de se vender. Chutar o trinco do galinheiro é bem mais fácil. E voa pena para todos os lados. Passamos a vida toda dando uma polida no Ego, e lá vem aqueles malditos carequinhas budistas, com seus sorrisos de Mona Lisa, dizer que o tal do Ego não existe e é a fonte de todo sofrimento. E o pior, com toda razão. Mas é importante de se lembrar: para relativizar o Ego é preciso ter um Ego.
Estou lendo um livro dessa série de monges carecas mandando a gente esfriar as nossas ânsias. Ele escreveu algo que ajuda um pouco nessa nossa tarefa de fortalecer e relativizar o Ego ao mesmo tempo (Esses caras adoram os paradoxos, a Física Moderna também): uma grande porcentagem de nosso sofrimento deriva dos impulsos de agarrar/reter ou de ter aversão/fugir. Há algum tempo uma cliente antiga me mandou e-mail perguntando se já podia espaçar as consultas, com vistas à sua alta. O primeiro exame do trabalho é, lógico, sobre quais seriam as contraindicações da conduta: os pontos que ainda não estão sedimentados, as conquistas não realizadas, o momento pessoal difícil. Nós terapeutas temos esses instintos de mãe de querer manter os filhotes por perto. Dar alta por e-mail também é algo que arquearia as sobrancelhas de Tio Sigmund. A resposta foi sim, é claro. E por e-mail. As terapias devem ter começo, meio e fim, como todas as relações humanas. Algumas se estendem por mais tempo, mas o trabalho de encerramento é tão importante quanto uma psicoterapia longa e bem cuidada. Mas a vontade de agarrar é grande.
Recentemente a Folha deu destaque para o livro de uma eminente psicanalista (cujo trabalho e trajetória admiro), que escreveu uma carta tão longa ao filho que virou livro. O seu “bebê” tem 30 anos e sussurrou para a repórter que cortou relações com a mãe para ter um pouco de sossego. Ela não para de ligar o dia inteiro. Um “causo” bacana para contar no Dia das Mães (e dos Floristas). Veja que os terapeutas, com décadas de experiência de mandar os seus pacientes abrirem as asas e voarem para longe dos divãs, também tem as mesmas dores de verem os rebentos irem embora, de preferência com boas sementes de amor e de esperança. (As mães e os pais psicanalistas tem o direito a todos os vexames e chantagens com os filhos que analisamos na clínica. E tenho dito).
A outra fonte de sofrimento é a aversão. Esse mesmo carequinha descreveu um aluno de suas aulas de meditação que chegou ao centro em cadeira de rodas, com uma dor importante nos pés. Com o passar das meditações, ele foi trocando a cadeira de rodas pelo andador e pela bengala. A dor continuava forte, o que mudou foi a sua atitude com relação ao sofrimento. Ele parou de amaldiçoar a dor, a velhice, os remédios e a vida. Essa é a questão com relação a aversão e o medo: acabamos atraindo sempre o que tentamos repelir, ou evitar. O melhor é encarar as tarefas que a vida oferece, todo dia, com um sutil sentimento de neutralidade. Falar é fácil, viu, seu monge?
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domingo, 12 de maio de 2013
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